sexta-feira, 28 de agosto de 2009



PENA DE MORTE NO BRASIL?



Valter de Oliveira





O artigo abaixo, “a pena de morte em vigor”, publicado pelo “O Estado de São Paulo” no último dia 18, é um triste relato de nossa realidade carcerária e da falta de respeito de autoridades da União e dos Estados pelos mais elementares direitos humanos.

Lembro-me que no ano passado, se não me engano, o presidente Lula, ao fazer um comentário sobre a pressão da sociedade por mais rigor contra os criminosos, alegou que o que o preocupava era facilitar a aquisição de casa para as camadas mais pobres da população. Ele não tinha porque construir cadeias.

Nosso presidente esteve preso por alguns dias. Nem de longe em condições pelas quais passam tantos infelizes prisioneiros. Recebe indenização por isso. Ele e governadores omissos irão indenizar quem vive preso em condições condenadas por nossas leis?

O bem comum, que é o objetivo do Estado, inclui a segurança pública. Esta exige punições justas e proporcionadas aos crimes praticados. E condições para que homens e mulheres que erraram, expiem por seus crimes mas possam se reabilitar. Isso exige mais prisões, penitenciárias, funcionários preparados, justiça eficiente.

O presidente tem a obrigação de construir presídios para crimes federais. Os governadores são responsáveis pela justiça e segurança em seus estados.

País sério é aquele que cria condições para seus cidadãos viver com dignidade. Nossas prisões são fontes de mais injustiça e violência. Todos sabemos disso. Todos sofremos as conseqüências. Só nossas autoridades não querem ver. Até quando?




A PENA DE MORTE EM VIGOR



O Estado de São Paulo, 18 de agosto de 2009




Sabia-se que o sistema carcerário brasileiro é péssimo. Mas não que fosse tão ultrajante à vida e à dignidade humana, como testemunharam os que trabalharam nos mutirões carcerários promovidos pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que no período de um ano libertou 4.781 pessoas indevidamente presas - conforme reportagem publicada sábado pelo Estado. Os exemplos são escabrosos, mas não há como fugir deles, pois só assim se tem a noção real de a que ponto chegou a falência de um sistema, envolvendo muitas instituições públicas.

Em um ano o CNJ examinou 28.052 processos em 13 Estados e terminou por libertar 17,36% do total de presos cuja situação jurídica foi analisada, inclusive 310 menores. Uma parte dos presos já havia cumprido a pena, mas permanecia encarcerada; outra parte tinha direito à progressão da pena e outra parte estava presa sem processo algum, sem acusação, ou esperava há anos um julgamento - uma tragédia surrealista ilustrada pelo desabafo de um presidiário que pediu a um juiz do CNJ: "Doutor, eu tô preso há 2 anos, 7 meses e 1 dia e não fui julgado ainda. Eu acho que tenho o direito de sentar na cadeira do réu."

Mas esse não foi o pior caso. Os juízes do CNJ descobriram um homem encarcerado no Ceará há dez anos, sob acusação de homicídio, mas cujo processo havia, simplesmente, desaparecido. No Espírito Santo descobriram outro que ficou 11 anos preso sem nunca ter sido julgado. E aí vêm exemplos de situações horripilantes de presidiários brasileiros: no Amazonas, um preso paraplégico é deixado no chão deitado, com as nádegas feridas pela falta de movimentos, e quando precisa ir ao banheiro grita para que o carcereiro o leve. Se não chegam a tempo, urina e defeca deitado e continua deitado à espera de alguém para limpá-lo. No Espírito Santo, 256 presos instalaram três andares de rede para ocupar uma cela destinada a apenas 36 pessoas. Alguns passam dias deitados, por não haver espaço para ficarem em pé. No Maranhão estourou uma rebelião tendo por principal reivindicação dos detentos o abastecimento de uma caixa d?água para que voltassem a tomar banho - depois de dias. No centro de custódia para menores no Espírito Santo um dos garotos vomita seguidamente por não suportar o cheiro das fezes que ficam armazenadas no canto do contêiner em que fica preso.

É preciso mais para concluir que a dignidade humana tem sido totalmente destruída em nosso sistema carcerário?

Na Bahia a Defensoria Pública descobriu, no fim de 2008, que a polícia do Estado estava adotando uma prática típica dos tempos da ditadura: a prisão para averiguação de qualquer pessoa suspeita de ter cometido um crime, sem que a polícia comunicasse, como manda a lei, a ocorrência ao Ministério Público, à Defensoria Pública e à Justiça. Em entrevista ao Estado, o magistrado responsável pela coordenação dos mutirões do CNJ, Erivaldo Ribeiro dos Santos, entre outras "surpresas" descobertas destaca o volume das "penas vencidas", que jamais imaginaria tão grande. "A pena vencida é mostra de um descontrole total", diz ele. "É uma falha do sistema de justiça criminal, sistema que é composto pela polícia, pela administração penitenciária, pelas Secretarias da Justiça e da Segurança, pela Defensoria Pública, pela defesa em geral, incluída a OAB, pelo Ministério Público, pelos juízes que atuam nas Varas Criminais. Essas pessoas estão presas pela burocracia do sistema, pela irracionalidade do sistema, que não é inteligente a ponto de indicar ao juiz que tal preso está com a pena vencida ou que tem direito a um benefício."

E o mesmo magistrado sintetiza a tragédia do sistema carcerário: "Algumas de nossas prisões são uma sentença de morte. Ninguém merece ficar um dia ali. Essa forma de encarceramento é uma hipocrisia. Nós, que não aceitamos a tortura, a pena de morte, vemos que algumas de nossas formas de encarceramento são uma tortura, uma pena de morte lenta, gradual e sem morfina. Esses não são mais relatos da academia. São constatações do CNJ."

É de esperar que essas oportuníssimas constatações do Conselho Nacional de Justiça signifiquem, pelo menos, o início de uma conscientização que leve à rápida reversão desse estado de coisas, vergonhoso para qualquer país minimamente civilizado.


terça-feira, 4 de agosto de 2009



NÃO ENGULAMOS NEM DIGIRAMOS!

Ubiratan Jorge Iorio de Souza

04/08/2009


O Brasil e o mundo viram e ouviram, estupefatos, aquela cena de baixaria explícita protagonizada ontem, em plenário, pelos senadores Renan Calheiros e Fernando Collor, em seus
ataques a Pedro Simon, que acabara de reiterar algo que até os paralelepípedos das ruas mais esconsas sabem, ou seja, que o presidente do Senado precisa renunciar, em nome da manutenção de um mínimo de credibilidade institucional. Com efeito, clamam a ética e o patriotismo que Sarney deve abandonar o cargo para, se for o caso, provar a sua alegada inocência. Calheiros – que, como todos devem lembrar-se, foi homem de confiança de Collor nos tempos em que o nosso Indiana Jones ocupou a Presidência da República, para em seguida ser ministro de Fernando Henrique e, mais adiante, migrar para o bloco dos amigos de Lula; Calheiros, que, há alguns meses, foi apeado da presidência do Senado em decorrência de uma série de acusações pesadas -, tentou desqualificar Simon. Este retrucou dizendo-lhe que crescera politicamente em redor de Collor, mas o abandonara na véspera da cassação de seu mandato presidencial. Collor, por sua vez, agora também integrante de uma ala do bloco lulista, sentindo-se “ofendido”, voltou a exibir a arrogância dos tempos da Casa da Dinda, gritando para o senador gaúcho, com os olhos rútilos de outrora: “São palavras que não aceito! Quero que o senhor as engula e as digira como achar que é conveniente! Sei o que o presidente Sarney está passando porque também já passei por isso”.


Pobrezinhos... Ora bolas, não serão Sarney, Calheiros e Collor (como muitos outros políticos) farinha do mesmo saco? Não passaram por “isso” exatamente porque desabaram sobre seus ombros pilhas de acusações de práticas que agridem a ética? Confesso que, olhando na TV a fisionomia enfurecida do ex-caçador de “marajás”, não pude deixar de lembrar-me de quando anunciou, com incrível petulância, um dia depois de tomar posse, em março de 1990, aquele malfadado plano de estabilização que seqüestrou 80% de todos os ativos financeiros (sem atacar a causa da hiperinflação legada pelo próprio Sarney), comandado por aquela senhora que ocupava o ministério da Economia e cuja soberba, também, só encontrava paralelo nas de seu então chefe e em sua própria ignorância em Teoria Econômica.


Entristece a repetição quase diária de cenas como a que acabo de descrever. Mas isto não deve ser motivo de espanto. O que vem acontecendo no Senado, como de resto na Câmara e nos outros poderes e, mais amplamente, em toda a sociedade, nada mais é do que reflexo do ambiente generalizado de relativismo moral que tomou conta não apenas do Brasil, mas do mundo. A raiz de toda essa baixaria, a causa de toda essa nojeira, a origem de toda essa sujeira está no abandono dos valores morais em que sempre se baseou a civilização ocidental, que são os ensinamentos judaico-cristãos. Quando o relativismo moral derruba a fronteira, recebida por Moisés no Sinai e revigorada por Cristo, entre o certo e o errado, a virtude e o vício, o comportamento reto e o desonesto, misturando tudo em um liquidificador, relativizando tudo - com a ajuda da própria mídia - o que esperar?


Mas não devemos e nem podemos desanimar. Cada um de nós deve fazer a parte que nos cabe para resgatar os valores, hoje esquecidos e espezinhados, que nos foram legados por nossos pais e avós. Não engulamos nem digiramos! Façamos a nossa parte. Pelo bem do Brasil. E do mundo.

Assista ao vídeo - 03/08/2009

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Notas:

Ubiratan Jorge Iorio de Souza é Doutor em Economia (EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969). Autor dos livros "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira", "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" e "Macroeconomia e Política Macroeconômica". Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.


Vídeo
YouTube - Canal Universogeral
Renan e Collor discutem com Simon no Senado