segunda-feira, 8 de junho de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA: POLÍTICA. GUERRA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA - 7 -

 

O BOMBARDEIO NO IRÁ É UMA HISTÓRIA RELIGIOSA PARA TODOS, EXCETO PARA UMA PESSOA.

 

Nota prévia do blog olivereduc: Vimos em postagens anteriores que todas as correntes católicas condenam o modo como Trump conduz a guerra contra o Irã. Hoje publicamos artigo no qual vemos dura crítica ao presidente por parte de um escritor batista que, ademais, mostra-se claramente contra o nacionalismo e o sionismo cristão.dos EUA. ,

Como já dissemos, todo o assunto é muito mais complexo do que aquilo que é apresentado na grande mídia.

No mundo real a visão maniqueísta de muita gente não tem nenhuma base na realidade.

O artigo de hoje, de Mark Wingfield, ajuda-nos a ver isso.

 ________________________________

Mark Wingfield

O1 de março de 2025

 

 

eu

Manifestantes saem às ruas de Manhattan em uma marcha da Times Square até o Columbus Circle contra os bombardeios dos EUA e de Israel ao Irã, no sábado, 28 de fevereiro.

"Quando os Estados Unidos e Israel bombardearam o Irã em 28 de fevereiro , as motivações e repercussões foram tanto religiosas quanto políticas.

Não podemos pensar no Irã como um Estado moderno desvinculado de suas raízes religiosas. E não podemos pensar na relação do presidente Donald Trump com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu sem considerar os laços religiosos que os unem.

Acrescente-se a isso o assassinato de Ali Hosseini Khamenei e a guerra escolhida por Trump assume o manto de Guerra Santa.

Imagine, por exemplo, se o Irã tivesse assassinado o papa.

 

“Imagine, por exemplo, se o Irã tivesse assassinado o papa.”

 

Não estou dizendo que o aiatolá era tão bondoso e benevolente quanto o Papa Leão XIV; ele não era. De fato, ele era um homem perverso que trouxe morte e perseguição a milhões. Mas ele era o líder religioso supremo de uma nação soberana.

Considerando a guerra ideológica que os republicanos dos EUA estão travando atualmente contra até mesmo muçulmanos pacíficos — veja os exemplos no Texas e na Flórida — é difícil ignorar a dimensão religiosa dessa história internacional.

No entanto, a história se complica rapidamente ao cruzar linhas ideológicas.

Dor pessoal

Samaria Izadi Page é minha querida amiga há 27 anos. Nascida e criada no Irã, ela, o marido e os dois filhos pequenos fugiram de Teerã às pressas, temendo por suas vidas, e acabaram em Dallas. Logo depois, ela entrou para a minha recém-criada classe de Escola Dominical, e os filhos dela se tornaram amigos dos meus filhos na igreja.

Fui membro fundador do conselho da Gateway of Grace, o ministério de reassentamento de refugiados que ela fundou após se formar no seminário e ser ordenada na Igreja Episcopal. Os refugiados com quem ela trabalha diariamente foram prejudicados pelas políticas cruéis do governo Trump.

E, no entanto… quando verifiquei o feed de mídia social dela no fim de semana, vi uma foto grande do aiatolá com a palavra “ELIMINADO” estampada em letras vermelhas no rosto. E outra postagem com estes dizeres: “A Serpente Suprema do Irã foi morta, segundo fontes israelenses!”

Conheço Samira bem o suficiente para saber que isso é algo pessoal para ela. O regime iraniano causou danos pessoais incalculáveis ​​a ela, à sua família e a muitas pessoas que ela ama. Depor um déspota por qualquer meio possível deve ser uma vitória.

No entanto, também a conheço bem o suficiente para prever que ela não está comemorando a possibilidade de nosso presidente desonesto iniciar a Terceira Guerra Mundial.

Ela também publicou uma mensagem de Sean Rowe, bispo presidente da Igreja Episcopal, que pede orações “por todo o povo da Terra Santa, e especialmente pela Igreja Episcopal em Jerusalém e no Oriente Médio e seu líder, o arcebispo Hosam Naoum”.

Ele disse: “Enquanto as notícias nos falam sobre o medo e o pânico no Irã, peço que orem especialmente pelo povo da Diocese do Irã e por todo o povo iraniano. Nas últimas semanas, lamentamos o assassinato de manifestantes pacíficos pelo regime iraniano e observamos com alarme tanto a crescente repressão ao povo iraniano quanto a escalada da resposta do governo dos EUA. Como cristãos que seguem um Príncipe da Paz, lamentamos que os ataques de hoje certamente trarão ainda mais dificuldades para os iranianos mais vulneráveis ​​e, como a retaliação inevitavelmente virá, sofrimento que se espalhará por toda a região.”

Reação MAGA

Essa abordagem matizada para essa ação militar dramática não era comum em todos os setores da cristandade estadunidense.

O pastor Greg Locke, de Nashville, apoiador do MAGA, publicou nas redes sociais: “O Hamã dos tempos modernos, que ameaçava exterminar os judeus, foi eliminado apenas alguns dias antes do início da festa de Purim. Aqui estamos nós, vivendo profeticamente o livro de Ester. Estou aqui para tudo isso.”

E isto: “Já disse antes e repito: O IRÃ SERÁ LIVRE. Isto é histórico e profético.”

O autoproclamado profeta de Trump, Lance Wallnau, publicou um vídeo na noite de sábado citando o "profeta" da Nova Reforma Apostólica, James Goll, que há 10 anos profetizou a queda do Irã no 47º ano. Wallnau também afirma que o líder original da Revolução Islâmica usou termos "democratas" ao dividir o mundo em "oprimidos e opressores". Em seguida, ele muda de assunto, dizendo que o Alcorão afirma que o messias (na verdade, o anticristo para ele) retornará durante o caos global e relaciona isso à Bíblia.

O historiador revisionista David Barton publicou no X: “Levamos 47 anos. Mas conseguimos. Lembro-me de quando o regime islâmico fez nosso povo de refém. Eles destruíram a vida do povo bom do Irã por 47 anos. Hoje, seu líder maligno está morto. Agradeço a Deus pelo presidente Trump. DEUS ABENÇOE A AMÉRICA.”

O trovador MAGA Sean Feucht publicou: “Como os cristãos devem reagir à morte do Líder Supremo do Irã?! A maior colheita da história do Irã está chegando!”

O evangelista MAGA Franklin Graham publicou: “Obrigado, Presidente @realDonaldTrump, por dar ao povo iraniano uma chance de ser livre. Orem por ele e por todos aqueles em nossas forças armadas que estão arriscando suas vidas para proteger a América e trazer liberdade ao povo iraniano. Este regime vem matando americanos há anos, e não tivemos um presidente com coragem suficiente para enfrentá-los. Obrigado, Sr. Presidente, por se levantar e pôr fim a este império do mal.”

O pastor Jack Graham, da megaigreja batista do sul dos Estados Unidos, retuitou um comentário do Papa Leão XIII e disse sobre o líder católico: “Um completo disparate vindo de um falso cargo. Leão XIII deveria estudar o Oriente Médio antes de dar seus pitacos.”

Por outro lado

O que disse o papa?

“Se a violência e a guerra são o caminho para a paz, então Roma estava certa, e Cristo morreu em vão.”

 

Apenas isto: “Acompanho com profunda preocupação os acontecimentos no Oriente Médio e no Irã neste momento turbulento. A estabilidade e a paz não se conquistam por meio de ameaças mútuas, nem pelo uso de armas, que semeiam destruição, sofrimento e morte, mas somente por meio de um diálogo razoável, sincero e responsável. Diante da possibilidade de uma tragédia de imensas proporções, faço um apelo sincero a todas as partes envolvidas para que assumam a responsabilidade moral de deter a espiral de violência antes que ela se torne um abismo intransponível. Que a diplomacia recupere seu papel fundamental e que o bem-estar dos povos, que anseiam por uma existência pacífica fundamentada na justiça, seja preservado. E continuemos a orar pela paz.”

Não sei ao certo o que Jack Graham acha que Leão XIV fez de errado naquele apelo pela paz, mas certamente não é o que Donald Trump considera paz, já que ele agora depôs o líder de uma segunda nação com sua própria autoridade questionável.

Michael Gorman, especialista em Novo Testamento e professor da Cátedra Raymond E. Brown de Estudos Bíblicos e Teologia no Seminário e Universidade de St. Mary, ofereceu um alerta sóbrio em consonância com as palavras do papa: "Se a violência e a guerra são o caminho para a paz, então Roma estava certa e Cristo morreu em vão."

Não devemos nos esquecer de alguns eventos importantes que ocorreram nos dias que antecederam o ataque ao Irã.

Primeiro, o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee — um ex-pastor batista do sul dos Estados Unidos — disse a Tucker Carlson que Israel tem o direito de controlar todas as terras do Oriente Médio se quiser, porque a Bíblia diz isso. (destaque do blog). Não importa que não seja isso que a Bíblia diz, seu comentário revela a mentalidade sionista de Huckabee e daqueles que o cercam.

Huckabee certamente sabia, ao dizer isso, o que estava prestes a acontecer no Oriente Médio.

Em segundo lugar, lembrem-se de que, na semana passada, nosso secretário de defesa despreparado — que quer ser chamado de secretário da guerra — convidou Doug Wilson para pregar no Pentágono. Wilson é um dos defensores mais perigosos do nacionalismo cristão na atualidade. (1).

Wilson disse aos funcionários do Pentágono: "Se você carrega o nome de Jesus Cristo, não há armadura maior do que essa."

Parece um eco do que provavelmente foi dito àqueles que lutaram nas Cruzadas enquanto marchavam para a batalha.

É tudo sobre religião, exceto…

Independentemente do que acontecer no Oriente Médio nos próximos dias e meses, a religião estará no centro. Não há como negar.

Mas para uma pessoa muito influente, a religião não é o principal motivador. Ouçam a sábia opinião do meu amigo — e editor substituto — Marv Knox, ex-editor de dois jornais batistas estaduais e experiente redator de editoriais:

“Sem dúvida, o regime que controla o Irã desde 1979 é uma das autocracias mais cruéis da história. Obviamente, os aiatolás e seus asseclas não valorizam a vida de seus próprios cidadãos, muito menos a de pessoas em todo o Oriente Médio e no mundo todo.”

Dito isso, iniciar uma guerra no Irã é uma jogada clássica de Donald Trump. Ele não se importa com a democracia no Irã; ele nem se importa com a democracia nos Estados Unidos. Ele não se importa com a vida dos cidadãos iranianos; ele nem se importa com a vida dos cidadãos americanos. Isso é uma manobra de diversão.

“Trump está em queda livre nas pesquisas de opinião nos EUA. Ele não está conseguindo reanimar a economia americana. Os americanos percebem a farsa em relação à imigração e discordam de suas políticas. Os americanos detestam seu descaso pela vida de seus concidadãos. Até mesmo os juízes da Suprema Corte escolhidos a dedo por ele disseram que suas políticas tarifárias são inconstitucionais, e alguns membros de seu próprio partido político têm a ousadia de se opor a ele. E, claro, ele continua sendo o centro das atenções na saga Epstein, inclusive com um envolvimento com o notório pedófilo que ultrapassou em muito o que custou o emprego de outros amigos de Epstein.”

“Então, Trump acredita que precisa de uma distração — algo tão absurdo que as pessoas não pensem em todos os seus fracassos. Ele chegou a reconhecer que vidas de militares americanos poderiam ser perdidas por causa de sua guerra. Mas isso não é nada para Trump. Eles serão danos colaterais em sua busca incessante por redenção.”

Notas: 1. Nos EUA temos o nacionalismo cristão e o sionismo cristão. Douglas Wilson é um dos expoentes do nacionalismo com forte influência em Washington. Explicaremos com mais detalhes quando falarmos deste último, após a postagem sobre a visão de rabinos sobre a Guerra do Irã.

2. A opinião do artigo não é, necessariamente, a opinião do blog olivereduc. 

_______________________________________

Mark Wingfield atua como diretor executivo e editor do Baptist News Global. Ele é o autor de "Honestamente: Dizendo a Verdade sobre a Bíblia e sobre Nós Mesmos".

Fonte: https://baptistnews.com/article/the-iran-bombing-is-a-religion-story-for-all-but-one-person/

 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA. - 6 -

 

Terrorismo ou Lucro? O Narcotráfico Brasileiro na Mira de Washington



Valter de Oliveira


No meu artigo do último dia 1º, mencionei que a recente decisão do presidente Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas me obrigou a antecipar este debate.

Como já vimos, qualquer forma de terrorismo é firmemente condenada pela Doutrina Social da Igreja — mesmo quando, em tese, alega-se uma "justa causa". Foi por essa razão que recordei o histórico pronunciamento do Papa São João Paulo II condenando as ações terroristas do IRA na Irlanda.

A robusta decisão de Trump ecoou imediatamente no Brasil. O presidente Lula reagiu de pronto, alegando que a medida feria a nossa soberania nacional. Uma declaração bem ao seu estilo tradicional, que logo arrancou aplausos e apoios impensados de sua militância. Para chancelar a tese presidencial, parlamentares e intelectuais petistas apressaram-se em evocar análises técnicas.

A grande mídia também entrou no debate trazendo especialistas de lado a lado. Com relativo bom senso, abriu espaço tanto para defensores quanto para críticos da medida de Washington, confrontando diretamente a narrativa do Planalto.

 

A Divergência dos Especialistas e a Retórica do Planalto

 

Do lado crítico à medida, figuram nomes de peso como o promotor do Gaeco, Lincoln Gakiya, e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ambos avaliam que a classificação não é vantajosa para a realidade nacional.

Em entrevista ao Canal Livre, o promotor Gakiya ponderou que "classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas não traria benefícios ao Brasil", alertando ainda que o rótulo "poderia abrir espaço para que os Estados Unidos aplicassem sanções econômicas ao País" (1). Gakiya é um inimigo histórico e declarado do crime organizado, vivendo sob constante ameaça. É um homem de Estado, sério, cuja lucidez merece respeito — o que não impede que outros analistas igualmente sérios discordem de sua leitura.

Por sua vez, o FBSP é uma ONG amplamente reconhecida pelo rigor técnico de seus dados estatísticos. Embora setores mais conservadores apontem, com certa razão, uma inclinação da entidade para a leniência em diagnósticos criminais, suas teses não podem ser descartadas superficialmente.

A corrente que rejeita o selo de "terrorismo" sustenta que as motivações jurídicas diferem. Órgãos como a ABIN e o próprio UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) (2) separam historicamente o crime organizado (cujo motor é o lucro financeiro) do terrorismo propriamente dito (movido por dogmas políticos ou religiosos). Diante disso, proponho uma reflexão: até que ponto a busca pelo lucro bilionário dessas facções está realmente separada de projetos de poder e ideologias? Essa fronteira ainda existe?

A resposta é complexa, e há juristas renomados que defendem que o crime organizado já cruzou essa linha, tornando a classificação de terrorismo útil e necessária:

  1. Fernando Capano argumenta que o enquadramento "amplia mecanismos de bloqueio de ativos, rastreamento de movimentações financeiras, sanções econômicas, restrições migratórias e responsabilização de indivíduos, empresas ou instituições que mantenham qualquer tipo de colaboração material com essas facções" (3).
  2. Helena Folgueira, mestre em Direito Penal pela USP e assistente judiciária do TJSP, explica o porquê de as facções estarem na mira de Washington: "PCC e Comando Vermelho reúnem várias características associadas a grupos terroristas: são organizações com estruturas paraestatais, que mantêm tribunais do crime próprios, exercem dominação social sobre territórios e populações, dispõem de aparato de segurança armado e impõem regras próprias."
  3. O advogado criminalista Luiz Gustavo Cunha acrescenta que o direito internacional legitima essa postura: "A experiência internacional demonstra que o enfrentamento de organizações criminosas com elevado grau de violência e capacidade de desafiar o Estado tem levado diversos países a adotar mecanismos jurídicos tradicionalmente reservados ao combate ao terrorismo. Não se trata de uma inovação brasileira ou norte-americana" (4).

 

A Fronteira Borrada Entre o Crime e a Ideologia 

No front externo, destaca-se a análise de Douglas Farah, consultor de segurança nacional dos EUA e presidente da IBI Consultants. Como um dos maiores especialistas em redes ilícitas na América Latina, Farah reconhece o risco teórico de "banalizar" o conceito acadêmico de terrorismo, mas defende o pragmatismo da medida. Segundo ele, o foco da Casa Branca não é uma intervenção militar, mas sim sufocar as finanças das facções, promovendo o isolamento financeiro estrito de suas redes de apoio e lavagem de dinheiro em solo americano.

O Portal Terra detalha em uma reportagem essencial outras profundas transformações sofridas por essas organizações na América Latina, cujo conteúdo recomendo no link a seguir: (5).

Conclusão


O debate é denso, polêmico e exige profundidade. Não pode ser tratado como "conversa de botequim" — formato que só alimenta demagogos populistas de plantão.

Finalizo com provocações necessárias ao nosso cenário atual:

O Planalto brada que não aceita interferências em nossa soberania. "Nada de ianques! Sabemos cuidar do que é nosso!", dizem os discursos soberanistas. Excelente. A oposição também zela pela soberania nacional, mas compreende o óbvio: os EUA também têm o direito de proteger a soberania deles contra o narcotráfico transnacional.

A grande questão é: nós estamos defendendo a nossa soberania de verdade? O atual governo sabe nos dizer com precisão o tamanho da infiltração do crime organizado nas instituições do Estado? Em quais municípios? Em quais escalões do funcionalismo público?

O PT governou o Brasil por 17 anos e 5 meses ao longo da história recente. Repito a pergunta: o que foi efetivamente feito para frear o avanço desse poder paralelo? Para sermos justos e honestos intelectualmente, a culpa não é exclusiva de um partido; o MDB, o PSDB e toda a nossa classe política  devem profundas explicações ao país.

No próximo artigo, trarei um testemunho contundente sobre a eficiência e a brutalidade real dessas facções. Um relato que expõe a conexão direta do crime com ideologias e com a história recente do continente. Uma seriedade factual que falta a muitos analistas e, fundamentalmente, a um presidente loquaz que teima em subestimar a pior ameaça à segurança dos brasileiros.


"Charge inspirada em ilustração publicada pela Revista Oeste, posteriormente adaptada e recriada com auxílio de inteligência artificial."

Notas:

 

  1. https://www.band.com.br/noticias/canal-livre/ultimas/classificar-o-pcc-como-terrorista-nao-traz-vantagens-ao-brasil-diz-gakiya-202605100002

 

  1. O foco desta agência da ONU é tornar o mundo mais seguro contra o tráfico de drogas, o crime organizado transnacional, a corrupção e o terrorismo.

 

  1.  https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/classificacao-de-pcc-e-cv-como-organizacoes-terroristas-divide-policias/

 

  1. Ambas as citações se encontram aqui: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/pcc-e-cv-sao-terroristas-entenda-o-que-dizem-especialistas-brasileiros/

 

  1. https://www.terra.com.br/noticias/mundo/4-mudancas-do-crime-organizado-na-america-latina-que-dificultam-combate-de-gangues-e-faccoes,9e7a784ffaf2b9ff301a417f5791dc609p74phlu.htm

segunda-feira, 1 de junho de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA .TERRORISMO. VIOLÊNCIA – 5

 

 TERRORISMO: VISTO PELA ONU E PELA IGREJA

 


Valter de Oliveira


Minha intenção inicial era debater o terrorismo nos episódios finais desta série. No entanto, a recente decisão do presidente Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizaçoes terroristas exigiu que eu antecipasse o tema.

Hoje vamos discutir apenas duas coisas: 1. o conceito de terrorismo. 2. Como o Papa S. João Paulo II o enfrentou concretamente ao tratar das ações criminosas do IRA na Irlanda .

No próximo artigo analisaremos a decisão de Trump e a reação do governo brasileiro.

O conceito de terrorismo da ONU 

Por incrível que pareça a ONU não possui uma definição legal global e universalmente consolidada sobre o que é terrorismo. Razão? Impasse diplomático de longa data., ou seja, países têm diferentes visões sobre o assunto. Mesmo assim, a organização usa como critério o consenso obtido pela Assembléia Geral e detalhada em resoluções do Conselho de Segurança. Acontece que isso não se torna oficial porque, qualquer um dos 5 grandes países que venceram a Segunda Grande Guerra, pode vetar qualquer decisão da Assembléia Geral. 

Apesar das dificuldades a ONU tem um núcleo conceitual sobre o terrorismo: 

Atos de terrorismo são todos os atos criminosos, incluindo aqueles contra a população civil, com a intenção de causar a morte, lesões corporais graves ou a tomada de reféns. Com qual objetivo? Provocar um estado de terror no público em geral, intimidar uma população ou coagir um determinado governo ou organismos internacionais. Podemos caracterizá-lo em três pontos fundamentais:

1. Intenção. Provocar terror na população ou coagir um governo ou organização.

2. Propósito. usando a violência em prol de um objetivo político (por ex: obter territórios), ideológico (favorecer a tomada de poder por comunistas ou nazistas); religioso (ações do Ira, na Irlanda; implantação de governos islâmicos ou sionistas fundamentalistas).

3. Dano. Como consideram que o fim justifica os meios tudo é lícito em causar danos intencionais a governantes e civis. Mortes e destruições aos adversários, mesmo que inocentes, são considerados aceitáveis e até, em determinados casos, altamente louváveis. 

Observação: Como não há um consenso aceito oficial e universalmente, há países que acreditam ter direito a um critério mais amplo. É o que acontece com os EUA em nossos dias. Veremos isso mais especificamente no próximo artigo.

PALAVRAS DO PAPA

Em primeiro lugar gostaria de lembrar uma condenação ao terrorismo feita pelo Papa João Paulo II por ocasião de sua visita à Irlanda em 1979. Quando a li fiquei profundamente emocionado.

Como se sabe a Irlanda, historicamente, foi alvo de uma duríssima e injusta repressão por parte do governo britânico. Repressão que durou séculos. A pretexto de justiça um grupo de irlandeses decidiu criar o IRA, Exército Republicano Irlandês, que decidiu usar o terrorismo para lutar contra o governo do Reino Unido e contra os grupos paramilitares unionistas/protestantes na Irlanda do Norte. O IRA queria o fim do domínio britânico e a reunificação da Irlanda do Norte com a República da Irlanda. Julgava que as injustiças cometidas pelos britânicos por longo tempo lhes dava o direito de lutar pelas armas. Não viram nenhum problema em apelar para o terrorismo. Erraram. Redondamente, miseravelmente.

Foi o que disse de modo claro e forte o Papa S.João Paulo II, em sua visita apostólica à Irlanda, em missa em Drogheda (cidade que fica a 50 km. de Dublin), em evento que reuniu mais de um quarto da população do país. 

Transcrevo aqui breve excerto de sua homilia:


“A vós todos, que me escutais, digo eu: não confieis na violência; não favoreçais a violência. Não é o caminho cristão. Não é o caminho da Igreja católica. Crede na paz, no perdão e no amor: isto sim que vem de Cristo.

(...)



11. Quero agora dirigir-me a todos os homens e a todas as mulheres que se deixaram prender na cadeia da violência. Faço apelo a vós e o meu discurso torna-se apaixonado. Peço-vos de joelhos que vos afasteis dos caminhos da violência e regresseis aos caminhos da paz. Sem dúvida pretendeis buscar a justiça. Eu também creio na justiça e busco a justiça. Mas a violência só atrasa o dia da justiça. A violência destrói o trabalho da justiça. Um aumento de violência na Irlanda só poderá trazer consigo a ruína da terra que pretendeis amar e dos valores que pretendeis acariciar. Em nome de Deus, suplico-vos: voltai a Cristo que morreu para os homens conseguirem viver no perdão e na paz. Espera-vos, ambiciona - que volte cada um de vós a ele, de maneira que possa dizer-vos, um por um: os teus pecados estão perdoados: vai em paz.  12. Faço apelo aos jovens que foram arrastados talvez para organizações enredadas na violência. Digo-vos, com todo o amor que tenho por vós, com toda a confiança que deposito nos jovens: não escuteis as vozes que falam a linguagem do ódio, da vingança e das represálias. Não sigais nenhum chefe que vos leve para os caminhos em que se dá a morte. Amai a vida, respeitai a vida, em vós mesmos e nos outros. Consagrai-vos ao serviço da vida, e não ao trabalho de morte. Não acrediteis que se provam coragem e força matando e destruindo. Não sereis verdadeiramente fortes senão unindo-vos aos jovens e às jovens da vossa geração, em todo o lugar, para construir uma sociedade justa, humana e cristã pelos meios da paz. A violência é a inimiga da justiça. Só a paz pode levar à verdadeira justiça”. O Papa assim termina sua comovente homilia:

15. Vim hoje a Drogheda numa grande missão de paz e de reconciliação. Venho como peregrino da paz, de Cristo. Para os católicos e para os protestantes, a minha mensagem é paz e amor. Nenhum protestante irlandês vá pensar que o Papa é inimigo, perigo ou ameaça! O meu desejo é, pelo contrário, que os protestantes possam ver em mim um amigo e um irmão em Cristo. Não percais a esperança de que a minha visita seja frutuosa, de que a minha voz seja ouvida. E mesmo que não fosse ouvida, a história lembrar-se-á que, num momento difícil da vida do povo da Irlanda, o Bispo de Roma pisou o vosso solo, e esteve convosco e orou convosco pela paz e reconciliação, pela vitória da justiça do amor sobre o ódio e a violência. Sim, este testemunho, que é o nosso, torna-se finalmente prece, prece que vem do coração, em favor da paz para todos os que vivem nesta terra, da paz para todos os cidadãos da Irlanda.

Ilumine e invada todas as consciências esta fervorosa oração pela paz! Cristo, Príncipe da paz, Maria, Mãe da paz, Rainha da Irlanda, São Patrício, Santo Olivério, e todos os Santos da Irlanda, eu, com todos os que estão aqui reunidos e com todos os que se unem a mim, peço-vos:

Velai pela Irlanda! Protegei a humanidade! Amém.

O Papa falou. Suas palavras demoraram alguns anos para serem ouvidas. Mas, finalmente a semente brotou. A Irlanda está em paz.

Deo Gratias!






___________________________

Depois disso convido a cada um dos amigos a ler toda a homilia do Santo Padre. Vale a pena.

https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/1979/documents/hf_jp-ii_hom_19790929_irlanda-dublino-drogheda.html


segunda-feira, 18 de maio de 2026

PROJETO CIVILIZACIONAL DE TRUMP

 

Valter de Oliveira

Nota prévia do blog oliver: nos 4 artigos anteriores tratamos da guerra justa e da ação de Trump na guerra contra o Irã à luz da DSI (Doutrina Social da Igreja). Como vimos, o presidente norte-americano foi fortemente criticado. Perdeu prestígio. Seus erros geopolíticos, podem levar-nos a perguntar, porque teve tanto apoio de grande parte da sociedade americana.

Na verdade, grande parte do apoio a Trump vem do crescente conservadorismo na sociedade norte-americana. Nem sempre em harmonia com o modo como Trump entende e pratica sua geopolítica. 

O artigo que postamos abaixo mostra interessantes aspectos desse conservadorismo  americano que foram expostos por Vance e Rúbio aos europeus. O vice-presidente fez contundente discurso em 14 de fevereiro de 2025, em Munique (1). Já Rubio, um ano depois, escolheu fazer um pronunciamento mais conciliador:  “Nosso lar pode estar no hemisfério ocidental, mas sempre seremos um filho da Europa”, declarou.

O conservadorismo exposto é interessante. A questão é saber até que ponto a reação conservadora da população fez com que os políticos se adaptassem a seus anseios. Ou, se quiserem: até que ponto eles são sinceros ao esposar tal projeto.

Não sei. O que sei é que muita gente está cansada de um mundo sem valores e sem Deus.

Vão ter sucesso? Deus queira. (V.O.)


PROJETO CIVILIZACIONAL DE TRUMP

R. R. Reno

O Secretário de Estado Marco Rubio discursou na recente Conferência de Segurança de Munique. No ano passado, o Vice-Presidente JD Vance emitiu alertas severos com uma retórica dura. O discurso de Rubio foi conciliatório, frequentemente mencionando com entusiasmo um propósito comum e amizade mútua. Mas o conteúdo não foi muito diferente do proferido no ano passado. Vance e Rubio transmitem a convicção do governo Trump de que o Ocidente sofre de um mal-estar civilizacional. Restaurar a confiança em nossa herança ocidental compartilhada é de importância fundamental.

Rubio pediu aos europeus reunidos em Munique que se juntassem ao governo Trump para reconhecer que algumas das principais ambições das décadas pós-Guerra Fria foram erros. A mentalidade de fim do mundo, que imaginava um sistema global pós-nacional, fracassou. Os elementos econômicos da globalização acabaram por desindustrializar o Ocidente, tornando-o vulnerável militarmente. A prosperidade trazida pela globalização beneficiou a elite globalmente conectada, não os cidadãos comuns. Os elementos políticos da globalização corroeram a soberania nacional, e as regras e normas globalistas são frequentemente usadas por tiranos contra os esforços para conter seus atos ilícitos.

Rubio identificou o “culto climático”, que impôs políticas econômicas ruinosamente caras ao Ocidente. Ele observou que fronteiras abertas e políticas frouxas levaram a “uma onda sem precedentes de migração em massa que ameaça a coesão de nossas sociedades, a continuidade de nossa cultura e o futuro de nosso povo”. De maneira mais ampla, Rubio apontou para os efeitos danosos do que Roger Scruton denominou “oicofobia”, uma atitude amarga e crítica em relação à nossa casa e herança comuns.

Após listar esses erros, Rubio fez uma concessão crucial ao seu público europeu (e disse algo que os americanos precisam ouvir): "Cometemos esses erros juntos". Ele certamente tem razão. Os problemas que afligem um Ocidente enfraquecido e desmoralizado foram resultado de um poderoso consenso em prol de uma sociedade aberta. Os Estados Unidos lideraram o caminho na globalização pioneira. Incentivamos a criação e a expansão da União Europeia. Nossas universidades nutriram ideologias antiocidentais, como o pós-colonialismo.

Marco Rubio

O cerne do discurso de Rubio foi um apelo à ação: reindustrializar, reforçar as fronteiras, estabelecer a ordem internacional em bases mais modestas e realistas. No entanto, o imperativo mais importante diz respeito à nossa civilização compartilhada. Rubio anunciou: “Queremos aliados que se orgulhem de sua cultura e de sua herança, que compreendam que somos herdeiros da mesma grande e nobre civilização”. Os europeus deveriam esperar o mesmo de nós. Aliados fortes exigem autoconfiança cultural, algo que não se fomenta por meros reconhecimentos territoriais. 

Rubio foi recebido com aplausos entusiasmados. Imagino que boa parte da elite europeia reconheça os erros das últimas décadas, entre os quais o cultivo deliberado da culpa civilizacional. Talvez se retraiam diante da nova direção que Rubio explicitou. Mas enxergam os problemas que seus países enfrentam, problemas que surgiram após 1990, problemas endêmicos ao consenso da sociedade aberta.

Havia um aspecto da renovação civilizacional mencionado por Rubio que temo que as elites europeias não queiram — ou não possam — reconhecer. O Secretário de Estado observou que o elemento central da civilização ocidental é a “herança sagrada” da “fé cristã”. Ele estava certo em fazê-lo. Hegel escreveu certa vez: “A religião é a esfera na qual uma nação [e uma civilização] define a si mesma o que considera ser a Verdade”. A religião anima uma cultura, estimulando e guiando o desejo humano perene pela transcendência

Infelizmente, com o fim do século XX, o consenso da sociedade aberta exigiu que tivéssemos uma cultura sem religião, algo nunca antes tentado na história da humanidade. Após intenso debate, o cristianismo foi deliberadamente omitido da Constituição Europeia formulada no início do século XXI. Na época, o Papa João Paulo II expressou consternação: “Não se cortam as raízes de um direito de primogenitura”. Os Estados Unidos continuam sendo mais religiosos do que as nações da Europa. Mas, como observa Gerard Bradley nesta edição, em “ Como trazer de volta a oração nas escolas ”, na década de 1960, nosso regime constitucional expulsou a religião da esfera pública. Hoje, a ideologia multicultural considera “divisiva” qualquer ressurgimento da influência pública do cristianismo. E a moralidade bíblica colide com a revolução sexual, que continua sendo cara às elites na Europa e na América. 

A animosidade contra um cristianismo vibrante e engajado civicamente será difícil de superar. Mas, como sugere Rubio, devemos superá-la. Ele elogiou as grandes conquistas do Ocidente: o Estado de Direito, a investigação científica, a arquitetura grandiosa e as nobres tradições de liberdade. Foi “uma fé em Deus que inspirou essas maravilhas”, observou Rubio. Os homens não tiveram fé para realizar grandes feitos; eles realizaram grandes feitos porque tinham fé. Nosso futuro civilizacional dependerá daqueles cujos olhos estão voltados para algo maior do que a restauração da confiança no Ocidente. 

A América e a Europa estão interligadas. "O nosso destino está e sempre estará entrelaçado com o vosso", disse Rubio em Munique. De fato. A fé inabalável da América continua a fazer do cristianismo um elemento poderoso da vida pública. Devemos orar para que essa influência se fortaleça, estendendo-se ao cenário europeu. As civilizações renovam-se pelas verdades que vêm do alto. Aqueles que buscam a união com Deus transformam o mundo.

Notas:

1. https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/historico-discurso-jd-vance-munique-licoes-para-brasil/

2. Os destaques em negrito foram introduzidos por nós.  


R.R. RENO é editor da Revista First Things

First Things é uma influente revista americana de religião e questões políticas públicas e pertence ao Institute on Religion and Public Life. Fundada por Richar John Neuhaus em 1990, a revista aborda conservadorismo social, política e diálogo cristão-judeu. O nome significa (primeiro essencial).  

 

Fonte: https://firstthings.com/trumps-civilizational-project/