RABINOS E LÍDERES JUDEUS NO MUNDO CRITICAM NETANIAHU
Valter de Oliveira
Como vimos até aqui em nossa série sobre guerra justa na perspectiva da
D.S.I. (Doutrina Social da Igreja) – com análise concreta sobre a guerra dos
EUA e Israel contra o Irã - chegamos a uma constatação relevante: teólogos e
intelectuais católicos, de diferentes correntes dentro da Igreja, consideram
que ela é injusta. Alguns, como vimos, também a consideram imoral e até exigem
que seus autores sejam condenados.
Por outro lado, se quisermos ter uma visão mais abrangente do problema,
é necessário que vejamos o que pensam aqueles que pertencem ao povo de Israel,
tanto na área política, quanto na religiosa, levando em conta, também, que há
divergência entre eles.
Durante décadas, críticas às políticas do governo
israelense costumavam ser apresentadas no debate público ocidental como provenientes sobretudo de adversários
externos ao Estado de Israel. Nos últimos anos, porém, uma realidade mais
complexa passou a ganhar visibilidade: vozes cada vez mais numerosas do próprio
mundo judaico têm questionado a condução política e militar do governo de
Benjamin Netanyahu.
Essa dissidência não se limita a um único país, corrente religiosa ou
orientação ideológica. Ela reúne rabinos norte-americanos, intelectuais
europeus, sobreviventes da Shoah, antigos dirigentes israelenses e membros da
diáspora judaica preocupados com o futuro moral, político e diplomático de
Israel.
Nos Estados Unidos, centenas de rabinos reformistas, conservadores e
mesmo ortodoxos manifestaram preocupação com o elevado número de vítimas civis
na Faixa de Gaza, com a crise humanitária e com o risco de uma escalada
regional envolvendo outros países do Oriente Médio. Muitos desses líderes
afirmam que princípios fundamentais do judaísmo, como a preservação da vida
humana e a busca da justiça, exigem uma reflexão crítica sobre os meios
empregados na guerra.
Essa preocupação foi sintetizada pelo rabino norte-americano Rick
Jacobs, presidente da União para o Judaísmo Reformista, ao afirmar que "o sofrimento
em Gaza e a crescente desconfiança em relação ao governo Netanyahu tornaram
muito mais difícil para muitos judeus americanos manifestarem apoio às atuais
políticas israelenses". A observação revela uma mudança importante dentro
da própria comunidade judaica dos Estados Unidos.
Na Europa, intelectuais judeus vêm expressando inquietações semelhantes. Entre eles destaca-se a historiadora italiana Anna Foa, autora de” O Suicídio de Israel”. Sem questionar o direito de Israel à existência e à segurança, Foa argumenta que determinadas políticas do atual governo podem conduzir o país ao isolamento internacional, ao enfraquecimento de suas instituições democráticas e à erosão dos valores que historicamente sustentaram sua legitimidade. Ela "Ela alerta que o maior risco para Israel talvez não seja apenas militar, mas também moral e institucional."
Mesmo dentro de Israel, a crítica deixou de ser um fenômeno marginal.
Antigos dirigentes políticos, militares e acadêmicos passaram a advertir sobre
os riscos de uma guerra sem horizonte político definido. Para esses críticos, a
segurança israelense não poderá ser garantida apenas pela força militar, mas
dependerá também da reconstrução de perspectivas diplomáticas para a
convivência entre israelenses e palestinos.
Uma das manifestações mais significativas desse movimento ocorreu quando
mais de mil rabinos de diferentes países assinaram uma carta aberta denunciando
a morte de civis, a fome e a deterioração das condições humanitárias em Gaza. O
documento chama atenção por reunir sensibilidades religiosas diversas,
demonstrando que essas preocupações ultrapassam fronteiras ideológicas
tradicionais.
A carta afirma que seus signatários são movidos pelos "valores
fundamentais da Torá" e exige "respeito por todas as vidas
inocentes", em Gaza e na Cisjordânia, indicando que a crítica nasce de
convicções religiosas e não da rejeição ao Estado de Israel.
É importante notar que a maior parte dessas vozes não se identifica com
o antissionismo nem nega os traumas provocados pelos ataques sofridos por
Israel. Pelo contrário. Todos são filhos de Israel que afirmam que suas
críticas e preocupações nascem
precisamente do compromisso com a continuidade e o futuro do Estado judeu.
Afinal, pensam eles, apoiar Israel não significa apoiar incondicionalmente
qualquer governo israelense.
CONCLUSÃO
Como vimos também numerosos rabinos, intelectuais e antigos dirigentes israelenses sustentam que a condução das guerras em Gaza e contra o Irã violou princípios éticos fundamentais, especialmente no que se refere à proteção da população civil, à proporcionalidade do uso da força e à busca de uma solução política para os conflitos. Embora utilizem linguagens diferentes, muitas dessas críticas apresentam pontos de contato com os critérios da guerra justa desenvolvidos pela Doutrina Social da Igreja. Mais ainda, por incrível que pareça, podemos até fazer um paralelo entre suas críticas e aquelas feitas em consonância com a Doutrina Social da Igreja.
Mas essa aproximação entre a tradição judaica e a Doutrina Social da Igreja merece um estudo próprio. Fica, talvez, para um próximo artigo.
Fontes
1. The
Jerusalem Post. "Benjamin Netanyahu's goal is to stay in power, not
total victory in war". Disponível em:
https://www.jpost.com/opinion/article-801612
2. The
Times of Israel. "Top US rabbi says Gaza's plight, distrust of
Netanyahu make supporting Israel hard." Disponível em:
https://www.timesofisrael.com/top-us-rabbi-says-gazas-plight-distrust-of-netanyahu-make-supporting-israel-hard/
3. The
Jerusalem Post. "Former Prime Minister Naftali Bennett criticizes
government's conduct of Iran war." Disponível em:
https://www.jpost.com/israel-news/politics-and-diplomacy/article-899535
4. The
Jerusalem Post. "Lack of leadership is hurting Israel."
Disponível em:
https://www.jpost.com/opinion/article-801480
5. CASPIT,
Ben. Sinwar and Nasrallah can relax: Netanyahu wants a complete victory,
but not over them. The Jerusalem Post, 18 maio 2024. Disponível em:
https://www.jpost.com/opinion/article-801612
6. Editorial
Board. Netanyahu's Vision of Israel as "Super Sparta" Means
Eternal Siege. Haaretz, 16 set. 2025. Disponível em:
https://www.haaretz.com/opinion/editorial/2025-09-16/ty-article-opinion/netanyahus-vision-of-israel-as-super-sparta-means-eternal-siege/00000199-4eed-d6e0-a7fb-cfedcd210000
7. Sete
Margens. "Mais de mil rabinos de todo o mundo criticam política de
Israel em Gaza e na Cisjordânia." Disponível em:
https://setemargens.com/mais-de-mil-rabinos-de-todo-o-mundo-criticam-politica-de-israel-em-gaza-e-na-cisjordania/
8. https://www.olivereduc.com/politica/politicainternacional/anna-foa-e-o-suicidio-de-israel/



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