sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Coisas da Eleição














Valter de Oliveira

1.    Guilherme Boulos e o fim dos privilégios

O candidato pessolinha diz que eliminará rapidamente os privilégios abusivos do Judiciário. Como? Simples: só com uma canetada! Podia ter dito que seria com uma varinha mágica... Deve estar vendo muito Harry Potter... Alguém precisa explicar para o rapaz que ele não é nem Ivan, o Terrível e nem Catarina, a Grande!  Talvez esteja sonhando em ser um Robespierre tupiniquim: uma só ordem e pronto: cabeças rolam...
Menos, sr. Boulos, menos. Ou o sr. não sabe que o Judiciário é um poder autônomo?  Lembre-se que mexer nos privilégios do Judiciário ou de quem quer que seja depende de aprovação do Legislativo.

2.    Os candidatos que reencarnam reis absolutistas.

Na mesma linha vemos candidatos à presidência deseducando a população, já tão carente de formação política. Todos dizem: -“Eu faço! Faremos tantos hospitais, tantas creches, tantas ferrovias, tantas”... E ainda, “criarei um novo pacto federativo... teremos salários iguais para homens e mulheres ...;estabelecerei” ...

Por favor, pelo menos dá para dizer ao povo que precisarão apoio de deputados e senadores?  Dá pra dizer que eles é que fazem as leis? Que  votam o orçamento? Fiscalizam o Executivo? Que podem aceitar ou não medidas provisórias? Que é o Senado quem concorda – ou não – com o a indicação do nome de alguém para ocupar o cargo de ministro do STF?

3.    O vice nazista de Bolsonaro!

Suponha uma notícia bomba: -“Confirmado que general Mourão, vice de Bolsonaro, é oficialmente membro do partido nazista!”.

Pode? Não, não pode. Pelo menos no Brasil, graças a Deus. Nos EUA poderia.  Lá a completa liberdade de opinião e sua manifestação são amparadas pela constituição. Até para nazistas!

Mas se o vice for nazista só por convicção?  Seria possível  tê-lo em uma chapa?

Possível sim. Desejável não. Deveria ser abominado. 

E se for do outro lado? Um vice da extrema esquerda?

Aí começa o mistério. A mídia e os intelectuais de esquerda, que são bem informados, não se escandalizam. Olham até com simpatia partidos marxistas tais como o o PCB, o PSTU, o PCO e um dos piores, o PCdoB que se aliou ao PT com Manuela d'Ávila, candidata a vice de Haddad na campanha presidencial.

E quem é o PCdoB? É o partido brasileiro que defendeu os maiores genocidas do século XX: Stalin e Mao Tsé Tung. Os dois mataram muito mais gente que Hitler. Exterminaram milhões e milhões de pessoas de seu próprio povo. Também eliminaram sem piedade membros do próprio partido, incluindo velhos camaradas de revolução.

Pergunto: por que temos aversão por um candidato nazista e não nos envergonhamos de ver a aliança de vários partidos brasileiros (até de “centro” ) com os maiores genocidas  e torturadores de toda a história?

O que responderiam os nossos partidos de esquerda?

O que diz o PT que colocou Manuela como vice?

O que dizem seus militantes?

Você talvez conheça militantes e até dirigentes desses partidos. Ou intelectuais que os apoiam. Quer perguntar?




sábado, 7 de julho de 2018

DEMOCRACIA FORMAL E SUBSTANCIAL














Valter de Oliveira

Aristóteles   e   São Tomás
Na antiguidade Aristóteles, em sua obra sobre política, afirmou que há três formas de governo: a monarquia, a aristocracia e a democracia. S. Tomás, na Idade Média, manteve o mesmo ensinamento. Curiosamente ambos os pensadores afirmavam que a monarquia era a melhor forma.

No mundo moderno e contemporâneo, especialmente após as revoluções liberais do século XVIII, gradualmente a democracia passou a ser tida como mais adequada ao homem de hoje; mesmo nos países que mantiveram a monarquia. É porque passou a se fazer uma distinção entre forma e regime. Este seria baseado em uma série de princípios filosóficos. Concretamente o regime político é o conjunto de regras e critérios que definem quem será o detentor do poder. O regime pode ser democrático ou autoritário, nas suas várias modalidades.

A nós, neste momento, interessa discutir a democracia que existe em nosso país. Todos sabemos que nesse regime político é o povo quem governa. Daí a famosa frase de Abraham Lincoln: “A democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo”.
Essa é a teoria. Na prática nos perguntamos: O Brasil de hoje é realmente uma democracia? Efetivamente exercemos o poder? Este poder é exercido para o bem de todos, para o bem comum?

Para entendermos melhor a questão vamos usar uma distinção que vem sendo usada mais recentemente na Ciência Política. Ela diz respeito às regras democráticas e ao próprio objetivo do governo e do Estado.

No mundo ideal uma sociedade verdadeiramente democrática deve ser, ao mesmo tempo, formal e substancial. No mundo real isso é muito difícil de ser conseguido, se é que seja possível. Em todos os lugares o que se procura é se aproximar do ideal.

Democracia formal

Um país com regime democrático necessita, para bem funcionar, uma série de regras, um conjunto de instituições características dele. Quais são? Primeiramente a representatividade (pessoas que governam em nosso nome). Como são escolhidos? Através do voto universal e secreto. Depois (seguindo sugestão de Montesquieu) temos a autonomia dos poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário) que devem procurar atuar em harmonia. O objetivo era impedir que o exercício do poder fosse arbitrário, despótico, como se tornara, até certo ponto, prática nas monarquias absolutas do Antigo Regime. Com o tempo tivemos a formação dos partidos políticos com a ideia do pluripartidarismo, e uma nova ordem jurídica foi constituída (Constituição, leis, jurisprudência). Importante também em uma boa democracia formal são as garantias aos direitos básicos do cidadão e todas as suas liberdades (associação, imprensa, opinião, etc). Em suma, a formalidade consiste em todas as regras e instituições pelos quais a democracia se exerce. Quando são bem feitas e bem constituídas são importantíssimas para um bom desenvolvimento da sociedade.

Democracia substancial

Quando falamos em democracia substancial estamos nos referindo não aos meios (democracia formal), mas aos fins que são alcançados, aos resultados de todo o processo democrático. Dentre seus valores podemos destacar a efetiva ação do Judiciário com a realização concreta da justiça, de um adequado equilíbrio de direitos e deveres na sociedade, a um desenvolvimento econômico sustentável da sociedade com emprego e boas perspectivas de ascensão social. No caso da educação, por exemplo, teríamos tanto escolas públicas quanto particulares de qualidade, de modo a beneficiar toda a sociedade. Todas, dentro de suas peculiaridades, ofereceriam condições para que o estudante se desenvolva plenamente.

Em nosso próximo artigo vamos discutir como o correto entendimento da democracia contribui para entendermos suas relações com a economia, a sociedade, o direito e a política.


segunda-feira, 2 de julho de 2018

ELEIÇÃO DE 2018. DESENCANTO, INDIGNAÇÃO OU ESPERANÇA?












Valter de Oliveira

Dizem que brasileiro não é politizado. É verdade. Muito disso se deve às falhas de nosso sistema educacional. Povo mal formado tem poucas condições de entender o processo político. Isso explica o que muitas vezes ouvi em sala de aula.  

- “Professor, odeio política! Voto porque sou obrigado”.

- Um outro completa: “Políticos são todos iguais, sempre dizem a mesma coisa. Prometem e não cumprem. Só procuram seus interesses!

- E ainda: “Voto em pessoas, não em partidos. Se me parecer confiável e tiver ideias que aprovo, voto no candidato!.

Isso era há 10 ou 20 anos. Agora, com a Lava Jato e a tremenda crise pela qual passa o país, a situação piorou. Existe o desencanto com todos os poderes da República. Critica-se – e com razão – o presidente, o Congresso Nacional, o Judiciário. E não se vê alternativa para se sair desse túnel escuro. Uma minoria, cansada de tudo, sonha com a volta dos militares ao poder. É dar um cheque em branco para quem não se conhece.

O que fazer?

Respondo com um conceito de política muito usado: “política é a arte do possível”. (1)

Em outras palavras, diante da grave crise (2) pela qual passamos não há como, a curto prazo, esperarmos que após as próxima eleições surja o belo mundo que idealizamos. O que podemos fazer hoje  é usar de todos os meios legítimos e legais para tentarmos influenciar bem as pessoas a fim de que votem em candidatos mais dignos e preparados. O pleito eleitoral deste ano  nos permitirá escolhermos um presidente e governadores bem como renovar o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas estaduais. Verdade que as condições de nosso sistema político não nos ajudam, ele está cheio de falhas, todos sabemos disso. Contudo, sempre há algo que podemos vir a fazer. E este algo pode vir a ser muito importante.

Qual seria o primeiro passo?

Muitos diriam: ”escolher candidatos com ficha limpa, homens e mulheres com princípios éticos, ideias claras, bem definidas, que reformem o país e o levem à prosperidade”.

Sem dúvida isso é bom, mas não é o primeiro passo. Por quê?

Porque a primeira coisa necessária para se votar bem é ter ideias claras sobre o que será melhor para o país. Sou eu que, em primeiro lugar, preciso formar minha opinião sobre os principais problemas nacionais e, após isso, escolher os candidatos que mais se aproximam do que penso. O escolhido será nosso representante, aquele que se propõe a fazer no governo, aquilo que você e eu faríamos se lá estivéssemos.

Nada fácil, não é mesmo? A Globo tem perguntado a muita gente que país desejam. Claro que a resposta é quase sempre correta mas, absolutamente genérica: “Melhor educação, prioridade para a saúde do povo, saneamento básico, proteção ao meio ambiente, crescimento econômico, pleno emprego, fim de privilégios inadmissíveis, reforma política, segurança pública, e mil outras coisas boas”. Ora, não há candidato ou partido que não nos prometam tudo isso.

A questão está em como obter tudo isso. Com base em quais ideias, em quais princípios filosóficos, em que tipo de ética (3) se baseiam aqueles que pretendem vir a nos governar. Ora, é de suma importância que conheçamos esse alicerce.  

A partir de hoje publicarei uma série de artigos com breves e simples análises de nossas questões políticas, econômicas, sociais. Serão análises de ideias e também das propostas dos partidos e candidatos. Antes disso veremos alguns pontos básicos sobre democracia e política.

Espero que possam ajudar especialmente ao leitor que não está familiarizado com a política em geral. Para aqueles que tenham tempo, disposição, e mais conhecimento, indicarei artigos ou textos mais aprofundados.

Hoje há muito desencanto e indignação com o que ocorre em nosso país.  Só que os males que existem não devem nos deixar prostrados.  As adversidades existem para serem superadas. Se entendermos isso já daremos um grande passo para que a esperança surja no horizonte.

Notas:

       
 A crise atual é muito profunda mas não deve nos fazer esquecer que há muita coisa boa acontecendo e muita gente lutando pelo bem., o que, infelizmente, não é destacado devidamente. Todo esse bem é motivo de alegria e esperança. Não vê-lo pode esfriar em nós a disposição de lutar.

1.Em um sentido mais específico Política é “a arte de governar, ou seja, a arte de fixar objetivos conforme o bem comum, e orientar sua conquista ou manutenção”.

2.A crise atual é muito profunda mas não deve nos fazer esquecer que há muita coisa boa acontecendo e muita gente lutando pelo bem., o que, infelizmente, não é destacado devidamente. Todo esse bem é motivo de alegria e esperança.

3.Muita gente foi enganada por partidos que se afirmavam éticos. Ora, a ética é parte da filosofia que nos ensina como deve ser o comportamento humano. Acontece que o eleitor comum não sabe que existe uma ética aristotélica ou tomista; uma ética pragmática ou uma ética de princípios; uma ética kantiana ou uma ética marxista. Em suma, quando um candidato se apresenta como ético, se ele não disser quais são os princípios fundamentais de sua ética, ele não estará dizendo absolutamente nada. Se eu afirmo que sigo uma ética tomista ou jusnaturalista segue-se que vou afirmar que ninguém, nem o indivíduo e nem o Estado têm o direito de, voluntariamente, matar um inocente. Por outro lado, se alguém segue uma ética consequencialista ou de resultados, ele admite que mesmo um inocente pode ser eliminado se isso for considerado benéfico para a sociedade. Governos nazistas não viam nenhum problema em eliminar sumariamente doentes mentais. Já o marxismo considera que se pode mentir ou matar inocentes se isso for favorável à causa revolucionária. .  

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

TRÊS PROFESSORES: O NUTELLA, O RAIZ, O...SEM ADJETIVOS













Valter de Oliveira


Encontrei no facebook uma comparação entre o professor Nutella e o professor  Raiz. Só mais uma dessas brincadeiras, com elementos de verdade, que estão sendo publicadas. Algumas são feitas pela “esquerda”, outras pela “direita”. A que reproduzo aqui, é bem claro, tem coloração vermelha...
Ao ler a brincadeira no face respondi que tinha objeções aos dois tipos de professor. Resolvi apresentar um terceiro tipo: o professor sem adjetivos. Suas características aparecem aqui como contraponto aos dois. Está identificado apenas como “O professor”.

O PROFESSOR NUTELLA

- Trata os alunos mal e puxa saco do patrão
O professor trata a todos bem, em especial seus alunos. Respeita toda autoridade sem servilismo e procura engrandecer a instituição, pública ou privada, onde trabalha.
- Gosta de fofoca e assina Veja
O professor mostra a importância de saber usar as palavras e o tempo, bem como a respeitar a vida e a intimidade do próximo. Incentiva o aluno a desenvolver o espírito de curiosidade e explica a importância de se ter foco no que se faz. Anseia por informação e procura as mais confiáveis. Nem por isso afirma ser um pecado que se leia a Veja, o Estadão, a Folha, ou o New York Times que exprimem, quando muito, um selecionado aspecto da realidade.
- Bate panela quando a Globo manda
O professor não tem espírito de massa, abomina o carneirismo. Em consequência procura analisar criticamente a realidade. Democraticamente bate panela quando necessário. Inclusive contra a rede Globo.
- Reclama da profissão e critica os colegas que se mobilizam.
O professor ama apaixonadamente sua profissão e  luta para que seja valorizada e respeitada, não só em teoria mas no seu próprio campo de trabalho.  Respeita seus colegas e defende uma sadia diversidade. Sabe e ensina que há mobilizações positivas e negativas.

- Não se mistura com qualquer um.
O professor: Todo ser humano é único, uma imagem da beleza infinita de Deus. Por isso procura ser “sal na terra”.
- Não gosta de escola pública porque não é do seu nível social.
O professor gosta de qualquer escola, pública ou privada, que procura cumprir bem sua função. O que importa é que seu corpo diretivo, seus funcionários e seu corpo docente sintam honra em exercer seu papel, ainda que em condições adversas. Condição social, de si, para cada um de nós, não é mérito ou demérito. O mérito – incluindo o dos alunos – vem da qualidade do trabalho de cada um.

O PROFESSOR RAIZ

- Só tem aluno maluco e pira junto com eles
O professor tem alunos normais e não pira jamais, só ou em grupo. Compreende que uma das coisas mais nobres do ser humano é a razão e esta nos leva à beleza do equilíbrio. Não quer ninguém pirado. Nem em sonhos, nem em pesadelos.
- Discute política, economia, cultura com qualquer um. Se tiver dinheiro assina Piauí.
O professor é encantado pelo conhecimento e sabe que ele é incomensurável. Como os antigos filósofos está aberto a tudo sem deixar de ter o foco naquilo que se propôs a ensinar. Se tiver dinheiro, se necessário, assina o que houver de melhor. Pode até ler a “Piauí” mas, se for rico, deve saber fazer bom uso do dinheiro e raramente fará uma assinatura dela...
- É quebrado e não esconde de ninguém
O professor é de todas as classes sociais. Pode ser rico ou pobre, homem ou mulher, branco ou negro (minorias no Brasil). Não tem vergonha de nada disso, pelo contrário. Sabe – e ensina – que vergonha é não ter honra, não ter caráter, não cumprir seu dever.
-Sindicato, mobilização, tiro, porrada, bomba
O professor admira e defende o regime democrático independentemente da forma ou do sistema de governo. Instituições intermediárias (como a família ou os sindicatos) entre o Estado e o indivíduo são legítimas e necessárias. O mesmo vale para as mobilizações. Que nada tem a ver com a violência gratuita e criminosa pregada apaixonadamente por certos setores da esquerda.
- É parça com o pessoal da limpeza e da cantina
O professor é solidário com todas as pessoas de sua escola, sabe respeitar a todos e valoriza todo tipo de trabalho. Todos são necessários e dignos. Sabe mostrar isso nas suas atitudes e até no seu olhar.
- Passa a graduação toda contando moeda pro xerox
O professor considera que, graças a Deus, não são apenas os pobres que podem exercer a docência.  Alguns chegaram onde queriam com sangue, suor e lágrimas. Outros, nascidos na classe média ou na alta não precisaram contar moedas. De qualquer modo, todos os que são realmente professores passaram a graduação procurando crescer intelectual e moralmente. E vão fazer isso a vida toda.
- Hoje dá aula até com marca de tiroteio
O professor, como todo ser humano, procura um lugar digno e tranquilo para trabalhar. Deseja o mesmo para seus alunos. Se, medindo a realidade, vê que é necessário expor-se em um lugar perigoso, ele o fará. De certo modo podemos dizer que, assim como há os “médicos sem fronteiras” também há os professores sem fronteiras. Nem por isso seu coração será menos nobre e generoso se desejar para todos uma sadia normalidade.

Termino com um convite. Que todos os que ensinam sejam o que devem ser: professores. “Simples” professores. Sem Nutella; sem Raiz; sem adjetivos.
Os alunos ficarão felizes.


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

TRUMP, OBAMA, HILLARY E O RAFINHA
















Valter de Oliveira

Estava quase pronto um artigo meu sobre Hillary Clinton e Obama (1) até que uma simples conversa com meu filho Rafael no carro, após a escola, mudou meus planos. Explico-me.
Rafael
O Rafa tem 11 anos, está no 5º ano, e tem o privilégio de estudar em uma conceituada escola de S. Paulo, a AeD (Aprendizagem e Desenvolvimento) onde minha esposa é professora do terceiro ano do Fundamental I. Hoje, como é praxe, fui busca-los na hora do almoço. Já no carro, e mal tinha eu dirigido dois ou três quarteirões, ouvi a pergunta habitual: -“Posso falar?” Era o Rafa. E começou a contar o que acontecera na aula de História.
O jovem professor Luciano, usando seu grande poder de criatividade, de modo a despertar nas crianças o bom hábito da reflexão, montou uma história para lhes explicar o absolutismo. Uma história que levou as crianças a discutir a responsabilidade dos diferentes personagens. Explicou tudo e concluiu: “Foi legal”, e ficou quieto. –“E o que mais?”, perguntamos eu e Sonia. –“Depois, continuou ele, surgiu uma discussão entre as meninas sobre a eleição presidencial norte-americana e o professor perguntou: se vocês tivessem que votar em um deles quem escolheriam?”.
Uma delas logo respondeu: -“Não votaria no Trump porque ele é contra a entrada de imigrantes. Prefiro a Hillary’.
Outra replicou: - “Mas a Hillary é favorável ao aborto!” (2)
Ao ouvir isso, lembrei-me do artigo que faltava terminar e pensei com meus botões: vou muda-lo! Vou deixar de lado tudo o que traduzira. Basta o essencial. É melhor ficar na simplicidade das crianças.
Aqui no Brasil nossa mídia nos passa uma cândida imagem de Hillary bem como do presidente Obama, sempre simpático, agradavelmente eloquente e de gestos comedidos e elegantes.
Só não se fala que ambos aprovam o chamado “partial abortion”. O que é isso? Simples: Se a mãe ou responsável permitir, o médico pode matar a criança no instante em que ela está nascendo. Basta não permitir que ela saia inteira do ventre materno porque aí, já tendo nascido, seria protegida pela lei. Nasceu uma cidadã americana.
Se parte do corpo da criança estiver no ventre materno tudo muda. O médico está autorizado a quebrar o crânio da criança e retirar seu cérebro.
Não vejo nenhuma diferença entre tal procedimento e aqueles permitidos pela legislação nazista que autorizava o assassinato de deficientes.


Quase nada também se fala que o governo americano queria impor sanções a hospitais dirigidos por freiras por se recusarem a praticar abortos. Graças a Deus elas o venceram na Suprema Corte. Tampouco se destaca que Obama quer negar o direito de médicos e enfermeiros a seguirem suas próprias consciências no caso de práticas abortistas. 
Entretanto, de acordo com nossa mídia, Hillary e Obama estão do lado da civilização e dos direitos Humanos. Sobram críticas a Trump. Com e sem razão. E ninguém explica por que apesar de tantas falhas de caráter o bilionário tem o apoio de grande parte do eleitorado.
Será que se mostrássemos a um esquerdista (de qualquer tendência, do defensor do socialismo real ao socialismo romântico ou ao ambientalista gnóstico) as barbáries defendidas por Hillary e Obama ele ficaria horrorizado?
Duvido. A sensibilidade da esquerda é seletiva. Só choram com o olho esquerdo.
Acho que até o Rafinha já percebeu...

Notas:
        1.     O título seria: Hillary Clinton e Obama. O que a mídia não conta, e seria baseado     em artigo de Terence P. Jeffrey, no jornal The Wanderer, o mais antigo periódico católico norte americano. Clique aqui para ver:


2.     Trump é vergastado por querer levantar um muro para impedir a entrada ilegal de mexicanos ao Estado do México. A mídia pouco ou nada fala de outros muros. Você pode conferir o que é dito sobre três deles. a) um erigido na Trácia, na fronteira entre a Turquia e a Grécia; b)  o segundo na Hungria, com aproximadamente 160 km; c) o terceiro construído em Calais, na França, com a ajuda do Reino Unido. Veja nos sites:







sábado, 16 de julho de 2016

A CORRUPÇÃO QUE CONHEÇO













Valter de Oliveira

Jânio Quadros
Era só um garoto quando ouvi falar pela primeira vez em corrupção. Foi através do rádio que não cansava de tocar a marchinha de Jânio Quadros: “Varre, varre, vassourinha”... Quem era Jânio? Não o conhecia. Nem tinha TV. Finalmente vi sua foto na revista Cruzeiro. Lá estava ele, sentado no meio fio, comendo banana... Não me lembro se era candidato a governador ou a presidente. Não gostei. Não me parecia digno de quem iria, talvez, ocupar um alto cargo no Executivo. E eu nem sabia o que era populismo...

Anos depois, passava pelo viaduto do Chá rumo ao dentista na Conselheiro Crispiniano. Perplexo, deparei-me com uma multidão. Era a famosa “Marcha da Família com Deus pela liberdade”. Um carro da Record filmava tudo. Da época só lembro que se fazia muita greve (estava muito preocupado com futebol, música jovem e Ray Conniff). Era tão comum que eu e um amigo decidimos convocar os colegas para uma greve no Colégio Emília de Paiva Meira, em Itaquera. O sucesso foi rápido. O castigo também. Minha turma pegou 3 dias de suspensão. Achamos graça.

Em outubro de 1964 minha vida mudou totalmente. Motivo: religião. Depois de vacilar por um longo tempo recebi a graça de compreender que valia a pena viver por Deus. Desde então tenho tentado. Deus é paciente...

O resultado é que comecei a preocupar-me com política, filosofia, história, religião. Diariamente lia o Estadão acompanhando tudo o que ocorria no Concílio. E no mundo. Por acréscimo as inúmeras aulas extras que tive com meu professor de História ajudaram muito na minha formação.

As leituras levaram-me, a saber, que os militares argumentavam que haviam tomado o poder para combater três coisas: 1. A subversão. 2. A inflação. 3. A corrupção.


Laudo Natel
Conseguiram sucesso nos dois primeiros pontos. Já quanto à corrupção não tinha ideia. O que sei é que nas duas ocasiões em que estive próximo de dois governadores – Laudo Natel em São Paulo e Eraldo Gueiros em Recife – fiquei incomodado com o séquito de ambos. Tive a impressão de ser um bando de oportunistas. “Conservadores”...
Eraldo Gueiros

No final dos anos 70 tive um contato maior com um jovem engenheiro de uma grande empresa. Começou a enriquecer e resolveu diversificar suas aplicações financeiras. Meu pai trabalhava com imóveis e construção (Construção e decoração já foram meus hobbies). Convidou-nos para uma parceria. Durou algum tempo.

No aprofundamento da amizade soube que ele estava envolvido na intermediação de negócios entre a iniciativa privada e o governo. Foi assim que ele começara a enriquecer. Um dia perguntei-lhe se não achava que tal procedimento feria a ética. Respondeu-me que não. “Ninguém rouba ninguém, disse ele, só se combinam os resultados. Aliás, disse ele, é o único meio que as coisas são feitas no Brasil. Todo mundo ganha um pouco. Tudo é combinado”...

Um belo dia, em visita a seu escritório, perguntei-lhe:

-“Você viu o Ferreira Neto (programa político da TV Gazeta) ontem”?

- “Não”, respondeu. “Por quê?”

- “Fulano (deputado federal bem conhecido na época) fez uma catilinária contra a corrupção do Maluf e do PMDB”.

- “Que pilantra! Dei sete milhões para ele na semana passada”!

Pois é... E soube de várias outras histórias...

Nosso relacionamento comercial durou pouco mais de um ano e passamos a nos ver esporadicamente (1). Um dia, nos tempos do governo Collor fui visita-lo em sua casa. Estava triste e preocupado. De algum modo foi posto de lado nos esquemas governamentais. Ainda tinha, disse-me ele, alguma chance. Se conseguisse um negócio importante relacionado com o projeto do trem bala. (se o começo do negócio desse certo a caixinha seria de 180 milhões de dólares... Para quantos? 7 políticos...) poderia voltar a ter seu espaço no esquema. Soube depois que não conseguiu. Foi perdendo os bens. Morreu. Recentemente contaram-me que sua morte não foi repentina. No hospital tinha recebido os últimos sacramentos. Foi um consolo para mim que também testemunhei muitas coisas boas que ele fez.

Assim, caros amigos, quero deixar bem claro que há muito conheço, por testemunhos fidedignos, a corrupção que assola nosso país. (Evidente que não foi o PT que a inventou... Ele só mergulhou nela, inebriou-se nela).  Depois, quando voltei novamente para a área de História – em 1987 – fui conhecendo-a mais a fundo por leituras e por aulas. Principalmente depois que fiz um mestrado em Estudos Brasileiros na Universidade Mackenzie. Curso idealizado pelo saudoso general Meira Mattos e por Alfredo do Amaral Gurgel.  O melhor que tive na área acadêmica. Nele tive a felicidade de conhecer o amigo – e grande economista da UERJ – Ubiratan Jorge Iório de Souza que me abriu os olhos para os encantos da economia (2).


Tudo isso para dizer que, se desde jovem, como já disse, encantava-me tudo o que é relativo à área de humanas, esse amor cresceu ainda mais a partir de 88 quando vi muita coisa de política e geopolítica. Aprendi a ver Ciência política e Economia com teoria e prática, sem utopismos ideologizantes e sem alienação. Política que naturalmente nada tem a ver com a politicagem rasteira da oligarquia que dirige nosso país.

Vejam! Eu, um simples professor de História, há muito sei como as coisas ocorrem em nossos bastidores. Pergunto: É possível que nossos políticos não saibam?

Deus do Céu! Vejam Roberto Jefferson, no “Mesa Redonda” da Cultura (3). Lá diz ele, claramente, estrondosamente, que é assim que as coisas funcionam no Brasil. O PT só foi mais ousado... O que me impressionou, disse ele, foi a “coragem do PT” em avançar tanto! Depois Dulcídio, no mesmo programa, bateu na mesma tecla (4): “Todos sabem”... E olhando para os jornalistas: “Vocês sabem!” Ninguém o desmentiu...

Pois é. Eu sei, a classe política sabe, os empresários sabem, os jornalistas sabem e... Maravilha, Dilma e Lula, candidamente, nada sabem!

É uma ignorância tão santa que ainda há quem acredite e os queira de volta!

Bem se diz que a esquerda é uma religião.

“Esquerda”? “E o marxismo”?

É seita fundamentalista.



Notas:

(1) os negócios se resumiram na construção de 2 sobrados em um terreno meu.

(2) Lembro-me ainda de uma de nossas primeiras conversas quando ele disse: -“Puxa! Você é o primeiro professor de História que conheço que não é de esquerda!

Um fato curioso: minha formação era de forte oposição ao marxismo mas também ao liberalismo já que defendo a doutrina social da Igreja. Meu caro Bira disse-me que não entendia a oposição do Magistério Católico ao liberalismo. Acontece que o que ele apresentou nas aulas não parecia ser o que as encíclicas criticavam.  Era um liberalismo simpático...pelo menos em economia. Com o tempo parece-me que ele mudou em alguns pontos já que ficou um adepto entusiasmado da escola liberal austríaca. Dá para conciliar tudo? Não sei. Preciso conversar mais com o cara mestre...

(3) Roberto Jefferson no Roda Viva (link https://www.youtube.com/watch?v=wnpQRw01ztQ)


(4) Delcídio no Roda Viva (link https://www.youtube.com/watch?v=h1Aa1K-ky9g)