quinta-feira, 4 de junho de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA. - 6 -

 

Terrorismo ou Lucro? O Narcotráfico Brasileiro na Mira de Washington



Valter de Oliveira


No meu artigo do último dia 1º, mencionei que a recente decisão do presidente Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas me obrigou a antecipar este debate.

Como já vimos, qualquer forma de terrorismo é firmemente condenada pela Doutrina Social da Igreja — mesmo quando, em tese, alega-se uma "justa causa". Foi por essa razão que recordei o histórico pronunciamento do Papa São João Paulo II condenando as ações terroristas do IRA na Irlanda.

A robusta decisão de Trump ecoou imediatamente no Brasil. O presidente Lula reagiu de pronto, alegando que a medida feria a nossa soberania nacional. Uma declaração bem ao seu estilo tradicional, que logo arrancou aplausos e apoios impensados de sua militância. Para chancelar a tese presidencial, parlamentares e intelectuais petistas apressaram-se em evocar análises técnicas.

A grande mídia também entrou no debate trazendo especialistas de lado a lado. Com relativo bom senso, abriu espaço tanto para defensores quanto para críticos da medida de Washington, confrontando diretamente a narrativa do Planalto.

 

A Divergência dos Especialistas e a Retórica do Planalto

 

Do lado crítico à medida, figuram nomes de peso como o promotor do Gaeco, Lincoln Gakiya, e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ambos avaliam que a classificação não é vantajosa para a realidade nacional.

Em entrevista ao Canal Livre, o promotor Gakiya ponderou que "classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas não traria benefícios ao Brasil", alertando ainda que o rótulo "poderia abrir espaço para que os Estados Unidos aplicassem sanções econômicas ao País" (1). Gakiya é um inimigo histórico e declarado do crime organizado, vivendo sob constante ameaça. É um homem de Estado, sério, cuja lucidez merece respeito — o que não impede que outros analistas igualmente sérios discordem de sua leitura.

Por sua vez, o FBSP é uma ONG amplamente reconhecida pelo rigor técnico de seus dados estatísticos. Embora setores mais conservadores apontem, com certa razão, uma inclinação da entidade para a leniência em diagnósticos criminais, suas teses não podem ser descartadas superficialmente.

A corrente que rejeita o selo de "terrorismo" sustenta que as motivações jurídicas diferem. Órgãos como a ABIN e o próprio UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) (2) separam historicamente o crime organizado (cujo motor é o lucro financeiro) do terrorismo propriamente dito (movido por dogmas políticos ou religiosos). Diante disso, proponho uma reflexão: até que ponto a busca pelo lucro bilionário dessas facções está realmente separada de projetos de poder e ideologias? Essa fronteira ainda existe?

A resposta é complexa, e há juristas renomados que defendem que o crime organizado já cruzou essa linha, tornando a classificação de terrorismo útil e necessária:

  1. Fernando Capano argumenta que o enquadramento "amplia mecanismos de bloqueio de ativos, rastreamento de movimentações financeiras, sanções econômicas, restrições migratórias e responsabilização de indivíduos, empresas ou instituições que mantenham qualquer tipo de colaboração material com essas facções" (3).
  2. Helena Folgueira, mestre em Direito Penal pela USP e assistente judiciária do TJSP, explica o porquê de as facções estarem na mira de Washington: "PCC e Comando Vermelho reúnem várias características associadas a grupos terroristas: são organizações com estruturas paraestatais, que mantêm tribunais do crime próprios, exercem dominação social sobre territórios e populações, dispõem de aparato de segurança armado e impõem regras próprias."
  3. O advogado criminalista Luiz Gustavo Cunha acrescenta que o direito internacional legitima essa postura: "A experiência internacional demonstra que o enfrentamento de organizações criminosas com elevado grau de violência e capacidade de desafiar o Estado tem levado diversos países a adotar mecanismos jurídicos tradicionalmente reservados ao combate ao terrorismo. Não se trata de uma inovação brasileira ou norte-americana" (4).

 

A Fronteira Borrada Entre o Crime e a Ideologia 

No front externo, destaca-se a análise de Douglas Farah, consultor de segurança nacional dos EUA e presidente da IBI Consultants. Como um dos maiores especialistas em redes ilícitas na América Latina, Farah reconhece o risco teórico de "banalizar" o conceito acadêmico de terrorismo, mas defende o pragmatismo da medida. Segundo ele, o foco da Casa Branca não é uma intervenção militar, mas sim sufocar as finanças das facções, promovendo o isolamento financeiro estrito de suas redes de apoio e lavagem de dinheiro em solo americano.

O Portal Terra detalha em uma reportagem essencial outras profundas transformações sofridas por essas organizações na América Latina, cujo conteúdo recomendo no link a seguir: (5).

Conclusão


O debate é denso, polêmico e exige profundidade. Não pode ser tratado como "conversa de botequim" — formato que só alimenta demagogos populistas de plantão.

Finalizo com provocações necessárias ao nosso cenário atual:

O Planalto brada que não aceita interferências em nossa soberania. "Nada de ianques! Sabemos cuidar do que é nosso!", dizem os discursos soberanistas. Excelente. A oposição também zela pela soberania nacional, mas compreende o óbvio: os EUA também têm o direito de proteger a soberania deles contra o narcotráfico transnacional.

A grande questão é: nós estamos defendendo a nossa soberania de verdade? O atual governo sabe nos dizer com precisão o tamanho da infiltração do crime organizado nas instituições do Estado? Em quais municípios? Em quais escalões do funcionalismo público?

O PT governou o Brasil por 17 anos e 5 meses ao longo da história recente. Repito a pergunta: o que foi efetivamente feito para frear o avanço desse poder paralelo? Para sermos justos e honestos intelectualmente, a culpa não é exclusiva de um partido; o MDB, o PSDB e toda a nossa classe política  devem profundas explicações ao país.

No próximo artigo, trarei um testemunho contundente sobre a eficiência e a brutalidade real dessas facções. Um relato que expõe a conexão direta do crime com ideologias e com a história recente do continente. Uma seriedade factual que falta a muitos analistas e, fundamentalmente, a um presidente loquaz que teima em subestimar a pior ameaça à segurança dos brasileiros.


"Charge inspirada em ilustração publicada pela Revista Oeste, posteriormente adaptada e recriada com auxílio de inteligência artificial."

Notas:

 

  1. https://www.band.com.br/noticias/canal-livre/ultimas/classificar-o-pcc-como-terrorista-nao-traz-vantagens-ao-brasil-diz-gakiya-202605100002

 

  1. O foco desta agência da ONU é tornar o mundo mais seguro contra o tráfico de drogas, o crime organizado transnacional, a corrupção e o terrorismo.

 

  1.  https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/classificacao-de-pcc-e-cv-como-organizacoes-terroristas-divide-policias/

 

  1. Ambas as citações se encontram aqui: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/pcc-e-cv-sao-terroristas-entenda-o-que-dizem-especialistas-brasileiros/

 

  1. https://www.terra.com.br/noticias/mundo/4-mudancas-do-crime-organizado-na-america-latina-que-dificultam-combate-de-gangues-e-faccoes,9e7a784ffaf2b9ff301a417f5791dc609p74phlu.htm

segunda-feira, 1 de junho de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA .TERRORISMO. VIOLÊNCIA – 5

 

 TERRORISMO: VISTO PELA ONU E PELA IGREJA

 


Valter de Oliveira


Minha intenção inicial era debater o terrorismo nos episódios finais desta série. No entanto, a recente decisão do presidente Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizaçoes terroristas exigiu que eu antecipasse o tema.

Hoje vamos discutir apenas duas coisas: 1. o conceito de terrorismo. 2. Como o Papa S. João Paulo II o enfrentou concretamente ao tratar das ações criminosas do IRA na Irlanda .

No próximo artigo analisaremos a decisão de Trump e a reação do governo brasileiro.

O conceito de terrorismo da ONU 

Por incrível que pareça a ONU não possui uma definição legal global e universalmente consolidada sobre o que é terrorismo. Razão? Impasse diplomático de longa data., ou seja, países têm diferentes visões sobre o assunto. Mesmo assim, a organização usa como critério o consenso obtido pela Assembléia Geral e detalhada em resoluções do Conselho de Segurança. Acontece que isso não se torna oficial porque, qualquer um dos 5 grandes países que venceram a Segunda Grande Guerra, pode vetar qualquer decisão da Assembléia Geral. 

Apesar das dificuldades a ONU tem um núcleo conceitual sobre o terrorismo: 

Atos de terrorismo são todos os atos criminosos, incluindo aqueles contra a população civil, com a intenção de causar a morte, lesões corporais graves ou a tomada de reféns. Com qual objetivo? Provocar um estado de terror no público em geral, intimidar uma população ou coagir um determinado governo ou organismos internacionais. Podemos caracterizá-lo em três pontos fundamentais:

1. Intenção. Provocar terror na população ou coagir um governo ou organização.

2. Propósito. usando a violência em prol de um objetivo político (por ex: obter territórios), ideológico (favorecer a tomada de poder por comunistas ou nazistas); religioso (ações do Ira, na Irlanda; implantação de governos islâmicos ou sionistas fundamentalistas).

3. Dano. Como consideram que o fim justifica os meios tudo é lícito em causar danos intencionais a governantes e civis. Mortes e destruições aos adversários, mesmo que inocentes, são considerados aceitáveis e até, em determinados casos, altamente louváveis. 

Observação: Como não há um consenso aceito oficial e universalmente, há países que acreditam ter direito a um critério mais amplo. É o que acontece com os EUA em nossos dias. Veremos isso mais especificamente no próximo artigo.

PALAVRAS DO PAPA

Em primeiro lugar gostaria de lembrar uma condenação ao terrorismo feita pelo Papa João Paulo II por ocasião de sua visita à Irlanda em 1979. Quando a li fiquei profundamente emocionado.

Como se sabe a Irlanda, historicamente, foi alvo de uma duríssima e injusta repressão por parte do governo britânico. Repressão que durou séculos. A pretexto de justiça um grupo de irlandeses decidiu criar o IRA, Exército Republicano Irlandês, que decidiu usar o terrorismo para lutar contra o governo do Reino Unido e contra os grupos paramilitares unionistas/protestantes na Irlanda do Norte. O IRA queria o fim do domínio britânico e a reunificação da Irlanda do Norte com a República da Irlanda. Julgava que as injustiças cometidas pelos britânicos por longo tempo lhes dava o direito de lutar pelas armas. Não viram nenhum problema em apelar para o terrorismo. Erraram. Redondamente, miseravelmente.

Foi o que disse de modo claro e forte o Papa S.João Paulo II, em sua visita apostólica à Irlanda, em missa em Drogheda (cidade que fica a 50 km. de Dublin), em evento que reuniu mais de um quarto da população do país. 

Transcrevo aqui breve excerto de sua homilia:


“A vós todos, que me escutais, digo eu: não confieis na violência; não favoreçais a violência. Não é o caminho cristão. Não é o caminho da Igreja católica. Crede na paz, no perdão e no amor: isto sim que vem de Cristo.

(...)



11. Quero agora dirigir-me a todos os homens e a todas as mulheres que se deixaram prender na cadeia da violência. Faço apelo a vós e o meu discurso torna-se apaixonado. Peço-vos de joelhos que vos afasteis dos caminhos da violência e regresseis aos caminhos da paz. Sem dúvida pretendeis buscar a justiça. Eu também creio na justiça e busco a justiça. Mas a violência só atrasa o dia da justiça. A violência destrói o trabalho da justiça. Um aumento de violência na Irlanda só poderá trazer consigo a ruína da terra que pretendeis amar e dos valores que pretendeis acariciar. Em nome de Deus, suplico-vos: voltai a Cristo que morreu para os homens conseguirem viver no perdão e na paz. Espera-vos, ambiciona - que volte cada um de vós a ele, de maneira que possa dizer-vos, um por um: os teus pecados estão perdoados: vai em paz.  12. Faço apelo aos jovens que foram arrastados talvez para organizações enredadas na violência. Digo-vos, com todo o amor que tenho por vós, com toda a confiança que deposito nos jovens: não escuteis as vozes que falam a linguagem do ódio, da vingança e das represálias. Não sigais nenhum chefe que vos leve para os caminhos em que se dá a morte. Amai a vida, respeitai a vida, em vós mesmos e nos outros. Consagrai-vos ao serviço da vida, e não ao trabalho de morte. Não acrediteis que se provam coragem e força matando e destruindo. Não sereis verdadeiramente fortes senão unindo-vos aos jovens e às jovens da vossa geração, em todo o lugar, para construir uma sociedade justa, humana e cristã pelos meios da paz. A violência é a inimiga da justiça. Só a paz pode levar à verdadeira justiça”. O Papa assim termina sua comovente homilia:

15. Vim hoje a Drogheda numa grande missão de paz e de reconciliação. Venho como peregrino da paz, de Cristo. Para os católicos e para os protestantes, a minha mensagem é paz e amor. Nenhum protestante irlandês vá pensar que o Papa é inimigo, perigo ou ameaça! O meu desejo é, pelo contrário, que os protestantes possam ver em mim um amigo e um irmão em Cristo. Não percais a esperança de que a minha visita seja frutuosa, de que a minha voz seja ouvida. E mesmo que não fosse ouvida, a história lembrar-se-á que, num momento difícil da vida do povo da Irlanda, o Bispo de Roma pisou o vosso solo, e esteve convosco e orou convosco pela paz e reconciliação, pela vitória da justiça do amor sobre o ódio e a violência. Sim, este testemunho, que é o nosso, torna-se finalmente prece, prece que vem do coração, em favor da paz para todos os que vivem nesta terra, da paz para todos os cidadãos da Irlanda.

Ilumine e invada todas as consciências esta fervorosa oração pela paz! Cristo, Príncipe da paz, Maria, Mãe da paz, Rainha da Irlanda, São Patrício, Santo Olivério, e todos os Santos da Irlanda, eu, com todos os que estão aqui reunidos e com todos os que se unem a mim, peço-vos:

Velai pela Irlanda! Protegei a humanidade! Amém.

O Papa falou. Suas palavras demoraram alguns anos para serem ouvidas. Mas, finalmente a semente brotou. A Irlanda está em paz.

Deo Gratias!






___________________________

Depois disso convido a cada um dos amigos a ler toda a homilia do Santo Padre. Vale a pena.

https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/1979/documents/hf_jp-ii_hom_19790929_irlanda-dublino-drogheda.html


segunda-feira, 18 de maio de 2026

PROJETO CIVILIZACIONAL DE TRUMP

 

Valter de Oliveira

Nota prévia do blog oliver: nos 4 artigos anteriores tratamos da guerra justa e da ação de Trump na guerra contra o Irã à luz da DSI (Doutrina Social da Igreja). Como vimos, o presidente norte-americano foi fortemente criticado. Perdeu prestígio. Seus erros geopolíticos, podem levar-nos a perguntar, porque teve tanto apoio de grande parte da sociedade americana.

Na verdade, grande parte do apoio a Trump vem do crescente conservadorismo na sociedade norte-americana. Nem sempre em harmonia com o modo como Trump entende e pratica sua geopolítica. 

O artigo que postamos abaixo mostra interessantes aspectos desse conservadorismo  americano que foram expostos por Vance e Rúbio aos europeus. O vice-presidente fez contundente discurso em 14 de fevereiro de 2025, em Munique (1). Já Rubio, um ano depois, escolheu fazer um pronunciamento mais conciliador:  “Nosso lar pode estar no hemisfério ocidental, mas sempre seremos um filho da Europa”, declarou.

O conservadorismo exposto é interessante. A questão é saber até que ponto a reação conservadora da população fez com que os políticos se adaptassem a seus anseios. Ou, se quiserem: até que ponto eles são sinceros ao esposar tal projeto.

Não sei. O que sei é que muita gente está cansada de um mundo sem valores e sem Deus.

Vão ter sucesso? Deus queira. (V.O.)


PROJETO CIVILIZACIONAL DE TRUMP

R. R. Reno

O Secretário de Estado Marco Rubio discursou na recente Conferência de Segurança de Munique. No ano passado, o Vice-Presidente JD Vance emitiu alertas severos com uma retórica dura. O discurso de Rubio foi conciliatório, frequentemente mencionando com entusiasmo um propósito comum e amizade mútua. Mas o conteúdo não foi muito diferente do proferido no ano passado. Vance e Rubio transmitem a convicção do governo Trump de que o Ocidente sofre de um mal-estar civilizacional. Restaurar a confiança em nossa herança ocidental compartilhada é de importância fundamental.

Rubio pediu aos europeus reunidos em Munique que se juntassem ao governo Trump para reconhecer que algumas das principais ambições das décadas pós-Guerra Fria foram erros. A mentalidade de fim do mundo, que imaginava um sistema global pós-nacional, fracassou. Os elementos econômicos da globalização acabaram por desindustrializar o Ocidente, tornando-o vulnerável militarmente. A prosperidade trazida pela globalização beneficiou a elite globalmente conectada, não os cidadãos comuns. Os elementos políticos da globalização corroeram a soberania nacional, e as regras e normas globalistas são frequentemente usadas por tiranos contra os esforços para conter seus atos ilícitos.

Rubio identificou o “culto climático”, que impôs políticas econômicas ruinosamente caras ao Ocidente. Ele observou que fronteiras abertas e políticas frouxas levaram a “uma onda sem precedentes de migração em massa que ameaça a coesão de nossas sociedades, a continuidade de nossa cultura e o futuro de nosso povo”. De maneira mais ampla, Rubio apontou para os efeitos danosos do que Roger Scruton denominou “oicofobia”, uma atitude amarga e crítica em relação à nossa casa e herança comuns.

Após listar esses erros, Rubio fez uma concessão crucial ao seu público europeu (e disse algo que os americanos precisam ouvir): "Cometemos esses erros juntos". Ele certamente tem razão. Os problemas que afligem um Ocidente enfraquecido e desmoralizado foram resultado de um poderoso consenso em prol de uma sociedade aberta. Os Estados Unidos lideraram o caminho na globalização pioneira. Incentivamos a criação e a expansão da União Europeia. Nossas universidades nutriram ideologias antiocidentais, como o pós-colonialismo.

Marco Rubio

O cerne do discurso de Rubio foi um apelo à ação: reindustrializar, reforçar as fronteiras, estabelecer a ordem internacional em bases mais modestas e realistas. No entanto, o imperativo mais importante diz respeito à nossa civilização compartilhada. Rubio anunciou: “Queremos aliados que se orgulhem de sua cultura e de sua herança, que compreendam que somos herdeiros da mesma grande e nobre civilização”. Os europeus deveriam esperar o mesmo de nós. Aliados fortes exigem autoconfiança cultural, algo que não se fomenta por meros reconhecimentos territoriais. 

Rubio foi recebido com aplausos entusiasmados. Imagino que boa parte da elite europeia reconheça os erros das últimas décadas, entre os quais o cultivo deliberado da culpa civilizacional. Talvez se retraiam diante da nova direção que Rubio explicitou. Mas enxergam os problemas que seus países enfrentam, problemas que surgiram após 1990, problemas endêmicos ao consenso da sociedade aberta.

Havia um aspecto da renovação civilizacional mencionado por Rubio que temo que as elites europeias não queiram — ou não possam — reconhecer. O Secretário de Estado observou que o elemento central da civilização ocidental é a “herança sagrada” da “fé cristã”. Ele estava certo em fazê-lo. Hegel escreveu certa vez: “A religião é a esfera na qual uma nação [e uma civilização] define a si mesma o que considera ser a Verdade”. A religião anima uma cultura, estimulando e guiando o desejo humano perene pela transcendência

Infelizmente, com o fim do século XX, o consenso da sociedade aberta exigiu que tivéssemos uma cultura sem religião, algo nunca antes tentado na história da humanidade. Após intenso debate, o cristianismo foi deliberadamente omitido da Constituição Europeia formulada no início do século XXI. Na época, o Papa João Paulo II expressou consternação: “Não se cortam as raízes de um direito de primogenitura”. Os Estados Unidos continuam sendo mais religiosos do que as nações da Europa. Mas, como observa Gerard Bradley nesta edição, em “ Como trazer de volta a oração nas escolas ”, na década de 1960, nosso regime constitucional expulsou a religião da esfera pública. Hoje, a ideologia multicultural considera “divisiva” qualquer ressurgimento da influência pública do cristianismo. E a moralidade bíblica colide com a revolução sexual, que continua sendo cara às elites na Europa e na América. 

A animosidade contra um cristianismo vibrante e engajado civicamente será difícil de superar. Mas, como sugere Rubio, devemos superá-la. Ele elogiou as grandes conquistas do Ocidente: o Estado de Direito, a investigação científica, a arquitetura grandiosa e as nobres tradições de liberdade. Foi “uma fé em Deus que inspirou essas maravilhas”, observou Rubio. Os homens não tiveram fé para realizar grandes feitos; eles realizaram grandes feitos porque tinham fé. Nosso futuro civilizacional dependerá daqueles cujos olhos estão voltados para algo maior do que a restauração da confiança no Ocidente. 

A América e a Europa estão interligadas. "O nosso destino está e sempre estará entrelaçado com o vosso", disse Rubio em Munique. De fato. A fé inabalável da América continua a fazer do cristianismo um elemento poderoso da vida pública. Devemos orar para que essa influência se fortaleça, estendendo-se ao cenário europeu. As civilizações renovam-se pelas verdades que vêm do alto. Aqueles que buscam a união com Deus transformam o mundo.

Notas:

1. https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/historico-discurso-jd-vance-munique-licoes-para-brasil/

2. Os destaques em negrito foram introduzidos por nós.  


R.R. RENO é editor da Revista First Things

First Things é uma influente revista americana de religião e questões políticas públicas e pertence ao Institute on Religion and Public Life. Fundada por Richar John Neuhaus em 1990, a revista aborda conservadorismo social, política e diálogo cristão-judeu. O nome significa (primeiro essencial).  

 

Fonte: https://firstthings.com/trumps-civilizational-project/

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA TERRORISMO. VIOLÊNCIA – 4.

 

GUERRA CONTRA O IRÃ VISTA PELA MÍDIA CATÓLICA CONSERVADORA/TRADICIONALISTA

Valter de Oliveira

Introdução

No artigo 3 da série, postado dia 26 de abril p.p., vimos que a mídia católica progressista julga que a doutrina social da Igreja condena fortemente a guerra. Há até quem pergunte se não é hora de proclamar que toda guerra moderna é imoral.

 

Por outro lado, como veremos hoje, a mídia conservadora é mais contida em suas críticas e mais cuidadosa ao analisar cada ponto da DSI sobre a guerra a fim de ver se a ética está sendo violada. Apesar de divergências pontuais, há unanimidade quando se trata da condenação dos males praticados contra civis. São tidos por inadmissíveis. Concluem que, a guerra contra o Irã, do modo como está sendo praticada por Netaniahu e Trump, não pode ser apoiada por católicos. 

 

Vamos sintetizar o que dizem alguns dos principais órgãos dessa mídia.

 

 

A MÍDIA CONSERVADORA/TRADICIONALISTA

 

Destacamos: National Catholic Register, Where Peter is, The Catholic Thing e The Wanderer Newspaper. 

 

Todos esses veículos tendem a publicar análises mais variadas; não rejeitam a guerra de modo absoluto, mas há linhas críticas relevantes.

 

1.    É uma crítica prudencial. Seguem a doutrina tradicional da guerra justa. Não há pacifismo. No caso concreto consideram a guerra contra o Irã como arriscada e mal calculada.

 

Ademais encontramos em seus artigos uma pergunta central: os objetivos da guerra são alcançáveis?

 

2.    Quando se trata de discutir se os critérios clássicos da guerra justa são cumpridos são mais cuidadosos na análise, mas concluem que os critérios não são satisfeitos.

 

3.    Preocupação com a ordem internacional. Em geral critica-se a guerra preventiva de Trump e Netaniahu porque podem estar infringindo normas internacionais e abrindo brechas para legitimar futuros conflitos. Sendo assim estaríamos correndo o risco de aceitar um mundo regido pela “lei do mais forte”. 

4.   


Risco de escalada e caos regional

 

Os artigos expressam o temor que venhamos a ter uma guerra prolongada com todas as suas negativas consequências. Podemos ter o colapso do Irã com um futuro difícil de prever e a desestabilização do Oriente Médio. Tudo produzindo um possível impacto global na energia e na segurança internacional.

 

    5.    Crítica à falta de objetivos claros. Sabemos que um dos critérios para julgarmos uma guerra justa são os objetivos claros de quem as inicia. Ora, dizem eles, não é o que parece acontecer. Uma hora a meta é a mudança do regime iraniano e o advento de uma democracia em seu território. Noutra o mais importante é o combate ao terrorismo e, finalmente, a necessidade de contenção nuclear. Contraditoriamente, Trump uma hora diz que a implantação da democracia é importante, depois nega. Em suma, o que é realmente urgente, perguntam?

 

É lembrado também que a estratégia de guerra tem que ser conforme o objetivo apontado. Consideram que isso não está claro ou suficientemente demonstrado. Isso explicaria a ausência de uma estratégia coerente.

 

Resultado: O conjunto compromete o critério de “intenção justa” da guerra.

 

6.    Preocupação com custos humanos e sociais.

 

É o ponto onde estão as objeções mais fortes. Neste ponto, é bom ressaltar, estão bem de acordo com o que têm expressado os bispos norte-americanos e o Santo Padre.

 

São os pontos mais constatáveis. Com efeito, é difícil para quem escreve sobre o assunto saber se o Irã, por exemplo, estaria a ponto de produzir bombas atômicas, e lançá-las sobre Israel, por exemplo, em um, dois ou seis meses. Já o mesmo, dizem, não acontece com os bombardeios brutais no Irã e no Líbano. Aí sabemos que tem havido a morte de grande número de inocentes. Seres humanos sem possibilidade de defesa diante de bombardeios brutais.

 

Em suma: mais do que nunca a guerra deve ser evitada. O último recurso deve ser real, não apenas retórico.

 

Poderia, agora, fazer pelo menos uma citação de cada órgão mencionado, mas temo que o artigo fique longo demais. Talvez, mais para a frente faça um artigo só de citações. De qualquer modo, como dou os links de alguns artigos, o amigo leitor poderá ali encontrar mais informações.

 

Agora, a conclusão geral dos 4 artigos

 


Apesar de certas diferenças de abordagens podemos concluir que:

 

🔴 Progressistas. Tendem a ter um juízo moral negativo já nas premissas: a guerra aparece como desproporcional, imprudente e eticamente injustificável. Ela  não cumpre os critérios da DSI.

🔵 Conservadores → A DSi e o Catecismo da Igreja são usados para abrir uma avaliação rigorosa. Os critérios são exigentes e levam a concluir que provavelmente os critérios de guerra justa não são cumpridos.  

 

Uma convergência significativa. Ambas as correntes manifestam profundo ceticismo quanto à legitimidade moral de uma guerra contra o Irã nas condições concretas analisadas.

Apesar das diferenças é bom ver no debate a força da tradição católica. E a beleza de uma doutrina que exige, antes de tudo, e sempre, um juízo moral exigente, prudente e profundamente atento à realidade.

 

FONTES:

1.https://thewandererpress.com/a-leaven-in-the-world-dont-get-distracted-from-the-real-war/

É considerado conservador e tradicionalista.

 

2.https://wherepeteris.com/attacking-iran-fails-to-meet-catholic-just-war-teaching/

Atacar o Irã não está de acordo com o ensinamento católico da “guerra justa”.

 

3.https://www.thecatholicthing.org/2026/03/02/war-just-and-unjust/

 

The catholic thing é considerado conservador

 

Guerra, justa e injusta

 

 

4.https://www.ewtn.com/catholicism/library/conditions-of-a-just-war-11050

Condições de uma guerra justa

EWTN é considerado conservador crítico. Conforme artigo que escrevemos sobre as correntes na Igreja ele seria considerado um conservador resistente. National Catholic Register é deste grupo. Ele tem enorme alcance. Atinge mais de 100 milhões de pessoas.    

 

5.https://www.ncregister.com/cna/catholic-theologians-urge-trump-to-follow-just-war-doctrine-as-iran-conflict-continues

Teólogos católicos instam Trump a seguir a doutrina da guerra justa

 

Neste outro link você encontrará longo e interessante artigo do venerável Fulton Sheen sobre a guerra justa. É bem completo e com ótimos exemplos.

6.https://www.ewtn.com/catholicism/library/conditions-of-a-just-war-11050

Fulton Sheen. Condições de uma guerra justa

 

 

Observação: nos artigos sobre as guerras mencionamos três correntes teológicas que existem no interior da igreja. Caso queira entender melhor cada uma delas veja o que escrevi em meu site claravalcister:

1.https://www.claravalcister.com/igreja/correntes-doutrinarias-dentro-da-igreja-1/

Aborda também o tradicionalismo e o sedevacantismo

17 de julho de 2020

2.https://www.claravalcister.com/igreja/correntes-doutrinarias-dentro-da-igreja-2-os-conservadores/

02 de agosto de 2020

 

3.https://www.claravalcister.com/igreja/correntes-teologicas-na-igreja-3-os-conservadores-resistentes-parte-1/

10 de outubro de 2020

 

4.https://www.claravalcister.com/igreja/correntes-teologicas-na-igreja-3-dissidencia-conservadora-e-resistencia-parte-2/

10 de outubro de 2020

 

5.https://www.claravalcister.com/historia-da-igreja/correntes-ideologicas-na-igreja-4-o-progressismo/

13 de janeiro de 2021

 

6.Ainda pode ser feito um juízo da guerra a partir da perspectiva protestante, muçulmana e da ética judaica. Especialmente nesta há muita coisa a ser vista. Vou publicar depois.

No próximo artigo, para descansarmos um pouco do tema, explanarei a visão de Trump sobre os EUA. Com base em palestra de J. Vance.