domingo, 26 de abril de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA TERRORISMO. VIOLÊNCIA - 3

 

GUERRA DO IRÃ NA PERSPECTIVA DA MÍDIA CATÓLICA

 


Valter de Oliveira

 

No final do último artigo aqui postado em 17 de abril p.p. prometemos mostrar o que diversos analistas políticos pensam sobre as alegações das partes envolvidas na Guerra do Irã. Melhor dizendo, o que pensam sobre as alegações de Trump e Netaniahu para desencadeá-la. Veremos as motivações da guerra, os objetivos pretendidos, as perspectivas do pós-guerra e o modo como está sendo realizada. Tudo para se tentar chegar à conclusão se os requisitos para que a guerra seja justa estão sendo cumpridos.

1.    Autoridade soberana. Vimos que um primeiro ponto a ser observado é se a guerra é feita por quem tem autoridade. No caso autoridade soberana. Ninguém colocou isso em causa. É óbvio que EUA e Israel são Estados soberanos. O Irã também, pois assim é considerado pela comunidade das nações. É membro da ONU. Não são apenas Estados democráticos, que respeitam direitos humanos, que fazem parte dela. 

2.   A causa justa exige que entendamos as motivações da guerra e os objetivos pretendidos. Causa que pode perder seu valor se o modo como a guerra for realizada deixar de cumprir uma série de pontos. Um deles é a proporcionalidade. Perspectivas do pós guerra devem ser consideradas. Não se podem esquecer os danos causados aos civis e, até mesmo, a males causados  a uma série de países. 

3.    Finalidade reta. Só teremos condições de analisar e concluir se a finalidade foi reta depois da análise concreta do que foi dito acima.Não é tão fácil. 

O que disse a mídia católica?

Em primeiro lugar esclareço que se considera mídia católica toda aquela que se considera como tal. Ela é reflexo do que acontece na Igreja onde há várias correntes. Lembremo-nos que por mais que não gostemos de uma ou outra, todas comparecem a eventos da Igreja. Cardeais de todas elas participam dos sínodos, aconselham os Papas e os escolhem em Conclave.

Aqui vou colocar o resultado de minha pesquisa de dezenas de artigos dessas diversas correntes. Em meus sites e blogs procuro adotar uma postura histórico-jornalística e, portanto, conforme a ética da mídia e da ciência histórica. Mais ainda, procuro atuar tendo como fontes a Doutrina Social da Igreja e o Direito Natural, entendido na linha de S. Tomás de Aquino. É uma postura que exige, também, abertura para que se veja todo o panorama da vida da Igreja e sua atuação no mundo. Enfim, procuro a objetividade, o que não implica em uma falsa neutralidade.

Dito isso passemos a ver o que escreveu a mídia católica sobre a guerra do Irã e, até mesmo, sobre a guerra moderna em si mesma. Veremos o resultado de análises de progressistas e conservadores.  Hoje veremos o que pensam os primeiros.

MIDIA PROGRESSISTA

Pontos comuns entre vários artigos nos órgãos abaixo.

(America Magazine, National Catholic Reporter, Instituto Humanitas Unisinos) (1)

Crítica moral e teológica: a guerra é injusta.

Em primeiro lugar porque lhe falta uma causa legítima, bem como intenção clara e respeito ao princípio da proporcionalidade;

Em segundo lugar enfatizam que guerras preventivas são moralmente problemáticas dentro da tradição católica. No caso concreto os EUA afirmam que era necessário atacar o Irã antes que ele se fortalecesse e produzisse armas nucleares. Ora, isso é contestado. Concluem que não há provas claras disso.

Alguns autores falam explicitamente em “fracasso moral” da intervenção.

Ênfase na diplomacia e no direito internacional

Os articulistas insistem ainda que é primordial negociar até o limite do possível. Se a guerra for iniciada deve-se logo procurar o cessar fogo e atuar de modo que muitas partes sejam ouvidas.

Trump recebe severas críticas porque as ações bélicas estariam sendo realizada sem aprovação do Congresso, respaldo da ONU, nem apoio de aliados. Na verdade, Trump não foi o único. Vários presidentes norte-americanos tomaram a mesma atitude. Há falhas no sistema norte-americano. (2)

Crítica às motivações políticas

Aqui a guerra é descrita como uma “aventura imprudente”, baseada em “justificativas frágeis ou falsas”

Os articulistas também lançam suspeitas sobre as motivações. Fala-se de interesses geopolíticos – sempre existem – ou questionam a influência de aliados. No caso, especialmente Israel. (3). Há artigos que relacionam os interesses de Netaniahu com o chamado sionismo cristão.

Por último destacam o que seria negativo no chamado “personalismo de liderança”. É a crítica não só ao estilo e personalidade de com suas ações imprevisíveis bem como a uma certa visão quase messiânica que ele teria de si mesmo. 

Apelo à memória histórica. O que a história nos ensina sobre intervenções anteriores?

Muitos artigos destacam este ponto. Cita-se o golpe de 1953, com apoio norte americano, que colocou o Xá Reza Pahlevi no poder. Depois, todas as outras guerras promovidas no Oriente Médio. O governo norte-americando teria feito acusações falsas, como as pretensas armas químicas do Iraque. Consideram que foram intervenções que fracassaram no sentido amplo.

Ideia central: as intervenções anteriores geraram mais instabilidade do que solução. 

Por tudo isso nada garante que agora será diferente.


Consequências humanitárias

Aqui entra-se em um ponto que é muito forte na Doutrina Social da Igreja e que tem sido manifestada claramente por papas recentes. Trata-se da preocupação com civis, com a população de um país. Rejeita-se a morte de milhares de inocentes, a destruição de escolas e hospitais, a fome e falta de remédios. Considera-se gravíssimos os deslocamentos forçados de populações inteiras. Como acontece no Líbano. Tal como em Gaza. 

Também se destaca que, por mais que uma guerra seja justa, o mais importante não é a vitória militar, mas sim uma “paz justa” (4)

Responsabilização pós-guerra  

Terminada uma guerra há responsabilizações. Claro que não acontece com todos os que agiram mal. Perdedores certamente são responsabilizados. Nem sempre com justiçã.

No caso da Guerra contra o Irã os que a provocaram injustamente deveriam ser responsabilizados. Como?

Alguns autores defendem:

Reparações internacionais;

Reconstrução do país atingido;

Responsabilização interna, ou seja, O Congresso e a lei dos EUA, bem como o Parlamento israelense deveria processar e punir, respectivamente, Trump e Netaniahu.

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Assustou-se? Possivelmente. Imagino até que queira me perguntar: “Essa mídia católica progressista não leva em conta os erros e crimes do governo do Iran?”

Levam, digo eu. Até bastante. Falam do assunto. Acreditam que também os governos devem estar sujeito a leis. Não se pode agir criminosamente contra bandidos. Mesmo os do crime organizado. Na mesma lógica Estados soberanos precisam atuar conforme a lei internacional e as diretrizes da ONU. 

Um exemplo: ditaduras latino-americanas afirmavam que lutavam contra o comunismo. Podemos acreditar, Mesmo assim isso não lhes dava o direito de torturar e matar quem usou armas para combatê-los.  Um erro não se combate com outro. O fim não justifica os meios. 

Os articulistas, lembremos, julgaram a guerra ao Irã conforme a doutrina católica. O critério dela é  ainda mais severo.

Naturalmente não queremos dizer que a análise deles não tem falhas. Podem ter várias. Estamos apenas sintetizando o que dizem.

Também não devemos cair no erro daqueles que afirmam que se um texto é progressista, ou de esquerda, tudo o que é dito é suspeito, falso ou distorcido. Na verdade, no caso em questão, as análises do progressistas têm vários pontos de afinidade com a mídia conservadora católica. Mais ainda, até com a tradicionalista. Por incrível que pareça.

É o que veremos no próximo artigo. 


Notas:

1.    America Magazine é um importante órgão dos jesuítas dos EUA. Vários de seus artigos são reproduzidos na revista Ihu unisinos, do Brasil. National Catholic Reporter (NCR) é amplamente reconhecido como uma publicação católica liberal ou progressista. Tem foco na justiça social, e defende reformas mais profundas na Igreja. Ihu unisinos é uma revista, um órgão transdisciplinar da  UNISINOS (Universidade jesuítica do RS),  cujo principal objetivo “é apontar novas questões para os grandes desafios de nossa época, a partir do humanismo social”. Muitos de seus artigos propõem profundas reformas na Igreja.

2.     Neste link você encontra um artigo que trata do assunto mais profundamente: 

https://constitutioncenter.org/blog/does-the-president-need-congress-to-approve-military-actions-in-iran

3.       Artigo de protestante batista que critica Trump e o sionismo cristão. Este é considerado por muitos como  fundamentalista. Tal sionismo defende que o Estado de Israel moderno é central para as profecias do Antigo Testamento e do livro do Apocalipse. Muitos consideram que o conflito e a soberania judaica no Levante são como pré-requisitos para a batalha final descrita no Apocalipse, o Armagedom.  No final da série vamos aprofundar o tema.

4.    Podemos citar como exemplo a Primeira Guerra Mundial. Depois dela tivemos o Tratado de Versalhes que impôs terrível punições à Áustria e Alemanha. O Papa Bento XV advertiu. Não foi ouvido. Tivemos uma paz injusta. E o estopim para a Segunda Guerra Mundial. que vai ser muito pior que a Primeira.

Fontes:

1.    America Magazine:”Contra uma guerra injusta e injustificada contra o Irã”. Editorial.

https://www.americamagazine.org/editorials/2026/03/02/trump-war-iran-catholic-unjust/

2.    America. “Resultados da Guerra com o Iran poderão ser piores do que a guerra com o Iraque.

https://www.americamagazine.org/news/2026/03/02/war-iran-catholic/

 

3.    America. A teoria da guerra justa justifica a guerra com o Irã? Debate entre vozes católicas.

https://www.americamagazine.org/politics-society/dispatches/2026/04/02/catholic-just-war-iran-debate-regis/

 

4.    National Catholic Reporter (NCR)

Guerra contra o Irã

https://www.ncronline.org/feature-series/war-iran/stories

 

5.    NCR. Arcebispo Broglio: guerra contra o Iran possivelmente não é justificável conforme o ensinamento católico.

 https://www.ncronline.org/news/archbishop-broglio-war-iran-likely-not-justified-under-catholic-teaching-legitimate-defense

 

 

 

 

 

 

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