sexta-feira, 11 de setembro de 2026

POLÍTICA. CONCEITOS. PRINCÍPIOS. DISCUSSÃO

 

DISCUTINDO POLÍTICA SERIAMENTE


Valter de Oliveira


Terminamos mais uma eleição. E, como sempre, as interpretações são bem diferentes.

Para uns, escolhemos mais democracia, mais justiça social, mais atenção aos pobres e mais prosperidade. Além disso, teríamos evitado a volta do fascismo.

Para outros, a manipulação venceu. Lula, irresponsavelmente, teria procurado comprar o eleitorado com seu pacote de bondades. Aumentou ainda mais a dívida pública, o que poderá piorar a economia do país. E a vitória ainda favorecerá a chamada “ditadura da toga”.

Procurei abordar essas questões em alguns artigos publicados nos sites Claravalcister e Olivereduc. Também discuti o assunto com amigos do Facebook, de esquerda e de direita.

Ética e manipulação

Imagem de IA
Como sabem, procuro discutir os assuntos sob a ótica do Direito Natural e da Doutrina Social da Igreja. Por isso, busco conhecer o que há de melhor nas ciências humanas, para compreender melhor a realidade. Afinal, elas oferecem informações importantes para analisar, por exemplo, a política contemporânea.

Não é tarefa fácil. Primeiro, pela complexidade dos problemas. Segundo, pela manipulação política. Terceiro, pelas próprias dificuldades da sociedade e pelas paixões que influenciam a opinião pública.

Pessoas sérias como você, que está lendo este texto, certamente gostariam de ter acompanhado um debate político elevado, entre adversários que respeitassem as regras do jogo. Mais do que isso, gostariam de ter visto programas de governo concretos, capazes de mostrar ao nosso povo sofrido como sair da crise atual e construir um futuro viável e melhor para todos.

Aconteceu?

Debates nas redes sociais. 

Encontrei muita coisa deplorável. Algumas, imperdoáveis.

Todos sabemos que nosso sistema educacional tem graves falhas. Por causa delas, milhões de brasileiros, mesmo tendo concluído o Ensino Médio ou até uma faculdade, enfrentam dificuldades para compreender textos. Naturalmente, isso também dificulta a compreensão da política.

Quantos sabem, por exemplo, o que é uma reforma fiscal ou tributária? Quantos conhecem as diferentes formas de democracia e de socialismo? Quantos sabem definir fascismo? E quantos compreendem como funciona nosso sistema eleitoral?

Por isso, não costumo condenar nossos irmãos brasileiros por suas escolhas políticas, mesmo quando as considero equivocadas. Todos temos defeitos e paixões; todos podemos agir bem ou mal. Basta lembrar que muitos eleitores que votaram em Lula já votaram em Bolsonaro. Vemos isso entre familiares, colegas e amigos.

Se compreendo as dificuldades do povo comum, tão assoberbado por problemas, tenho mais dificuldade em compreender certos colegas e ex-alunos. São pessoas com formação universitária, algumas até com mestrado e doutorado, que participaram dessas discussões nas mídias sociais.

A democracia admite e até exige a diversidade e o pluralismo. Por isso, aceito o debate com todos. Mas há condições: seriedade, respeito e ética. Isso vale tanto para nosso relacionamento pessoal quanto para a maneira de apresentar nossa visão de mundo e, em especial, nossas ideias políticas.

Encontrei isso?

Em parte, sim. No essencial, não.

Explico-me.

Minhas principais discussões foram com ex-colegas de esquerda e alguns ex-alunos, de diferentes áreas de formação. Minhas principais queixas são estas:

1. Falta de clareza nos posicionamentos.

Em muitos casos, não fica claro qual é o posicionamento ideológico da pessoa. Ela é apenas contra o “fascismo”? É social-democrata? Defende alguma corrente socialista? A discussão não esclarece.

Imagem de IA
Em lugar de argumentos, aparecem os chavões. “O rico é explorador!”, por exemplo. Mas de que estamos falando? De casos concretos de abusos do capitalismo ou da adesão à teoria marxista da exploração? São coisas que precisam ser esclarecidas e discutidas, não apenas repetidas.

Tive e tenho colegas com bom nível acadêmico que são marxistas de carteirinha. Apesar das divergências, tivemos e temos bom relacionamento. Mas há uma questão que nunca consegui esclarecer nos debates: em que princípios éticos se baseiam para defender sua ação política?

2. Ética, manipulação e fake news 

Sabemos que, na prática, essa ação muitas vezes desrespeita a ética sem nenhum pudor. Apontei isso, por exemplo, quando vi a divulgação de fake news. Infelizmente, alguns pareciam impermeáveis à crítica. Três ou quatro dias depois, lá vinham mais notícias falsas!

É lamentável. E mais lamentável ainda quando se considera que são pessoas cujas qualidades acadêmicas e pessoais, admiro.

Disse claramente a alguns deles que nós, como professores, temos uma nobre missão: educar. Isso significa convidar as pessoas a aprofundar seus conhecimentos, com amor à verdade, ao bem e à beleza.

Não podemos fechar os olhos para a manipulação. Muito menos aceitar um debate político raso e simplista.

Como não foi possível realizar esse debate nas condições que considero necessárias, vou usar este blog  para apresentar conceitos e princípios de uma verdadeira política. Um dos temas centrais será a ética, examinada à luz de diferentes correntes filosóficas. Também veremos o que pensadores e estudiosos dizem sobre as principais formas de manipulação política.

Vocês me acompanham?

Deixo um desafio aos que não quiseram aprofundar o assunto no FB: vamos continuar por aqui.

Neste espaço há mais tempo para conversar — e não é preciso escrever muito. Depois de cada artigo, basta dizer: Fato ou Fake?

Combinado?



domingo, 5 de julho de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA (DSI). POLÍTICA. GUERRA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA - 8 -

 

RABINOS E LÍDERES JUDEUS NO MUNDO CRITICAM NETANIAHU


 

Valter de Oliveira

 

Como vimos até aqui em nossa série sobre guerra justa na perspectiva da D.S.I. (Doutrina Social da Igreja) – com análise concreta sobre a guerra dos EUA e Israel contra o Irã - chegamos a uma constatação relevante: teólogos e intelectuais católicos, de diferentes correntes dentro da Igreja, consideram que ela é injusta. Alguns, como vimos, também a consideram imoral e até exigem que seus autores sejam condenados. 

Por outro lado, se quisermos ter uma visão mais abrangente do problema, é necessário que vejamos o que pensam aqueles que pertencem ao povo de Israel, tanto na área política, quanto na religiosa, levando em conta, também, que há divergência entre eles.

Durante décadas, críticas às políticas do governo israelense costumavam ser apresentadas no debate público ocidental  como provenientes sobretudo de adversários externos ao Estado de Israel. Nos últimos anos, porém, uma realidade mais complexa passou a ganhar visibilidade: vozes cada vez mais numerosas do próprio mundo judaico têm questionado a condução política e militar do governo de Benjamin Netanyahu.

Essa dissidência não se limita a um único país, corrente religiosa ou orientação ideológica. Ela reúne rabinos norte-americanos, intelectuais europeus, sobreviventes da Shoah, antigos dirigentes israelenses e membros da diáspora judaica preocupados com o futuro moral, político e diplomático de Israel.

Nos Estados Unidos, centenas de rabinos reformistas, conservadores e mesmo ortodoxos manifestaram preocupação com o elevado número de vítimas civis na Faixa de Gaza, com a crise humanitária e com o risco de uma escalada regional envolvendo outros países do Oriente Médio. Muitos desses líderes afirmam que princípios fundamentais do judaísmo, como a preservação da vida humana e a busca da justiça, exigem uma reflexão crítica sobre os meios empregados na guerra.

Essa preocupação foi sintetizada pelo rabino norte-americano Rick Jacobs, presidente da União para o Judaísmo Reformista, ao afirmar que "o sofrimento em Gaza e a crescente desconfiança em relação ao governo Netanyahu tornaram muito mais difícil para muitos judeus americanos manifestarem apoio às atuais políticas israelenses". A observação revela uma mudança importante dentro da própria comunidade judaica dos Estados Unidos.

Na Europa, intelectuais judeus vêm expressando inquietações semelhantes. Entre eles destaca-se a historiadora italiana Anna Foa, autora de” O Suicídio de Israel”. Sem questionar o direito de Israel à existência e à segurança, Foa argumenta que determinadas políticas do atual governo podem conduzir o país ao isolamento internacional, ao enfraquecimento de suas instituições democráticas e à erosão dos valores que historicamente sustentaram sua legitimidade. Ela "Ela alerta que o maior risco para Israel talvez não seja apenas militar, mas também moral e institucional."

Mesmo dentro de Israel, a crítica deixou de ser um fenômeno marginal. Antigos dirigentes políticos, militares e acadêmicos passaram a advertir sobre os riscos de uma guerra sem horizonte político definido. Para esses críticos, a segurança israelense não poderá ser garantida apenas pela força militar, mas dependerá também da reconstrução de perspectivas diplomáticas para a convivência entre israelenses e palestinos.

Uma das manifestações mais significativas desse movimento ocorreu quando mais de mil rabinos de diferentes países assinaram uma carta aberta denunciando a morte de civis, a fome e a deterioração das condições humanitárias em Gaza. O documento chama atenção por reunir sensibilidades religiosas diversas, demonstrando que essas preocupações ultrapassam fronteiras ideológicas tradicionais.

A carta afirma que seus signatários são movidos pelos "valores fundamentais da Torá" e exige "respeito por todas as vidas inocentes", em Gaza e na Cisjordânia, indicando que a crítica nasce de convicções religiosas e não da rejeição ao Estado de Israel.

É importante notar que a maior parte dessas vozes não se identifica com o antissionismo nem nega os traumas provocados pelos ataques sofridos por Israel. Pelo contrário. Todos são filhos de Israel que afirmam que suas críticas e   preocupações nascem precisamente do compromisso com a continuidade e o futuro do Estado judeu. Afinal, pensam eles, apoiar Israel não significa apoiar incondicionalmente qualquer governo israelense.

CONCLUSÃO

Como vimos também numerosos rabinos, intelectuais e antigos dirigentes israelenses sustentam que a condução das guerras em Gaza e contra o Irã violou princípios éticos fundamentais, especialmente no que se refere à proteção da população civil, à proporcionalidade do uso da força e à busca de uma solução política para os conflitos. Embora utilizem linguagens diferentes, muitas dessas críticas apresentam pontos de contato com os critérios da guerra justa desenvolvidos pela Doutrina Social da Igreja. Mais ainda, por incrível que pareça, podemos até fazer um paralelo entre suas críticas e aquelas feitas em consonância com a Doutrina Social da Igreja.

Mas essa aproximação entre a tradição judaica e a Doutrina Social da Igreja merece um estudo próprio. Fica, talvez, para um próximo artigo.

 

Fontes

1. The Jerusalem Post. "Benjamin Netanyahu's goal is to stay in power, not total victory in war". Disponível em:
https://www.jpost.com/opinion/article-801612

2. The Times of Israel. "Top US rabbi says Gaza's plight, distrust of Netanyahu make supporting Israel hard." Disponível em:
https://www.timesofisrael.com/top-us-rabbi-says-gazas-plight-distrust-of-netanyahu-make-supporting-israel-hard/

3. The Jerusalem Post. "Former Prime Minister Naftali Bennett criticizes government's conduct of Iran war." Disponível em:
https://www.jpost.com/israel-news/politics-and-diplomacy/article-899535

4. The Jerusalem Post. "Lack of leadership is hurting Israel." Disponível em:
https://www.jpost.com/opinion/article-801480

5. CASPIT, Ben. Sinwar and Nasrallah can relax: Netanyahu wants a complete victory, but not over them. The Jerusalem Post, 18 maio 2024. Disponível em:
https://www.jpost.com/opinion/article-801612

6. Editorial Board. Netanyahu's Vision of Israel as "Super Sparta" Means Eternal Siege. Haaretz, 16 set. 2025. Disponível em:
https://www.haaretz.com/opinion/editorial/2025-09-16/ty-article-opinion/netanyahus-vision-of-israel-as-super-sparta-means-eternal-siege/00000199-4eed-d6e0-a7fb-cfedcd210000

7. Sete Margens. "Mais de mil rabinos de todo o mundo criticam política de Israel em Gaza e na Cisjordânia." Disponível em:
https://setemargens.com/mais-de-mil-rabinos-de-todo-o-mundo-criticam-politica-de-israel-em-gaza-e-na-cisjordania/

8. https://www.olivereduc.com/politica/politicainternacional/anna-foa-e-o-suicidio-de-israel/


segunda-feira, 8 de junho de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA: POLÍTICA. GUERRA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA - 7 -

 

O BOMBARDEIO NO IRÃ É UMA HISTÓRIA RELIGIOSA PARA TODOS, EXCETO PARA UMA PESSOA.

 

Nota prévia do blog olivereduc: Vimos em postagens anteriores que todas as correntes católicas condenam o modo como Trump conduz a guerra contra o Irã. Hoje publicamos artigo no qual vemos dura crítica ao presidente por parte de um escritor batista que, ademais, mostra-se claramente contra o nacionalismo e o sionismo cristão.dos EUA. ,

Como já dissemos, todo o assunto é muito mais complexo do que aquilo que é apresentado na grande mídia.

No mundo real a visão maniqueísta de muita gente não tem nenhuma base na realidade.

O artigo de hoje, de Mark Wingfield, ajuda-nos a ver isso.

 ________________________________

Mark Wingfield

O1 de março de 2025

 

 

eu

Manifestantes saem às ruas de Manhattan em uma marcha da Times Square até o Columbus Circle contra os bombardeios dos EUA e de Israel ao Irã, no sábado, 28 de fevereiro.

"Quando os Estados Unidos e Israel bombardearam o Irã em 28 de fevereiro , as motivações e repercussões foram tanto religiosas quanto políticas.

Não podemos pensar no Irã como um Estado moderno desvinculado de suas raízes religiosas. E não podemos pensar na relação do presidente Donald Trump com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu sem considerar os laços religiosos que os unem.

Acrescente-se a isso o assassinato de Ali Hosseini Khamenei e a guerra escolhida por Trump assume o manto de Guerra Santa.

Imagine, por exemplo, se o Irã tivesse assassinado o papa.

 

“Imagine, por exemplo, se o Irã tivesse assassinado o papa.”

 

Não estou dizendo que o aiatolá era tão bondoso e benevolente quanto o Papa Leão XIV; ele não era. De fato, ele era um homem perverso que trouxe morte e perseguição a milhões. Mas ele era o líder religioso supremo de uma nação soberana.

Considerando a guerra ideológica que os republicanos dos EUA estão travando atualmente contra até mesmo muçulmanos pacíficos — veja os exemplos no Texas e na Flórida — é difícil ignorar a dimensão religiosa dessa história internacional.

No entanto, a história se complica rapidamente ao cruzar linhas ideológicas.

Dor pessoal

Samaria Izadi Page é minha querida amiga há 27 anos. Nascida e criada no Irã, ela, o marido e os dois filhos pequenos fugiram de Teerã às pressas, temendo por suas vidas, e acabaram em Dallas. Logo depois, ela entrou para a minha recém-criada classe de Escola Dominical, e os filhos dela se tornaram amigos dos meus filhos na igreja.

Fui membro fundador do conselho da Gateway of Grace, o ministério de reassentamento de refugiados que ela fundou após se formar no seminário e ser ordenada na Igreja Episcopal. Os refugiados com quem ela trabalha diariamente foram prejudicados pelas políticas cruéis do governo Trump.

E, no entanto… quando verifiquei o feed de mídia social dela no fim de semana, vi uma foto grande do aiatolá com a palavra “ELIMINADO” estampada em letras vermelhas no rosto. E outra postagem com estes dizeres: “A Serpente Suprema do Irã foi morta, segundo fontes israelenses!”

Conheço Samira bem o suficiente para saber que isso é algo pessoal para ela. O regime iraniano causou danos pessoais incalculáveis ​​a ela, à sua família e a muitas pessoas que ela ama. Depor um déspota por qualquer meio possível deve ser uma vitória.

No entanto, também a conheço bem o suficiente para prever que ela não está comemorando a possibilidade de nosso presidente desonesto iniciar a Terceira Guerra Mundial.

Ela também publicou uma mensagem de Sean Rowe, bispo presidente da Igreja Episcopal, que pede orações “por todo o povo da Terra Santa, e especialmente pela Igreja Episcopal em Jerusalém e no Oriente Médio e seu líder, o arcebispo Hosam Naoum”.

Ele disse: “Enquanto as notícias nos falam sobre o medo e o pânico no Irã, peço que orem especialmente pelo povo da Diocese do Irã e por todo o povo iraniano. Nas últimas semanas, lamentamos o assassinato de manifestantes pacíficos pelo regime iraniano e observamos com alarme tanto a crescente repressão ao povo iraniano quanto a escalada da resposta do governo dos EUA. Como cristãos que seguem um Príncipe da Paz, lamentamos que os ataques de hoje certamente trarão ainda mais dificuldades para os iranianos mais vulneráveis ​​e, como a retaliação inevitavelmente virá, sofrimento que se espalhará por toda a região.”

Reação MAGA

Essa abordagem matizada para essa ação militar dramática não era comum em todos os setores da cristandade estadunidense.

O pastor Greg Locke, de Nashville, apoiador do MAGA, publicou nas redes sociais: “O Hamã dos tempos modernos, que ameaçava exterminar os judeus, foi eliminado apenas alguns dias antes do início da festa de Purim. Aqui estamos nós, vivendo profeticamente o livro de Ester. Estou aqui para tudo isso.”

E isto: “Já disse antes e repito: O IRÃ SERÁ LIVRE. Isto é histórico e profético.”

O autoproclamado profeta de Trump, Lance Wallnau, publicou um vídeo na noite de sábado citando o "profeta" da Nova Reforma Apostólica, James Goll, que há 10 anos profetizou a queda do Irã no 47º ano. Wallnau também afirma que o líder original da Revolução Islâmica usou termos "democratas" ao dividir o mundo em "oprimidos e opressores". Em seguida, ele muda de assunto, dizendo que o Alcorão afirma que o messias (na verdade, o anticristo para ele) retornará durante o caos global e relaciona isso à Bíblia.

O historiador revisionista David Barton publicou no X: “Levamos 47 anos. Mas conseguimos. Lembro-me de quando o regime islâmico fez nosso povo de refém. Eles destruíram a vida do povo bom do Irã por 47 anos. Hoje, seu líder maligno está morto. Agradeço a Deus pelo presidente Trump. DEUS ABENÇOE A AMÉRICA.”

O trovador MAGA Sean Feucht publicou: “Como os cristãos devem reagir à morte do Líder Supremo do Irã?! A maior colheita da história do Irã está chegando!”

O evangelista MAGA Franklin Graham publicou: “Obrigado, Presidente @realDonaldTrump, por dar ao povo iraniano uma chance de ser livre. Orem por ele e por todos aqueles em nossas forças armadas que estão arriscando suas vidas para proteger a América e trazer liberdade ao povo iraniano. Este regime vem matando americanos há anos, e não tivemos um presidente com coragem suficiente para enfrentá-los. Obrigado, Sr. Presidente, por se levantar e pôr fim a este império do mal.”

O pastor Jack Graham, da megaigreja batista do sul dos Estados Unidos, retuitou um comentário do Papa Leão XIII e disse sobre o líder católico: “Um completo disparate vindo de um falso cargo. Leão XIII deveria estudar o Oriente Médio antes de dar seus pitacos.”

Por outro lado

O que disse o papa?

“Se a violência e a guerra são o caminho para a paz, então Roma estava certa, e Cristo morreu em vão.”

 

Apenas isto: “Acompanho com profunda preocupação os acontecimentos no Oriente Médio e no Irã neste momento turbulento. A estabilidade e a paz não se conquistam por meio de ameaças mútuas, nem pelo uso de armas, que semeiam destruição, sofrimento e morte, mas somente por meio de um diálogo razoável, sincero e responsável. Diante da possibilidade de uma tragédia de imensas proporções, faço um apelo sincero a todas as partes envolvidas para que assumam a responsabilidade moral de deter a espiral de violência antes que ela se torne um abismo intransponível. Que a diplomacia recupere seu papel fundamental e que o bem-estar dos povos, que anseiam por uma existência pacífica fundamentada na justiça, seja preservado. E continuemos a orar pela paz.”

Não sei ao certo o que Jack Graham acha que Leão XIV fez de errado naquele apelo pela paz, mas certamente não é o que Donald Trump considera paz, já que ele agora depôs o líder de uma segunda nação com sua própria autoridade questionável.

Michael Gorman, especialista em Novo Testamento e professor da Cátedra Raymond E. Brown de Estudos Bíblicos e Teologia no Seminário e Universidade de St. Mary, ofereceu um alerta sóbrio em consonância com as palavras do papa: "Se a violência e a guerra são o caminho para a paz, então Roma estava certa e Cristo morreu em vão."

Não devemos nos esquecer de alguns eventos importantes que ocorreram nos dias que antecederam o ataque ao Irã.

Primeiro, o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee — um ex-pastor batista do sul dos Estados Unidos — disse a Tucker Carlson que Israel tem o direito de controlar todas as terras do Oriente Médio se quiser, porque a Bíblia diz isso. (destaque do blog). Não importa que não seja isso que a Bíblia diz, seu comentário revela a mentalidade sionista de Huckabee e daqueles que o cercam.

Huckabee certamente sabia, ao dizer isso, o que estava prestes a acontecer no Oriente Médio.

Em segundo lugar, lembrem-se de que, na semana passada, nosso secretário de defesa despreparado — que quer ser chamado de secretário da guerra — convidou Doug Wilson para pregar no Pentágono. Wilson é um dos defensores mais perigosos do nacionalismo cristão na atualidade. (1).

Wilson disse aos funcionários do Pentágono: "Se você carrega o nome de Jesus Cristo, não há armadura maior do que essa."

Parece um eco do que provavelmente foi dito àqueles que lutaram nas Cruzadas enquanto marchavam para a batalha.

É tudo sobre religião, exceto…

Independentemente do que acontecer no Oriente Médio nos próximos dias e meses, a religião estará no centro. Não há como negar.

Mas para uma pessoa muito influente, a religião não é o principal motivador. Ouçam a sábia opinião do meu amigo — e editor substituto — Marv Knox, ex-editor de dois jornais batistas estaduais e experiente redator de editoriais:

“Sem dúvida, o regime que controla o Irã desde 1979 é uma das autocracias mais cruéis da história. Obviamente, os aiatolás e seus asseclas não valorizam a vida de seus próprios cidadãos, muito menos a de pessoas em todo o Oriente Médio e no mundo todo.”

Dito isso, iniciar uma guerra no Irã é uma jogada clássica de Donald Trump. Ele não se importa com a democracia no Irã; ele nem se importa com a democracia nos Estados Unidos. Ele não se importa com a vida dos cidadãos iranianos; ele nem se importa com a vida dos cidadãos americanos. Isso é uma manobra de diversão.

“Trump está em queda livre nas pesquisas de opinião nos EUA. Ele não está conseguindo reanimar a economia americana. Os americanos percebem a farsa em relação à imigração e discordam de suas políticas. Os americanos detestam seu descaso pela vida de seus concidadãos. Até mesmo os juízes da Suprema Corte escolhidos a dedo por ele disseram que suas políticas tarifárias são inconstitucionais, e alguns membros de seu próprio partido político têm a ousadia de se opor a ele. E, claro, ele continua sendo o centro das atenções na saga Epstein, inclusive com um envolvimento com o notório pedófilo que ultrapassou em muito o que custou o emprego de outros amigos de Epstein.”

“Então, Trump acredita que precisa de uma distração — algo tão absurdo que as pessoas não pensem em todos os seus fracassos. Ele chegou a reconhecer que vidas de militares americanos poderiam ser perdidas por causa de sua guerra. Mas isso não é nada para Trump. Eles serão danos colaterais em sua busca incessante por redenção.”

Notas: 1. Nos EUA temos o nacionalismo cristão e o sionismo cristão. Douglas Wilson é um dos expoentes do nacionalismo com forte influência em Washington. Explicaremos com mais detalhes quando falarmos deste último, após a postagem sobre a visão de rabinos sobre a Guerra do Irã.

2. A opinião do artigo não é, necessariamente, a opinião do blog olivereduc. 

_______________________________________

Mark Wingfield atua como diretor executivo e editor do Baptist News Global. Ele é o autor de "Honestamente: Dizendo a Verdade sobre a Bíblia e sobre Nós Mesmos".

Fonte: https://baptistnews.com/article/the-iran-bombing-is-a-religion-story-for-all-but-one-person/

 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA. - 6 -

 

Terrorismo ou Lucro? O Narcotráfico Brasileiro na Mira de Washington



Valter de Oliveira


No meu artigo do último dia 1º, mencionei que a recente decisão do presidente Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas me obrigou a antecipar este debate.

Como já vimos, qualquer forma de terrorismo é firmemente condenada pela Doutrina Social da Igreja — mesmo quando, em tese, alega-se uma "justa causa". Foi por essa razão que recordei o histórico pronunciamento do Papa São João Paulo II condenando as ações terroristas do IRA na Irlanda.

A robusta decisão de Trump ecoou imediatamente no Brasil. O presidente Lula reagiu de pronto, alegando que a medida feria a nossa soberania nacional. Uma declaração bem ao seu estilo tradicional, que logo arrancou aplausos e apoios impensados de sua militância. Para chancelar a tese presidencial, parlamentares e intelectuais petistas apressaram-se em evocar análises técnicas.

A grande mídia também entrou no debate trazendo especialistas de lado a lado. Com relativo bom senso, abriu espaço tanto para defensores quanto para críticos da medida de Washington, confrontando diretamente a narrativa do Planalto.

 

A Divergência dos Especialistas e a Retórica do Planalto

 

Do lado crítico à medida, figuram nomes de peso como o promotor do Gaeco, Lincoln Gakiya, e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ambos avaliam que a classificação não é vantajosa para a realidade nacional.

Em entrevista ao Canal Livre, o promotor Gakiya ponderou que "classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas não traria benefícios ao Brasil", alertando ainda que o rótulo "poderia abrir espaço para que os Estados Unidos aplicassem sanções econômicas ao País" (1). Gakiya é um inimigo histórico e declarado do crime organizado, vivendo sob constante ameaça. É um homem de Estado, sério, cuja lucidez merece respeito — o que não impede que outros analistas igualmente sérios discordem de sua leitura.

Por sua vez, o FBSP é uma ONG amplamente reconhecida pelo rigor técnico de seus dados estatísticos. Embora setores mais conservadores apontem, com certa razão, uma inclinação da entidade para a leniência em diagnósticos criminais, suas teses não podem ser descartadas superficialmente.

A corrente que rejeita o selo de "terrorismo" sustenta que as motivações jurídicas diferem. Órgãos como a ABIN e o próprio UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) (2) separam historicamente o crime organizado (cujo motor é o lucro financeiro) do terrorismo propriamente dito (movido por dogmas políticos ou religiosos). Diante disso, proponho uma reflexão: até que ponto a busca pelo lucro bilionário dessas facções está realmente separada de projetos de poder e ideologias? Essa fronteira ainda existe?

A resposta é complexa, e há juristas renomados que defendem que o crime organizado já cruzou essa linha, tornando a classificação de terrorismo útil e necessária:

  1. Fernando Capano argumenta que o enquadramento "amplia mecanismos de bloqueio de ativos, rastreamento de movimentações financeiras, sanções econômicas, restrições migratórias e responsabilização de indivíduos, empresas ou instituições que mantenham qualquer tipo de colaboração material com essas facções" (3).
  2. Helena Folgueira, mestre em Direito Penal pela USP e assistente judiciária do TJSP, explica o porquê de as facções estarem na mira de Washington: "PCC e Comando Vermelho reúnem várias características associadas a grupos terroristas: são organizações com estruturas paraestatais, que mantêm tribunais do crime próprios, exercem dominação social sobre territórios e populações, dispõem de aparato de segurança armado e impõem regras próprias."
  3. O advogado criminalista Luiz Gustavo Cunha acrescenta que o direito internacional legitima essa postura: "A experiência internacional demonstra que o enfrentamento de organizações criminosas com elevado grau de violência e capacidade de desafiar o Estado tem levado diversos países a adotar mecanismos jurídicos tradicionalmente reservados ao combate ao terrorismo. Não se trata de uma inovação brasileira ou norte-americana" (4).

 

A Fronteira Borrada Entre o Crime e a Ideologia 

No front externo, destaca-se a análise de Douglas Farah, consultor de segurança nacional dos EUA e presidente da IBI Consultants. Como um dos maiores especialistas em redes ilícitas na América Latina, Farah reconhece o risco teórico de "banalizar" o conceito acadêmico de terrorismo, mas defende o pragmatismo da medida. Segundo ele, o foco da Casa Branca não é uma intervenção militar, mas sim sufocar as finanças das facções, promovendo o isolamento financeiro estrito de suas redes de apoio e lavagem de dinheiro em solo americano.

O Portal Terra detalha em uma reportagem essencial outras profundas transformações sofridas por essas organizações na América Latina, cujo conteúdo recomendo no link a seguir: (5).

Conclusão


O debate é denso, polêmico e exige profundidade. Não pode ser tratado como "conversa de botequim" — formato que só alimenta demagogos populistas de plantão.

Finalizo com provocações necessárias ao nosso cenário atual:

O Planalto brada que não aceita interferências em nossa soberania. "Nada de ianques! Sabemos cuidar do que é nosso!", dizem os discursos soberanistas. Excelente. A oposição também zela pela soberania nacional, mas compreende o óbvio: os EUA também têm o direito de proteger a soberania deles contra o narcotráfico transnacional.

A grande questão é: nós estamos defendendo a nossa soberania de verdade? O atual governo sabe nos dizer com precisão o tamanho da infiltração do crime organizado nas instituições do Estado? Em quais municípios? Em quais escalões do funcionalismo público?

O PT governou o Brasil por 17 anos e 5 meses ao longo da história recente. Repito a pergunta: o que foi efetivamente feito para frear o avanço desse poder paralelo? Para sermos justos e honestos intelectualmente, a culpa não é exclusiva de um partido; o MDB, o PSDB e toda a nossa classe política  devem profundas explicações ao país.

No próximo artigo, trarei um testemunho contundente sobre a eficiência e a brutalidade real dessas facções. Um relato que expõe a conexão direta do crime com ideologias e com a história recente do continente. Uma seriedade factual que falta a muitos analistas e, fundamentalmente, a um presidente loquaz que teima em subestimar a pior ameaça à segurança dos brasileiros.


"Charge inspirada em ilustração publicada pela Revista Oeste, posteriormente adaptada e recriada com auxílio de inteligência artificial."

Notas:

 

  1. https://www.band.com.br/noticias/canal-livre/ultimas/classificar-o-pcc-como-terrorista-nao-traz-vantagens-ao-brasil-diz-gakiya-202605100002

 

  1. O foco desta agência da ONU é tornar o mundo mais seguro contra o tráfico de drogas, o crime organizado transnacional, a corrupção e o terrorismo.

 

  1.  https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/classificacao-de-pcc-e-cv-como-organizacoes-terroristas-divide-policias/

 

  1. Ambas as citações se encontram aqui: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/pcc-e-cv-sao-terroristas-entenda-o-que-dizem-especialistas-brasileiros/

 

  1. https://www.terra.com.br/noticias/mundo/4-mudancas-do-crime-organizado-na-america-latina-que-dificultam-combate-de-gangues-e-faccoes,9e7a784ffaf2b9ff301a417f5791dc609p74phlu.htm