quinta-feira, 4 de junho de 2026

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. POLÍTICA. GUERRA. TERRORISMO. VIOLÊNCIA. - 6 -

 

Terrorismo ou Lucro? O Narcotráfico Brasileiro na Mira de Washington



Valter de Oliveira


No meu artigo do último dia 1º, mencionei que a recente decisão do presidente Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas me obrigou a antecipar este debate.

Como já vimos, qualquer forma de terrorismo é firmemente condenada pela Doutrina Social da Igreja — mesmo quando, em tese, alega-se uma "justa causa". Foi por essa razão que recordei o histórico pronunciamento do Papa São João Paulo II condenando as ações terroristas do IRA na Irlanda.

A robusta decisão de Trump ecoou imediatamente no Brasil. O presidente Lula reagiu de pronto, alegando que a medida feria a nossa soberania nacional. Uma declaração bem ao seu estilo tradicional, que logo arrancou aplausos e apoios impensados de sua militância. Para chancelar a tese presidencial, parlamentares e intelectuais petistas apressaram-se em evocar análises técnicas.

A grande mídia também entrou no debate trazendo especialistas de lado a lado. Com relativo bom senso, abriu espaço tanto para defensores quanto para críticos da medida de Washington, confrontando diretamente a narrativa do Planalto.

 

A Divergência dos Especialistas e a Retórica do Planalto

 

Do lado crítico à medida, figuram nomes de peso como o promotor do Gaeco, Lincoln Gakiya, e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ambos avaliam que a classificação não é vantajosa para a realidade nacional.

Em entrevista ao Canal Livre, o promotor Gakiya ponderou que "classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas não traria benefícios ao Brasil", alertando ainda que o rótulo "poderia abrir espaço para que os Estados Unidos aplicassem sanções econômicas ao País" (1). Gakiya é um inimigo histórico e declarado do crime organizado, vivendo sob constante ameaça. É um homem de Estado, sério, cuja lucidez merece respeito — o que não impede que outros analistas igualmente sérios discordem de sua leitura.

Por sua vez, o FBSP é uma ONG amplamente reconhecida pelo rigor técnico de seus dados estatísticos. Embora setores mais conservadores apontem, com certa razão, uma inclinação da entidade para a leniência em diagnósticos criminais, suas teses não podem ser descartadas superficialmente.

A corrente que rejeita o selo de "terrorismo" sustenta que as motivações jurídicas diferem. Órgãos como a ABIN e o próprio UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) (2) separam historicamente o crime organizado (cujo motor é o lucro financeiro) do terrorismo propriamente dito (movido por dogmas políticos ou religiosos). Diante disso, proponho uma reflexão: até que ponto a busca pelo lucro bilionário dessas facções está realmente separada de projetos de poder e ideologias? Essa fronteira ainda existe?

A resposta é complexa, e há juristas renomados que defendem que o crime organizado já cruzou essa linha, tornando a classificação de terrorismo útil e necessária:

  1. Fernando Capano argumenta que o enquadramento "amplia mecanismos de bloqueio de ativos, rastreamento de movimentações financeiras, sanções econômicas, restrições migratórias e responsabilização de indivíduos, empresas ou instituições que mantenham qualquer tipo de colaboração material com essas facções" (3).
  2. Helena Folgueira, mestre em Direito Penal pela USP e assistente judiciária do TJSP, explica o porquê de as facções estarem na mira de Washington: "PCC e Comando Vermelho reúnem várias características associadas a grupos terroristas: são organizações com estruturas paraestatais, que mantêm tribunais do crime próprios, exercem dominação social sobre territórios e populações, dispõem de aparato de segurança armado e impõem regras próprias."
  3. O advogado criminalista Luiz Gustavo Cunha acrescenta que o direito internacional legitima essa postura: "A experiência internacional demonstra que o enfrentamento de organizações criminosas com elevado grau de violência e capacidade de desafiar o Estado tem levado diversos países a adotar mecanismos jurídicos tradicionalmente reservados ao combate ao terrorismo. Não se trata de uma inovação brasileira ou norte-americana" (4).

 

A Fronteira Borrada Entre o Crime e a Ideologia 

No front externo, destaca-se a análise de Douglas Farah, consultor de segurança nacional dos EUA e presidente da IBI Consultants. Como um dos maiores especialistas em redes ilícitas na América Latina, Farah reconhece o risco teórico de "banalizar" o conceito acadêmico de terrorismo, mas defende o pragmatismo da medida. Segundo ele, o foco da Casa Branca não é uma intervenção militar, mas sim sufocar as finanças das facções, promovendo o isolamento financeiro estrito de suas redes de apoio e lavagem de dinheiro em solo americano.

O Portal Terra detalha em uma reportagem essencial outras profundas transformações sofridas por essas organizações na América Latina, cujo conteúdo recomendo no link a seguir: (5).

Conclusão

O debate é denso, polêmico e exige profundidade. Não pode ser tratado como "conversa de botequim" — formato que só alimenta demagogos populistas de plantão.

Finalizo com provocações necessárias ao nosso cenário atual:

O Planalto brada que não aceita interferências em nossa soberania. "Nada de ianques! Sabemos cuidar do que é nosso!", dizem os discursos soberanistas. Excelente. A oposição também zela pela soberania nacional, mas compreende o óbvio: os EUA também têm o direito de proteger a soberania deles contra o narcotráfico transnacional.

A grande questão é: nós estamos defendendo a nossa soberania de verdade? O atual governo sabe nos dizer com precisão o tamanho da infiltração do crime organizado nas instituições do Estado? Em quais municípios? Em quais escalões do funcionalismo público?

O PT governou o Brasil por 17 anos e 5 meses ao longo da história recente. Repito a pergunta: o que foi efetivamente feito para frear o avanço desse poder paralelo? Para sermos justos e honestos intelectualmente, a culpa não é exclusiva de um partido; o MDB, o PSDB e toda a nossa classe política histórica devem profundas explicações ao país.

No próximo artigo, trarei um testemunho contundente sobre a eficiência e a brutalidade real dessas facções. Um relato que expõe a conexão direta do crime com ideologias e com a história recente do continente. Uma seriedade factual que falta a muitos analistas e, fundamentalmente, a um presidente loquaz que teima em subestimar a pior ameaça à segurança dos brasileiros.

Notas:

 

  1. https://www.band.com.br/noticias/canal-livre/ultimas/classificar-o-pcc-como-terrorista-nao-traz-vantagens-ao-brasil-diz-gakiya-202605100002

 

  1. O foco desta agência da ONU é tornar o mundo mais seguro contra o tráfico de drogas, o crime organizado transnacional, a corrupção e o terrorismo.

 

  1.  https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/classificacao-de-pcc-e-cv-como-organizacoes-terroristas-divide-policias/

 

  1. Ambas as citações se encontram aqui: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/pcc-e-cv-sao-terroristas-entenda-o-que-dizem-especialistas-brasileiros/

 

  1. https://www.terra.com.br/noticias/mundo/4-mudancas-do-crime-organizado-na-america-latina-que-dificultam-combate-de-gangues-e-faccoes,9e7a784ffaf2b9ff301a417f5791dc609p74phlu.htm

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