quinta-feira, 18 de dezembro de 2008



ENSINO, DOUTRINAÇÃO, MANIPULAÇÃO

Valter de Oliveira


Quando se fala em doutrinação muita gente pensa nos movimentos totalitários, seja o nazi-fascista, seja o socialista marxista. E está correto. Tais movimentos são brutalmente doutrinadores.

Contudo, a doutrinação é um fenômeno muito mais amplo. Nós a encontramos entre totalitários e liberais, nas ditaduras e nas democracias, nos meios laicistas e nas fileiras cristãs. E isso acontece toda vez que se tem uma visão errada do ensino, da educação, e, principalmente, do homem. Em vários momentos de minha vida tive que enfrentá-la. E, para surpresa minha, não só no campo do adversário. O que senti na pele encontrei bem descrito na pena de um escritor francês.

Há muitos anos, quando iniciei meu curso de mestrado na USP encontrei na livraria do prédio de História um pequeno livro, “A Doutrinação”, de Olivier Reboul (1). Gostei tanto que, na semana seguinte, comprei uns dez exemplares e os distribuí entre meus amigos. O artigo de hoje é, simplesmente, cópia de algumas páginas deste livro. O texto dispensa comentários.

Na introdução da obra Olivier Reboul faz as seguintes considerações:

“Interrogarmo-nos sobre a doutrinação é maneira de refletir acerca do ensino. Maneira um pouco perversa, sem dúvida, mas muito eficaz. Pois, se o termo “doutrinar” é pejorativo, é com referência a certo tipo de ensino tido como válido, e cujos critérios permitem, em compensação, definir a doutrinação e condená-la.

É evidente que a maneira pela qual um autor define a doutrinação depende de sua própria doutrina. Adiantemos, pois, desde já, os dois postulados fundamentais de todo este livro.

O primeiro é que um ensino verdadeiro tem por fim, qualquer que seja seu conteúdo, formar seres adultos: seres capazes de assumir sua responsabilidade e manter seu compromisso, pensar por si mesmos, respeitar os fatos, ainda quando vão contra sua vontade, e ouvir os outros, ainda quando os contradigam. Todo ensino que se afasta desse fim me parece contra-ensino.

O segundo é que um ensino verdadeiro não poderia ser neutro. Certamente, não pretendo que o professor tenha o dever, ou mesmo o direito, de fazer propaganda em classe, nem de procurar “converter” seus alunos. Há, porém, algo mais triste que um professor tendencioso: é um professor entediante. O primeiro pode vir a influenciar os alunos, o segundo se arrisca a aborrecê-los, o que é, no final, a pior influência. Eis um postulado que os administradores de todos os países dificilmente admitirão, menos preocupados que estão em ter mestres interessantes que em ter paz. Mas, se devessem um dia voltar à escola, que espécie de mestre desejariam: o tendencioso ou o enfadonho?

Dir-se-á que a questão se apresenta diversamente com crianças, a quem se trata, antes de tudo, de “preservar”. Mas de quê: de doutrinas perigosas ou do direito de ser informado, de refletir, de tornar-se maior?

Meus dois postulados subentendem este livro todo, o qual deverá, em compensação, não somente justificá-los, mas conciliá-los, mostrar que, em realidade, são apenas um. Ou que podemos ser liberais sem ser neutros.” (Introdução, XV, XVI)

Depois de explicar três abordagens do problema (a do sentimento popular que associa doutrinação às suas formas extremas, a literatura filosófica anglo-saxônica, individualista, liberal, positivista, e, finalmente, a filosofia educacional francesa para quem a questão da doutrinação não se apresenta ao nível das relações individuais e, sim, das instituições, Reboul vai fazer sua reflexão acadêmica procurando um caminho diferente dessas duas escolas.

No capítulo primeiro, intitulado “UMA PERVERSÃO DO ENSINO” ele vai procurar distinguir a doutrinação de outras formas de manipulação como a propaganda e o condicionamento. Para isso ele examina casos inegáveis de doutrinação. Cita treze (2).


Mentira, Sinceridade, Má fé

Depois de discutir a questão da intencionalidade da doutrinação Reboul discute a sinceridade do doutrinador.

“Neste caso, mais que de intenção, antes caberia falar de self-deception, da má fé no sentido sartriano. Quando doutrinamos, ignoramos o que fazemos. E a ignorância é, paradoxalmente, voluntária, no sentido em que se diz: “Não quero saber disso!”. Essa ignorância desejada apresenta dois aspectos:

1. O doutrinador está a tal ponto convencido daquilo que prega, que admite certa distorção da verdade para convencer os outros da veracidade de sua causa. Assim, pode esconder certos fatos contrários à sua doutrina por pensar que ela o merece; igualmente, pode defender certos aspectos de sua doutrina que lhe repugnam in petto; assim, esse catequista que ensina o culto dos santos sem crer nele; esse stalinista que, embora chocado pelo culto da personalidade, justifica-o “para não dar o flanco ao adversário”. Em suma, pensamos, (sinceramente) que o fim justifica os meios, que o valor da causa faz, das mentiras que exige, mentiras piedosas. Mentiras pedagógicas!”

2. “No mais das vezes, o doutrinador ignora totalmente que doutrina. É que abafa em si mesmo as objeções antes de abafá-las nos outros; é tanto mais fanático quanto menos seguro do que ensina; se mente, é, em primeiro lugar, a si mesmo. Tal é a má fé: sinceridade adquirida com o enganar-se a si mesmo, com o abafar, em si, o que seria necessário de lucidez e de espírito crítico para mudar de opinião. Mostra que a palavra “sinceridade” não tem o mesmo sentido que a palavra “honestidade”.”


O doutrinador doutrinado

A seguir Reboul explica um pouco mais o que entende por sinceridade do doutrinador. Citemos dois de seus argumentos:

1. Primeiro, o próprio doutrinador é doutrinado. Ao menos, quase sempre. Dir-se-á que esse não é o caso quanto ao inventor de uma doutrina. E, entretanto, esta é, sempre, síntese de elementos preexistentes, inculcados, de uma forma ou de outra, ao doutrinário. Hitler havia bebido seu nacionalismo pan-germanista, seu anti-semitismo, seu culto da força nos meios racistas e chauvinistas de antes de 1914.

2. De outra parte, quando se fala de doutrinação, costuma-se esqec demais a responsabilidade dos que a sofrem. Está, sem dúvida, ausente nas criancinhas. Mas quanto adolescente, quanto adulto continua bem infantil para engolir um pensamento pronto e acabado que os libera da dificuldade de refletir e da angústia de duvidar! Quantos, em qualquer idade, buscam um guia, um chefe, um pai, que os livre do fardo de pensar por si mesmos, de querer por si mesmos, de ser eles mesmos! Muito homem “pede” para ser doutrinado; e a doutrinação vinga tanto pela preguiça e pela covardia de suas vítimas quanto pela má fé de seus autores. O doutrinador mais perigoso é a criança que permanece no homem e, como diz o poeta, impõe a lei ao homem: And thus the child imposes on the man.

Retrato do doutrinado

“Desde que julgamos a doutrinação pelo resultado, podemos terminar por um retrato do doutrinado: o retrato-robô de uma espécie de robô! Reconhecemo-lo, com efeito, por certos traços que permanecem constantes, qualquer que seja a doutrina.

O primeiro é a tendência a mascarar os fatos que o contrariam, e mascará-los aos próprios olhos.

O segundo é o caráter unilateral de seus argumentos; não é homem que pese o pró e o contra; ou tudo é pró, ou tudo é contra.

O terceiro não é a ausência de lógica, mas o caráter sofístico de sua lógica; petições de princípio, raciocínios ilegítimos, equívocos dos termos utilizados, etc.

O quarto é o recurso à retórica, precisamente para mascarar as falhas de sua lógica; a metáfora, o eufemismo, a hipérbole são suas figuras favoritas) (Quanto a mais indicações precisas, permito-me remeter a meu livro Le slogan, “Complexe”, PUF, 1975, cap. II).

O quinto é o aspecto rígido de sua linguagem, o abuso de fórmulas feitas, dos lugares comuns, dos slogans, tidos por evidências; pensa por “pensamentos” de confecção” (Cf. ibid., cap. III).

O sexto, que explica os precedentes, é o receio de duvidar, de “mudar de idéias”, de não ter razão, de não saber: o receio de pensar.

O sétimo, que decorre do precedente, é o ódio de todos que podem perturbar-lhes as certezas, de todos que pensam.

O oitavo é certo maniqueísmo a respeito dos valores, das doutrinas ou dos homens que as encarnam; para ele, tudo quanto não é branco é negro, tudo quanto não é verdadeiro é falso, etc.

O nono é a ausência de auto-crítica, de recuo de si mesmo; pode, sem dúvida, dar prova de espírito crítico muito sutil, sempre, contudo, a respeito do adversário.

O décimo é a confusão constante entre a ordem da força e a ordem da razão, entre a chantagem e o argumento, entre a submissão e a adesão, entre o fato de vencer e o fato de convencer.

O décimo primeiro é certo desprezo do homem; o homem nunca passa, para ele, de um meio de servir à sua causa ou de um obstáculo que ele precisa afastar.

O décimo segundo é a ausência de humor... (p. 83,84)


Na segunda parte de seu livro Olivier Reboul exemplifica com a doutrinação feita na China de Mao, a doutrinação feita por seitas religiosas e, em seguida, analisa a doutrinação hitlerista.

Finalmente é discutida a questão da doutrinação nas sociedades ditas democráticas e alerta-nos para o risco do que muitos entendem por “educação total”.

Quem encontrar o livro leia, vale a pena!


1. REBOUL, Olivier. A Doutrinação. Companhia Editora Nacional/Edusp.São
São Paulo, 1980

Professor da Universidade de Ciências Humanas da Universidade de Estrasburgo – Especialista em Filosofia da Educação.

2. São os seguintes:

01. Ensinar doutrina perniciosa
02. Utilizar o ensino para fazer propaganda partidária
03. Fazer aprender sem compreender aquilo que deveria ser compreendido.
04. Utilizar, para ensinar, o argumento de autoridade.
05. Ensinar com base em preconceitos.
06. Ensinar com base numa doutrina como se fosse a única possível.
07. Ensinar como científico aquilo que não o é.
08. Não ensinar senão os fatos favoráveis à sua doutrina.
09. Falsificar os fatos para apoiar a doutrina.
10. Selecionar arbitrariamente esta ou aquela parte do programa de estudos
11. Exaltar, no ensino, determinado valor em detrimento dos outros.
12. Propagar o ódio por meio do ensino.
13. Impor a crença pela violência.

Mais para frente vamos comentar alguns deles.

2 comentários:

Joao Carlos Rodrigues disse...

Infelizmente isso tudo está acontecendo aqui e agora no Brasil, onde universidades públicas pagas com dinheiro público são utilizadas como aparelhos ideológicos.

Daniellen Leite disse...
Este comentário foi removido pelo autor.