domingo, 26 de abril de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA TERRORISMO. VIOLÊNCIA - 3

 

GUERRA DO IRÃ NA PERSPECTIVA DA MÍDIA CATÓLICA

 


Valter de Oliveira

 

No final do último artigo aqui postado em 17 de abril p.p. prometemos mostrar o que diversos analistas políticos pensam sobre as alegações das partes envolvidas na Guerra do Irã. Melhor dizendo, o que pensam sobre as alegações de Trump e Netaniahu para desencadeá-la. Veremos as motivações da guerra, os objetivos pretendidos, as perspectivas do pós-guerra e o modo como está sendo realizada. Tudo para se tentar chegar à conclusão se os requisitos para que a guerra seja justa estão sendo cumpridos.

1.    Autoridade soberana. Vimos que um primeiro ponto a ser observado é se a guerra é feita por quem tem autoridade. No caso autoridade soberana. Ninguém colocou isso em causa. É óbvio que EUA e Israel são Estados soberanos. O Irã também, pois assim é considerado pela comunidade das nações. É membro da ONU. Não são apenas Estados democráticos, que respeitam direitos humanos, que fazem parte dela. 

2.   A causa justa exige que entendamos as motivações da guerra e os objetivos pretendidos. Causa que pode perder seu valor se o modo como a guerra for realizada deixar de cumprir uma série de pontos. Um deles é a proporcionalidade. Perspectivas do pós guerra devem ser consideradas. Não se podem esquecer os danos causados aos civis e, até mesmo, a males causados  a uma série de países. 

3.    Finalidade reta. Só teremos condições de analisar e concluir se a finalidade foi reta depois da análise concreta do que foi dito acima.Não é tão fácil. 

O que disse a mídia católica?

Em primeiro lugar esclareço que se considera mídia católica toda aquela que se considera como tal. Ela é reflexo do que acontece na Igreja onde há várias correntes. Lembremo-nos que por mais que não gostemos de uma ou outra, todas comparecem a eventos da Igreja. Cardeais de todas elas participam dos sínodos, aconselham os Papas e os escolhem em Conclave.

Aqui vou colocar o resultado de minha pesquisa de dezenas de artigos dessas diversas correntes. Em meus sites e blogs procuro adotar uma postura histórico-jornalística e, portanto, conforme a ética da mídia e da ciência histórica. Mais ainda, procuro atuar tendo como fontes a Doutrina Social da Igreja e o Direito Natural, entendido na linha de S. Tomás de Aquino. É uma postura que exige, também, abertura para que se veja todo o panorama da vida da Igreja e sua atuação no mundo. Enfim, procuro a objetividade, o que não implica em uma falsa neutralidade.

Dito isso passemos a ver o que escreveu a mídia católica sobre a guerra do Irã e, até mesmo, sobre a guerra moderna em si mesma. Veremos o resultado de análises de progressistas e conservadores.  Hoje veremos o que pensam os primeiros.

MIDIA PROGRESSISTA

Pontos comuns entre vários artigos nos órgãos abaixo.

(America Magazine, National Catholic Reporter, Instituto Humanitas Unisinos) (1)

Crítica moral e teológica: a guerra é injusta.

Em primeiro lugar porque lhe falta uma causa legítima, bem como intenção clara e respeito ao princípio da proporcionalidade;

Em segundo lugar enfatizam que guerras preventivas são moralmente problemáticas dentro da tradição católica. No caso concreto os EUA afirmam que era necessário atacar o Irã antes que ele se fortalecesse e produzisse armas nucleares. Ora, isso é contestado. Concluem que não há provas claras disso.

Alguns autores falam explicitamente em “fracasso moral” da intervenção.

Ênfase na diplomacia e no direito internacional

Os articulistas insistem ainda que é primordial negociar até o limite do possível. Se a guerra for iniciada deve-se logo procurar o cessar fogo e atuar de modo que muitas partes sejam ouvidas.

Trump recebe severas críticas porque as ações bélicas estariam sendo realizada sem aprovação do Congresso, respaldo da ONU, nem apoio de aliados. Na verdade, Trump não foi o único. Vários presidentes norte-americanos tomaram a mesma atitude. Há falhas no sistema norte-americano. (2)

Crítica às motivações políticas

Aqui a guerra é descrita como uma “aventura imprudente”, baseada em “justificativas frágeis ou falsas”

Os articulistas também lançam suspeitas sobre as motivações. Fala-se de interesses geopolíticos – sempre existem – ou questionam a influência de aliados. No caso, especialmente Israel. (3). Há artigos que relacionam os interesses de Netaniahu com o chamado sionismo cristão.

Por último destacam o que seria negativo no chamado “personalismo de liderança”. É a crítica não só ao estilo e personalidade de com suas ações imprevisíveis bem como a uma certa visão quase messiânica que ele teria de si mesmo. 

Apelo à memória histórica. O que a história nos ensina sobre intervenções anteriores?

Muitos artigos destacam este ponto. Cita-se o golpe de 1953, com apoio norte americano, que colocou o Xá Reza Pahlevi no poder. Depois, todas as outras guerras promovidas no Oriente Médio. O governo norte-americando teria feito acusações falsas, como as pretensas armas químicas do Iraque. Consideram que foram intervenções que fracassaram no sentido amplo.

Ideia central: as intervenções anteriores geraram mais instabilidade do que solução. 

Por tudo isso nada garante que agora será diferente.


Consequências humanitárias

Aqui entra-se em um ponto que é muito forte na Doutrina Social da Igreja e que tem sido manifestada claramente por papas recentes. Trata-se da preocupação com civis, com a população de um país. Rejeita-se a morte de milhares de inocentes, a destruição de escolas e hospitais, a fome e falta de remédios. Considera-se gravíssimos os deslocamentos forçados de populações inteiras. Como acontece no Líbano. Tal como em Gaza. 

Também se destaca que, por mais que uma guerra seja justa, o mais importante não é a vitória militar, mas sim uma “paz justa” (4)

Responsabilização pós-guerra  

Terminada uma guerra há responsabilizações. Claro que não acontece com todos os que agiram mal. Perdedores certamente são responsabilizados. Nem sempre com justiçã.

No caso da Guerra contra o Irã os que a provocaram injustamente deveriam ser responsabilizados. Como?

Alguns autores defendem:

Reparações internacionais;

Reconstrução do país atingido;

Responsabilização interna, ou seja, O Congresso e a lei dos EUA, bem como o Parlamento israelense deveria processar e punir, respectivamente, Trump e Netaniahu.

____________________________

Assustou-se? Possivelmente. Imagino até que queira me perguntar: “Essa mídia católica progressista não leva em conta os erros e crimes do governo do Iran?”

Levam, digo eu. Até bastante. Falam do assunto. Acreditam que também os governos devem estar sujeito a leis. Não se pode agir criminosamente contra bandidos. Mesmo os do crime organizado. Na mesma lógica Estados soberanos precisam atuar conforme a lei internacional e as diretrizes da ONU. 

Um exemplo: ditaduras latino-americanas afirmavam que lutavam contra o comunismo. Podemos acreditar, Mesmo assim isso não lhes dava o direito de torturar e matar quem usou armas para combatê-los.  Um erro não se combate com outro. O fim não justifica os meios. 

Os articulistas, lembremos, julgaram a guerra ao Irã conforme a doutrina católica. O critério dela é  ainda mais severo.

Naturalmente não queremos dizer que a análise deles não tem falhas. Podem ter várias. Estamos apenas sintetizando o que dizem.

Também não devemos cair no erro daqueles que afirmam que se um texto é progressista, ou de esquerda, tudo o que é dito é suspeito, falso ou distorcido. Na verdade, no caso em questão, as análises do progressistas têm vários pontos de afinidade com a mídia conservadora católica. Mais ainda, até com a tradicionalista. Por incrível que pareça.

É o que veremos no próximo artigo. 


Notas:

1.    America Magazine é um importante órgão dos jesuítas dos EUA. Vários de seus artigos são reproduzidos na revista Ihu unisinos, do Brasil. National Catholic Reporter (NCR) é amplamente reconhecido como uma publicação católica liberal ou progressista. Tem foco na justiça social, e defende reformas mais profundas na Igreja. Ihu unisinos é uma revista, um órgão transdisciplinar da  UNISINOS (Universidade jesuítica do RS),  cujo principal objetivo “é apontar novas questões para os grandes desafios de nossa época, a partir do humanismo social”. Muitos de seus artigos propõem profundas reformas na Igreja.

2.     Neste link você encontra um artigo que trata do assunto mais profundamente: 

https://constitutioncenter.org/blog/does-the-president-need-congress-to-approve-military-actions-in-iran

3.       Artigo de protestante batista que critica Trump e o sionismo cristão. Este é considerado por muitos como  fundamentalista. Tal sionismo defende que o Estado de Israel moderno é central para as profecias do Antigo Testamento e do livro do Apocalipse. Muitos consideram que o conflito e a soberania judaica no Levante são como pré-requisitos para a batalha final descrita no Apocalipse, o Armagedom.  No final da série vamos aprofundar o tema.

4.    Podemos citar como exemplo a Primeira Guerra Mundial. Depois dela tivemos o Tratado de Versalhes que impôs terrível punições à Áustria e Alemanha. O Papa Bento XV advertiu. Não foi ouvido. Tivemos uma paz injusta. E o estopim para a Segunda Guerra Mundial. que vai ser muito pior que a Primeira.

Fontes:

1.    America Magazine:”Contra uma guerra injusta e injustificada contra o Irã”. Editorial.

https://www.americamagazine.org/editorials/2026/03/02/trump-war-iran-catholic-unjust/

2.    America. “Resultados da Guerra com o Iran poderão ser piores do que a guerra com o Iraque.

https://www.americamagazine.org/news/2026/03/02/war-iran-catholic/

 

3.    America. A teoria da guerra justa justifica a guerra com o Irã? Debate entre vozes católicas.

https://www.americamagazine.org/politics-society/dispatches/2026/04/02/catholic-just-war-iran-debate-regis/

 

4.    National Catholic Reporter (NCR)

Guerra contra o Irã

https://www.ncronline.org/feature-series/war-iran/stories

 

5.    NCR. Arcebispo Broglio: guerra contra o Iran possivelmente não é justificável conforme o ensinamento católico.

 https://www.ncronline.org/news/archbishop-broglio-war-iran-likely-not-justified-under-catholic-teaching-legitimate-defense

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA - 2 -

O QUE É UMA GUERRA JUSTA?

Valter de Oliveira

Hoje, neste segundo artigo da série, ainda vamos tratar de conceitos, no caso, os princípios da Doutrina Social da Igreja (DSI) sobre guerra justa. Já tratei do assunto ao publicar artigo de Tom Griffin na Gazeta do Povo (1).

Ele explica que há três princípios elencados por S. Tomás para que uma guerra seja justa.


1. Autoridade soberana;

2. Causa justa;

3. intenção reta.

A Guerra do Irã, conclui Griffin, atende aos três requisitos. Logo, ela seria justa.

Contudo, ele mesmo reconhece que outros pontos elencados pela moral católica tornam mais difícil fazer uma afirmação tão peremptória. É preciso mais análise.  

Ele tem razão. É difícil termos elementos adequados para afirmarmos, com certeza, que uma guerra é justa. Um dos problemas é que são os atores envolvidos que nos passam as informações que precisamos. Esses atores estão mais ligados a visões geopolíticas ligadas a seus interesses. Não me parece que tenham presente a ética católica ao agir. Na verdade, em muitas ocasiões, parece-me que não estão nem mesmo respeitando leis internacionais que eles mesmos elaboraram e prometeram cumprir.

Para ficar mais claro o pensamento da Igreja passo a expor o que disse o Papa Francisco sobre o tema em uma entrevista ao voltar do Cazaquistão. Eu a escolhi porque vi que muitas pessoas que comentam o assunto criticam certos pronunciamentos do Vaticano afirmando que não seriam claros. Pode acontecer? Pode. Papas são seres humanos como todos nós. Podem cometer equívocos. Na história da Igreja vemos até graves erros que alguns praticaram. Mas isso é desviar o assunto. O que nos importa aqui é o que a Igreja sempre ensinou. Aqui, no pronunciamento escolhido, a explicação do Santo Padre prima pela clareza e esclarece de modo perfeito o ensinamento da Igreja sobre a guerra.

Segue o artigo.

O Papa Francisco, as armas, o patriotismo e a guerra justa 

Vanderlei de Lima - publicado em 06/11/22 

A Igreja anuncia e promove a paz. Diz não ao acúmulo de armas, condena, de modo muito especial, as armas de destruição de massa. Entenda:

Rudiger Kronthaler, jornalista alemão, fez ao Papa Francisco, no voo da sua viagem de volta do Casaquistão, em 15/09 último, uma pergunta sobre armas, guerra justa e legítima defesa (cf. Zenit, espanhol, 15/09/2022). Dado serem temas pouco abordados – ou tratados de modo errôneo – à luz da moral católica, dedicamos-lhes o presente artigo.

Indaga o jornalista: “Aprendemos na escola que nunca há de se usar armas, nunca a violência: a única exceção é a autodefesa. Na sua opinião, neste momento a Ucrânia deveria receber armas?”.

O Santo Padre deu-lhe uma longa resposta, mas o trecho principal é, a nosso ver, o que segue:

“Essa é uma decisão política, que pode ser moral, moralmente aceita, se for tomada de acordo com as condições da moral, que são muitas, e aí podemos falar sobre isso. Mas pode ser imoral se for feita com a intenção de causar mais guerras ou de vender armas ou de descartar aquelas que já não preciso mais. A motivação é o que qualifica em grande medida a moralidade desse ato. Defender-se não é apenas lícito, mas também uma expressão de amor à pátria. Quem não se defende, quem não defende algo, não o ama, enquanto aquele que defende, ama. [...] Deveria se refletir mais sobre o conceito de guerra justa”.

______________________

Reflitamos, pois!

O articulista de Aletéia faz, então, uma ótima síntese do pensamento católico

“A Igreja anuncia e promove a paz. Diz não ao acúmulo de armas, condena, de modo muito especial, as armas de destruição de massa, ou seja, as biológicas, químicas e nucleares, o tráfico armamentístico, deplora o uso de crianças e adolescentes como soldados em conflitos armados e o terrorismo. Este, se justificado “em nome de Deus”, torna-se blasfemo (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja n. 508-515, e Catecismo da Igreja Católica n. 2302-2306 e 2313-2317).

Todavia, num mundo que não é o paraíso terrestre, há agressões injustas de nação a nação e isso exige o direito natural, moral e legal à legítima defesa (cf. Gaudium et spes n. 79,4). Daí a razão de cada país ter suas Forças Armadas à serviço da pátria (cf. Gaudium et spes n. 79,5, e Catecismo da Igreja Católica n. 2265). É a guerra justa da qual fala o Papa. Dois grandes doutores da Igreja, Santo Ambrósio de Milão († 397) e Santo Agostinho de Hipona († 430), embora nunca deixassem de exaltar o primado do amor na vida cristã, julgavam admissível que os cristãos ajudassem a defender (ou defendessem) o bem comum, inclusive derramando o próprio sangue em combate. Os dois grandes santos, no entanto, faziam uma importantíssima ressalva: a guerra tem de ser justa. 

São Tomás de Aquino IA

Coube, no entanto, a São Tomás de Aquino († 1274), gênio da Idade Média, elaborar alguns pontos imprescindíveis para que uma guerra fosse considerada justa: Deve ser declarada por uma autoridade legítima que tenha motivos justos para fazer a declaração. Deve recorrer unicamente a meios justos e menos malévolos do que o mal a ser combatido. Deve ter razoável probabilidade de êxito que seja capaz de compensar os sacrifícios empreendidos nas batalhas. Deve poupar, em combate, a vida de inocentes ou de não combatentes. Deve o clero ficar ausente da luta armada (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2309, e Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 500).

O quarto mandamento da Lei de Deus – honrar pai e mãe (cf. Ex 20,12) – trata também do sadio patriotismo ao preceituar o respeito a toda autoridade legítima e a justa colaboração com ela, inclusive na defesa do país. Chama-nos ainda a rezar pelos que exercem autoridade (1Tm 2,2; cf. Catecismo da Igreja Católica n. 2199 e 2238-2240).

Mais: toda pessoa tem o direito (e as legítimas autoridades o dever) de se defender, inclusive com o uso de armas, do injusto agressor. Caso este morra, a culpa por sua morte não recai sobre quem lhe desferiu o golpe fatal, mas sobre o próprio morto que, na condição de agressor injusto, buscou o seu trágico fim neste mundo (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2263-2266, e Evangelium vitae, n. 55).

Eis as reflexões suscitadas pela fala do Santo Padre, o Papa Francisco. Ela desperta alegria aos cidadãos de bem num tempo de glamourização de criminosos de todo tipo!

_________________________


Terminamos por aqui. No próximo artigo veremos, em concreto, o que diversos analistas pensam sobre as alegações das partes envolvidas. Veremos as motivações da guerra, os objetivos pretendidos, as perspectivas do pós guerra, o modo como está sendo realizada. Penso que o  amigo leitor pode ter algumas surpresas.


Notas e fontes: 

1. https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/quando-guerra-justa-ofensiva-contra-ira-doutrina-catolica/  - 02.03.2026.

2. https://pt.aleteia.org/2022/11/06/o-papa-francisco-as-armas-o-patriotismo-e-a-guerra-justa/

3Os destaques em negrito são do blog olivereduc 



1.  



quinta-feira, 16 de abril de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA (DSI). POLÍTICA. GUERRA JUSTA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA. - 1 -

 

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA (DSI)

POLÍTICA. GUERRA JUSTA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA – 1 –

Valter de Oliveira

1.   Introdução

 

Iniciamos hoje uma série de artigos expondo a Doutrina Social da Igreja sobre política, guerra, terrorismo e violência. O tema é não só importante, mas necessário. Há muita confusão sobre o assunto. Basta vermos os debates ocorridos a propósito do confronto entre as afirmações do Papa Leão XIV sobre a guerra EUA-Israel contra o Irã e a reação do presidente Donald Trump e seus seguidores.

No debate até católicos mais conhecedores da doutrina da Igreja têm se equivocado. Por várias razões.

Para procurarmos esclarecer melhor as questões julgamos conveniente dar uma síntese do que a Igreja afirma sobre política. Implica em entendermos quem é o homem, a sociedade, o Estado e o papel dos governantes. Também como a Igreja deve se pronunciar e agir diante dos mais variados problemas da sociedade

2.    A política é uma atividade nobre e necessária

Conforme o ensinamento da Igreja Católica a política é uma vocação nobre e um dever para os fiéis, pois ela visa o bem comum e a organização da sociedade sob princípios éticos e morais. É o que veremos com a citação de conceitos encontrados no Catecismo da Igreja Católica (CIC) e no Compêndio da Doutrina Social da Igreja (CDSI).

1. Catecismo da Igreja Católica (CIC)

A política como busca do bem comum: "É necessário que todos participem, segundo a sua posição e o seu papel, na promoção do bem comum. Esta obrigação é inseparável da dignidade da pessoa humana" (CIC 1913-1914).

A nobreza da política: A Igreja reconhece como "justa e louvável a ação daqueles que, dedicando-se ao serviço da nação, assumem o peso do bem de todos e aceitam o encargo de tal trabalho" (CIC 2239). Isso deveria nortear a ação de todo agente político em sua atuação nos três poderes modernos conforme Montesquieu (Executivo, Legislativo, Judiciário). Infelizmente sabemos que muitos, entre nossos dirigentes, estão longe disso. Mal diante do qual não devemos desanimar. Muito pelo contrário.

O dever de participar: "A participação de todos na vida política é um dever cívico e, ao mesmo tempo, um elemento integrante da dignidade da pessoa humana" (CIC 1915).

A função do Estado: A comunidade política tem por finalidade "a busca do bem comum, a qual é a razão de ser da autoridade" (CIC 1905-1906).

Limites da autoridade: "A Igreja, em virtude de sua missão e competência, não se confunde de modo algum com a comunidade política... A Igreja respeita e encoraja a liberdade política e a responsabilidade dos cidadãos" (CIC 2244).

2. Doutrina Social da Igreja (Compêndio)

Política como caridade (Papa Francisco/Magistério): A política é "uma das formas mais elevadas da caridade, porque procura o bem comum" (Princípio amplamente reafirmado, refletido no CDSI 408).

Vocação à justiça: A Doutrina Social da Igreja é uma "verdadeira e própria doutrina que se desenvolveu no século XIX... uma parte integrante do ministério de evangelização da Igreja" para promover a justiça e o bem comum (CDSI 66).

Participação dos leigos: "A iniciativa dos cristãos leigos é particularmente necessária quando se trata de descobrir, de inventar meios para impregnar com as exigências da doutrina e da vida cristã as realidades sociais, políticas e econômicas" (CDSI 547).

Ética na política: "A política é uma gestão da liberdade... Toda democracia deve ser participativa" (CDSI 406).

A família e a política: "A política deve servir à família" e proteger os direitos da família e a dignidade humana, sendo a política a "célula vital da sociedade" (CDSI 252).

Pontos Chave:


Participação:
O cristão não pode ser alheio à política (cidadania ativa).Em concreto não pode cruzar os braços se pode, dentro de suas possibilidades,  fazer o bem ou pelo menos evitar um mal maior.

Bem Comum: O objetivo central da política.

Ética: A lei moral deve nortear as escolhas políticas. Na verdade, nossa liberdade em todas as ações humanas deve ser conforme a lei moral. Para um católico implica em seguir a Lei Eterna, a lei natural e a Lei Revelada. Já um governante, mesmo pagão ou sem fé, não é senhor da lei. Ele também deve ser submetido à lei. No mínimo à lei natural. Concretamente, também ao costume ou à lei positiva (legislada e escrita) que sejam conformes à justiça.

Defesa da Vida: A política deve proteger a dignidade humana do início ao fim natural.

------------------

Aqui estão princípios gerais que devem ser seguidos com fidelidade e amor por todo católico. Acreditamos, firmemente, que podem ser entendidos e até apoiados por toda pessoa que procure a verdade e o bem do ser humano. Afinal eles estão baseados não só no Evangelho mas também em muitos outros valores que foram incorporados durante séculos em nossa cultura e oriundos de vários povos. 

Na sequência veremos como aplicar os princípios acima ao tema da guerra, da violência e do terrorismo bem como deveriam ser as corretas relações entre o Estado e a Igreja. 

Aí procurarei demonstrar porque há tanta confusão sobre o assunto. 


Nota: Imagens IA



domingo, 25 de janeiro de 2026

AUMENTO DO PISO SALARIAL DOS PROFESSORES E IMPOSTO DE RENDA

 Uma questão de ética.


Valter de Oliveira


1. Introdução

Depois de enfrentar dificuldades com o Congresso Nacional Lula conseguiu aprovar seu projeto de corrigir a tabela do Imposto de Renda (I.R.). Um problema: com isso o governo perderia receita. Solução? Cobrar mais dos mais ricos. 

A proposta tinha um lado legítimo: acabar com o congelamento da tabela, pois os mais pobres e a classe média estavam sendo prejudicados. Quanto a isso todos concordaram. Afinal, como é sabido, o congelamento da tabela significava um roubo dos assalariados e pensionistas, que tinham desconto na fonte. Em suma, a correção era e é não só justa, mas também necessária. Aliás, a correção deveria ser automática, anualmente.

 Já em 2018, em plena campanha eleitoral, Bolsonaro defendeu a correção. A Globo informou:

"Bolsonaro defendeu a proposta de seu principal assessor econômico, Paulo Guedes, que isenta do Imposto de Renda quem ganha até cinco salários mínimos. Pela proposta, para quem ganha acima disso, será colocada uma alíquota única de 20%.

"A proposta de Paulo Guedes do Imposto de Renda, eu até falei: "Você está sendo ousado". A proposta dele é a seguinte: quem ganha até cinco salários mínimos não paga imposto de renda. E, dalí para a frente, uma alíquota única de 20%", disse o presidenciável" (1). 

Infelizmente tal reajuste não ocorreu. Pior para todos nós, assalariados e pensionistas. Nosso poder de compra continuou sendo corroído.

O que houve? 

Pandemia? Obstáculos estruturais de nossa economia? Oposição e perseguição feroz que dificultou a  governabilidade? Falhas do próprio governo? Muito foi discutido sobre isso. Talvez tema para outro artigo. 

De qualquer maneira o que importa notar é que Lula, na campanha de 2022 percebeu que a promessa da correção da tabela do I.R. poderia favorecer sua campanha. Venceu. Por muito pouco.

Assumindo a Presidência, Lula procurou efetivar o que prometera. Complicado para ele porque nosso Estado é muito inchado, falta dinheiro para efetivar projetos. Ora, a correção da tabela provocaria uma perda superior a 20 bilhões de reais por ano. Como seu governo não quer cortar despesas a única alternativa seria taxar os mais ricos. 

Depois de acordo com o Congresso a tabela foi corrigida. Tal como prometera: isenção para quem ganha até R$ 5.000,00. O Centrão e até a oposição bolsonarista aprovaram. Mesmo mantendo críticas que já existiam durante o trâmite do projeto. Todos consideraram que não era o ideal, mas já era um bom passo em favor da justiça tributária (2).

Bom lembrar que o marketing de Lula, de olho na eleição de 2026, apresenta a aprovação do projeto como um grande feito pessoal do presidente. É assim que está sendo apresentado e como vai aparecer durante a campanha eleitoral. Afinal, só Lulinha se preocupa com os pobres...

Nada honesto, não é mesmo?

Passemos para outro ponto.

2. O Piso Salarial Nacional dos Professores. 

Cabe ao presidente da República, como estabelece a lei, estabelecer o piso salarial para professores das escolas municipais, estaduais e federais.

Devido aos crescentes gastos do governo, Lula pensou em dar ao professores um reajuste irrisório. A reação foi forte. Teve que retroceder. O que fêz? Editou uma Medida Provisória (MP 1.294/2025) reajustando em 5,4%  o piso salarial do magistério para o ano de 2026. Com a medida o piso passou de R$ 4.867,77 para R$ 5.130, 63.

Aí começou o imbroglio. 

Certos adversários do governo começaram a fazer posts afirmando que o governo petista, ao fazer isso, pouco ou nada ajudava os professores que ganhavam um pouco mais de R$ 5.000,00. O que dera com uma mão, retirava com a outra. Os professores estariam sendo enganados. Iriam pagar mais imposto de renda.

Verdade? 

Desconfiei. Sempre foi dito que o congelamento da tabela do IR era prejudicial a aposentados e pensionistas. Assim, ainda que o reajuste aprovado não tenha coberto tudo o que foi perdido durante vários anos, o reajuste era razoável. Não fosse assim, como disse, não se compreende como até bolsonaristas tenham aprovado a medida.

Fiz várias pesquisas que demonstram que as postagens eram fake. (3) Na verdade, o projeto foi bom para quem ganha até R$ 5.000,00, razoável para quem ganha até 7 mil.  Pouco ou nada vão ganhar os que recebem mais do que isso mensalmente. Por isso a proposta de Bolsonaro era muito melhor pois estabelecia que, em valores atuais, a isençao seria para quem ganha até R$ 7.590,00.

Fica a pergunta? Por que mentir sobre o adversário político?

Certamente porque quem inventa a notícia acredita que sua propagação desgasta o governo. Ora, como o governo é mau, desgastá-lo seria um bem.

Raciocínio de quem não tem nenhum compromisso com a ética. 

A ética verdadeira não permite que se use a mentira para combater quem quer que seja. Quem assim age segue uma "ética" revolucionária pela qual a procura do poder ou sua manutenção é o mais importante. Agir assim é cair no maquiavelismo, no relativismo, ou na ética marxista que considera ético tudo o que favorece a vitória da causa socialista.  

Sei perfeitamente que muita gente boa propagou a notícia. Certamente não perceberam. Viram que a notícia era contra a esquerda que acreditam que deve ser combatida e a compartilharam. Não perceberam que alguém, não inocente, os estava manipulando. 

Quem defende a Doutrina Social da Igreja, como eu, sabe que em nenhuma circunstância devemos fazer uso da ética revolucionária, seja ela maquiavélica, nazista ou marxista. São simplesmente ideologias que se desvinculam da verdade e do bem. 

Nosso compromisso deve ser com  a verdade. 

Sempre!



_____________________

Notas:

1. Nota: 1. https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/09/24/bolsonaro-diz-que-se-eleito-nao-havera-espaco-para-indicacoes-politicas-nos-ministerios.ghtml

2. Artigos na Gazeta do Povo descrevem claramente as falhas do projeto apresentado por Lula mas reconheciam a necessidade e justiça do reajuste. Só um exemplo, de março de 2025, quando o projeto de descongelamento ainda não havia sido aprovado:

https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/fernando-jasper/em-alta-dez-anos-imposto-renda-continuara-subindo-excluidos-nova-isencao/

3. Exemplo de desmentido: https://meutudo.com.br/blog/noticias/2026/01/23/fato-ou-fake-imposto-vai-aumentar-para-professores-com-novo-piso-entenda/

O Estadão também desmente os fakes.