GUERRA DO IRÃ NA PERSPECTIVA DA MÍDIA CATÓLICA
Valter de
Oliveira
No final do
último artigo aqui postado em 17 de abril p.p. prometemos mostrar o que
diversos analistas políticos pensam sobre as alegações das partes envolvidas na
Guerra do Irã. Melhor dizendo, o que pensam sobre as alegações de Trump e
Netaniahu para desencadeá-la. Veremos as motivações da guerra, os objetivos
pretendidos, as perspectivas do pós-guerra e o modo como está sendo realizada.
Tudo para se tentar chegar à conclusão se os requisitos para que a guerra seja
justa estão sendo cumpridos.
1. Autoridade soberana. Vimos que um primeiro ponto
a ser observado é se a guerra é feita por quem tem autoridade. No caso
autoridade soberana. Ninguém colocou isso em causa. É óbvio que EUA e Israel
são Estados soberanos. O Irã também, pois assim é considerado pela comunidade das
nações. É membro da ONU. Não são apenas Estados democráticos, que respeitam direitos
humanos, que fazem parte dela.
2. A causa justa exige que entendamos as motivações da guerra e
os objetivos pretendidos. Causa que pode perder seu valor se o modo como a
guerra for realizada deixar de cumprir uma série de pontos. Um deles é a
proporcionalidade. Perspectivas do pós guerra devem ser consideradas. Não se podem esquecer os danos
causados aos civis e, até mesmo, a males causados a uma série de países.
3. Finalidade reta. Só teremos condições de
analisar e concluir se a finalidade foi reta depois da análise concreta do que
foi dito acima.Não é tão fácil.
O que disse
a mídia católica?
Em primeiro
lugar esclareço que se considera mídia católica toda aquela que se considera
como tal. Ela é reflexo do que acontece na Igreja onde há várias correntes.
Lembremo-nos que por mais que não gostemos de uma ou outra, todas comparecem a
eventos da Igreja. Cardeais de todas elas participam dos sínodos, aconselham os
Papas e os escolhem em Conclave.
Aqui vou
colocar o resultado de minha pesquisa de dezenas de artigos dessas diversas
correntes. Em meus sites e blogs procuro adotar uma postura
histórico-jornalística e, portanto, conforme a ética da mídia e da ciência
histórica. Mais ainda, procuro atuar tendo como fontes a Doutrina Social da
Igreja e o Direito Natural, entendido na linha de S. Tomás de Aquino. É uma
postura que exige, também, abertura para que se veja todo o panorama da vida da
Igreja e sua atuação no mundo. Enfim, procuro a objetividade, o que não implica
em uma falsa neutralidade.
Dito isso
passemos a ver o que escreveu a mídia católica sobre a guerra do Irã e, até
mesmo, sobre a guerra moderna em si mesma. Veremos o resultado de análises de progressistas e conservadores. Hoje veremos o que pensam os primeiros.
MIDIA PROGRESSISTA
Pontos
comuns entre vários artigos nos órgãos abaixo.
(America
Magazine, National Catholic Reporter, Instituto Humanitas Unisinos) (1)
Crítica moral e teológica: a guerra é injusta.
Em primeiro
lugar porque lhe falta uma causa legítima, bem como intenção clara e respeito
ao princípio da proporcionalidade;
Em segundo
lugar enfatizam que guerras preventivas são moralmente problemáticas dentro da
tradição católica. No caso concreto os EUA afirmam que era necessário atacar o
Irã antes que ele se fortalecesse e produzisse armas nucleares. Ora, isso é contestado. Concluem que não há provas claras disso.
Alguns
autores falam explicitamente em “fracasso moral” da intervenção.
Ênfase na
diplomacia e no direito internacional
Os articulistas insistem ainda que é primordial negociar até o limite do possível. Se a
guerra for iniciada deve-se logo procurar o cessar fogo e atuar de modo que
muitas partes sejam ouvidas.
Trump
recebe severas críticas porque as ações bélicas estariam sendo realizada sem
aprovação do Congresso, respaldo da ONU, nem apoio de aliados. Na verdade,
Trump não foi o único. Vários presidentes norte-americanos tomaram a mesma
atitude. Há falhas no sistema norte-americano. (2)
Crítica às
motivações políticas
Aqui a guerra
é descrita como uma “aventura imprudente”, baseada em “justificativas frágeis
ou falsas”
Os
articulistas também lançam suspeitas sobre as motivações. Fala-se de interesses
geopolíticos – sempre existem – ou questionam a influência de aliados. No caso,
especialmente Israel. (3). Há artigos que relacionam os interesses de Netaniahu
com o chamado sionismo cristão.
Por último
destacam o que seria negativo no chamado “personalismo de liderança”. É a
crítica não só ao estilo e personalidade de com suas ações imprevisíveis bem como a uma certa visão quase
messiânica que ele teria de si mesmo.
Apelo à memória
histórica. O que a história nos ensina sobre intervenções anteriores?
Muitos
artigos destacam este ponto. Cita-se o golpe de 1953, com apoio norte
americano, que colocou o Xá Reza Pahlevi no poder. Depois, todas as outras guerras
promovidas no Oriente Médio. O governo norte-americando teria feito acusações falsas, como as pretensas armas
químicas do Iraque. Consideram que foram intervenções que fracassaram no
sentido amplo.
Ideia central: as intervenções anteriores geraram mais instabilidade do que solução.
Por tudo isso nada garante que agora será diferente.
Consequências humanitárias
Aqui
entra-se em um ponto que é muito forte na Doutrina Social da Igreja e que tem
sido manifestada claramente por papas recentes. Trata-se da preocupação com
civis, com a população de um país. Rejeita-se a morte de milhares de inocentes,
a destruição de escolas e hospitais, a fome e falta de remédios. Considera-se gravíssimos os deslocamentos forçados de populações inteiras. Como acontece no Líbano. Tal como em Gaza.
Também se
destaca que, por mais que uma guerra seja justa, o mais importante não é a
vitória militar, mas sim uma “paz justa” (4)
Responsabilização pós-guerra
Terminada uma guerra há responsabilizações. Claro que não acontece com todos os que agiram mal. Perdedores certamente são responsabilizados. Nem sempre com justiçã.
No caso da Guerra contra o Irã os que a
provocaram injustamente deveriam ser responsabilizados. Como?
Alguns autores defendem:
Reparações internacionais;
Reconstrução do país atingido;
Responsabilização
interna, ou seja, O Congresso e a lei dos EUA, bem como o Parlamento israelense
deveria processar e punir, respectivamente, Trump e Netaniahu.
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Assustou-se? Possivelmente. Imagino até que
queira me perguntar: “Essa mídia católica progressista não leva em conta os
erros e crimes do governo do Iran?”
Levam, digo
eu. Até bastante. Falam do assunto. Acreditam que também os governos devem estar sujeito a leis. Não se pode agir criminosamente contra bandidos. Mesmo os do crime organizado. Na mesma lógica Estados soberanos precisam atuar conforme a lei internacional e as diretrizes da
ONU.
Um exemplo:
ditaduras latino-americanas afirmavam que lutavam contra o comunismo. Podemos acreditar, Mesmo assim isso não lhes dava o direito de torturar e matar quem usou armas para
combatê-los. Um erro não se combate com
outro. O fim não justifica os meios.
Os articulistas, lembremos, julgaram a guerra ao Irã conforme a doutrina
católica. O critério dela é ainda mais severo.
Naturalmente não queremos dizer que a análise
deles não tem falhas. Podem ter várias. Estamos apenas sintetizando o que dizem.
Também não devemos cair no erro daqueles que afirmam que se um texto é progressista, ou de esquerda, tudo o que é dito é suspeito, falso ou distorcido. Na verdade, no caso em questão, as análises do progressistas têm vários pontos de afinidade com a mídia conservadora católica. Mais ainda, até com a tradicionalista. Por incrível que pareça.
É o que veremos no próximo artigo.
Notas:
1. America Magazine é um importante órgão dos
jesuítas dos EUA. Vários de seus artigos são reproduzidos na revista Ihu
unisinos, do Brasil. National Catholic Reporter (NCR) é amplamente
reconhecido como uma publicação católica liberal ou progressista. Tem
foco na justiça social, e defende reformas mais profundas na Igreja. Ihu
unisinos é uma revista, um órgão transdisciplinar da UNISINOS (Universidade jesuítica do RS), cujo principal objetivo “é apontar novas
questões para os grandes desafios de nossa época, a partir do humanismo social”.
Muitos de seus artigos propõem profundas reformas na Igreja.
2. Neste link você encontra um artigo que trata do assunto mais
profundamente:
3. Artigo de protestante batista que critica Trump e o sionismo cristão. Este é considerado por muitos como fundamentalista. Tal sionismo defende que o Estado de Israel moderno é central para as profecias do Antigo Testamento e do livro do Apocalipse. Muitos consideram que o conflito e a soberania judaica no Levante são como pré-requisitos para a batalha final descrita no Apocalipse, o Armagedom. No final da série vamos aprofundar o tema.
4. Podemos citar como exemplo a Primeira Guerra Mundial. Depois dela
tivemos o Tratado de Versalhes que impôs terrível punições à Áustria e Alemanha.
O Papa Bento XV advertiu. Não foi ouvido. Tivemos uma paz injusta. E o estopim
para a Segunda Guerra Mundial. que vai ser muito pior que a Primeira.
Fontes:
1.
America Magazine:”Contra uma guerra injusta e
injustificada contra o Irã”. Editorial.
https://www.americamagazine.org/editorials/2026/03/02/trump-war-iran-catholic-unjust/
2.
America. “Resultados da Guerra com o Iran
poderão ser piores do que a guerra com o Iraque.
https://www.americamagazine.org/news/2026/03/02/war-iran-catholic/
3. America. A teoria da guerra justa justifica a guerra com o Irã? Debate
entre vozes católicas.
4. National Catholic Reporter (NCR)
Guerra contra o Irã
https://www.ncronline.org/feature-series/war-iran/stories
5. NCR. Arcebispo Broglio: guerra contra o Iran possivelmente não é
justificável conforme o ensinamento católico.











