sexta-feira, 17 de abril de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA - 2 -

O QUE É UMA GUERRA JUSTA?

Valter de Oliveira

Hoje, neste segundo artigo da série, ainda vamos tratar de conceitos, no caso, os princípios da Doutrina Social da Igreja (DSI) sobre guerra justa. Já tratei do assunto ao publicar artigo de Tom Griffin na Gazeta do Povo (1).

Ele explica que há três princípios elencados por S. Tomás para que uma guerra seja justa.


1. Autoridade soberana;

2. Causa justa;

3. intenção reta.

A Guerra do Irã, conclui Griffin, atende aos três requisitos. Logo, ela seria justa.

Contudo, ele mesmo reconhece que outros pontos elencados pela moral católica tornam mais difícil fazer uma afirmação tão peremptória. É preciso mais análise.  

Ele tem razão. É difícil termos elementos adequados para afirmarmos, com certeza, que uma guerra é justa. Um dos problemas é que são os atores envolvidos que nos passam as informações que precisamos. Esses atores estão mais ligados a visões geopolíticas ligadas a seus interesses. Não me parece que tenham presente a ética católica ao agir. Na verdade, em muitas ocasiões, parece-me que não estão nem mesmo respeitando leis internacionais que eles mesmos elaboraram e prometeram cumprir.

Para ficar mais claro o pensamento da Igreja passo a expor o que disse o Papa Francisco sobre o tema em uma entrevista ao voltar do Cazaquistão. Eu a escolhi porque vi que muitas pessoas que comentam o assunto criticam certos pronunciamentos do Vaticano afirmando que não seriam claros. Pode acontecer? Pode. Papas são seres humanos como todos nós. Podem cometer equívocos. Na história da Igreja vemos até graves erros que alguns praticaram. Mas isso é desviar o assunto. O que nos importa aqui é o que a Igreja sempre ensinou. Aqui, no pronunciamento escolhido, a explicação do Santo Padre prima pela clareza e esclarece de modo perfeito o ensinamento da Igreja sobre a guerra.

Segue o artigo.

O Papa Francisco, as armas, o patriotismo e a guerra justa 

Vanderlei de Lima - publicado em 06/11/22 

A Igreja anuncia e promove a paz. Diz não ao acúmulo de armas, condena, de modo muito especial, as armas de destruição de massa. Entenda:

Rudiger Kronthaler, jornalista alemão, fez ao Papa Francisco, no voo da sua viagem de volta do Casaquistão, em 15/09 último, uma pergunta sobre armas, guerra justa e legítima defesa (cf. Zenit, espanhol, 15/09/2022). Dado serem temas pouco abordados – ou tratados de modo errôneo – à luz da moral católica, dedicamos-lhes o presente artigo.

Indaga o jornalista: “Aprendemos na escola que nunca há de se usar armas, nunca a violência: a única exceção é a autodefesa. Na sua opinião, neste momento a Ucrânia deveria receber armas?”.

O Santo Padre deu-lhe uma longa resposta, mas o trecho principal é, a nosso ver, o que segue:

“Essa é uma decisão política, que pode ser moral, moralmente aceita, se for tomada de acordo com as condições da moral, que são muitas, e aí podemos falar sobre isso. Mas pode ser imoral se for feita com a intenção de causar mais guerras ou de vender armas ou de descartar aquelas que já não preciso mais. A motivação é o que qualifica em grande medida a moralidade desse ato. Defender-se não é apenas lícito, mas também uma expressão de amor à pátria. Quem não se defende, quem não defende algo, não o ama, enquanto aquele que defende, ama. [...] Deveria se refletir mais sobre o conceito de guerra justa”.

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Reflitamos, pois!

O articulista de Aletéia faz, então, uma ótima síntese do pensamento católico

“A Igreja anuncia e promove a paz. Diz não ao acúmulo de armas, condena, de modo muito especial, as armas de destruição de massa, ou seja, as biológicas, químicas e nucleares, o tráfico armamentístico, deplora o uso de crianças e adolescentes como soldados em conflitos armados e o terrorismo. Este, se justificado “em nome de Deus”, torna-se blasfemo (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja n. 508-515, e Catecismo da Igreja Católica n. 2302-2306 e 2313-2317).

Todavia, num mundo que não é o paraíso terrestre, há agressões injustas de nação a nação e isso exige o direito natural, moral e legal à legítima defesa (cf. Gaudium et spes n. 79,4). Daí a razão de cada país ter suas Forças Armadas à serviço da pátria (cf. Gaudium et spes n. 79,5, e Catecismo da Igreja Católica n. 2265). É a guerra justa da qual fala o Papa. Dois grandes doutores da Igreja, Santo Ambrósio de Milão († 397) e Santo Agostinho de Hipona († 430), embora nunca deixassem de exaltar o primado do amor na vida cristã, julgavam admissível que os cristãos ajudassem a defender (ou defendessem) o bem comum, inclusive derramando o próprio sangue em combate. Os dois grandes santos, no entanto, faziam uma importantíssima ressalva: a guerra tem de ser justa. 

São Tomás de Aquino IA

Coube, no entanto, a São Tomás de Aquino († 1274), gênio da Idade Média, elaborar alguns pontos imprescindíveis para que uma guerra fosse considerada justa: Deve ser declarada por uma autoridade legítima que tenha motivos justos para fazer a declaração. Deve recorrer unicamente a meios justos e menos malévolos do que o mal a ser combatido. Deve ter razoável probabilidade de êxito que seja capaz de compensar os sacrifícios empreendidos nas batalhas. Deve poupar, em combate, a vida de inocentes ou de não combatentes. Deve o clero ficar ausente da luta armada (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2309, e Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 500).

O quarto mandamento da Lei de Deus – honrar pai e mãe (cf. Ex 20,12) – trata também do sadio patriotismo ao preceituar o respeito a toda autoridade legítima e a justa colaboração com ela, inclusive na defesa do país. Chama-nos ainda a rezar pelos que exercem autoridade (1Tm 2,2; cf. Catecismo da Igreja Católica n. 2199 e 2238-2240).

Mais: toda pessoa tem o direito (e as legítimas autoridades o dever) de se defender, inclusive com o uso de armas, do injusto agressor. Caso este morra, a culpa por sua morte não recai sobre quem lhe desferiu o golpe fatal, mas sobre o próprio morto que, na condição de agressor injusto, buscou o seu trágico fim neste mundo (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2263-2266, e Evangelium vitae, n. 55).

Eis as reflexões suscitadas pela fala do Santo Padre, o Papa Francisco. Ela desperta alegria aos cidadãos de bem num tempo de glamourização de criminosos de todo tipo!

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Terminamos por aqui. No próximo artigo veremos, em concreto, o que diversos analistas pensam sobre as alegações das partes envolvidas. Veremos as motivações da guerra, os objetivos pretendidos, as perspectivas do pós guerra, o modo como está sendo realizada. Penso que o  amigo leitor pode ter algumas surpresas.


Notas e fontes: 

1. https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/quando-guerra-justa-ofensiva-contra-ira-doutrina-catolica/  - 02.03.2026.

2. https://pt.aleteia.org/2022/11/06/o-papa-francisco-as-armas-o-patriotismo-e-a-guerra-justa/

3Os destaques em negrito são do blog olivereduc 



1.  



quinta-feira, 16 de abril de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA (DSI). POLÍTICA. GUERRA JUSTA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA. - 1 -

 

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA (DSI)

POLÍTICA. GUERRA JUSTA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA – 1 –

Valter de Oliveira

1.   Introdução

 

Iniciamos hoje uma série de artigos expondo a Doutrina Social da Igreja sobre política, guerra, terrorismo e violência. O tema é não só importante, mas necessário. Há muita confusão sobre o assunto. Basta vermos os debates ocorridos a propósito do confronto entre as afirmações do Papa Leão XIV sobre a guerra EUA-Israel contra o Irã e a reação do presidente Donald Trump e seus seguidores.

No debate até católicos mais conhecedores da doutrina da Igreja têm se equivocado. Por várias razões.

Para procurarmos esclarecer melhor as questões julgamos conveniente dar uma síntese do que a Igreja afirma sobre política. Implica em entendermos quem é o homem, a sociedade, o Estado e o papel dos governantes. Também como a Igreja deve se pronunciar e agir diante dos mais variados problemas da sociedade

2.    A política é uma atividade nobre e necessária

Conforme o ensinamento da Igreja Católica a política é uma vocação nobre e um dever para os fiéis, pois ela visa o bem comum e a organização da sociedade sob princípios éticos e morais. É o que veremos com a citação de conceitos encontrados no Catecismo da Igreja Católica (CIC) e no Compêndio da Doutrina Social da Igreja (CDSI).

1. Catecismo da Igreja Católica (CIC)

A política como busca do bem comum: "É necessário que todos participem, segundo a sua posição e o seu papel, na promoção do bem comum. Esta obrigação é inseparável da dignidade da pessoa humana" (CIC 1913-1914).

A nobreza da política: A Igreja reconhece como "justa e louvável a ação daqueles que, dedicando-se ao serviço da nação, assumem o peso do bem de todos e aceitam o encargo de tal trabalho" (CIC 2239). Isso deveria nortear a ação de todo agente político em sua atuação nos três poderes modernos conforme Montesquieu (Executivo, Legislativo, Judiciário). Infelizmente sabemos que muitos, entre nossos dirigentes, estão longe disso. Mal diante do qual não devemos desanimar. Muito pelo contrário.

O dever de participar: "A participação de todos na vida política é um dever cívico e, ao mesmo tempo, um elemento integrante da dignidade da pessoa humana" (CIC 1915).

A função do Estado: A comunidade política tem por finalidade "a busca do bem comum, a qual é a razão de ser da autoridade" (CIC 1905-1906).

Limites da autoridade: "A Igreja, em virtude de sua missão e competência, não se confunde de modo algum com a comunidade política... A Igreja respeita e encoraja a liberdade política e a responsabilidade dos cidadãos" (CIC 2244).

2. Doutrina Social da Igreja (Compêndio)

Política como caridade (Papa Francisco/Magistério): A política é "uma das formas mais elevadas da caridade, porque procura o bem comum" (Princípio amplamente reafirmado, refletido no CDSI 408).

Vocação à justiça: A Doutrina Social da Igreja é uma "verdadeira e própria doutrina que se desenvolveu no século XIX... uma parte integrante do ministério de evangelização da Igreja" para promover a justiça e o bem comum (CDSI 66).

Participação dos leigos: "A iniciativa dos cristãos leigos é particularmente necessária quando se trata de descobrir, de inventar meios para impregnar com as exigências da doutrina e da vida cristã as realidades sociais, políticas e econômicas" (CDSI 547).

Ética na política: "A política é uma gestão da liberdade... Toda democracia deve ser participativa" (CDSI 406).

A família e a política: "A política deve servir à família" e proteger os direitos da família e a dignidade humana, sendo a política a "célula vital da sociedade" (CDSI 252).

Pontos Chave:


Participação:
O cristão não pode ser alheio à política (cidadania ativa).Em concreto não pode cruzar os braços se pode, dentro de suas possibilidades,  fazer o bem ou pelo menos evitar um mal maior.

Bem Comum: O objetivo central da política.

Ética: A lei moral deve nortear as escolhas políticas. Na verdade, nossa liberdade em todas as ações humanas deve ser conforme a lei moral. Para um católico implica em seguir a Lei Eterna, a lei natural e a Lei Revelada. Já um governante, mesmo pagão ou sem fé, não é senhor da lei. Ele também deve ser submetido à lei. No mínimo à lei natural. Concretamente, também ao costume ou à lei positiva (legislada e escrita) que sejam conformes à justiça.

Defesa da Vida: A política deve proteger a dignidade humana do início ao fim natural.

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Aqui estão princípios gerais que devem ser seguidos com fidelidade e amor por todo católico. Acreditamos, firmemente, que podem ser entendidos e até apoiados por toda pessoa que procure a verdade e o bem do ser humano. Afinal eles estão baseados não só no Evangelho mas também em muitos outros valores que foram incorporados durante séculos em nossa cultura e oriundos de vários povos. 

Na sequência veremos como aplicar os princípios acima ao tema da guerra, da violência e do terrorismo bem como deveriam ser as corretas relações entre o Estado e a Igreja. 

Aí procurarei demonstrar porque há tanta confusão sobre o assunto. 


Nota: Imagens IA



domingo, 25 de janeiro de 2026

AUMENTO DO PISO SALARIAL DOS PROFESSORES E IMPOSTO DE RENDA

 Uma questão de ética.


Valter de Oliveira


1. Introdução

Depois de enfrentar dificuldades com o Congresso Nacional Lula conseguiu aprovar seu projeto de corrigir a tabela do Imposto de Renda (I.R.). Um problema: com isso o governo perderia receita. Solução? Cobrar mais dos mais ricos. 

A proposta tinha um lado legítimo: acabar com o congelamento da tabela, pois os mais pobres e a classe média estavam sendo prejudicados. Quanto a isso todos concordaram. Afinal, como é sabido, o congelamento da tabela significava um roubo dos assalariados e pensionistas, que tinham desconto na fonte. Em suma, a correção era e é não só justa, mas também necessária. Aliás, a correção deveria ser automática, anualmente.

 Já em 2018, em plena campanha eleitoral, Bolsonaro defendeu a correção. A Globo informou:

"Bolsonaro defendeu a proposta de seu principal assessor econômico, Paulo Guedes, que isenta do Imposto de Renda quem ganha até cinco salários mínimos. Pela proposta, para quem ganha acima disso, será colocada uma alíquota única de 20%.

"A proposta de Paulo Guedes do Imposto de Renda, eu até falei: "Você está sendo ousado". A proposta dele é a seguinte: quem ganha até cinco salários mínimos não paga imposto de renda. E, dalí para a frente, uma alíquota única de 20%", disse o presidenciável" (1). 

Infelizmente tal reajuste não ocorreu. Pior para todos nós, assalariados e pensionistas. Nosso poder de compra continuou sendo corroído.

O que houve? 

Pandemia? Obstáculos estruturais de nossa economia? Oposição e perseguição feroz que dificultou a  governabilidade? Falhas do próprio governo? Muito foi discutido sobre isso. Talvez tema para outro artigo. 

De qualquer maneira o que importa notar é que Lula, na campanha de 2022 percebeu que a promessa da correção da tabela do I.R. poderia favorecer sua campanha. Venceu. Por muito pouco.

Assumindo a Presidência, Lula procurou efetivar o que prometera. Complicado para ele porque nosso Estado é muito inchado, falta dinheiro para efetivar projetos. Ora, a correção da tabela provocaria uma perda superior a 20 bilhões de reais por ano. Como seu governo não quer cortar despesas a única alternativa seria taxar os mais ricos. 

Depois de acordo com o Congresso a tabela foi corrigida. Tal como prometera: isenção para quem ganha até R$ 5.000,00. O Centrão e até a oposição bolsonarista aprovaram. Mesmo mantendo críticas que já existiam durante o trâmite do projeto. Todos consideraram que não era o ideal, mas já era um bom passo em favor da justiça tributária (2).

Bom lembrar que o marketing de Lula, de olho na eleição de 2026, apresenta a aprovação do projeto como um grande feito pessoal do presidente. É assim que está sendo apresentado e como vai aparecer durante a campanha eleitoral. Afinal, só Lulinha se preocupa com os pobres...

Nada honesto, não é mesmo?

Passemos para outro ponto.

2. O Piso Salarial Nacional dos Professores. 

Cabe ao presidente da República, como estabelece a lei, estabelecer o piso salarial para professores das escolas municipais, estaduais e federais.

Devido aos crescentes gastos do governo, Lula pensou em dar ao professores um reajuste irrisório. A reação foi forte. Teve que retroceder. O que fêz? Editou uma Medida Provisória (MP 1.294/2025) reajustando em 5,4%  o piso salarial do magistério para o ano de 2026. Com a medida o piso passou de R$ 4.867,77 para R$ 5.130, 63.

Aí começou o imbroglio. 

Certos adversários do governo começaram a fazer posts afirmando que o governo petista, ao fazer isso, pouco ou nada ajudava os professores que ganhavam um pouco mais de R$ 5.000,00. O que dera com uma mão, retirava com a outra. Os professores estariam sendo enganados. Iriam pagar mais imposto de renda.

Verdade? 

Desconfiei. Sempre foi dito que o congelamento da tabela do IR era prejudicial a aposentados e pensionistas. Assim, ainda que o reajuste aprovado não tenha coberto tudo o que foi perdido durante vários anos, o reajuste era razoável. Não fosse assim, como disse, não se compreende como até bolsonaristas tenham aprovado a medida.

Fiz várias pesquisas que demonstram que as postagens eram fake. (3) Na verdade, o projeto foi bom para quem ganha até R$ 5.000,00, razoável para quem ganha até 7 mil.  Pouco ou nada vão ganhar os que recebem mais do que isso mensalmente. Por isso a proposta de Bolsonaro era muito melhor pois estabelecia que, em valores atuais, a isençao seria para quem ganha até R$ 7.590,00.

Fica a pergunta? Por que mentir sobre o adversário político?

Certamente porque quem inventa a notícia acredita que sua propagação desgasta o governo. Ora, como o governo é mau, desgastá-lo seria um bem.

Raciocínio de quem não tem nenhum compromisso com a ética. 

A ética verdadeira não permite que se use a mentira para combater quem quer que seja. Quem assim age segue uma "ética" revolucionária pela qual a procura do poder ou sua manutenção é o mais importante. Agir assim é cair no maquiavelismo, no relativismo, ou na ética marxista que considera ético tudo o que favorece a vitória da causa socialista.  

Sei perfeitamente que muita gente boa propagou a notícia. Certamente não perceberam. Viram que a notícia era contra a esquerda que acreditam que deve ser combatida e a compartilharam. Não perceberam que alguém, não inocente, os estava manipulando. 

Quem defende a Doutrina Social da Igreja, como eu, sabe que em nenhuma circunstância devemos fazer uso da ética revolucionária, seja ela maquiavélica, nazista ou marxista. São simplesmente ideologias que se desvinculam da verdade e do bem. 

Nosso compromisso deve ser com  a verdade. 

Sempre!



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Notas:

1. Nota: 1. https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/09/24/bolsonaro-diz-que-se-eleito-nao-havera-espaco-para-indicacoes-politicas-nos-ministerios.ghtml

2. Artigos na Gazeta do Povo descrevem claramente as falhas do projeto apresentado por Lula mas reconheciam a necessidade e justiça do reajuste. Só um exemplo, de março de 2025, quando o projeto de descongelamento ainda não havia sido aprovado:

https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/fernando-jasper/em-alta-dez-anos-imposto-renda-continuara-subindo-excluidos-nova-isencao/

3. Exemplo de desmentido: https://meutudo.com.br/blog/noticias/2026/01/23/fato-ou-fake-imposto-vai-aumentar-para-professores-com-novo-piso-entenda/

O Estadão também desmente os fakes. 





segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

11 DE JANEIRO: A MAMMA E OS PIMPOLHOS

 

Valter de Oliveira


Ontem foi aniversário de minha querida Sonia. Como sempre mais uma ocasião para a reunião da família com todos os filhos que estão por aqui, incluindo Ricardo, que mora há 8 anos no Chile e trabalha no Clube Everton. Faltaram Paulo, que está em Baurú e Marcelo, que trabalha e estuda na Irlanda. Mesmo assim a tecnologia permitiu que, de algum modo, eles participassem. 

Deus tem sido muito generoso com nossa família. Só temos a agradecer. Nossos filhos sempre são muito solícitos e carinhosos. Não só em ocasiões especiais.


A netinha Isabel já pegou o estilo. Fernando ainda está engatinhando mas, com a graça de Deus, também vai dar sua contribuição. 

Algumas pessoas ficam surpresas quando digo que apesar da idade, eles gostam de nos presentear com um convite para um almoço ou jantar, ou até um cinema. Foi sempre assim, não importa a época do ano ou a idade deles. Quando adolescentes ou já adultos.

É verdade que a Mamma Sonia é muito jovial e distribui alegria. Isso explica porque são tão próximos dela.

Fontes bem informadas afirmam que eu também tenho essas qualidades. Misteriosamente, porém, não recebo tantos convites para cinema, chopp ou sorvetes. Mistérios de nosso mundo...ou falta de confiança nas fontes...

Seguem algumas fotos. Da filharada, do genro, incluindo os netos, e eu, é claro!


 Desta vez não cantei para Sonia. Marcelo poderia ficar com inveja.... Para compensar termino com uma música que exprime bem tudo o que sinto.

Grato ao bom Deus por tudo. Grato também a vocês pela amizade. 

Santo e abençoado Novo Ano a todos. 







terça-feira, 23 de setembro de 2025

A ESQUERDA NAS RUAS




Valter de Oliveira



 

A esquerda voltou às ruas. Voltou a ter público. Com muito esforço e com a ajuda dos velhos artistas de esquerda e outros companheiros. Devido a isso houve quem as chamasse de micaretas, um carnaval fora de hora.

Micareta ou não, o que importa, dizem seus líderes, é que a esquerda voltou a ter gente nas ruas e a mídia engajada garante que suas manifestações se equipararam às da direita no 7 de setembro.

Será?

Contra o que protestavam?

Contra a PEC da Imunidade Parlamentar, também conhecida como PEC da Blindagem, e contra a PEC da Anistia, que perdoa os crimes de pessoas condenadas pelo 8 de Janeiro.  

A Gazeta do Povo – que chamou as manifestações de Micareta – destaca a fala de Boulos:  

“Sobre o carro elétrico na Paulista, o principal organizador do evento (...) o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL), discursou contra a anistia, enfatizando a narrativa falsa de que quem defende a democracia é a esquerda”.

A questão aqui é que Boulinhos finge não saber que há vários entendimentos sobre o que é democracia. Países do leste europeu, outrora dominados pelo comunismo eram chamadas de Repúblicas democráticas. Já a democracia liberal, que até certo ponto é o que temos no Brasil e nos EUA, é tida pelos socialistas como “democracia burguesa” que tem que ser combatida e superada pelo avanço dos ideais revolucionários marxistas. Com passagem pela “ditadura do proletariado”,  não é mesmo sr. Boulos?

Também a deputada federal Tábata Amaral – a jovem que nas eleições finge se distanciar da esquerda - discursou dizendo: “De um lado os corruptos e bolsonaristas, do outro o povo brasileiro, que quer a reforma do imposto de renda, quer poder andar em segurança, quer educação de qualidade, e não mais privilégio para corrupto”, disse ela.

É mesmo sra. Tábata?

Eu - e milhões de brasileiros – também somos povo brasileiro. Também defendemos a reforma do imposto de renda, queremos andar em segurança, ter educação de qualidade, sem privilégios para corruptos. E mil outras coisas necessárias para melhorar nosso país. E não somos de esquerda, graças a Deus.

Só umas perguntinhas: no governo atual, que a sra. apoia e louva, não há ninguém que tenha sido condenado por corrupção? Em várias instâncias? E os companheiros do Judiciário? Não têm privilégios absurdos? Algum projeto de lei seu para combatê-los?

Lembremos também que o 'imparcial" STF já escolheu seu lado. Gilmar Mendes não perdeu a oportunidade para afirmar que as manifestações foram: “prova viva da força do povo brasileiro na defesa da democracia”.

Ia comentar a questão da soberania. Fica para outro post.

Termino convidando os amigos a verem, na Gazeta do Povo, a visão do jornal sobre as manifestações.

https://www.gazetadopovo.com.br/sao-paulo/clima-carnaval-esquerda-reune-avenida-paulista-anistia-imunidade-parlamentar/



 


domingo, 21 de setembro de 2025

POLÍTICA NACIONAL E INTERNACIONAL. INCOERÊNCIA E CAOS

 



Valter de Oliveira


A partir de hoje vou usar mais o blog para comentários sobre política nacional e internacional. Não é nem fácil e nem agradável. Não é fácil porque os atores políticos - todos eles, em grau maior ou menor - têm falas e atitudes incoerentes. Isso contribui para que tenhamos a impressão que tudo vai ficando caótico. Desagradável porque, infelizmente, há quem fique incomodado por procurarmos a verdade. Procurá-la implica em saber reconhecer quando nosso lado político está errado e quando nosso adversário político está certo. Nada fácil quando vemos uma opinião pública infantilizada que pensa, erradamente, de modo maniqueista, ou seja, o lado que defendo é bom sempre e o outro é mau, completamente mau. 

Um exemplo: a PEC da blindagem.

Em artigo na Gazeta do Povo do dia 18.09, sob o título "Critério Infalível" (1) Rodrigo Constantino escreveu: 

Tenho, ainda, um critério infalível: quando diante de algo polêmico, procuro ver como a turma que sempre esteve do lado errado está pensando. Ora, eis o pessoal que tem feito um escarcéu diante da PEC, condenando sua aprovação: PT, PSOL, Globo, Renan Calheiros, Caetano Veloso e Anitta. Precisa dizer mais alguma coisa? 

Para justificar que o voto favorável à PEC da blindagem era conveniente ele argumenta: (...) "a impunidade para corruptos já é realidade em nosso país. Enquanto isso, parlamentares mais conservadores são perseguidos por ministros supremos. É isso que a PEC tenta resolver, ainda que de forma imperfeita. Veja o caso do voto em sigilo: em condições normais isso é um erro, pois queremos transparência dos nossos representantes; mas num estado de exceção pode ser a única maneira de proteger o congressista de retaliações supremas!


Não vivemos numa condição normal. Nossas instituições estão esgarçadas. Somente partindo dessa premissa podemos avaliar esta PEC e outras medidas propostas. E quando estiver na dúvida, lembre de verificar como PT e PSOL estão votando, considerando que estiveram do lado errado em todas as questões importantes até hoje..."


Aqui está um claro exemplo de visão maniqueia. O que o inimigo ou adversário faz ou diz é sempre mau. Para fazer o bem, faço o oposto. Ou: posso fazer o errado quando não vivemos "em uma situação normal"... 


Pergunto: Não foi o que a ministra Carmem Lúcia afirmou quando disse que, para combater o bolsonarismo, era possível se fazer uma exceção ao que estabelece a Constituição?


Ao terminar de ler o artigo fui ver o que pensaram dele os leitores da Gazeta, em sua grande maioria conservadores. Infelizmente, a maior parte concordou com Rodrigo Constantino. Mais um sinal da dificuldade em se aceitar os erros dos que, de um modo ou de outro, estão de nosso lado. 


Por outro lado alguns reagiram contra. Firmemente. Eis dois exemplos: 

ANTONIO MARCOS. 18.9. ÀS 16:20.

"Triste Constantino! Isso claramente foi criado para bandidos. Existiam sim outras alternativas. Acabar com o foro privilegiado. Deixar o Supremo apenas para questões relativas à Constituição. A blindagem apenas para opiniões de deputados. Não crimes comuns. Dava sim para fazer um projeto decente. Não passe o pano! Conheço  muitos dos deputados que votaram sim. Possuem empresas que prestam serviços ao Estado e que se beneficiam das verbas do Estado! Triste, mas a corrupção vai voltar a graus nunca visto. A Lava jato nunca teria existido com esta PEC!!!"


TERESINHA 18.09.25. 

"Em outras palavras está dizendo que um erro justifica outro erro. Pobre indefensável. Após a falta de justiça que vem desde 08.01 e tem um ápice com a condenação do Bolsonaro, esperava-se que, finalmente, a oposição desqualificada faria uma autocrítica  e mudaria, ou melhor, se armaria de uma estratégia inteligente. Não. Até hoje caíram em todas as armadilhas da esqueda. Essa é mais uma. E o autor resume a posição da esquerda ao projeto, um sinal que o projeto está certo e que devemos nos basear nisso para saber quando um projeto é bom ou ruim! Qta pobreza sr. Constantino!"


Concluindo:

Pio XI, em 1952, escreveu: "Eis agora a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre bases que não hesitamos em apontar como principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um Direito sem Deus, uma política sem Deus".

Quem se opõe ao projeto revolucionário da esquerda precisa entender que uma política sem ética é também uma política sem Deus. 

Fontes: 

1. https://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/criterio-infalivel-pec-imunidade-blindagem/

2. Pio II. Alocução à União dos Homens da Ação Católica Italiana, de 12.10.1952 - Discorsi e Radiomessaggi", vol. XIV, p. 359. 


segunda-feira, 24 de março de 2025

MARXISMO 5.

 CRÍTICAS AO MATERIALISMO DE MARX

Como vimos no post 4 o marxismo afirma que só existe a matéria, que ela é eterna e infinita.  

A isso responde Jorge Lojácono (1)


Podemos concordar com Lenine acêrca do conceito da matéria (o que é percebível com os sentidos) e da crítica que êle faz do empiro-criticismo (2); entretanto, não podemos absolutamente admitir muitos outros pontos essenciais da doutrina marxista.

A) O materialismo marxista baseia-se sobe um fundamento totalmente arbitrário.

1.  Ele admite unicamente a existência de duas posições possíveis: idealismo e materialismo; refutado portanto o idealismo, julga que, consequentemente, fique provada a legitimidade do materialismo.

2. Em contraste com o excessivo simplismo marxista admitimos uma terceira posição entre idealismo e materialismo; um realismo sadio que reconhece a existência seja da matéria, seja do espírito, sem julgar que um seja um elemento derivado da evolução do outro.

a) O marxismo nunca aduziu argumentos para provar que pode existir exclusivamente a matéria e o que dela deriva. É uma afirmação totalmente gratuita (em seguida falaremos da existência de Deus e da espiritualidade da alma).

b) Se fossem verdadeiras as premissas marxistas, o mesmos cientistas (Newton, Galileu, Cusano e outros) deveriam se considerados por um lado materialistas (porque admitiram a existência do universo material) e pelo outro, idealistas (porque acreditaram em Deus e numa alma humana que não era simples emanação da matéria). A realidade é que eles não foram nem materialistas, nem idealistas, nem agnósticos.

B) É possível um universo eterno?

1. Princípio fundamental para toda ciência experimental e teórica é o "princípio da causalidade". Também Morselli, positivista, afirma: "Um só princípio, único, exclusivo domina e rege todas as ideias que fazemos de nós e do mundo: e este princípio é o princípio de causalidade". 

a) Princípio para nós importantíssimo porque, não podendo conhecer a Deus diretamente em si, o conhecemos exclusivamente através das criaturas, mediante o princípio de causalidade. 

b) Ele pode ser formulado assim: todo ser contingente ( = que não tem em si a razão da sua existência) deve ter uma causa proporcionada que o produziu". É uma aplicação do princípio mais vasto de razão suficiente que diz que todo ser dever ter em si ou em outros a razão da sua existência.

c) Também os marxistas admitem isso.

    1. Diz Engels: "A primeira coisa que impressiona ao consideramos a matéria em movimento é a conexão dos movimentos individuais, o serem eles condicionados recíprocamente" tanto que "para quem nega a causalidade qualqeur lei se torna uma hipótese". Também o fato de os homens cumprirem ações para obter efeitos determinados "demonstra a causalidade" (Dialética da natureza).

    2. Diz Kuusinen: "A relação de causa tem caráter universal, estende-se a todos os fenômenos da natureza e da sociedade... Não há e não pode haver fenômenos sem causa. Todo fenõmeno tem necessariamente uma causa".

2. Aplicando este princípio com rigor lógico, dizemos que a existênca do universo contingente nos obriaga a admitir Deus, causa primeira que tem em si a razão da sua existência.

3. Os marxistas reconhecem a força dos nossos argumentos e respondem: se o universso tivesse começado a existir, seríamos obrigados a admitir a existência dum criador, mas não podemos admitir este Deus, puro espírito existente antes da matéria, portanto, devemos afirmar que o universo nunca começou a existir mas existiu desde sempre. É o que diz também Engels: "Do nada nunca podemos chegar a algo sem um ato criador" (Antidühring). Se admitirmos que o movimento do universo teve início, "é necessãrio que do externo, de fora do mundo, tenha vindo um primeiro impulso que o pôs em movimento. Mas sabemos que o primeiro ipulso é apenas uma expressão para dizer Desu" (ib). Se, como queria Dühring, se admitisse um início, "poderíamos fazer e dizer o que quisermos: sempre voltaríamos .. ao dedo de Deus". 

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No próximo post colocaremos excertos da obra de Lojácono nos quais ele dá argumentos concretos para negar que o universo seja infinito. Também discute se é possível a existência de um universo eterno. 

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Notas.

1. Marxismo, Jorge Lojácono, Paulinas, SP, 1968, p. 15, 16.. 

2. Empirocriticismo é uma teoria filosófica que nega o valor da ciência, baseando-se na ideia de que a experiência é uma soma de impressões subjetivas. Foi desenvolvida pelo filósofo alemão Richard Avenarius (1843-1896).  

PS: Para não ficar muito cansativo começaremos a reduzir as múltiplas explicações sobre o materialismo dialético para entrarmos mais rapidamente no materialismo histórico. Também faremos um espaçamento maior entre um artigo e outro para colocarmos outros assuntos que interessam a nosso amigo leitor. 






 

terça-feira, 18 de março de 2025

MARXISMO 4. O MATERIALISMO DIALÉTICO

 

Valter de Oliveira

Introdução

Frequentei seis Faculdades. Em nenhuma delas tive uma só aula sobre marxismo.  Tampouco as tive no colegial nas disciplinas de sociologia e filosofia. O que encontrei foram professores que, de um modo ou de outro, propagavam certas ideias de Marx. Já nos livros didáticos o assunto era, em geral, tratado superficialmente. Bem mais tarde encontrei manuais de filosofia nos quais o pensamento de Marx era bem abordado. (1)

O marxismo que conheci na adolescência foi o materialismo histórico com sua severa crítica de rejeição ao capitalismo. Talvez porque seja mais eficaz para manipular e doutrinar alunos. Afinal, grande parte das pessoas se incomoda com as injustiças do mundo e o socialismo é apresentado como uma filosofia e praxis que visa combater os grandes males da sociedade. O que omitem é que ele, quando aplicado, criou males e injustiças ainda maiores com a instauração das revoluções  de Lenin, Mao, Fidel, e tantos outros. .

Hoje começo por explicar o materialismo dialético. O texto é da obra de Jorge Lojácono, "O marxismo". Eu o li em 69 ou 70 . A razão da  escolha é simples: ele apresenta, a meu ver, o pensamento do velho Marx e de Engels de forma bem didática. 

O materialismo dialético implica em adentrarmos o campo da física e da química. Também no da biologia quando se discute a orígem do homem. Lembro que a teoria é do século XIX  e muita coisa foi descoberta pela ciência em quase 200 anos. Por isso mesmo peço aos  amigos que me acompanham, e que conhecem bem essas áreas, que dêem sua contribuição atualizando as explicações da filosofia e da física.

A discussão aqui é para o grande público que se interessa pelo assunto mas não é acadêmica, o que seria só para uma  pequena fração de especialistas. Não é o objetivo do blog que apenas convida os amigos a ter uma noção de temas importantes. Aqui, o que viso, é inicialmente apresentar o pensamento de Marx. Em um segundo momento serão feitas observações e críticas. As de Lojácono e outros pensadores. 

Comecemos pelo texto de Jorge Lojácono.


 "A). O que é o  "materialismo marxista"?

Hegel

1. É o reviramento do idealismo de Hegel:

    a) Hegel: única realidade é a idéia que evolui: também a matéria é um momento dessa evolução. 

    b) Marxismo: única realidade é a matéria que se evolve; também o espírito humano, 'o espírito pensante" é um produto da matéria, aliás, "o fruto mais alto" da evolução material.

2. Ou somos materialistas ou idealistas: . para o marxismo não há outro caminho.

    a) idealista (diz Marx) é quem admite algo que não provenha da matéria. Portanto é idealista não apenas quem reconhece a ideía como única realidade (como Hegel) mas também quem admite a existência de Deus ou duma alma humana que não provenha da matéria e não termine com a matéria. Engels diz: "os filósofos que afirmavam a prioridade do espirito com respeito à natureza e, portanto, admitiam em última análise a criação do mundo... constituiam o campo do idealismo"   

b) O Marxismo acha cômodo afirmar que "a maioria absoluta dos cientistas de todos os tempos foram materialistas, porque admitiram um materialismo espontâneo", mesmo que não se tenham dado conta ou se envergonhassem disso; com efeito não eram idealistas e acreditaram numa natueza que existisse independentemente da consciência. Portanto, teriam sido materialistas nada menos que Newton, Galileu e o cardeal Cusano. (2) 

B) O que é a matéria?

1. Para os materialistas antigos, toda a matéria, isto é, todos os corpos, era constituída por átomos imutáveis e indivisíveis. Assim afirmaram Democrito e Epicuro. 

Marx e Engels dizem que essa doutrina foi uma intuição genial mas que hoje aparece excessivamente simplista. Esse conceito de matéria, com variações notáveis, sobreviveu até ao século XIX (Ruus I, p. 16).

2 No início do século XX as grandes descobertas da física (radioatividade, sub-átomos, divisibilidade do átomo...) fizeram surgir novas teorias cobre a composição da matéria.

3. Em seguida à descoberta do elétron surgiu então o empiro-criticismo de Avenarius e especialmente de Mach. Ele afirmava que "a física moderna refutaria o materialismo". Com efeito, parecia que "toda a massa dos elétrons" e portanto toda a matéria, fosse "inteira e exclusivamente eletrodinâmica". Disseram: "O átomo desmaterializa-se, a matéria desaparece, a eletricidade substitui a matéria"; não existe matéria alguma, a existência dos corpos materia extensa é apenas uma ilusão; existem apenas as nossas "percepções sensíveis" (Lenine, Materialismo e empiro-criticismo).

Lenin
4. Lenine responde distinguindo o conceito científico de matéria do filosófico:

a) A física, progredindo, dir-nos-á sempre coisas novas sobre a composição e as propriedades da matéria. Uma revisão destas teorias científicas não tem nada que seja contrário ao marxismo e "nós não temos nenhuma intenção de nos ocuparmos de teorias particulares da física" (Lenin, ob. cit.).

b) Interessa-nos, apenas o conceito filosófico de matéria (ib). Mesmo que "desapareçam certas propriedades da matéria que antes pareciam absolutas", diz Lenin, o materialismo marxista permanece intacto, porque "a única propriedade da matéria cujo reconhecimento está na base do materialismo filosófico, é a propriedade de ser uma realidade objetiva, de estar fora de nossa consciência (Lenin).

c) Que é portanto a matéria? Lenin define: matéria é "a realidade objetiva existente independentemente da consciência humana e espelhada por ela"; ou mais claramente "a matéria é o que, afindo sobre os órgãos dos nossos sentidos produz a sensação"; pouco importa que seja éter ou elétrons ou radiações ou outra coisa (3).  

C) As propriedades da matéria.

1.  Infinidade na extensão.

Engels
Diz justamente Engels (sobre infinidade e eternidade da matéria ver Engels, Antidüring)  que o espaço não é como que um recipiente imaginário, um vazio contendo os corpos celestes. O espaço é matéria extensa onde se encontram espalhados os corpos celestes. (4). 

Mas ele afirma que este espaço, esta matéria extensa tem dimensões infinitas, que o universo é infinito em extensão. Não existe espaço sem matéria, mas a especialidade da matéria é infinita. Kuusinen explica: os telescópios falam de distâncias estrelares de centenas de milhões de anos-luz, mas nem essas grandezas nos podem dar uma idéia das dimensões do universo; pois trata-se de grandezas finitas, ao passo que o universo é infinito. 



2. Eternidade na duração.

Toda coisa nasce, transforma-se e depois termina; a matéria, pelo contrário, existe eternamente. Assim; a terra formou-se há uns bilhões de anos; faz mais de um bilhão de anos que surgiram as primeiras formas de vida; faz um milhão de anos que surgiram as formas de transição do macaco ao homem; o homem em sua forma atual tem cerca de 70.000 anos; a natureza porém, a matéria, o universo nunca teve princípio e nunca terá fim. A natureza é eterna; ela sempre existiu e existirá eternamente. Lenin, fazendo suas as palavras de J. Dietzgen, diz: "a natureza, em toda sua parte não tem princípio nem fim". A natureza tem a sua causa em si... e não precisa de um criador estranho a ela porque possui aquelas qualidades de infinitude e de eternidade que a teologia atribui erradamente a Deus" (Kuusinen) (5). 

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Por hoje é só. Como costumo brincar aqui em casa é um ótimo tema para um namoro intelectual. De solteiros e casados...

Aproveitem!

No próximo post faremos as críticas. 

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Notas

1. Entre os manuais de filosofia que explicam o marxismo podemos citar os de Marilena Chauí, usados em cursos superiores. Ex: "Introdução à Filosofia", SP, Brasiliense. Outro manual  é "Para filosofar hoje" , de Severo Hryniewcz, RJ, 2001, ediçao do autor. Ambos explicam o materialismo dialético e o histórico. Já Sílvio Gallo, em "Filosofia, Eperíência do Pensamento, S. Paulo, Scipione, 2016, trata apenas do materilismo histórico. É um didático do Ensino Médio. 

2. Na verdade há grandes cientistas que afirmam suas crenças em Deus. Segue uma breve lista a partir do Renascimento: Copérnico, Kepler, Galileu, Descartes, Newton, Boyle, Faraday, Mendel, Madame Curie, Max Planck, Von Braun, Jerome Lejeune.  

3. Valeria a pena uma pesquisa sobre o conceito de matéria na física moderna. 

4. O Anti-Dühring, (1878) é uma resposta ao filósofo alemão Eugen Dühring, que havia produzido a sua própria versão do socialismo. A obra é considerada a contribuição mais importante de Engels para a teoria marxista. 

5. Kuusinen, foi literato, teórico socialista, historiador e político finlandês. Foi o líder da revolução  finlandesa de janeiro de 1918 que criou a breve República Socialista dos Trabalhadores da Finlândia.