terça-feira, 18 de março de 2025

MARXISMO 4. O MATERIALISMO DIALÉTICO

 

Valter de Oliveira

Introdução

Frequentei seis Faculdades. Em nenhuma delas tive uma só aula sobre marxismo.  Tampouco as tive no colegial nas disciplinas de sociologia e filosofia. O que encontrei foram professores que, de um modo ou de outro, propagavam certas ideias de Marx. Já nos livros didáticos o assunto era, em geral, tratado superficialmente. Bem mais tarde encontrei manuais de filosofia nos quais o pensamento de Marx era bem abordado. (1)

O marxismo que conheci na adolescência foi o materialismo histórico com sua severa crítica de rejeição ao capitalismo. Talvez porque seja mais eficaz para manipular e doutrinar alunos. Afinal, grande parte das pessoas se incomoda com as injustiças do mundo e o socialismo é apresentado como uma filosofia e praxis que visa combater os grandes males da sociedade. O que omitem é que ele, quando aplicado, criou males e injustiças ainda maiores com a instauração das revoluções  de Lenin, Mao, Fidel, e tantos outros. .

Hoje começo por explicar o materialismo dialético. O texto é da obra de Jorge Lojácono, "O marxismo". Eu o li em 69 ou 70 . A razão da  escolha é simples: ele apresenta, a meu ver, o pensamento do velho Marx e de Engels de forma bem didática. 

O materialismo dialético implica em adentrarmos o campo da física e da química. Também no da biologia quando se discute a orígem do homem. Lembro que a teoria é do século XIX  e muita coisa foi descoberta pela ciência em quase 200 anos. Por isso mesmo peço aos  amigos que me acompanham, e que conhecem bem essas áreas, que dêem sua contribuição atualizando as explicações da filosofia e da física.

A discussão aqui é para o grande público que se interessa pelo assunto mas não é acadêmica, o que seria só para uma  pequena fração de especialistas. Não é o objetivo do blog que apenas convida os amigos a ter uma noção de temas importantes. Aqui, o que viso, é inicialmente apresentar o pensamento de Marx. Em um segundo momento serão feitas observações e críticas. As de Lojácono e outros pensadores. 

Comecemos pelo texto de Jorge Lojácono.


 "A). O que é o  "materialismo marxista"?

Hegel

1. É o reviramento do idealismo de Hegel:

    a) Hegel: única realidade é a idéia que evolui: também a matéria é um momento dessa evolução. 

    b) Marxismo: única realidade é a matéria que se evolve; também o espírito humano, 'o espírito pensante" é um produto da matéria, aliás, "o fruto mais alto" da evolução material.

2. Ou somos materialistas ou idealistas: . para o marxismo não há outro caminho.

    a) idealista (diz Marx) é quem admite algo que não provenha da matéria. Portanto é idealista não apenas quem reconhece a ideía como única realidade (como Hegel) mas também quem admite a existência de Deus ou duma alma humana que não provenha da matéria e não termine com a matéria. Engels diz: "os filósofos que afirmavam a prioridade do espirito com respeito à natureza e, portanto, admitiam em última análise a criação do mundo... constituiam o campo do idealismo"   

b) O Marxismo acha cômodo afirmar que "a maioria absoluta dos cientistas de todos os tempos foram materialistas, porque admitiram um materialismo espontâneo", mesmo que não se tenham dado conta ou se envergonhassem disso; com efeito não eram idealistas e acreditaram numa natueza que existisse independentemente da consciência. Portanto, teriam sido materialistas nada menos que Newton, Galileu e o cardeal Cusano. (2) 

B) O que é a matéria?

1. Para os materialistas antigos, toda a matéria, isto é, todos os corpos, era constituída por átomos imutáveis e indivisíveis. Assim afirmaram Democrito e Epicuro. 

Marx e Engels dizem que essa doutrina foi uma intuição genial mas que hoje aparece excessivamente simplista. Esse conceito de matéria, com variações notáveis, sobreviveu até ao século XIX (Ruus I, p. 16).

2 No início do século XX as grandes descobertas da física (radioatividade, sub-átomos, divisibilidade do átomo...) fizeram surgir novas teorias cobre a composição da matéria.

3. Em seguida à descoberta do elétron surgiu então o empiro-criticismo de Avenarius e especialmente de Mach. Ele afirmava que "a física moderna refutaria o materialismo". Com efeito, parecia que "toda a massa dos elétrons" e portanto toda a matéria, fosse "inteira e exclusivamente eletrodinâmica". Disseram: "O átomo desmaterializa-se, a matéria desaparece, a eletricidade substitui a matéria"; não existe matéria alguma, a existência dos corpos materia extensa é apenas uma ilusão; existem apenas as nossas "percepções sensíveis" (Lenine, Materialismo e empiro-criticismo).

Lenin
4. Lenine responde distinguindo o conceito científico de matéria do filosófico:

a) A física, progredindo, dir-nos-á sempre coisas novas sobre a composição e as propriedades da matéria. Uma revisão destas teorias científicas não tem nada que seja contrário ao marxismo e "nós não temos nenhuma intenção de nos ocuparmos de teorias particulares da física" (Lenin, ob. cit.).

b) Interessa-nos, apenas o conceito filosófico de matéria (ib). Mesmo que "desapareçam certas propriedades da matéria que antes pareciam absolutas", diz Lenin, o materialismo marxista permanece intacto, porque "a única propriedade da matéria cujo reconhecimento está na base do materialismo filosófico, é a propriedade de ser uma realidade objetiva, de estar fora de nossa consciência (Lenin).

c) Que é portanto a matéria? Lenin define: matéria é "a realidade objetiva existente independentemente da consciência humana e espelhada por ela"; ou mais claramente "a matéria é o que, afindo sobre os órgãos dos nossos sentidos produz a sensação"; pouco importa que seja éter ou elétrons ou radiações ou outra coisa (3).  

C) As propriedades da matéria.

1.  Infinidade na extensão.

Engels
Diz justamente Engels (sobre infinidade e eternidade da matéria ver Engels, Antidüring)  que o espaço não é como que um recipiente imaginário, um vazio contendo os corpos celestes. O espaço é matéria extensa onde se encontram espalhados os corpos celestes. (4). 

Mas ele afirma que este espaço, esta matéria extensa tem dimensões infinitas, que o universo é infinito em extensão. Não existe espaço sem matéria, mas a especialidade da matéria é infinita. Kuusinen explica: os telescópios falam de distâncias estrelares de centenas de milhões de anos-luz, mas nem essas grandezas nos podem dar uma idéia das dimensões do universo; pois trata-se de grandezas finitas, ao passo que o universo é infinito. 



2. Eternidade na duração.

Toda coisa nasce, transforma-se e depois termina; a matéria, pelo contrário, existe eternamente. Assim; a terra formou-se há uns bilhões de anos; faz mais de um bilhão de anos que surgiram as primeiras formas de vida; faz um milhão de anos que surgiram as formas de transição do macaco ao homem; o homem em sua forma atual tem cerca de 70.000 anos; a natureza porém, a matéria, o universo nunca teve princípio e nunca terá fim. A natureza é eterna; ela sempre existiu e existirá eternamente. Lenin, fazendo suas as palavras de J. Dietzgen, diz: "a natureza, em toda sua parte não tem princípio nem fim". A natureza tem a sua causa em si... e não precisa de um criador estranho a ela porque possui aquelas qualidades de infinitude e de eternidade que a teologia atribui erradamente a Deus" (Kuusinen) (5). 

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Por hoje é só. Como costumo brincar aqui em casa é um ótimo tema para um namoro intelectual. De solteiros e casados...

Aproveitem!

No próximo post faremos as críticas. 

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Notas

1. Entre os manuais de filosofia que explicam o marxismo podemos citar os de Marilena Chauí, usados em cursos superiores. Ex: "Introdução à Filosofia", SP, Brasiliense. Outro manual  é "Para filosofar hoje" , de Severo Hryniewcz, RJ, 2001, ediçao do autor. Ambos explicam o materialismo dialético e o histórico. Já Sílvio Gallo, em "Filosofia, Eperíência do Pensamento, S. Paulo, Scipione, 2016, trata apenas do materilismo histórico. É um didático do Ensino Médio. 

2. Na verdade há grandes cientistas que afirmam suas crenças em Deus. Segue uma breve lista a partir do Renascimento: Copérnico, Kepler, Galileu, Descartes, Newton, Boyle, Faraday, Mendel, Madame Curie, Max Planck, Von Braun, Jerome Lejeune.  

3. Valeria a pena uma pesquisa sobre o conceito de matéria na física moderna. 

4. O Anti-Dühring, (1878) é uma resposta ao filósofo alemão Eugen Dühring, que havia produzido a sua própria versão do socialismo. A obra é considerada a contribuição mais importante de Engels para a teoria marxista. 

5. Kuusinen, foi literato, teórico socialista, historiador e político finlandês. Foi o líder da revolução  finlandesa de janeiro de 1918 que criou a breve República Socialista dos Trabalhadores da Finlândia.