quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

LULA, CLASSE POLÍTICA E DIGNIDADE

Valter de Oliveira


Basta olhar as cartas dos leitores aos jornais para vermos como estão profundamente decepcionados com a classe política. O mesmo vemos em inúmeros blogs nos quais se expõe de modo cada vez mais contundente práticas de corrupção e outros desvios éticos de nossos dirigentes. Jornais e revistas, como é habitual, não deixam de fazer suas denúncias. É um importante papel da imprensa democrática.

O mau exemplo leva o cidadão a descrer da democracia. Ou dos governos em geral. Pior: Muitos começam a perguntar: se eles podem (agir mal) por que eu não posso?

Não é questão de poder ou não. É questão de dignidade, de honra, de valores. Fazemos o bem seguindo nossa consciência retamente formada que nos faz ver o bem e praticá-lo. Sem desejar aplausos ou recear desprezos. E para quem tem fé, pela alegria em seguir a Deus.

A corrupção de tantos políticos – e de outros setores da sociedade – não devem nos levar ao abandono da política. Aristóteles dizia que o homem é um animal racional. Nossa razão nos mostra que somos seres sociais e que não podemos viver sem política. Pelo menos Política com p maiúsculo, que nada tem a ver com mesquinharias partidárias. E o que é ela?

"A política é a atividade que diz respeito à vida pública.” É a arte de governar, de gerir o destino da pólis (cidade). E para isso o homem político (...) é investido de poder para imprimir determinado rumo à sociedade tendo em vista o interesse comum”. (1)

A maior parte de nós, eu ou você que está lendo esse artigo, não precisa ser cientista político, economista, jurista ou filósofo, para perceber quanto os políticos, no poder ou na oposição, não agem como deveriam. O simples homem do povo sabe e sente que nossa classe política não trabalha para o bem comum. O que não quer dizer que nada seja feito.

É verdade que este conceito, em nossa sociedade, é concebido, em sua maior parte, como uma série de bens principalmente materiais. (E a mídia tem enorme responsabilidade no crescimento desta visão errada). Boa seria a sociedade em que houvesse habitação digna para todos, pleno emprego, sistema de saúde adequado, cidades com boa infra-estrutura e áreas de lazer, escolas de qualidade, etc.

Sem dúvida tudo isso é muito bom. Mas não é o suficiente. Desejo que meus filhos e todos os seres humanos desfrutem de tudo isso. Mas, assim como não basta que alguém seja rico para se desenvolver plenamente e atingir seu fim último, que é Deus, assim também não significa que se o mundo inteiro vivesse como os dinamarqueses ou canadenses o bem comum teria sido alcançado. Seria uma visão totalmente materialista.

Santo Agostinho ensina que a condição do bem comum é a paz, que ele conceituava como a “tranqüilidade da ordem”. E esta é a disposição de cada coisa conforme sua finalidade. E evidentemente não há ordem quando o homem coloca bens materiais acima dos espirituais como é o caso do mundo moderno. Dá para entender por que falamos tanto em paz e cada vez mais temos violência, guerras, opressão dos mais fracos e desprezo pela própria vida humana?

Então, no que consiste o bem comum? O prof. Manuel Gonçalves Ferreira Filho nos diz: “A lição tomista, esclarece, de maneira ainda não superada, o conceito. A essência do bem comum é, para Santo Tomás, a vida humana digna. A ação do Estado deve assegurar para todos uma situação tal, em que cada um possa realizar-se plenamente” (2).

Neste sentido vários autores afirmam que para S. Tomás o bem comum implica na vida virtuosa em comum. O que não será alcançado se os cidadãos não entenderem bem seus direitos, não cumprirem suas obrigações e se os dirigentes usarem erradamente o poder.

“O poder põe o homem à prova. Pois muitos, quando permanecem em posições humildes, têm toda a aparência de virtude, e no entanto afastam-se dela quando chegam às alturas do poder”. (3)

Agora vou dizer o óbvio: nossa classe política não entende corretamente o papel do Estado nem o verdadeiro conceito do bem comum. Os aspirantes do poder, de todos os partidos políticos, já nascem e são nutridos em um ambiente com mentalidade oligárquica. Na linguagem política atual: vivem o fisiologismo, adotam o nepotismo, amam e defendem-se com o corporativismo. Os piores adotam tudo isso e ainda procuram manipular a sociedade e conduzi-la cada vez mais a aceitar ideologias que implicam na negação da dignidade humana.

Ainda ontem vi um triste exemplo disso. Em noticiário na TV vi o sr. Lula da Silva, presente no desfile de carnaval na Marquês de Sapucaí, ao lado do prefeito e do governador do Rio, jogando preservativos para os foliões. Dinheiro público que deveria ser usado em Saúde e Educação é jogado fora para facilitar a promiscuidade.

Os imperadores romanos eram mais dignos: quando compareciam ao Coliseu jogavam pão para o povo...




1. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Temas de Filosofia. São Paulo, Moderna, 1992. p.138

2.FERREIRA FILHO. Manuel Gonçalves. A Democracia Possível, São Paulo, Saraiva. 1985. p.35

3.(Reg. Princ.,1,9) in AMARAL, Diogo Freitas do . História das Idéias Políticas, vol 1. Coimbra, Livraria Almedina, 1998, p. 185”.

domingo, 15 de fevereiro de 2009



HOLOCAUSTOS: CRIMES CONTRA DEUS E A HUMANIDADE


Valter de Oliveira



Confesso que os últimos acontecimentos noticiados pela mídia a respeito do bispo Williamson, a reação da comunidade judaica e o pedido de perdão do Papa por aqueles que negam o holocausto deixaram-me perplexo. E, ao mesmo tempo, por paradoxal que pareça, alegre e esperançoso. Explico-me.

1. a perplexidade

Em primeiro lugar fico perplexo com o fato de alguém negar que o povo judeu não tenha sido vítima de uma das maiores barbáries da História. O assassínio de tantas vítimas inocentes foi, como disse o Papa, um “terrível crime”. E negá-lo “é intolerável e totalmente inaceitável”.

2. a insensibilidade

Em segundo lugar surpreende-me a insensibilidade do homem moderno diante de tantas monstruosidades cometidas por aqueles que querem construir uma sociedade perfeita baseada exclusivamente no homem. Só almas insensíveis, cobertas pela lepra do indiferentismo e do pecado, não conseguem ver os sofrimentos de tantos inocentes que foram e são eliminados por aqueles que defendem tenazmente a cultura da morte. Talvez se entenda então porque o Papa se viu obrigado a dizer: “O ódio e o desprezo por homens, mulheres e crianças, manifestados na Shoá, foi um crime contra Deus e contra a humanidade”.

Se os homens levassem um pouco a sério o que Deus nos ensinou – a todos de religião de origem semita – não seria necessário recordar-nos do que é óbvio.

Eu, como católico, relembro o que aprendi ainda jovem no catecismo: há quatro pecados que bradam ao Céu: O homicídio voluntário, o pecado de sodomia, a opressão dos pobres, não pagar o salário a quem trabalha.

Se um só homicídio merece tal repulsa por parte de Deus, o que dizer de massacres de grupos, raças e povos?

3. E por que me alegro?

Primeiro porque quando em minhas aulas trato das abominações do mundo moderno costumo mostrar os crimes cometidos pelo socialismo. E sempre começo pelo socialismo nazista. Crimes contra judeus e não judeus. Crimes contra alemães. Crimes contra seres humanos inocentes. Saudáveis e deficientes.

Nessa minha cruzada particular passo o filme “Julgamento em Nuremberg(1). Discuto com os alunos a mentalidade de cada um dos 4 nazistas acusados. Do degenerado, do fanático, do jurista respeitável, do juiz bonzinho e legalista que se julga inocente afirmando que o papel de um juiz é apenas aplicar a lei, sem questioná-la. Não fora ele que a tinha promulgado. Ele era simplesmente um fiel servidor do Estado...

E qual foi o grande erro, o grande crime dos legisladores nazistas? Foi afirmar que o Estado tem o direito de fazer qualquer lei que achar conveniente. Claro que, dizendo que é para o bem do povo ou da sociedade. E esta lei humana não pode ser limitada por ninguém. Nem pela lei divina e nem pelo direito natural. É a postura do Estado laicista sempre criticada pela Doutrina Social da Igreja.

Laicismo criminoso defendido pelos jacobinos do Terror.

Laicismo hediondo defendido pelos totalitários nazi-fascistas.

Laicismo abominável defendido pelo positivismo, pelo sociologismo jurídico, pelo existencialismo ateu, pelos marxistas. Todos hoje unidos em defesa da cultura da morte.

Laicismo desgraçadamente defendido pela declaração da Diretoria Nacional do PT ao defender o aborto, ou seja, o extermínio de inocentes. Razão: a pretensa autonomia que a mulher teria o direito sobre seu corpo. (2)

Graças a Deus estamos no pólo oposto. O que o juiz Haywood afirmou na sua sentença final em Nuremberg (3) nós bradamos com toda a alma: o nosso propósito de defender sempre o valor inalienável da vida de cada ser humano.

Alegro-me também porque nós católicos, que conhecemos e amamos a doutrina da Igreja e os ensinamentos luminosos de Nosso Senhor Jesus Cristo realmente estamos comprometidos na rejeição de toda forma de antissemitismo. E por uma razão muito simples: estamos comprometidos com toda a criatura humana. E por isso defendemos a inalienável dignidade do ser humano desde sua concepção. É uma alegria imensa saber que nenhuma outra instituição na Terra defende a vida humana tal como a defendemos.

4. A esperança

O Papa pediu perdão pelos pecados cometidos contra os judeus. Estranhei. Por que pedir perdão pelos crimes cometidos por nazistas? Ou pelas ignomínias proferidas por seus simpatizantes? Nós também fomos vítimas deles. Milhares de nossos irmãos perderam suas vidas por se oporem à gnose socialista nazista. Quem matou S. Maximiliano Kolbe e nossa irmã judia, S. Edith Stein?

E nós brasileiros ainda temos um motivo de glória: mais de 500 soldados, mais de 500 homens de valor que morreram para que o nazismo desaparecesse da face da terra!

Talvez o pedido de perdão do Papa queira dizer que a Igreja chora não só por seus filhos infiéis mas, por todo ser humano que perdeu a noção do valor da vida: a terrena e a eterna. Dos batizados e dos não batizados.

Finalmente, minha esperança é que todos os homens, em especial os judeus que viram tantos de seus filhos inocentes serem massacrados, unam-se a nós, católicos, para defender a vida humana.
Poderíamos começar relembrando outros genocídios, outros holocaustos. E condenando alto e bom som os crimes abomináveis cometidos por outro tipo de socialismo: o socialismo marxista.

Ainda há países socialistas que persistem em negar o valor intrínseco da vida humana. Seus algozes continuam no poder. Já no mundo democrático partidos socialistas e comunistas, e todos os seus simpatizantes, em todos os setores da sociedade, continuam a defender que não é crime matar inocentes por razões políticas e defendem asilo para seus criminosos!

Pior ainda: negam obstinadamente os terríveis crimes que praticaram contra populações inteiras. (4)

Também sobre estes “holocaustos” deveríamos aplicar as palavras do Papa:
"Não há dúvidas (...) – de que toda negação ou minimização deste terrível crime é intolerável e totalmente inaceitável." "Este capítulo terrível da nossa história não deve ser esquecido nunca", sentenciou.

Assim sendo, creio que em nome de tantas vítimas inocentes, temos que exigir:

Que a ONU, todas as igrejas cristãs, todos os líderes religiosos do mundo inteiro, todos os que justamente defendem a dignidade humana condenem, publicamente, todos os crimes praticados por Lênin, Stalin, Mao Tse Tung, Pol Pot e quaisquer outros criminosos políticos. Que se faça um monumento em homenagem a tantas vítimas inocentes. Que se exija dos defensores de tantas atrocidades que publicamente peçam perdão por defender o indefensável. (5)

Por último um pedido do fundo de nossas almas: a condenação mais radical de milhões de abortos praticados todos os anos. Com um grande mea culpa das “católicas” pelo direito de decidir e de todos os que tanto se obstinam em assassinar seres humanos inocentes.

Cabe a mim e a você, meu caro amigo leitor, empenharmo-nos com ardor para que isso seja possível.

Roguemos a Deus para que estes outros holocaustos - sempre lembrados e condenados pela Igreja - possam também ser condenados por toda a sociedade. Será um enorme bem para a humanidade e motivo de imenso júbilo no Céu.


Notas

1. Julgamento em Nuremberg, 1961, direção de Stanley Kramer.

2. O Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores é contrário à CPI do Aborto e reafirma o compromisso de luta pela descriminalização do aborto e em defesa da igualdade e autonomia das mulheres sobre seu corpo e sua vida. O Partido dos Trabalhadores - PT- em seu 3° Congresso Nacional, ao tratar deste tema definiu e aprovou a seguinte resolução: "defesa da autodeterminação das mulheres, da descriminalização do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público evitando assim a gravidez não desejada e a morte de centenas de mulheres, na sua maioria pobres e negras, em decorrência do aborto clandestino e da falta de responsabilidade dos Estados no atendimento adequado às mulheres que assim optarem." Tratar desse tema criminalizando as mulheres, impondo valores religiosos ou morais, é apostar no autoritarismo que queremos que não exista em nossa sociedade. Brasília, 09 de fevereiro de 2009.

Obs: Observe-se a hipocrisia: a ideologia totalitária petista defende o extermínio de inocentes e acusa de autoritários quem defende a inviolabilidade da vida h
umana! Não é de estarrecer? E o que não querem que exista? O crime? Não. O que escancaradamente afirmam é que desejam que os valores morais e religiosos desapareçam da sociedade!

3. "Diante dos povos do mundo que seja aqui registrado... que na nossa decisão foi isso que defendemos... Justiça... Verdade... e o valor de cada ser humano (and the value of a single human being).

4. O PCdoB, do sr. Aldo Rebelo, devoto de Stalin e de Mao Tse Tung tem a desfaçatez de afirmar: “O socialismo ontem, hoje e amanhã será sempre a expressão da luta
pela construção de uma nova sociedade, antagônica ao capitalismo. Nas quatro/cinco décadas de vivência do socialismo, alcançaram-se êxitos históricos e cometeram-se também erros” (...) (site do PCdoB, respostas às perguntas mais freqüentes. Questão: “O socialismo ainda está na ordem do dia?)

Em suma, caros amigos, OS ERROS são os 100 milh
ões de mortos vítimas do comunismo...

5. Neste sentido também mostro a meus alunos os crimes praticados pelo socialismo marxista no Camboja apresentando a eles o filme: “Os gritos do Silêncio”, direção de Roland Joffé, vencedor de três Oscar.




quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009



R$ 383,22! Educação e Saúde?



Ubiratan Jorge Iório de Sousa*

30/01/2009


Trezentos e oitenta e dois reais e vinte e dois centavos para 20 horas de trabalho semanais exigidas! É o que ganha um professor substituto (de quem se exige apenas o curso de graduação) de uma universidade federal, em uma faculdade de Medicina, Enfermagem e Farmácia. Nas demais áreas de conhecimento a remuneração é a mesma, pois é estabelecida em tabela pelo ministério do Planejamento e vale para todas as universidades federais. Se o professor tem mestrado e trabalha 40 horas por semana, o salário é de R$ 1.290,07 e, se possuir mestrado e pertencer ao quadro fixo da instituição, recebe mensalmente, em início de carreira, a “astronômica” cifra de R$ 2.715,97. Na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), onde leciono há 17 anos, o salário mensal de um professor com doutorado, em qualquer faculdade ou instituto, em regime de 40 horas e em início de carreira não chega aos R$ 3.500,00. Um médico concursado de um hospital público do Rio de Janeiro ganha pouco mais de R$ 1.000,00 por mês. Um professor da rede pública estadual e municipal, em começo de carreira, nem sequer sonha em ganhar tão “bem”... É um retrato bem pequenininho do estado de calamidade em que jazem a saúde e a educação públicas. Não vou nem comentar o péssimo atendimento nos hospitais públicos e a baixíssima qualidade da educação. Não é preciso.

Do outro lado dessa rua esburacada e sem calçamento, os jornais informam que o governo federal está distribuindo 600.000 preservativos para serem distribuídos aos jovens que estão em Belém participando da grande feira de fósseis ideológicos – que deve despertar o interesse de qualquer paleontólogo – denominado “Fórum Social Mundial”. Esse mesmo governo tem 37 (ou 38, pois é mesmo de perder a conta) ministérios e “secretarias especiais”. Nos estados e nos 5.564 municípios, governadores e prefeitos abrem bateladas de secretarias para acomodar quem lhes dá apoio político. Nas demais esferas e nos três níveis de poder do Estado, o Judiciário, quando se trata de aumentar os próprios gastos com pessoal, é, digamos, bem pouco judicioso. O legislativo, nem se fala. É só um pálido retrato de desperdício e malversação dos recursos arrecadados febrilmente do contribuinte.

Vou parar aqui. Estou plenamente convencido de que não é preciso acrescentar qualquer comentário adicional. Este, infelizmente, é o nosso país. Um país, afinal, coerente, uma vez que o seu presidente declarou com orgulho que não gosta de ler nem manchetes de jornais, porque “dá azia”... Deve ter pavor de médicos, mesmo tendo um, pago por nós, para cuidar exclusivamente da sua saúde

PROFESSORI, VIL RAZZA DANATA!

Ubiratan Jorge Iorio de Sousa

02/02/2009

Segundo os jornais do último fim de semana, o Ministério da Educação determinou, no último dia 30 – exatamente a data da postagem anterior –, que os professores substitutos da UnB e, por extensão, da Universidade Federal de Juiz de Fora, terão os seus salários reajustados de R$ 388,22 para R$ 1.079,00 por mês, para 20 horas semanais de trabalho. Um aumento de 277% que melhorou, ou como diria alguém bem realista, porém pouco preocupado com o português, “piorou menos” a condição dos referidos docentes que, se estavam afundados até o pescoço, agora passaram à condição de imersos até a altura do peito...

O que aconteceu?

Os bondosos burocratas resolveram incorporar a GAE (em torno de R$ 457,00), gratificação que somente era paga aos docentes de carreira – ao salário dos professores substitutos, que são, como se sabe, contratados temporariamente. Segundo o MEC, dentre as federais, apenas a UnB e a UFJF não pagavam a GAE aos substitutos. Com o novo salário mínimo, de R$ 465,00, o piso para esses professores será de R$ 1.209,00.

Mudou algo?

Só que esse ato de suprema bondade de nossos burocratas da educação não muda nada em relação ao que escrevi no dia 30. O leitor poderá argumentar que o aumento foi substancial, ao que eu contra-argumentarei (com hífen e tudo, pois o prefixo termina com a mesma vogal com que começa a palavra seguinte) se ele acha justo um professor universitário, mesmo sem mestrado, ganhar menos do que, por exemplo, um contínuo do Senado Federal, que recebe cerca de R$ 10.000,00 por mês, ou um ascensorista do Congresso, que percebe perto de R$ 6.000,00 em cada mês (fora o 13º salário e outras vantagens, a que os docentes temporários não têm direito). E acrescentarei outra pergunta: quais os salários dos assessores de vereadores, deputados e senadores, que existem às pencas e multiplicam-se a taxas superiores às dos coelhos e ratos? Certamente, não serão menores do que o novo piso dos professores assistentes.

Salários dependem principalmente – ensina-nos a Teoria do Capital Humano – de escolaridade e de experiência, além, evidentemente, das condições de demanda e oferta de cada tipo de mão-de-obra. Será que há mais brasileiros qualificados para serem professores universitários do que brasileiros com qualificação para contínuos, ascensoristas e aspones? Será a demanda por estes últimos superior à de professores universitários? É evidente que a resposta é não em ambos os casos, o que explica que os salários no setor público são determinados muito mais por fatores políticos e corporativos do que pelos econômicos, que normalmente deveriam determiná-los. Aí é que está o problema. Mas, se nosso presidente sequer lê jornais e, desde que se tornou líder sindical, sempre se recusou a estudar, não deve gostar mesmo de professores. Deve considerá-los supérfluos, uma raça vil...

Só mesmo parodiando aquela bela ária do Rigoletto de Verdi: Cortigiani, vil razza dannata...


*Ubiratan Jorge Iorio de Sousa é Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas e professor da UERJ


Visite o site http://www.ubirataniorio.org/blog.htm


sábado, 17 de janeiro de 2009

O Diagnóstico e o Remédio:
Equívoco de “Conservadores”


Valter de Oliveira



Alguns dizem que é normal que jovens, especialmente ao entrar na Universidade, se deixem seduzir pelos ideais socialistas.

Dizem, porém que já não seria normal se continuassem apoiando Marx após ter completado 40 anos...

Há também quem diga – como Maritain – que admira nos socialistas o amor pela justiça.

Não concordo. O ideal socialista é sumamente injusto no seu objetivo e brutalmente injusto nos seus métodos.

De qualquer modo não deixa de ser curioso – para dizer pouco - como a propaganda revolucionária conseguiu fazer com que até mesmo não marxistas acreditem que o igualitarismo social é um bem.

Em minhas aulas – a maior parte delas dadas, sobretudo a alunos da classe média – acostumei-me a fazer algumas perguntas. Uma delas é a seguinte: “Quais partidos defendem mais o povo, os de esquerda ou os conservadores”?

Resposta quase unânime da classe: “Os de esquerda”!

E de onde eles tiraram esta conclusão brilhante? Livros didáticos, aulas de humanas, propagandas na mídia. Ou seja, anos de doutrinação explícita ou subliminar.

Para piorar pensam que o projeto revolucionário se resume só às questões econômicas. Não têm a mínima idéia do que seja o socialismo no campo da educação, da cultura, dos valores, ou da família.

Para complicar temos esta falha de percepção até mesmo em famílias conservadoras. Ou melhor, enxergam algumas coisas, mas não outras. Claro que, sendo conservadores percebem muita coisa errada em nossa sociedade. Mas, se você perguntar sobre o governo Lula dizem, e até com um certo alívio e um sorriso nos lábios, que ele está fazendo um governo conservador!... Alegram-se com sua política econômica continuadora do PSDB. E eis aí outra coisa aparentemente estranha. Setores da classe média e o PSOL afirmam a mesma coisa: Lula e o PT são de direita! Ou quase!

Na mesma linha é curioso ver como não marxistas passam a apoiar certas causas sociais. Cresce a simpatia pelo sistema de cotas. E por movimentos sociais como o MST. Além disso, usam os termos de momento lançados pelos socialistas como se seus significados não embutissem nenhuma carga revolucionária ideológica. Preconceito, discriminação, inclusão, trabalho voluntário... Tudo conforme o politicamente correto.

E ao conversarem conosco o que nos dizem: “Realmente, temos uma dívida histórica com os negros”. Ou ainda: “Temos que acabar com as desigualdades sociais”! E aí nosso conservador já aceitou um dogma marxista: toda desigualdade social é sinônimo de injustiça.

Da adesão às causas ele quer passar à ação. E é lógico. Se há um mal urge que lutemos para eliminá-lo. E aí se passa à simpatia pelo MST e outros movimentos sociais e políticos que, teoricamente, estariam defendendo a justiça, a liberdade, e os direitos humanos.

A realidade é mais complexa.

Neste artigo não quero discutir os pressupostos, ou seja, se a realidade vista a partir dos olhos da esquerda é verdadeiro. Vamos aceitá-los só para efeito de argumentação. Vamos admitir que o DIAGNÓSTICO sobre esses nossos males sociais esteja correto. O que fazer?

Acho que foi São Tomás quem ensinou que para julgarmos a realidade temos que fazer três coisas: 1º Ver; 2º Julgar; 3º Agir.

Se virmos mal e formos coerentes, julgaremos mal. Em conseqüência seremos um desastre na ação.

Como aceitei por hipótese que o diagnóstico de certos males na sociedade seriam verdadeiros preciso agora saber quais os meios corretos que devem ser usados para curá-los. É durante o julgar que vemos os erros de fundamento da conjuntura ou até da estrutura social. A vida política, social e econômica de um país não pode ser mudada só por pretensas "boas intenções".

Há mais de cem anos os socialistas dos mais diversos matizes nos mostram os males da sociedade liberal capitalista. Muitas vezes apontam com razão as doenças existentes. Noutras erram em explicar as causas. Mas, sobretudo, sempre erram na terapia. Qual o remédio que propõem? Simplesmente a aplicação do socialismo, muitas vezes apresentado como sinônimo de justiça social.

E o que dizem os Papas?

Já o papa Leão XIII, na Rerum Novarum, primeira grande encíclica social da Igreja, mostra claramente o erro da solução socialista:

“Os socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem (...) e lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria (...) prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Outrossim, é sumamente injusta, por (...) viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social”. (RN 3).

O texto é tão importante que é citado na Centesimus Annus de João Paulo II.

Sei perfeitamente que as pessoas às quais me refiro não querem, obviamente, a vitória dos ideais marxistas. Sei também que na correria do mundo moderno poucos têm tempo e mesmo gosto para acompanhar discussões doutrinárias. O que lhes peço, se minha voz chegar até elas, é que não se deixem levar por bons sentimentos ou pelas falácias da propaganda revolucionária.

É preciso lembrar continuamente que os marxistas sempre souberam se aproveitar das injustiças sociais. É o que vemos nas palavras de João Paulo II: “A crise do marxismo, não elimina as situações de injustiças e de opressão no mundo, das quais o próprio marxismo, instrumentalizando-as, tirava alimento” (CA 26) (destaque nosso).

Em suma, enquanto continuarmos acreditando que ideólogos (hoje os socialistas marxistas, ontem os socialistas nacionalistas de Hitler) têm a solução para os problemas sociais de nosso mundo, estaremos sendo instrumentalizados. São os verdadeiros valores de nossa sociedade que nos permitirão lutar e ajudar os mais necessitados. Aceitar as falácias socialistas é contribuir para o triunfo da cultura da morte e da escravização da humanidade. É dizer sim a tudo o que nega a verdadeira a dignidade humana.




OBS: Neste artigo estamos considerando “Conservador” a qualquer pessoa não socialista.

sábado, 10 de janeiro de 2009

EDUCAR É AJUDAR A CRESCER

Evandro Faustino[1]

Meu amigo Valter me pede algumas linhas sobre o candente assunto da educação e da escolha de um bom colégio. Vamos iniciar esse tema com uma verdade óbvia e indiscutível para qualquer pai ou mãe: nossos filhos são nosso maior tesouro. A essa verdade acrescentamos outra, tão evidente quanto a primeira: somos parceiros de Deus, sócios de Deus na criação de nossos filhos.
O ato de criar um filho não termina em sua concepção. O ser humano é de todos os animais, o que mais tempo necessita dos pais para se formar. Podemos dizer assim, com toda a segurança, que a criação continua ainda por muito tempo, até que nossos filhos se tornem independentes e voem sozinhos. Esse processo, essa parte do ato criativo que se prolonga pelos anos afora, e onde evidentemente a parceria com Deus continua a vigorar, é o que chamamos de educação.

Educar é uma tarefa, uma missão, que os pais nunca podem transferir integralmente para ninguém. Entretanto, em certa altura do processo educativo, acontece que os bons pais, desejando fornecer o melhor a seus filhos e vendo a complexidade do mundo e as mil necessidades educativas que eles vão apresentando, percebem a conveniência e até a necessidade do auxílio de pessoas que se especializaram na arte e no ofício de educar. Os pais então, sem com isso renunciar por mínimo que seja de sua missão educativa, buscam a parceria com um colégio.

Encarado sob este ponto de vista, o colégio assume uma importância capital. É uma instituição que eu escolho e convido para dividir com Deus e comigo essa responsabilidade de formar e fazer crescer o maior tesouro que eu possuo na terra. Com que cuidado e critérios eu devo fazer essa escolha! Se me cerco de garantias para investir meu dinheiro, se peço fiadores e referências de toda ordem para aceitar um sócio em qualquer empreendimento, com que carinho e atenção eu deverei eleger essa instituição que irá dividir comigo a responsabilidade de formar o meu filho!

Que critérios usar na escolha de um colégio? Sabemos de antemão que alguns estabelecimentos nem sequer devem ser considerados. Entre esses estão aqueles ¨colégios¨ massificantes, onde os alunos são apenas um número e uma conta bancária, e onde portanto não existe nem de longe a preocupação de fornecer qualquer tipo de formação. Em colégios assim um pai ou mãe que tenham um pouco de consciência nunca iriam matricular seu filho. Mas descartados esses, ainda sobram muitos outros, e ai entram em jogo uma série de critérios que não são exatamente errados, mas equívocos, e que podem levar a erros sérios. Vejamos alguns deles.

O primeiro critério equivocado, e um dos mais comuns, é o da proximidade. Nestas cidades desumanas e congestionadas em que vivemos é uma forte tentação escolher a escola que esteja mais próxima de casa ou do trabalho, e assim livrar-se do problema do transito, e das despesas de um eventual transporte escolar. Mas é muito pouco provável que o melhor colégio para seu filho seja exatamente esse da esquina, pela simples razão de que há muitas esquinas no mundo, e muito poucos colégios realmente bons. Pais que optam pelo comodismo da proximidade estão muitas vezes se satisfazendo apenas com um local que tome conta de seus filhos nos períodos em que precisam trabalhar, ou fazer qualquer outra atividade. Muitos encaram a escola apenas como um depósito de crianças. Argumentam que as crianças pequenas necessitam basicamente de higiene e segurança, e esquecem ou ignoram a verdade científica de que mais de 70% de tudo o que um homem aprende durante a vida, irá aprender até os 3 anos de idade. Sacrificam esse período mais rico e precioso do aprendizado de seus filhos nas aras da comodidade.

Outro critério enganador é o do preço. O colégio melhor não será necessariamente o mais caro. Nem o mais barato.

Outros pais se inclinam a buscar o colégio mais moderno, seja lá o que entendam por isso. Para alguns o colégio será moderno porque é novo. Para outros, porque possui modernices como uma grande sala de computadores, ou câmeras de vigilância, ou até mesmo, como ouvi afirmar de um deslumbrado avô, porque possui uma loja do Mcdonalds na lanchonete... Por mais fascinantes e úteis que esses acessórios possam parecer, eles não podem ser determinantes da essência de uma escola.
Outro critério equívoco e muito sedutor para alguns, é o do status. Os que escolhem um colégio por isso raciocinam que assim seus filhos terão mais chances de encontrar e fazer amizades com filhos de pessoas importantes, que os poderão ajudar no futuro. Ou apenas querem ter o prazer de apregoar que seus filhos estudam num colégio bem cotado socialmente. O que seu filhos estudam é para eles bem menos importante...

Há ainda o critério da tradição, muitas vezes expresso pela consideração de que se meu avô, meu pai e eu estudamos nesse colégio, e foi bom para nós, será bom para meu filho também. É preciso lembrar que as épocas são diferentes, que os tempos e as pessoas mudam. E que os colégios podem mudar também.

Alguns pais, bem poucos na verdade, são mais exigentes em sua avaliação, e querem saber qual é o método do colégio, ou qual a sua proposta pedagógica. Mas esse ar de seriedade e de exigência se esvai quase que imediatamente quando um coordenador ou diretor os aquietam afirmando que é um método novo, ou uma proposta moderna... a mais moderna, asseguram. Fica implícito que tudo o que é mais moderno é necessariamente superior ao que o que é mais antigo, e que se uma proposta pedagógica é a mais moderna será também a melhor. Qual é mesmo a proposta? Não importa... É a mais moderna...

Há finalmente aqueles que têm o espírito prático, e que buscam os resultados que o colégio apresenta. E por resultados entenda-se aqui quantos alunos o colégio fez aprovar nos exames vestibulares para as universidades. Sem desmerecer esse feito, é preciso lembrar que um colégio deve fazer mais do que treinar um rapaz ou uma moça para passar no vestibular.

E o que é exatamente esse mais, que o bom colégio deve buscar? Em que consiste a verdadeira educação?




Tomás Alvira, um dos maiores educadores do século XX, define educar como “ajudar a crescer”. Coerente e harmônico com essa definição outro grande educador, Oliveros F. Otero, ensina que educação é um processo de melhora, uma transformação pessoal direcionada, um desenvolvimento das possibilidades do ser humano numa aproximação gradual daquilo que constitui a sua própria plenitude, única e irrepetível.

Dentro dessa linha de raciocínio, o melhor colégio será aquele que ajude o aluno a crescer para atingir a sua própria plenitude.

Note-se que no parágrafo anterior, a palavra aluno está no singular. Ainda que haja centenas de alunos em um estabelecimento de ensino, a verdadeira educação será sempre individual, personalizada. E nem podemos esperar que seja de outra forma, se quisermos ser coerentes com a definição que acabamos de expor: se educar é ajudar a crescer para uma plenitude, se essa plenitude é diversa para cada pessoa, e se cada pessoa é única e irrepetível, então educar será sempre uma ação personalizada, ainda que haja dezenas de alunos em uma classe e centenas de crianças em um colégio. E a qualidade educativa de um colégio se medirá por sua capacidade e sucesso em aproximar cada um de seus alunos de sua plenitude pessoal. Tudo o mais é secundário. E qual é a plenitude pessoal mais completa? O diretor de um dos melhores colégios da Europa não hesita em concluir assim:

“Se no plano humano é preciso animar os alunos para que tenham miras elevadas e se esforcem para chegar alto (“ Não tenham o ânimo tão pequeno, diz o Cavaleiro a seu escudeiro Sancho, que se contentem com menos do que ser excelentes”[2]), no plano sobrenatural é ridículo por parte dos pais, e medíocre por parte dos filhos, conformar-se com qualquer coisa que não seja a santidade” [3].

Concluímos então que educar para a plenitude é educar para a santidade. Há quem afirme que o país precisa de técnicos, como houve antes quem afirmasse que precisava de soldados, ou de engenheiros, ou do que fosse. Está claro que nosso país precisa de todas essas profissões, e de muitas outras. Mas antes de tudo precisa de mulheres e homens formados em sua personalidade, e que por conseqüência natural e lógica dessa formação sejam ótimos técnicos, soldados, esportistas, professores, ou o que for. Essa é a verdadeira e principal finalidade da educação: formar pessoas boas e plenas, e por isso, felizes. Essa deverá ser a característica do bom colégio.

Alguns podem objetar: estará nas atribuições e competência de um colégio, alem de ajudar seus alunos a crescer na ciência e nas virtudes humanas, ajudá-lo também a atingir esse supremo degrau do crescimento e da perfeição que os católicos chamam de santidade?

Ora, por que não? São Josemaria Escrivá, juntamente com muitíssimos outros educadores, ensina que um bom colégio deve ser uma extensão do lar [4]. E se o papel do lar, o papel da família, é levar cada um de seus membros à plenitude, à santidade pessoal, esse deverá ser o papel do colégio também.

Um colégio assim será uma utopia, algo muito bom na teoria, mas impossível na prática? Demandaria um investimento muito grande, a ponto de se tornar proibitiva a sua materialização? Teria uma mensalidade tão alta a ponto de ser alcançável apenas por uma pequena elite endinheirada? A cada uma dessas três perguntas devemos responder com um solene e rotundo não.



Os colégios de educação personalizada não são utopia. Existem há mais de meio século, em muitos países da Europa e das Américas. Também não demandam investimentos maiores que os da construção de qualquer outro colégio. Não precisam ser caros ou exclusivos de uma elite rica. Abriram-se colégios de educação personalizada tanto em bairros paupérrimos e no meio de favelas quanto em outros de alto poder aquisitivo. Mais ainda, há colégios desse estilo que congregam indistintamente alunos de todas as classes sociais, convivendo em uma harmonia invejável. Já são muitos, mas poderiam ser muitos mais ainda, se nos conscientizássemos da importância de uma educação assim. Esse papel de conscientização cabe aos pais. A imensa maioria dos colégios de educação personalizada nasceu e nasce ainda da iniciativa de um grupo de pais preocupados com a inexistência ou a precariedade de uma boa educação, e desejosos, de um desejo eficaz, de dar o melhor para seus filhos. São pais como nós o somos. Se queremos colégios assim, vamos lutar por eles, sem esperar que outros nos impinjam o que não queremos. Os filhos que devemos formar são os nossos. Os principais interessados somos nós. Ao trabalho.




























[1] Mestre e Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo. Máster em Direção de Centros Educativos pela Universidade Complutense de Madrid.
[2] - Don Quijote de la Mancha, I, VII
[3] Jesus Urteaga, Carta aos pais. In Gaztelueta. Lejona (Viscaya), 1976, p.67. Jesus Urteaga foi diretor do Colégio Gaztelueta.
[4] São Josemaria Escrivá, Tertúlia no Colégio Tajamar, Madrid, 21.11.1972.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009



SER FAMÍLIA



Sonia Rosalia Refosco de Oliveira


Valter me pediu que escrevesse sobre o que é “Ser Família”. Algumas idéias surgem; no entanto, não é tão fácil definir o que é mais fácil sentir. O poeta já disse isso tantas vezes sobre o amor, ódio, tristeza, saudade, alegria. Agora, incluo também, a família. Mas vamos tentar definir o que, até agora, me parece indefinível.

Venho de uma família de ascendências italiana e portuguesa. Isso pode explicar muito do sentimento que tenho em relação ao que é “ser família”. Não posso falar de outras porque não vivi dentro delas. Mas, na medida em que são realmente famílias, ouso dizer que devem ter muito do que vou tentar exprimir.

Ser família é não ter segredos com os demais, mas ser perfeitamente capaz de guardar um segredo. É emprestar as roupas de todo dia, mas ser generoso para emprestar aquela roupa que estávamos guardando para uma ocasião especial.

Ser família é dividir as tarefas dentro de casa e ajudar o outro a cumprir o seu dever mesmo que não nos tenha pedido. É colocar o salário ganho no fim do mês à disposição para as necessidades, sempre com o intuito de somar e, nunca, subtrair.

Ser família é encher a mesa da sala de jantar e sempre apertar um pouquinho para que caiba mais um. É ouvir o barulho gostoso das conversas dos adultos, das brincadeiras das crianças e das piadinhas dos adolescentes.

Ser família é partilhar alegrias e tristezas com a mesma intensidade, porque a todos importa o que vai dentro de você. É ter um lugar para chorar e saber que nunca se chorará sozinho, porque sempre vai haver alguém para te perguntar o que aconteceu.

Ser família é brigar com os irmãos, mas com muito mais força brigar pelos irmãos. É rir sem ter motivo algum e poder contar piadas do elefante na geladeira; sempre vai ter alguém pedindo para você repetir, só pra ver você rir de novo.

Ser família é lembrar dos aniversários e dar um presente, mesmo que tenha sido feito por você. É abrir a casa para os amigos, porque aqueles que são importantes para um, são importantes para todos.

Ser família é dividir a caixa de bombons e guardar “aquele” para “aquela” pessoa.

Ser família é usar frases de filmes em momentos oportunos, mas com uma sutileza, que só a família entende.

Ser família é parar o que se está fazendo para ouvir como foi o dia do outro, ainda que os seus afazeres sejam muito importantes. É esperar todos chegarem para, finalmente, fechar a porta e poder dormir, ainda que seu dia tenha sido muito cansativo.

Ser família é olhar nos olhos quando se conversa ou quando, simplesmente, paramos para olhar o outro. É assistir a um filme juntos, mesmo que não seja o seu preferido. É ouvir a música que o outro gosta e, quem sabe, aprender a cantá-la só para poder cantarem juntos.

Ser família é saber sobre os gostos do outro, sua cor preferida, a comida que mais gosta, o tipo de leitura que o atrai, o filme que o marcou. É ouvir uma música e lembrar da pessoa. É estar em um lugar e imaginar “aquela” pessoa naquele lugar.

Ser família é ter um lugar para ficar e ser querido nesse lugar. É sair pela manhã e saber que podemos voltar à noite, pois sempre estarão nos esperando.

Ser família é cada um dar tudo de si confiando que a Providência jamais esquece de nós. É amar a Deus com toda a alma sabendo que Ele nos amou primeiro.

Um médico amigo disse que Tolstoi fez a seguinte afirmação: “as famílias felizes se parecem todas entre si, enquanto as infelizes o são cada uma a seu modo”. Simples, objetivo e verdadeiro.

Poderia ficar aqui dando mil exemplos do que é ser família, mas ainda assim não saberia como defini-la.

Fica, então, a tentativa: “Família é como o ar: quando você tem, nem percebe, porque faz parte de você, mas se vier a faltar, a impressão é que se vai morrer”.




Raymond de Souza e família *





SER FAMÍLIA


Há alguns anos dois amigos, Autimio Antunes de Souza Neto e sua esposa, Ludmila G. Antunes de Souza resolveram fazer uma revista “dirigida a todos os interessados em valorizar os laços familiares”. Tarefa aparentemente impossível para quem cuida com esmero dos filhos e exerce com competência e dedicação as atividades profissionais. Eles, entretanto, não cederam diante das dificuldades. Lutaram mais ainda e foram recompensados: conseguiram criar uma revista de qualidade e de sucesso. E ainda arrumam um tempinho para se dedicar ao Instituto Ser Família.

O artigo de minha esposa é nossa homenagem carinhosa e cheia de admiração pelo belo trabalho que têm realizado. Convidamos a todos os amigos leitores do blog a acessar o site da revista e ver tudo o que ela proporciona para que tenhamos sólidas e felizes famílias tão necessárias para nossa sociedade.

Acesse http://www.serfamilia.com.br/ Vale a pena!






* Raymond de Souza é brasileiro, diretor do Movimento Vida Humana Internacional para os países de Língua Portuguesa. Atualmente reside nos Estados Unidos. É uma das famílias pelas quais temos muito respeito e amizade.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008




PODEMOS FICAR AQUI?


Paulo Henrique de Oliveira






Jesus nasce sempre. Ele é o “Oriens”, “o que nasce”, como nos diz a Sagrada Escritura. E ele nasce sempre que O queiramos em nossos corações. Peçamos essa graça. Uma graça nada mais é que uma jóia em uma caixinha. Para abri-la é necessária uma chave, que é a oração, e a pessoa que no-la abre é Maria. Estejamos, pois, lado a lado com Ela, abramos e contemplemos quantas caixas Deus quiser presentear-nos.

Cristo nasce. Nasce em uma cova prosaica, fria, esquecida. Por quê? Porque Ele o quis. Talvez porque Ele quisesse que fosse símbolo de todos nós, pobres pecadores. Nossa alma é como a gruta de Belém. Se é assim apresentemos a Ele este presépio virgem, talvez sombrio, para que nessa noite receba a Luz. E agora, relembremos o que houve naquela noite-dia e naquela cova-céu. Vamos observar, só observar. Em silêncio, com olhos bem abertos.

Há um homem caminhando em uma noite escura e silenciosa. As estrelas do firmamento emitem uma luz tênue e débil. O cheiro do mato é suave. O homem caminha solitário, deixando atrás de si uma mulher grávida e seu jumentinho. Tem em uma das mãos um cajado alto com uma ponta retorcida. A que toca o chão está lascada pelas longas jornadas. Caminha pressuroso a uma gruta, a uma cova que vê à sua frente. Não sabe o que encontrará ali, quiçá um chacal, quiçá um lobo, quiçá ladrões. Teme, mas avança, pois sua missão é muito maior que seu temor. Ao entrar nela uma luz, vinda não se sabe de onde, ilumina seu rosto e o inóspito lugar. Ao passar entre as estalactites, sente que há palha cobrindo parte da terra fria, e em um canto, observa que há um boi e um burro. Eles o olham. Ele olha para eles. A luz dá vida ao seu rosto e desvela uma face formosa, viril. Seu olhar belo, sereno, profundo observa cuidadosamente cada detalhe da cova. Ali, só os dois animais vêem que os olhos daquele homem estão marejados de lágrimas. Pela cabeça daquele homem passam muitas idéias, muitas imagens. Sabe quantas mulheres morrem ao dar à luz, mesmo tendo a ajuda de uma parteira. E ele sequer poderá dar isso à sua amada. Sequer isso... Observa o musgo que cresce ao redor das fendas feitas pela água que corre serpenteando em uma das extremidades da gruta. Sente o cheiro dos animais. Também está cansado. O cansaço, o forte odor do lugar, o vento frio, fazem perder forças e apoiar-se em seu cajado. Olha para a entrada da gruta e vê o céu. Seu coração se revigora e ele se endireita. Ele pensa: ali terá que nascer o filho de Deus, naquela cova, em um estábulo de animais... Ele então se aproxima do burro, afaga-lhe a fronte e com os dedos acariciando seu pelo olha também para o boi e diz: “Amigos, podemos ficar aqui? É que na cidade não há lugar para nós (e lhe rolavam as lágrimas), não há lugar para nós”...

Esses animais serão testemunhas de grandes coisas. Viram o choro de José. Pouco depois o choro de Maria. Finalmente, com o choro da Virgem, vai brotar um ainda mais doce, o primeiro choro de Deus. O bebê nasceu, e José o repousa nos braços fatigados de sua mãe enquanto sai apressado a buscar água para limpar o Menino. Maria tem então uma cena maravilhosa ante seus olhos: o Menino ensangüentado em seus braços... Maria representa a humanidade e contempla seu sangue no Menino Jesus coberto com o sangue da humanidade. Essa cena haverá de repetir-se mais uma vez, no Calvário, mas, dessa vez, será a humanidade que estará coberta com o sangue de Cristo...

Aqueles pobres animais só contemplam. O burro vê José colocar algo na manjedoura e se levanta, dirigindo-se alegremente ao seu lugar habitual de alimentação. Mas, ao chegar não encontra ração, encontra Deus. Ele vê Deus. Talvez, como vemos na vida de S. Antonio de Pádua, ele tenha se ajoelhado diante de Cristo. Gosto de pensar que sim. E Maria lhe sorriu. Que cena inenarrável de humildade. Deus num presépio em um “prato” de animais. Sim, ali está Deus, pronto para ser devorado. Poderia haver mais bela figura eucarística que esta?

Dessa mesma maneira Cristo vem aos nossos refúgios que chamamos coração. E muitas vezes somos como esses animais e Maria O repousa em nossos corações para que possamos nos alimentar de Sua carne e dignificar nossas almas. Afinal, que é uma manjedoura, um presépio, um coração sem Deus? E com Ele, o que é? Aprendamos com esses animais a escolher a Deus ou à ração de nossas paixões desordenadas. Ou Deus ou elas... Escolhamos... Mas escolhamos com sabedoria. Oh! Se tivéssemos essa boa vontade que cantavam os anjos! Ele habitaria muito mais em nossas almas! Reflitamos, pois, porque Cristo não escolhe palácios. Ele prefere os lugares sujos, miseráveis, frios, escuros... Gosta de nossos corações... E para quê? Para convertê-los, purificá-los, aquecê-los, iluminá-los, divinizá-los. Façamos nossa parte. Imitemos Maria. Saibamos dizer uma simples palavra: Sim!

Se assim fizermos, meus caros amigos, não tenhamos dúvida. A Virgem fará de nossas almas um eterno Natal.



Paulo Henrique de Oliveira, 23, é meu filho, diretor de produção e pesquisador da Oliver, Empreendimento Educacionais.

Eu, minha esposa Sonia, e todos os meus filhos, Maria Theresa, Paulo Henrique, Helena Cristina, Ricardo Luís, Marcelo Augusto, Anna Cecília e Rafael Henrique, desejamos a todos Um Natal muitíssimo abençoado e um Ano Novo pleno de realizações e felicidades.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008



ENSINO, DOUTRINAÇÃO, MANIPULAÇÃO

Valter de Oliveira


Quando se fala em doutrinação muita gente pensa nos movimentos totalitários, seja o nazi-fascista, seja o socialista marxista. E está correto. Tais movimentos são brutalmente doutrinadores.

Contudo, a doutrinação é um fenômeno muito mais amplo. Nós a encontramos entre totalitários e liberais, nas ditaduras e nas democracias, nos meios laicistas e nas fileiras cristãs. E isso acontece toda vez que se tem uma visão errada do ensino, da educação, e, principalmente, do homem. Em vários momentos de minha vida tive que enfrentá-la. E, para surpresa minha, não só no campo do adversário. O que senti na pele encontrei bem descrito na pena de um escritor francês.

Há muitos anos, quando iniciei meu curso de mestrado na USP encontrei na livraria do prédio de História um pequeno livro, “A Doutrinação”, de Olivier Reboul (1). Gostei tanto que, na semana seguinte, comprei uns dez exemplares e os distribuí entre meus amigos. O artigo de hoje é, simplesmente, cópia de algumas páginas deste livro. O texto dispensa comentários.

Na introdução da obra Olivier Reboul faz as seguintes considerações:

“Interrogarmo-nos sobre a doutrinação é maneira de refletir acerca do ensino. Maneira um pouco perversa, sem dúvida, mas muito eficaz. Pois, se o termo “doutrinar” é pejorativo, é com referência a certo tipo de ensino tido como válido, e cujos critérios permitem, em compensação, definir a doutrinação e condená-la.

É evidente que a maneira pela qual um autor define a doutrinação depende de sua própria doutrina. Adiantemos, pois, desde já, os dois postulados fundamentais de todo este livro.

O primeiro é que um ensino verdadeiro tem por fim, qualquer que seja seu conteúdo, formar seres adultos: seres capazes de assumir sua responsabilidade e manter seu compromisso, pensar por si mesmos, respeitar os fatos, ainda quando vão contra sua vontade, e ouvir os outros, ainda quando os contradigam. Todo ensino que se afasta desse fim me parece contra-ensino.

O segundo é que um ensino verdadeiro não poderia ser neutro. Certamente, não pretendo que o professor tenha o dever, ou mesmo o direito, de fazer propaganda em classe, nem de procurar “converter” seus alunos. Há, porém, algo mais triste que um professor tendencioso: é um professor entediante. O primeiro pode vir a influenciar os alunos, o segundo se arrisca a aborrecê-los, o que é, no final, a pior influência. Eis um postulado que os administradores de todos os países dificilmente admitirão, menos preocupados que estão em ter mestres interessantes que em ter paz. Mas, se devessem um dia voltar à escola, que espécie de mestre desejariam: o tendencioso ou o enfadonho?

Dir-se-á que a questão se apresenta diversamente com crianças, a quem se trata, antes de tudo, de “preservar”. Mas de quê: de doutrinas perigosas ou do direito de ser informado, de refletir, de tornar-se maior?

Meus dois postulados subentendem este livro todo, o qual deverá, em compensação, não somente justificá-los, mas conciliá-los, mostrar que, em realidade, são apenas um. Ou que podemos ser liberais sem ser neutros.” (Introdução, XV, XVI)

Depois de explicar três abordagens do problema (a do sentimento popular que associa doutrinação às suas formas extremas, a literatura filosófica anglo-saxônica, individualista, liberal, positivista, e, finalmente, a filosofia educacional francesa para quem a questão da doutrinação não se apresenta ao nível das relações individuais e, sim, das instituições, Reboul vai fazer sua reflexão acadêmica procurando um caminho diferente dessas duas escolas.

No capítulo primeiro, intitulado “UMA PERVERSÃO DO ENSINO” ele vai procurar distinguir a doutrinação de outras formas de manipulação como a propaganda e o condicionamento. Para isso ele examina casos inegáveis de doutrinação. Cita treze (2).


Mentira, Sinceridade, Má fé

Depois de discutir a questão da intencionalidade da doutrinação Reboul discute a sinceridade do doutrinador.

“Neste caso, mais que de intenção, antes caberia falar de self-deception, da má fé no sentido sartriano. Quando doutrinamos, ignoramos o que fazemos. E a ignorância é, paradoxalmente, voluntária, no sentido em que se diz: “Não quero saber disso!”. Essa ignorância desejada apresenta dois aspectos:

1. O doutrinador está a tal ponto convencido daquilo que prega, que admite certa distorção da verdade para convencer os outros da veracidade de sua causa. Assim, pode esconder certos fatos contrários à sua doutrina por pensar que ela o merece; igualmente, pode defender certos aspectos de sua doutrina que lhe repugnam in petto; assim, esse catequista que ensina o culto dos santos sem crer nele; esse stalinista que, embora chocado pelo culto da personalidade, justifica-o “para não dar o flanco ao adversário”. Em suma, pensamos, (sinceramente) que o fim justifica os meios, que o valor da causa faz, das mentiras que exige, mentiras piedosas. Mentiras pedagógicas!”

2. “No mais das vezes, o doutrinador ignora totalmente que doutrina. É que abafa em si mesmo as objeções antes de abafá-las nos outros; é tanto mais fanático quanto menos seguro do que ensina; se mente, é, em primeiro lugar, a si mesmo. Tal é a má fé: sinceridade adquirida com o enganar-se a si mesmo, com o abafar, em si, o que seria necessário de lucidez e de espírito crítico para mudar de opinião. Mostra que a palavra “sinceridade” não tem o mesmo sentido que a palavra “honestidade”.”


O doutrinador doutrinado

A seguir Reboul explica um pouco mais o que entende por sinceridade do doutrinador. Citemos dois de seus argumentos:

1. Primeiro, o próprio doutrinador é doutrinado. Ao menos, quase sempre. Dir-se-á que esse não é o caso quanto ao inventor de uma doutrina. E, entretanto, esta é, sempre, síntese de elementos preexistentes, inculcados, de uma forma ou de outra, ao doutrinário. Hitler havia bebido seu nacionalismo pan-germanista, seu anti-semitismo, seu culto da força nos meios racistas e chauvinistas de antes de 1914.

2. De outra parte, quando se fala de doutrinação, costuma-se esqec demais a responsabilidade dos que a sofrem. Está, sem dúvida, ausente nas criancinhas. Mas quanto adolescente, quanto adulto continua bem infantil para engolir um pensamento pronto e acabado que os libera da dificuldade de refletir e da angústia de duvidar! Quantos, em qualquer idade, buscam um guia, um chefe, um pai, que os livre do fardo de pensar por si mesmos, de querer por si mesmos, de ser eles mesmos! Muito homem “pede” para ser doutrinado; e a doutrinação vinga tanto pela preguiça e pela covardia de suas vítimas quanto pela má fé de seus autores. O doutrinador mais perigoso é a criança que permanece no homem e, como diz o poeta, impõe a lei ao homem: And thus the child imposes on the man.

Retrato do doutrinado

“Desde que julgamos a doutrinação pelo resultado, podemos terminar por um retrato do doutrinado: o retrato-robô de uma espécie de robô! Reconhecemo-lo, com efeito, por certos traços que permanecem constantes, qualquer que seja a doutrina.

O primeiro é a tendência a mascarar os fatos que o contrariam, e mascará-los aos próprios olhos.

O segundo é o caráter unilateral de seus argumentos; não é homem que pese o pró e o contra; ou tudo é pró, ou tudo é contra.

O terceiro não é a ausência de lógica, mas o caráter sofístico de sua lógica; petições de princípio, raciocínios ilegítimos, equívocos dos termos utilizados, etc.

O quarto é o recurso à retórica, precisamente para mascarar as falhas de sua lógica; a metáfora, o eufemismo, a hipérbole são suas figuras favoritas) (Quanto a mais indicações precisas, permito-me remeter a meu livro Le slogan, “Complexe”, PUF, 1975, cap. II).

O quinto é o aspecto rígido de sua linguagem, o abuso de fórmulas feitas, dos lugares comuns, dos slogans, tidos por evidências; pensa por “pensamentos” de confecção” (Cf. ibid., cap. III).

O sexto, que explica os precedentes, é o receio de duvidar, de “mudar de idéias”, de não ter razão, de não saber: o receio de pensar.

O sétimo, que decorre do precedente, é o ódio de todos que podem perturbar-lhes as certezas, de todos que pensam.

O oitavo é certo maniqueísmo a respeito dos valores, das doutrinas ou dos homens que as encarnam; para ele, tudo quanto não é branco é negro, tudo quanto não é verdadeiro é falso, etc.

O nono é a ausência de auto-crítica, de recuo de si mesmo; pode, sem dúvida, dar prova de espírito crítico muito sutil, sempre, contudo, a respeito do adversário.

O décimo é a confusão constante entre a ordem da força e a ordem da razão, entre a chantagem e o argumento, entre a submissão e a adesão, entre o fato de vencer e o fato de convencer.

O décimo primeiro é certo desprezo do homem; o homem nunca passa, para ele, de um meio de servir à sua causa ou de um obstáculo que ele precisa afastar.

O décimo segundo é a ausência de humor... (p. 83,84)


Na segunda parte de seu livro Olivier Reboul exemplifica com a doutrinação feita na China de Mao, a doutrinação feita por seitas religiosas e, em seguida, analisa a doutrinação hitlerista.

Finalmente é discutida a questão da doutrinação nas sociedades ditas democráticas e alerta-nos para o risco do que muitos entendem por “educação total”.

Quem encontrar o livro leia, vale a pena!


1. REBOUL, Olivier. A Doutrinação. Companhia Editora Nacional/Edusp.São
São Paulo, 1980

Professor da Universidade de Ciências Humanas da Universidade de Estrasburgo – Especialista em Filosofia da Educação.

2. São os seguintes:

01. Ensinar doutrina perniciosa
02. Utilizar o ensino para fazer propaganda partidária
03. Fazer aprender sem compreender aquilo que deveria ser compreendido.
04. Utilizar, para ensinar, o argumento de autoridade.
05. Ensinar com base em preconceitos.
06. Ensinar com base numa doutrina como se fosse a única possível.
07. Ensinar como científico aquilo que não o é.
08. Não ensinar senão os fatos favoráveis à sua doutrina.
09. Falsificar os fatos para apoiar a doutrina.
10. Selecionar arbitrariamente esta ou aquela parte do programa de estudos
11. Exaltar, no ensino, determinado valor em detrimento dos outros.
12. Propagar o ódio por meio do ensino.
13. Impor a crença pela violência.

Mais para frente vamos comentar alguns deles.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008




MORAL MARXISTA: A PRÁTICA

Valter de Oliveira


Em artigos anteriores procurei mostrar que a esquerda brasileira, e em especial o PT, tem uma visão da moralidade das ações humanas baseada no relativismo marxista. Afirmei também que esta visão da moral que estão implantando na sociedade e na legislação brasileiras, é uma verdadeira revolução cultural conforme o modelo do marxista italiano Antonio Gramsci. (1)

Esta visão, que é desconhecida do grande público, entra violentamente em choque com aquilo que o cidadão comum pensa ser ético.

Vamos aos fatos.

1. O povo e o terrorismo.

O que pensa o cidadão comum sobre o terrorismo? É fácil responder. Basta perguntar ao seu vizinho, a seus amigos, ao vendedor de hot-dog da esquina. Todos vão considerá-lo criminoso. Ninguém entende porque inocentes devem morrer por causa de razões políticas, religiosas ou quaisquer outras. Não importa se quem pratica as ações são separatistas bascos, fanáticos da Al-Qaeda, narco-marxistas das FARC ou pretensos católicos do IRA. Havendo atentados a indignação popular é geral.

2. Mas há exceções.

Onde? Nas cátedras universitárias, setores da mídia, e em certos partidos políticos. É a “intelectualidade” revolucionária. Temos muitos exemplos deles no governo atual. Para estes, o terrorismo – e também a tortura – só são crimes, se forem usados contra militantes da esquerda.

3 – A Lei da Anistia

Como é sabido, Em agosto de 1979, o governo FigueiredoGeisel, promulgou a lei da Anistia que tinha por características ser “ampla, geral e irrestrita”. Entendeu-se que aí estavam incluídos crimes praticados por ambos os lados. Teríamos, assim, a volta dos exilados e condições para o retorno à democracia em mãos de civis.

No poder, setores da esquerda entenderam que a interpretação da lei deveria ser outra. O ministro da Justiça, Tarso Genro, e o secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, colocaram-se como expoentes desta posição. O PT os apoiou. Passaram a advogar o julgamento dos torturadores que, no mínimo, deveriam ser obrigados a reconhecer publicamente seus crimes e retratar-se deles. Os mais radicais pediam punições. A polêmica pegou fogo. Lula, como sempre, fez de conta que não tinha nada a ver com o peixe. No máximo disse que era problema para o STF resolver.

Tarso Genro e Vannuchi não arredaram pé. Citando legislação internacional afirmaram: o crime de tortura é imprescritível!

Com tanto barulho oficiais da reserva das Forças Armadas reagiram. “Se é para julgar crimes vale para os dois lados. Tem muita gente no governo que vai ter problemas.”

Quando a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, também disse que “os torturadores do período de regime militar não são beneficiados pela lei da anistia”, a imprensa foi perguntar ao presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, o que ele pensava da declaração dela. Sua resposta foi:

“Os crimes de terrorismo são imprescritíveis, assim como os delitos de tortura (...)” (2)

O debate esquentou na mídia. Começaram a divulgar as proezas de Dilma como terrorista.

E o que fez a esquerda? A do PT, boazinha, aburguesada, que adora whisky e festa no arraial do Planalto, saiu em defesa dos companheiros. Seguiu a cartilha de Lênin. Desmascarou-se. Eis o texto:

Executiva Nacional do PT texto oficial de 07 de novembro de 2008.
Nota sobre a Tortura, Anistia e Direitos Humanos

O Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores reafirma as resoluções sobre Direitos Humanos aprovadas no 3º. Congresso Nacional do PT:

a) crimes contra a humanidade não prescrevem;

b) a Lei da Anistia de 1979 não beneficia quem cometeu crimes como a tortura nem impede o debate público, a busca da verdade e da Justiça;

c) a punição aos violadores de direitos humanos é tarefa da Justiça brasileira. Esperamos que o Poder Judiciário atenda aos reclamos das vitimas, especialmente dos familiares de mortos e desaparecidos.

O Diretório Nacional repudia os ataques difamatórios feitos por setores conservadores e antidemocráticos contra os companheiros Paulo Vannucchi e Tarso Genro no exercício do dever oficial de promover o debate público. Ainda, repudia os ataques e as tentativas de descaracterização da militância política dos companheiros Dilma Roussef e Franklin Martins quando da LEGÍTIMA RESISTÊNCIA ao regime ditatorial ao lado de outros milhares de perseguidos políticos. (Destaque nosso)

Cabe ao Governo Brasileiro seguir defendendo, coerentemente, o repúdio à tortura. Cabe ao Poder Judiciário pronunciar-se definitivamente sobre a matéria, de acordo com os princípios de direitos reconhecidos universalmente.

Aí está a caracterização da moral ou da ética política de amplos setores de nossa esquerda. Torturar um militante esquerdista fere os direitos humanos. Seqüestrar, justiçar, matar militares ou executar civis inocentes em atentados terroristas, não. O militante luta pela revolução, pelo partido, pela causa, pelo proletariado. É legítima defesa. É luta contra o Estado da classe dominante. Não viola os inalienáveis direitos da pessoa humana.

Curioso que os terroristas e guerrilheiros, no Brasil e no mundo, jamais perguntaram à s suas sociedades se estas queriam ser defendidas com o derramamento de sangue inocente. Não precisa. Eles são os iluminados. Conhecem o marxismo científico. E podem mentir, roubar, matar.

Terminemos com algumas perguntinhas:

1. Se os governantes que permitem ou aplicam a tortura cometem crime imprescritível o PT vai começar uma campanha mundial pela punição de torturadores cubanos, vietnamitas, russos e chineses?

2. Se torturadores são tão abjetos, por que o entusiasmo de Lula e Dilma pelo General Giap e Ho Chi Mihn? Será que soldados americanos e franceses foram tratados com a dignidade exigida pela Convenção de Genebra? (3)

3. Se é abominável torturar terroristas e guerrilheiros que assassinaram inocentes não é também monstruosa a tortura contra os que são totalmente inocentes? Neste caso porque os ideólogos da esquerda defendem o aborto que poderia ser realizado inclusive em estágio de gravidez avançada? E até ao nascer, como é defendida pelas feministas radicais aninhadas nos partidos e movimentos de esquerda? Despedaçar tais crianças, jogar ácido nelas, arrancar-lhes o cérebro, não é tortura? Tal barbaridade não é crime imprescritível?

E a “intelectualidade” na mídia e nos livros didáticos continuam nos garantindo que revolucionários marxistas são humanistas. Haja doutrinação!

PS: Vou mandar as questões para o blog do Zé Dirceu. Talvez também para o ministro Tarso Genro. Vocês acham que eles vão me responder?

1. Falaremos sobre a revolução gramsciana em breve
2. Comparem com a postura do Papa João Paulo II que condenou o terrorismo do IRA.
3. Por Chico de Gois - O Globo - 11/07/2008 Lula pede para herói da Guerra do Vietnã tire foto com Dilma


HANÓI (Vietnã) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva no encontro com o general Vo Nguyen Giap, herói nacional e principal estrategista do Vietnã nas guerras pela independência da França e contra os Estados Unidos, pediu que ele aceitasse tirar uma foto ao lado da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a quem Lula descreveu como uma das adoradoras do líder de 97 anos.

- Queria pedir um favor - começou Lula, dirigindo-se a Vo Nguyen Giap.

- Aquela moça (apontado para Dilma) é minha ministra do Brasil, foi na sua juventude militante de esquerda, ficou três anos e meio na cadeia e ela tem pelo senhor uma verdadeira adoração - apresentou o presidente.

Dilma, que até então se mostrava séria, e cuja presença no Vietnã ainda era uma incógnita, esboçou um leve sorriso, entre feliz e encabulada. Levantou-se, dirigiu-se ao velho líder e deu-lhe dois beijos na face.
(Não é encantador?... que impacto teria na mídia se os beijinhos fossem em Pinochet?)