quinta-feira, 7 de maio de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA TERRORISMO. VIOLÊNCIA – 4.

 

GUERRA CONTRA O IRÃ VISTA PELA MÍDIA CATÓLICA CONSERVADORA/TRADICIONALISTA

Valter de Oliveira

Introdução

No artigo 3 da série, postado dia 26 de abril p.p., vimos que a mídia católica progressista julga que a doutrina social da Igreja condena fortemente a guerra. Há até quem pergunte se não é hora de proclamar que toda guerra moderna é imoral.

 

Por outro lado, como veremos hoje, a mídia conservadora é mais contida em suas críticas e mais cuidadosa ao analisar cada ponto da DSI sobre a guerra a fim de ver se a ética está sendo violada. Apesar de divergências pontuais, há unanimidade quando se trata da condenação dos males praticados contra civis. São tidos por inadmissíveis. Concluem que, a guerra contra o Irã, do modo como está sendo praticada por Netaniahu e Trump, não pode ser apoiada por católicos. 

 

Vamos sintetizar o que dizem alguns dos principais órgãos dessa mídia.

 

 

A MÍDIA CONSERVADORA/TRADICIONALISTA

 

Destacamos: National Catholic Register, Where Peter is, The Catholic Thing e The Wanderer Newspaper. 

 

Todos esses veículos tendem a publicar análises mais variadas; não rejeitam a guerra de modo absoluto, mas há linhas críticas relevantes.

 

1.    É uma crítica prudencial. Seguem a doutrina tradicional da guerra justa. Não há pacifismo. No caso concreto consideram a guerra contra o Irã como arriscada e mal calculada.

 

Ademais encontramos em seus artigos uma pergunta central: os objetivos da guerra são alcançáveis?

 

2.    Quando se trata de discutir se os critérios clássicos da guerra justa são cumpridos são mais cuidadosos na análise, mas concluem que os critérios não são satisfeitos.

 

3.    Preocupação com a ordem internacional. Em geral critica-se a guerra preventiva de Trump e Netaniahu porque podem estar infringindo normas internacionais e abrindo brechas para legitimar futuros conflitos. Sendo assim estaríamos correndo o risco de aceitar um mundo regido pela “lei do mais forte”. 

4.   


Risco de escalada e caos regional

 

Os artigos expressam o temor que venhamos a ter uma guerra prolongada com todas as suas negativas consequências. Podemos ter o colapso do Irã com um futuro difícil de prever e a desestabilização do Oriente Médio. Tudo produzindo um possível impacto global na energia e na segurança internacional.

 

    5.    Crítica à falta de objetivos claros. Sabemos que um dos critérios para julgarmos uma guerra justa são os objetivos claros de quem as inicia. Ora, dizem eles, não é o que parece acontecer. Uma hora a meta é a mudança do regime iraniano e o advento de uma democracia em seu território. Noutra o mais importante é o combate ao terrorismo e, finalmente, a necessidade de contenção nuclear. Contraditoriamente, Trump uma hora diz que a implantação da democracia é importante, depois nega. Em suma, o que é realmente urgente, perguntam?

 

É lembrado também que a estratégia de guerra tem que ser conforme o objetivo apontado. Consideram que isso não está claro ou suficientemente demonstrado. Isso explicaria a ausência de uma estratégia coerente.

 

Resultado: O conjunto compromete o critério de “intenção justa” da guerra.

 

6.    Preocupação com custos humanos e sociais.

 

É o ponto onde estão as objeções mais fortes. Neste ponto, é bom ressaltar, estão bem de acordo com o que têm expressado os bispos norte-americanos e o Santo Padre.

 

São os pontos mais constatáveis. Com efeito, é difícil para quem escreve sobre o assunto saber se o Irã, por exemplo, estaria a ponto de produzir bombas atômicas, e lançá-las sobre Israel, por exemplo, em um, dois ou seis meses. Já o mesmo, dizem, não acontece com os bombardeios brutais no Irã e no Líbano. Aí sabemos que tem havido a morte de grande número de inocentes. Seres humanos sem possibilidade de defesa diante de bombardeios brutais.

 

Em suma: mais do que nunca a guerra deve ser evitada. O último recurso deve ser real, não apenas retórico.

 

Poderia, agora, fazer pelo menos uma citação de cada órgão mencionado, mas temo que o artigo fique longo demais. Talvez, mais para a frente faça um artigo só de citações. De qualquer modo, como dou os links de alguns artigos, o amigo leitor poderá ali encontrar mais informações.

 

Agora, a conclusão geral dos 4 artigos

 


Apesar de certas diferenças de abordagens podemos concluir que:

 

🔴 Progressistas. Tendem a ter um juízo moral negativo já nas premissas: a guerra aparece como desproporcional, imprudente e eticamente injustificável. Ela  não cumpre os critérios da DSI.

🔵 Conservadores → A DSi e o Catecismo da Igreja são usados para abrir uma avaliação rigorosa. Os critérios são exigentes e levam a concluir que provavelmente os critérios de guerra justa não são cumpridos.  

 

Uma convergência significativa. Ambas as correntes manifestam profundo ceticismo quanto à legitimidade moral de uma guerra contra o Irã nas condições concretas analisadas.

Apesar das diferenças é bom ver no debate a força da tradição católica. E a beleza de uma doutrina que exige, antes de tudo, e sempre, um juízo moral exigente, prudente e profundamente atento à realidade.

 

FONTES:

1.https://thewandererpress.com/a-leaven-in-the-world-dont-get-distracted-from-the-real-war/

É considerado conservador e tradicionalista.

 

2.https://wherepeteris.com/attacking-iran-fails-to-meet-catholic-just-war-teaching/

Atacar o Irã não está de acordo com o ensinamento católico da “guerra justa”.

 

3.https://www.thecatholicthing.org/2026/03/02/war-just-and-unjust/

 

The catholic thing é considerado conservador

 

Guerra, justa e injusta

 

 

4.https://www.ewtn.com/catholicism/library/conditions-of-a-just-war-11050

Condições de uma guerra justa

EWTN é considerado conservador crítico. Conforme artigo que escrevemos sobre as correntes na Igreja ele seria considerado um conservador resistente. National Catholic Register é deste grupo. Ele tem enorme alcance. Atinge mais de 100 milhões de pessoas.    

 

5.https://www.ncregister.com/cna/catholic-theologians-urge-trump-to-follow-just-war-doctrine-as-iran-conflict-continues

Teólogos católicos instam Trump a seguir a doutrina da guerra justa

 

Neste outro link você encontrará longo e interessante artigo do venerável Fulton Sheen sobre a guerra justa. É bem completo e com ótimos exemplos.

6.https://www.ewtn.com/catholicism/library/conditions-of-a-just-war-11050

Fulton Sheen. Condições de uma guerra justa

 

 

Observação: nos artigos sobre as guerras mencionamos três correntes teológicas que existem no interior da igreja. Caso queira entender melhor cada uma delas veja o que escrevi em meu site claravalcister:

1.https://www.claravalcister.com/igreja/correntes-doutrinarias-dentro-da-igreja-1/

Aborda também o tradicionalismo e o sedevacantismo

17 de julho de 2020

2.https://www.claravalcister.com/igreja/correntes-doutrinarias-dentro-da-igreja-2-os-conservadores/

02 de agosto de 2020

 

3.https://www.claravalcister.com/igreja/correntes-teologicas-na-igreja-3-os-conservadores-resistentes-parte-1/

10 de outubro de 2020

 

4.https://www.claravalcister.com/igreja/correntes-teologicas-na-igreja-3-dissidencia-conservadora-e-resistencia-parte-2/

10 de outubro de 2020

 

5.https://www.claravalcister.com/historia-da-igreja/correntes-ideologicas-na-igreja-4-o-progressismo/

13 de janeiro de 2021

 

6.Ainda pode ser feito um juízo da guerra a partir da perspectiva protestante, muçulmana e da ética judaica. Especialmente nesta há muita coisa a ser vista. Vou publicar depois.

No próximo artigo, para descansarmos um pouco do tema, explanarei a visão de Trump sobre os EUA. Com base em palestra de J. Vance.

 

domingo, 26 de abril de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA TERRORISMO. VIOLÊNCIA - 3

 

GUERRA DO IRÃ NA PERSPECTIVA DA MÍDIA CATÓLICA

 


Valter de Oliveira

 

No final do último artigo aqui postado em 17 de abril p.p. prometemos mostrar o que diversos analistas políticos pensam sobre as alegações das partes envolvidas na Guerra do Irã. Melhor dizendo, o que pensam sobre as alegações de Trump e Netaniahu para desencadeá-la. Veremos as motivações da guerra, os objetivos pretendidos, as perspectivas do pós-guerra e o modo como está sendo realizada. Tudo para se tentar chegar à conclusão se os requisitos para que a guerra seja justa estão sendo cumpridos.

1.    Autoridade soberana. Vimos que um primeiro ponto a ser observado é se a guerra é feita por quem tem autoridade. No caso autoridade soberana. Ninguém colocou isso em causa. É óbvio que EUA e Israel são Estados soberanos. O Irã também, pois assim é considerado pela comunidade das nações. É membro da ONU. Não são apenas Estados democráticos, que respeitam direitos humanos, que fazem parte dela. 

2.   A causa justa exige que entendamos as motivações da guerra e os objetivos pretendidos. Causa que pode perder seu valor se o modo como a guerra for realizada deixar de cumprir uma série de pontos. Um deles é a proporcionalidade. Perspectivas do pós guerra devem ser consideradas. Não se podem esquecer os danos causados aos civis e, até mesmo, a males causados  a uma série de países. 

3.    Finalidade reta. Só teremos condições de analisar e concluir se a finalidade foi reta depois da análise concreta do que foi dito acima.Não é tão fácil. 

O que disse a mídia católica?

Em primeiro lugar esclareço que se considera mídia católica toda aquela que se considera como tal. Ela é reflexo do que acontece na Igreja onde há várias correntes. Lembremo-nos que por mais que não gostemos de uma ou outra, todas comparecem a eventos da Igreja. Cardeais de todas elas participam dos sínodos, aconselham os Papas e os escolhem em Conclave.

Aqui vou colocar o resultado de minha pesquisa de dezenas de artigos dessas diversas correntes. Em meus sites e blogs procuro adotar uma postura histórico-jornalística e, portanto, conforme a ética da mídia e da ciência histórica. Mais ainda, procuro atuar tendo como fontes a Doutrina Social da Igreja e o Direito Natural, entendido na linha de S. Tomás de Aquino. É uma postura que exige, também, abertura para que se veja todo o panorama da vida da Igreja e sua atuação no mundo. Enfim, procuro a objetividade, o que não implica em uma falsa neutralidade.

Dito isso passemos a ver o que escreveu a mídia católica sobre a guerra do Irã e, até mesmo, sobre a guerra moderna em si mesma. Veremos o resultado de análises de progressistas e conservadores.  Hoje veremos o que pensam os primeiros.

MIDIA PROGRESSISTA

Pontos comuns entre vários artigos nos órgãos abaixo.

(America Magazine, National Catholic Reporter, Instituto Humanitas Unisinos) (1)

Crítica moral e teológica: a guerra é injusta.

Em primeiro lugar porque lhe falta uma causa legítima, bem como intenção clara e respeito ao princípio da proporcionalidade;

Em segundo lugar enfatizam que guerras preventivas são moralmente problemáticas dentro da tradição católica. No caso concreto os EUA afirmam que era necessário atacar o Irã antes que ele se fortalecesse e produzisse armas nucleares. Ora, isso é contestado. Concluem que não há provas claras disso.

Alguns autores falam explicitamente em “fracasso moral” da intervenção.

Ênfase na diplomacia e no direito internacional

Os articulistas insistem ainda que é primordial negociar até o limite do possível. Se a guerra for iniciada deve-se logo procurar o cessar fogo e atuar de modo que muitas partes sejam ouvidas.

Trump recebe severas críticas porque as ações bélicas estariam sendo realizada sem aprovação do Congresso, respaldo da ONU, nem apoio de aliados. Na verdade, Trump não foi o único. Vários presidentes norte-americanos tomaram a mesma atitude. Há falhas no sistema norte-americano. (2)

Crítica às motivações políticas

Aqui a guerra é descrita como uma “aventura imprudente”, baseada em “justificativas frágeis ou falsas”

Os articulistas também lançam suspeitas sobre as motivações. Fala-se de interesses geopolíticos – sempre existem – ou questionam a influência de aliados. No caso, especialmente Israel. (3). Há artigos que relacionam os interesses de Netaniahu com o chamado sionismo cristão.

Por último destacam o que seria negativo no chamado “personalismo de liderança”. É a crítica não só ao estilo e personalidade de com suas ações imprevisíveis bem como a uma certa visão quase messiânica que ele teria de si mesmo. 

Apelo à memória histórica. O que a história nos ensina sobre intervenções anteriores?

Muitos artigos destacam este ponto. Cita-se o golpe de 1953, com apoio norte americano, que colocou o Xá Reza Pahlevi no poder. Depois, todas as outras guerras promovidas no Oriente Médio. O governo norte-americando teria feito acusações falsas, como as pretensas armas químicas do Iraque. Consideram que foram intervenções que fracassaram no sentido amplo.

Ideia central: as intervenções anteriores geraram mais instabilidade do que solução. 

Por tudo isso nada garante que agora será diferente.


Consequências humanitárias

Aqui entra-se em um ponto que é muito forte na Doutrina Social da Igreja e que tem sido manifestada claramente por papas recentes. Trata-se da preocupação com civis, com a população de um país. Rejeita-se a morte de milhares de inocentes, a destruição de escolas e hospitais, a fome e falta de remédios. Considera-se gravíssimos os deslocamentos forçados de populações inteiras. Como acontece no Líbano. Tal como em Gaza. 

Também se destaca que, por mais que uma guerra seja justa, o mais importante não é a vitória militar, mas sim uma “paz justa” (4)

Responsabilização pós-guerra  

Terminada uma guerra há responsabilizações. Claro que não acontece com todos os que agiram mal. Perdedores certamente são responsabilizados. Nem sempre com justiçã.

No caso da Guerra contra o Irã os que a provocaram injustamente deveriam ser responsabilizados. Como?

Alguns autores defendem:

Reparações internacionais;

Reconstrução do país atingido;

Responsabilização interna, ou seja, O Congresso e a lei dos EUA, bem como o Parlamento israelense deveria processar e punir, respectivamente, Trump e Netaniahu.

____________________________

Assustou-se? Possivelmente. Imagino até que queira me perguntar: “Essa mídia católica progressista não leva em conta os erros e crimes do governo do Iran?”

Levam, digo eu. Até bastante. Falam do assunto. Acreditam que também os governos devem estar sujeito a leis. Não se pode agir criminosamente contra bandidos. Mesmo os do crime organizado. Na mesma lógica Estados soberanos precisam atuar conforme a lei internacional e as diretrizes da ONU. 

Um exemplo: ditaduras latino-americanas afirmavam que lutavam contra o comunismo. Podemos acreditar, Mesmo assim isso não lhes dava o direito de torturar e matar quem usou armas para combatê-los.  Um erro não se combate com outro. O fim não justifica os meios. 

Os articulistas, lembremos, julgaram a guerra ao Irã conforme a doutrina católica. O critério dela é  ainda mais severo.

Naturalmente não queremos dizer que a análise deles não tem falhas. Podem ter várias. Estamos apenas sintetizando o que dizem.

Também não devemos cair no erro daqueles que afirmam que se um texto é progressista, ou de esquerda, tudo o que é dito é suspeito, falso ou distorcido. Na verdade, no caso em questão, as análises do progressistas têm vários pontos de afinidade com a mídia conservadora católica. Mais ainda, até com a tradicionalista. Por incrível que pareça.

É o que veremos no próximo artigo. 


Notas:

1.    America Magazine é um importante órgão dos jesuítas dos EUA. Vários de seus artigos são reproduzidos na revista Ihu unisinos, do Brasil. National Catholic Reporter (NCR) é amplamente reconhecido como uma publicação católica liberal ou progressista. Tem foco na justiça social, e defende reformas mais profundas na Igreja. Ihu unisinos é uma revista, um órgão transdisciplinar da  UNISINOS (Universidade jesuítica do RS),  cujo principal objetivo “é apontar novas questões para os grandes desafios de nossa época, a partir do humanismo social”. Muitos de seus artigos propõem profundas reformas na Igreja.

2.     Neste link você encontra um artigo que trata do assunto mais profundamente: 

https://constitutioncenter.org/blog/does-the-president-need-congress-to-approve-military-actions-in-iran

3.       Artigo de protestante batista que critica Trump e o sionismo cristão. Este é considerado por muitos como  fundamentalista. Tal sionismo defende que o Estado de Israel moderno é central para as profecias do Antigo Testamento e do livro do Apocalipse. Muitos consideram que o conflito e a soberania judaica no Levante são como pré-requisitos para a batalha final descrita no Apocalipse, o Armagedom.  No final da série vamos aprofundar o tema.

4.    Podemos citar como exemplo a Primeira Guerra Mundial. Depois dela tivemos o Tratado de Versalhes que impôs terrível punições à Áustria e Alemanha. O Papa Bento XV advertiu. Não foi ouvido. Tivemos uma paz injusta. E o estopim para a Segunda Guerra Mundial. que vai ser muito pior que a Primeira.

Fontes:

1.    America Magazine:”Contra uma guerra injusta e injustificada contra o Irã”. Editorial.

https://www.americamagazine.org/editorials/2026/03/02/trump-war-iran-catholic-unjust/

2.    America. “Resultados da Guerra com o Iran poderão ser piores do que a guerra com o Iraque.

https://www.americamagazine.org/news/2026/03/02/war-iran-catholic/

 

3.    America. A teoria da guerra justa justifica a guerra com o Irã? Debate entre vozes católicas.

https://www.americamagazine.org/politics-society/dispatches/2026/04/02/catholic-just-war-iran-debate-regis/

 

4.    National Catholic Reporter (NCR)

Guerra contra o Irã

https://www.ncronline.org/feature-series/war-iran/stories

 

5.    NCR. Arcebispo Broglio: guerra contra o Iran possivelmente não é justificável conforme o ensinamento católico.

 https://www.ncronline.org/news/archbishop-broglio-war-iran-likely-not-justified-under-catholic-teaching-legitimate-defense

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA - 2 -

O QUE É UMA GUERRA JUSTA?

Valter de Oliveira

Hoje, neste segundo artigo da série, ainda vamos tratar de conceitos, no caso, os princípios da Doutrina Social da Igreja (DSI) sobre guerra justa. Já tratei do assunto ao publicar artigo de Tom Griffin na Gazeta do Povo (1).

Ele explica que há três princípios elencados por S. Tomás para que uma guerra seja justa.


1. Autoridade soberana;

2. Causa justa;

3. intenção reta.

A Guerra do Irã, conclui Griffin, atende aos três requisitos. Logo, ela seria justa.

Contudo, ele mesmo reconhece que outros pontos elencados pela moral católica tornam mais difícil fazer uma afirmação tão peremptória. É preciso mais análise.  

Ele tem razão. É difícil termos elementos adequados para afirmarmos, com certeza, que uma guerra é justa. Um dos problemas é que são os atores envolvidos que nos passam as informações que precisamos. Esses atores estão mais ligados a visões geopolíticas ligadas a seus interesses. Não me parece que tenham presente a ética católica ao agir. Na verdade, em muitas ocasiões, parece-me que não estão nem mesmo respeitando leis internacionais que eles mesmos elaboraram e prometeram cumprir.

Para ficar mais claro o pensamento da Igreja passo a expor o que disse o Papa Francisco sobre o tema em uma entrevista ao voltar do Cazaquistão. Eu a escolhi porque vi que muitas pessoas que comentam o assunto criticam certos pronunciamentos do Vaticano afirmando que não seriam claros. Pode acontecer? Pode. Papas são seres humanos como todos nós. Podem cometer equívocos. Na história da Igreja vemos até graves erros que alguns praticaram. Mas isso é desviar o assunto. O que nos importa aqui é o que a Igreja sempre ensinou. Aqui, no pronunciamento escolhido, a explicação do Santo Padre prima pela clareza e esclarece de modo perfeito o ensinamento da Igreja sobre a guerra.

Segue o artigo.

O Papa Francisco, as armas, o patriotismo e a guerra justa 

Vanderlei de Lima - publicado em 06/11/22 

A Igreja anuncia e promove a paz. Diz não ao acúmulo de armas, condena, de modo muito especial, as armas de destruição de massa. Entenda:

Rudiger Kronthaler, jornalista alemão, fez ao Papa Francisco, no voo da sua viagem de volta do Casaquistão, em 15/09 último, uma pergunta sobre armas, guerra justa e legítima defesa (cf. Zenit, espanhol, 15/09/2022). Dado serem temas pouco abordados – ou tratados de modo errôneo – à luz da moral católica, dedicamos-lhes o presente artigo.

Indaga o jornalista: “Aprendemos na escola que nunca há de se usar armas, nunca a violência: a única exceção é a autodefesa. Na sua opinião, neste momento a Ucrânia deveria receber armas?”.

O Santo Padre deu-lhe uma longa resposta, mas o trecho principal é, a nosso ver, o que segue:

“Essa é uma decisão política, que pode ser moral, moralmente aceita, se for tomada de acordo com as condições da moral, que são muitas, e aí podemos falar sobre isso. Mas pode ser imoral se for feita com a intenção de causar mais guerras ou de vender armas ou de descartar aquelas que já não preciso mais. A motivação é o que qualifica em grande medida a moralidade desse ato. Defender-se não é apenas lícito, mas também uma expressão de amor à pátria. Quem não se defende, quem não defende algo, não o ama, enquanto aquele que defende, ama. [...] Deveria se refletir mais sobre o conceito de guerra justa”.

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Reflitamos, pois!

O articulista de Aletéia faz, então, uma ótima síntese do pensamento católico

“A Igreja anuncia e promove a paz. Diz não ao acúmulo de armas, condena, de modo muito especial, as armas de destruição de massa, ou seja, as biológicas, químicas e nucleares, o tráfico armamentístico, deplora o uso de crianças e adolescentes como soldados em conflitos armados e o terrorismo. Este, se justificado “em nome de Deus”, torna-se blasfemo (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja n. 508-515, e Catecismo da Igreja Católica n. 2302-2306 e 2313-2317).

Todavia, num mundo que não é o paraíso terrestre, há agressões injustas de nação a nação e isso exige o direito natural, moral e legal à legítima defesa (cf. Gaudium et spes n. 79,4). Daí a razão de cada país ter suas Forças Armadas à serviço da pátria (cf. Gaudium et spes n. 79,5, e Catecismo da Igreja Católica n. 2265). É a guerra justa da qual fala o Papa. Dois grandes doutores da Igreja, Santo Ambrósio de Milão († 397) e Santo Agostinho de Hipona († 430), embora nunca deixassem de exaltar o primado do amor na vida cristã, julgavam admissível que os cristãos ajudassem a defender (ou defendessem) o bem comum, inclusive derramando o próprio sangue em combate. Os dois grandes santos, no entanto, faziam uma importantíssima ressalva: a guerra tem de ser justa. 

São Tomás de Aquino IA

Coube, no entanto, a São Tomás de Aquino († 1274), gênio da Idade Média, elaborar alguns pontos imprescindíveis para que uma guerra fosse considerada justa: Deve ser declarada por uma autoridade legítima que tenha motivos justos para fazer a declaração. Deve recorrer unicamente a meios justos e menos malévolos do que o mal a ser combatido. Deve ter razoável probabilidade de êxito que seja capaz de compensar os sacrifícios empreendidos nas batalhas. Deve poupar, em combate, a vida de inocentes ou de não combatentes. Deve o clero ficar ausente da luta armada (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2309, e Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 500).

O quarto mandamento da Lei de Deus – honrar pai e mãe (cf. Ex 20,12) – trata também do sadio patriotismo ao preceituar o respeito a toda autoridade legítima e a justa colaboração com ela, inclusive na defesa do país. Chama-nos ainda a rezar pelos que exercem autoridade (1Tm 2,2; cf. Catecismo da Igreja Católica n. 2199 e 2238-2240).

Mais: toda pessoa tem o direito (e as legítimas autoridades o dever) de se defender, inclusive com o uso de armas, do injusto agressor. Caso este morra, a culpa por sua morte não recai sobre quem lhe desferiu o golpe fatal, mas sobre o próprio morto que, na condição de agressor injusto, buscou o seu trágico fim neste mundo (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2263-2266, e Evangelium vitae, n. 55).

Eis as reflexões suscitadas pela fala do Santo Padre, o Papa Francisco. Ela desperta alegria aos cidadãos de bem num tempo de glamourização de criminosos de todo tipo!

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Terminamos por aqui. No próximo artigo veremos, em concreto, o que diversos analistas pensam sobre as alegações das partes envolvidas. Veremos as motivações da guerra, os objetivos pretendidos, as perspectivas do pós guerra, o modo como está sendo realizada. Penso que o  amigo leitor pode ter algumas surpresas.


Notas e fontes: 

1. https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/quando-guerra-justa-ofensiva-contra-ira-doutrina-catolica/  - 02.03.2026.

2. https://pt.aleteia.org/2022/11/06/o-papa-francisco-as-armas-o-patriotismo-e-a-guerra-justa/

3Os destaques em negrito são do blog olivereduc 



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