quarta-feira, 3 de dezembro de 2008


MORAL MARXISTA: A TEORIA


Valter de Oliveira


No artigo “Política e Eleições” escrevi que a esquerda se utilizou e se utiliza do discurso ético para manipular a opinião pública e atingir seus objetivos.

Em geral sabemos que os políticos e os partidos, em geral, atuam de forma maquiavélica. O importante é alcançar o poder e permanecer nele.

Em relação à esquerda muita gente esqueceu que eles também são maquiavélicos. E, ingenuamente, acreditou que eles tinham um verdadeiro discurso ético. Poucos leram sobre a ética ou a moral pregada pelos partidos de esquerda e pelo marxismo.

Na ocasião comentei que se quisermos saber o que eles defendem basta consultar o que seus mentores ou inspiradores escrevem.

Nosso objetivo hoje é simples: mostrar a visão marxista de moral. Para isso, inicialmente, vamos explicar um dos pontos importantes do materialismo histórico de Marx: a afirmação que a infra-estrutura determina a supra-estrutura.

E o que é a infra-estrutura?

É a base econômica da sociedade, ou seja, as forças produtivas (instrumentos, experiências e hábitos de trabalho), mais as relações de produção (as relações instaladas entre os homens, como, por exemplo, o escravismo ou o trabalho assalariado).

E a supra-estrutura?

Conforme Marx ela é formada por todas as ideologias, ou seja, as opiniões políticas, jurídicas, religiosas e artísticas de uma época mais todas as instituições correspondentes: as leis, os partidos, o Estado, a Arte, a Igreja.

O autor do manifesto comunista afirma que as supra-estruturas correspondem à base social que as produziram e são seu reflexo e expressão. Assim, as idéias de lei natural (que nós defendemos), moral, direito, etc, são supra-estruturas que mudam com o mudar da base econômica e, portanto não tem nenhum valor perene. Tudo muda, tudo é relativo.

Na realidade, para Marx as supra-estruturas existentes em uma época determinada correspondem ao pensamento e aos interesses da classe dominante. Por isso, em geral, as supra-estruturas são conservadoras.

Nesta lógica a classe opressora cria a sua moral. A que temos hoje seria a moral burguesa, defensora dos interesses da classe dominante. Cabe aos defensores do povo – os socialistas, conforme Marx – desmascarar a ideologia burguesa conscientizando os oprimidos para que lutem contra os exploradores. É a teoria da luta de classes.

É bom observar que, na concepção marxista, o mais importante não são as idéias, e sim as mudanças que ocorrem necessariamente na base econômica. Estas é que vão mover e determinar a evolução da História que caminharia inexoravelmente para o socialismo, o comunismo e a anarquia. O que o homem pode fazer é lutar para acelerar este processo. Esta seria a missão dos revolucionários. Não basta esperar o socialismo que fatalmente virá. “Quem sabe, faz a hora, não espera acontecer”.

Aqui vem a questão crucial. Supondo que este objetivo revolucionário seja realmente um bem para a humanidade, que meios podem ser usados para alcançá-lo?

Diz Marx:

“Os comunistas desdenham a dissimulação de suas idéias e projetos. Declaram abertamente que não podem atingir seus objetivos senão com a destruição pela violência da antiga ordem social. Que as classes dirigentes tremam à idéia de uma revolução comunista! (1)

Manifesto Comunista


Um ano antes, em Miséria da Filosofia, ele escreveu:

“(...) Até lá, à véspera de cada recomposição geral da sociedade, a última palavra será sempre: “o combate ou a morte: a luta sanguinária ou o nada. É assim que a questão é colocada irresistivelmente”. (2).

Lênin vai ser ainda mais explícito. Ele pergunta:

“Existe uma moral comunista?”

“Sem dúvida. Imaginamos frequentemente que não temos nossa moral própria, e a burguesia, nos reprova, muitas vezes, (...) de repudiar toda a moral.

Em que sentido repudiamos a moral?

“No sentido da moral pregada pela burguesia, que a deduz dos mandamentos de Deus. (...) nós rejeitamos toda moral desse tipo. Dizemos que ela não é mais que mentira e engano (...) Nossa moral depende dos interesses da luta da classe operária.”
(3)

Lojacono cita um texto ainda mais claro:

“Moral é o que é útil e serve ao partido comunista. Para fornecer atividade comunista de qualquer forma é preciso estar pronto a qualquer sacrifício, também a usar métodos ilegais e a esconder a verdade” (4) (Lênin, Der Radikalismus)

Creio que é desnecessário dizer que tais idéias “morais” foram responsáveis por todas as barbaridades praticadas por marxistas no transcorrer da História. Atos terroristas, campos de concentração, fuzilamento de antigos companheiros, modificação dos manuais de História, extermínio sistemático de populações inteiras, genocídios na África.

Alguém dirá: Mas isto é passado. É coisa do totalitarismo soviético. Morreu com Lênin e Stalin.

Infelizmente não é assim. Muitos dos grandes criminosos marxistas continuam sendo cultuados. Pior: é este falso conceito de moral que está sendo inoculado em amplos setores da sociedade e na legislação de nosso país. O que estamos tendo é uma verdadeira revolução cultural marxista gramsciana liderada pelo PT.

Em próximo artigo veremos a prática da “moral” marxista. Seja curioso (às vezes é bom) e aguarde...

Notas

1. Manifesto Comunista.

2. Karl Marx, Miséria da Filosofia (1847) in, PIETTRE, André. Marxismo, Zahar, RJ, 1969, pág, 278,

3 Lênin, sobre a religião
Discurso no dia 2 de outubro de 1920, no terceiro congresso da Juventude comunista russa, in Reale, G. Historia da Filosofia 6, São Paulo, Paulus, 2006, p.463.

4. Lênin, Der Radikalismus, in LOJACONO, Jorge, O Marxismo, Paulinas, SP, 1968, pág. 108.

2 comentários:

Roberto Elias Costa disse...

Excelente e muito oportuno esse artigo, Valter! Gostei também da estrutura do blog, ágil e muito claro. Grande abraço, e continue firme. P.S. seu livro da Elaine Sanceau segue esta semana. Um grande abraço.

Fernando disse...

É uma pena que até hoje haja pessoas que sonhem com essa revolução (ingenuidade ou malícia?), mas que como viram sua impossibilidade na prática, porque rejeitada pelos próprios proletários, põem-se a mentir para atingir o mesmo objetivo dos primeiros comunistas: iludir pessoas e usá-las para chegar ao poder. Que todos estejam atentos: o novo campo de luta do comunismo é cultural. Eu já tive uma professora universitária que se definiu como "marxista cultural" quando lhe perguntei no que acreditava (após ela manifestar seu descontentamento com a humanidade). Obrigado por este artigo esclarecedor, professor.