18 de junho de 1908. Nesse dia, chegaram a Santos, trazendo consigo cultura milenar, os pioneiros da imigração nipônica. Eram 800: 781 contratados, 10 espontâneos e outros. No vapor Kasato Maru haviam partido de Kobe, em 28 de abril de 1908. Para eles, um horizonte de esperança se abria. Historiar os fatos em suas minúcias? Não, não é isto que pretendo. Os historiadores o farão melhor.
Já entrado em anos, Keida Harada, meu avô, como fazia religiosamente todos os dias desde que chegara ao Brasil, em 1913, escrevia preciosas notas sobre a vida e os acontecimentos. Resgatá-lo é da maior importância para reconstruir a história privada daqueles que para cá vieram. Meu avô e minha avó tinham muito contato com uma parcela grande de famílias japonesas, pois ele fundara e por muito tempo dirigira a Cooperativa Agrícola de Suzano. Compartilhara, assim, com elas, a cortante nostalgia da Terra das Cerejeiras, as doenças, as agruras econômicas, o sofrimento dos tempos da guerra.
Mas não foram só tristezas e angústias. A família tornara-se numerosa. Havia os encontros festivos. As canções, as estórias, a culinária. Depois, a tenacidade, o esforço e a paciência fizeram com que um filho seu, meu pai, pudesse estudar no antigo Ginásio do Estado, então, único no Estado de São Paulo e, mais tarde, bacharelar-se em direito na Faculdade do Largo de São Francisco, onde também me formei.
Quando eu esmorecia, ele, voz firme e entusiasmada, exclamava: “gambarê! Gambarê!” (em português: ânimo, seja forte, lute apesar de todas as dificuldades). E lá, das profundezas de meu desânimo, da dor e do pessimismo, da raiz de meu ser, clamava a Deus a força da superação.
Exigia-nos retidão, estoicismo de samurai, sabedoria, disciplina e muito trabalho. Ensinava-nos que este era o espírito nipônico, do Japão japonês. Nada a ver com o da forte influência do american way of life do pós-guerra. Era assim que iríamos contribuir para o nosso crescimento e para compor e colorir esta linda aquarela do Brasil. “Do meu Brasil brasileiro”, “desse Brasil lindo e trigueiro”, da “morena sestrosa”, das “fontes murmurantes”, da intuição, da criatividade.
Meu avô que nunca perdera o filial e ardente amor à Terra do Sol Nascente, pôde ostentar com orgulho o título de cidadão brasileiro outorgado por decreto presidencial. Com sua mulher, filhos e netos, na saga de milhares e milhares de imigrantes japoneses e descendentes, seus corações puderam sentir o abraço das chamas de um profundo e irremediável amor: amor à terra de Santa Cruz, que com sangue, suor e lágrimas ajudaram a construir. Amor a esta sagrada “Terra Brasilis”! “Terra de Nosso Senhor! Brasil!”
Cícero Harada
Advogado
Procurador do Estado de São Paulo
Conselheiro da OAB-SP
Presidente da Comissão de Defesa da República e da Democracia
Autorizada Ampla Divulgação,
desde que indicada a autoria e obedecido o texto integral cicero.harada@terra.com.br
Um comentário:
Valter
Este artigo do Dr Cícero muito me emocionou.
Ontem participei do III Colóquio internacional do pensamento japonês e um conferencista disse um ponto a qual me fez refletir em nossa cultura ocidental. O ponto foi o seguinte: Os japoneses não possuem a separação entre religião e Estado, principalmente é isso que está vigorando atualmente na filosofia que tem sido contruída dentro do pensamento japonês.
A questão também do espírito de samurai também foi algo que me fez refletir: A honra, a tenacidade e o amor à perfeição.
Fiquei admiradíssima com a cerimônia do chá e o conceito infundido nesta prática...
Em suma os 100 anos da Imigração Japonesa fizeram com que pudéssemos abrir nossos olhos para os orientais e perceber o quanto nossa cultura, nossa filosofia pode aprender com nossos amigos.
Excelente artigo!
Um abraço
Christiane.
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