sábado, 14 de março de 2009

LULA, MELLO & CIA

Valter de Oliveira



Na última semana a mídia aproveitou-se do doloroso caso de uma menina de 9 anos, vítima de estupro, para atacar e tentar ridicularizar a Igreja.

Não preciso relatar o episódio. É de conhecimento público. Nem vou comentá-lo agora. Simplesmente vou aguardar o emocionalismo diminuir. Ou, em linguagem mais simples, deixar a poeira baixar.

Contudo, não quero deixar passar em brancas nuvens certas declarações feitas por órgãos da mídia ou por personalidades. A razão é simples: há muito as bobagens que dizem ultrapassam qualquer limite razoável. Vemos tsunamis de superficialidade, ignorância e, o que é pior, má fé.

Já por ocasião do debate no STF sobre a liberação de células tronco embrionárias constatamos o que estou dizendo. Houve mau jornalismo por parte da mídia e declarações absurdas por parte de autoridades. Foi o caso do ministro da saúde, por exemplo, e até de cientistas que negaram evidências científicas. Escudavam-se na ciência, criticavam a religião, defendiam o estado laicista e agiam de modo puramente ideológico. Sem o mínimo respeito pelos fatos e pela lógica.

Um ministro do Supremo, Celso de Mello, fez uma declaração incrível. Entrevistado pela mídia televisiva afirmou que no caso em questão ele seguia o ensinamento de Aristóteles. “Nem a ciência, nem a religião. A virtude está no meio”. E tudo dito com ar de quem pronunciava uma verdade profunda!...

Não preciso dizer que Aristóteles estremeceu no túmulo. E eu em minha casa. Explico-me.

Aristóteles, na Ética a Nicômaco, analisando as virtudes éticas, afirma que o homem tem impulsos, paixões, sentimentos que tendem ao excesso ou à falta. Devido a isso a razão deve impor uma justa medida, ou seja, um caminho intermédio entre dois excessos. É o caso da coragem ou fortaleza, virtude cardeal que está entre dois vícios: De um lado, a audácia, de outro a covardia.

De onde se percebe que nosso ministro reinventou a lógica. No seu raciocínio há dois erros ou vícios: a ciência e a religião! E onde está a virtude? No parecer do ilustre ministro. Ele, sabiamente, deixou ambos de lado e interpretou que nossa Constituição, que defende a vida humana como um direito inalienável, autoriza o uso de células tronco embrionárias. O direito do embrião foi para o lixo. Religião para ele não conta. E a ciência também de nada serviu para justificar seu voto. (1)

Neste fim de semana o presidente Lula resolveu competir com o ministro Celso de Mello. Declarou que entre a medicina e a religião ficava com a medicina.

Alguém precisa dizer ao presidente que a ciência que estuda a moralidade dos atos humanos – e, portanto do aborto - chama-se ética que nos diz que ninguém tem o direito de tirar a vida de seres humanos inocentes. Médicos, juristas, economistas, políticos, todos nós podemos agir ou não conforme os verdadeiros princípios éticos. E cada um de nós é pessoalmente responsável por conhecê-los, segui-los, ignorá-los ou até combatê-los.

O presidente mostrou desconhecimento do assunto ao criticar o bispo de Olinda por uma coisa que ele não fez: excomungar os que participaram ou apoiaram o aborto dos gêmeos. (2) O prelado aconselhou o presidente a procurar um consultor que conhecesse teologia....

Lula reafirmou que é cristão e católico.

Sem dúvida alguém pode se declarar católico ou cristão porque foi batizado. Só que isso não basta para alguém estar unido a Cristo.

No catecismo lemos a seguinte pergunta: “Quem é o verdadeiro cristão?”
A resposta é simples: é aquele que é batizado, conhece, ama e pratica a doutrina de Cristo.

O que no caso católico implica na adesão à doutrina da Igreja. Que não admite livre exame. Se aceita o conjunto dos ensinamentos porque faz parte da fé acreditar que Cristo nos ensina por meio da Igreja. Basta relembrar o texto de S. Lucas: “Quem vos ouve, a mim ouve, e quem vos rejeita, a mim rejeita” (Lc 10,16).

A condenação do aborto não é nenhuma novidade. Sempre fez parte da moral católica.

Já ouvi o presidente Lula dizer que é contra o aborto e que sua esposa D. Marisa também é.

Neste caso fica difícil entender porque ele nomeou para Ministro da Saúde José Carlos Temporão que também se diz católico, mas defende a descriminalização do aborto alegando razões de saúde pública.(3)

Mais ainda. Faz parte da bandeira do PT aprovar o aborto. É compromisso partidário. Como entender um não abortista criando um partido abortista? Onde está a lógica em se criar um partido que vai realizar na vida pública o oposto do que se diz ser na vida pessoal?

Para complicar ainda mais Lula também declara que aborto é caso de saúde pública. Afinal, o que pensa o presidente? (4)

Outro ponto.

A Igreja defende de tal forma a vida humana que afirma que quem, consciente e deliberadamente, tira a vida de um feto humano inocente está automaticamente fora da comunhão eclesial. Pena medicinal para que a pessoa reflita e se converta.

O PT que defende a cultura da morte quer expulsar dois de seus deputados. Vai “excomungá-los”. Razão: são contra a legalização do aborto, defendem a vida de inocentes... É excomunhão moderna, não é medieval.

Por último temos uma afirmação incrível do promotor Roberto Tardelli, também ele indignado com a declaração do bispo sobre o aborto.

“A excomunhão poderia ser anulada recorrendo-se ao Judiciário!”

É isso mesmo meus amigos. Vi na TV. Confirmei na internet. (5)

Só quero entender como o estado laico vai abolir uma pena espiritual. Será que o Estado vai convocar alguns anjos para efetuar o serviço?

Imaginem se a moda pega. Vamos ler nos jornais:

“Umbandista recorre ao Judiciário porque afirma que foi vítima de um despacho para acabar com seu casamento... Acusa um vizinho e um pai de santo!”

“Promotor Tardelli vai indiciar pai de santo!”.

“Oficial de Justiça não consegue encontrar Orixá!”

Loucura total.

Depois disso tudo the Oscar goes to...


1. Segundo o ministro, o conceito do início da vida, assim como o conceito de morte, NÃO são questões científicas e biológicas, mas filosóficas e morais, definidas arbitrariamente pela legislação de cada país, em consonância com os costumes e com a cultura da população. (...)
Os destaques são meus.
http://www.jusbrasil.com.br/noticias/17415/celso-de-mello-vota-a-favor-

2. "Como cristão e como católico, lamento profundamente que um bispo da Igreja Católica tenha um comportamento, eu diria, conservador como esse (...). Eu acho que, nesse aspecto, a medicina está mais correta que a Igreja. A medicina fez o que tinha que ser feito: salvar a vida de uma menina de nove anos", disse.
http://www.clam.org.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm

3. Durante sua gestão no Ministério da Saúde, Temporão defendeu a posição de que o aborto é uma questão de saúde pública, o que causou indignação de setores mais conservadores da sociedade brasileira, como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, e de sua própria mãe, descrita por ele como sendo uma católica muito devota.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Gomes_Temporão

4. Lula voltou a dizer que o aborto deve ser tratado como questão de saúde pública. O presidente rebateu as críticas por ter distribuído preservativos, ao assistir ao desfile da escola de samba Beija-Flor, no carnaval do Rio de Janeiro. Ele deu essas declarações ao participar da abertura de um seminário em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Da Agência Brasil.

5. Promotor diz que excomunhão da mãe e dos médicos que realizaram um aborto numa menina de nove anos de idade pode ser questionada na justiça.

A justiça comum poderia ser acionada contra a decisão do arcebispo de Olinda e Recife Dom Jose Cardoso Sobrinho que excomungou a mãe e os médicos que fizeram o aborto numa menina de nove anos grávida de gemêos, vítima de estupro praticado pelo padrasto. A opinião é do promotor Roberto Tardelli que considera que a posição do bispo é uma demonstração de fundamentalismo.
http://band.com.br/primeirojornal/conteudo.asp?ID=130440&CNL=1



sábado, 7 de março de 2009


DISCRIMINAÇÃO E INCLUSÃO:
A DELES E A NOSSA



Valter de Oliveira


Palavras. Simples palavras, inocentes palavras, podem ser perigosas. Afinal é com elas, e com sons e imagens, que é possível manipular o ser humano. Manipular eu e você. (1)

Várias Ciências Humanas estudam como as palavras podem e são usadas de modo ideológico. A História registra várias delas: a trilogia da Revolução Francesa (Liberdade, igualdade, fraternidade); o slogan bolchevista russo (paz, terra, liberdade); o aggiornamento, tão em voga durante o Concílio Vaticano II. Exemplos atuais: inclusão, pro-choice, discriminação.

A tal ponto este assunto é sério que o Pontifício Conselho para a Família publicou uma obra – de enorme profundidade – intitulada Lexicon, Termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas. (2)

O prefácio do livro lembra-nos que “é necessário seguir pacientemente a origem e o desenvolvimento das expressões e sua difusão”. E mais adiante:

“Certas expressões aproveitam-se da escassa informação ou da ingenuidade daqueles que fazem uso das mesmas, os quais, seduzidos pela ambigüidade, não se dão perfeitamente conta do engano. De tal forma, tenta-se manipular a própria opinião pública, ocultando aspectos desagradáveis ou chocantes da realidade ou da verdade. Os termos criados não são propriamente inocentes; alterando o significado das palavras seus autores usam qualquer meio para obter os fins que desejam alcançar”. Finalmente: “A astúcia na busca de expressões ambíguas chega a níveis preocupantes”. (3)

Em minha vida tive o privilégio de encontrar pessoas que me ensinaram a dar a devida importância às palavras. E aos detalhes. Um deles me dizia: “é pela unha que se conhece o leão”. Foi o que percebi há 20 anos.


Por ocasião da Constituinte de 87-88 tive a ocasião de acompanhar a elaboração de nossa atual Carta Magna. Quem acompanhou o trabalho dos constituintes há de se lembrar como os políticos de esquerda procuraram – e em boa parte conseguiram – fazer avançar seus ideais. Alguns bem claramente, outros de forma mais velada e aparentemente inocente. Ademais souberam colocar em nossa Constituição uma palavra que, em minha opinião, abriu caminho para abrigar idéias que, pelo menos naquele momento, ainda eram rejeitadas pela sociedade. Trata-se da palavra discriminação.
Lembro-me que na ocasião comentei com alguns colegas que tinha ficado preocupado com a redação do inciso IV, do art. 3º, dos Princípios fundamentais da Constituição. Diz ele:

Art.3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Não sou jurista e nem mesmo advogado. Mas pareceu-me que se abriam as portas para a futura aprovação de leis contrárias ao direito natural. Por exemplo, o casamento homossexual.

Meus colegas acharam que eu exagerava. Estava sendo muito pessimista. Nem acreditaram que era uma brecha. Mantive minha opinião e lembrei-me de uma frase de meu padrinho de crisma: “por onde passa uma gota d’água passa o mar”.

Lamentavelmente o tempo me deu razão. (4) Nossa Câmara Federal já aprovou o projeto da homofobia que quer punir até com prisão quem for considerado homófobo. (5)

Hoje, passados mais de 20 anos, o que vemos em concreto é que as idéias dos defensores do direito natural passaram a ser automaticamente consideradas preconceituosas e discriminatórias. Mais combatidas ainda se forem idéias baseadas em princípios religiosos cristãos.

Etimologicamente, discriminar pode significar distinguir, discernir, separar, especificar, segregar, estabelecer diferença. Basta olhar o dicionário para ver que a palavra pode ser usada em sentido bom ou mau.

Quando nossos pais nos pediam para evitarmos más companhias só o que pretendiam era prevenir-nos contra más influências. Concretamente alertavam-nos para sermos prudentes. Tinham noção da fraqueza humana. Compreendiam que os filhos que amavam podiam vir a seguir maus exemplos. Estritamente falando, discriminavam. Devemos censurá-los por isso?

Ao mesmo tempo eles davam outros conselhos: Respeite os mais velhos, não despreze os outros, ajude os pobres. Talvez sem entender filosofia quisessem que entendêssemos que deveríamos amar os outros simplesmente por serem humanos. Sem discriminações injustas. (6)

A esquerda, aparentemente sempre preocupada com justiça, percebeu que apesar de tudo nós, pobres seres humanos, nem sempre percebíamos que esquecíamos dos desvalidos e mais fracos. E é verdade. Basta ver como nossos engenheiros e arquitetos projetaram casas, prédios, estações de metrô, calçadas, como se não existissem idosos e deficientes.

Rapidamente começaram a propagar os males de uma sociedade que exclui e segrega, os seja, da sociedade capitalista. E começaram a exigir inclusões sociais e o fim de toda e qualquer discriminação. Propositalmente confundiram tudo. Simplesmente porque capciosamente misturaram alhos com bugalhos.

Qualquer ser humano retamente formado, que compreende a beleza e a dignidade da vida humana, concorda que há exclusões injustas e discriminações abomináveis. Basta citar o caso dos párias na Índia e as várias formas de racismo e apartheid. Ou mesmo as multidões pelo mundo afora que não conseguem participar dos bens produzidos pelo homem. São milhões – ou bilhões – que sofrem porque não têm alimento, habitação, assistência médica, assistência jurídica, etc. Na Ásia, na África, ou bem perto de nossas casas.

Querer criar um mundo mais justo que acolha tantos de nossos irmãos é absolutamente louvável. E não basta ficarmos só em palavras, como é comum entre os políticos, é preciso que realmente nos empenhemos para que o sonho se torne realidade. Afinal, se o mundo jamais será aquele desejado pelos utópicos, um paraíso na terra, também não pode e não deve ser uma geena, um campo repleto de amargura e de miséria.

Entretanto, é também abominável o desejo de incluir na sociedade o que não deve ser incluído, de colocar no mesmo balaio a justiça e a imoralidade.

Observem a pauta dos movimentos de esquerda: combatem a escravidão infantil, a opressão da mulher, a falta de oportunidade escolar para os pobres, o racismo. Só que junto com isso (supondo que esses pontos fossem corretamente interpretados e aplicados) promovem abertamente a defesa da prostituição (7), da homossexualidade, do aborto, da eutanásia e de um novo conceito de família. Defendem a descriminalização (da droga, do aborto) e ao mesmo tempo são absolutamente condescendentes com os criminosos para quem pedem penas cada vez mais suaves. Pelo menos enquanto vivermos em uma sociedade capitalista... Depois, se tiverem todo o poder será uma outra realidade. Certamente serão severamente punidos os que ousarem não concordar com o “governo do povo”.

Mais um ponto a ser considerado: como reagem os defensores da cultura da morte às nossas críticas?

É simples: com a ajuda de amplos setores da mídia afirmam, sem enrubescer, que eles representam a liberdade e o progresso. Nós é que merecemos a execração porque seríamos reacionários e inimigos dos direitos humanos!

Tal procedimento não é nenhuma novidade. Já Santo Agostinho havia ensinado que de tal modo o homem nasceu para o bem que não consegue praticar o mal chamando-o de mal. Até traficante sabe disso. Ao oferecer a droga para um pobre jovem ele diz: “Experimente. É bom...”

O amor que temos pelo verdadeiro bem nos faz rejeitar com toda a alma tal visão materialista do homem e da sociedade. Amor que nos faz proclamar que a verdadeira inclusão não pode ser total e irrestrita. Amor que jamais aceitará que se coloque em pé de igualdade os justos clamores de tantos que sofrem violência com o pretenso direito de se violar a lei moral.

Em suma, quem tem direitos são as pessoas. Não o crime, não a corrupção. E a liberdade de cada um de nós foi-nos dada para fazer o bem. E só é bom o que é conforme nossa natureza e concorre para a plena realização do ser humano.

O resto é ideologia, falsidade, demagogia.







1. “manipulação é toda atividade que pretende apresentar o falso como verdadeiro, o eticamente ilícito como eticamente lícito, o não-humano como humano”. PEREZ, Rafael Gómez. Problemas morais da existência humana, Lisboa, Edições CAS, 1983. p. 44.

2. Lexicon: Termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas/Pontifício Conselho para a Família. Brasília, Edições CNBB. 2007.

3. Lexicon. Prefácio. Págs 5 e 6.


4. E também uma alegria. No ano passado li no Lexicon: “Há alguns termos universalmente presentes que são fonte de especiais dificuldades. É o caso do conceito de “discriminação”. O equívoco aqui é particularmente perigoso. Inicialmente, desperta uma reação de simpatia: como não ser contra as discriminações? À primeira vista, parece ser conseqüência do respeito aos direitos humanos. Mas a primeira e espontânea reação favorável muda quando os conteúdos concretos são mais detidamente examinados”. (op. cit. prefácio. p. 7)

5. O projeto de lei sobre a homofobia está pronto para votação no Senado Federal brasileiro (PLC 122/2006). A proposta, iniciada na Câmara dos Deputados (PL 5003-B, de 2001 e aprovada pelo projeto de lei nº 5003/2001, pretende punir como crime qualquer tipo de reprovação ao homossexualismo) Mais especificamente, o projeto está para ser votado pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH). A relatora, Senadora Fátima Cleide (PT/Ro) deu parecer FAVORÁVEL à proposta em 7/3/2007. Assim sendo o texto está pronto para a pauta e poderá ser votado, e eventualmente aprovado, a qualquer momento. Em tempo oportuno escreveremos sobre o assunto. Permaneçamos vigilantes.

6. É como as desigualdades. Existem justas e injustas. E aqui também a propaganda revolucionária está vencendo. Toda desigualdade passou a ser tida por injusta. Outra negação da realidade humana.


7. O governo do PT chegou a ter no site do ministério do trabalho uma espécie de cartilha na qual defendia a legalização da prostituição. Seus deputados apóiam projeto de Gabeira. Basta acessar a internet para se ver a polêmica causada. De qualquer modo a esquerda considera tal medida mais um passo na defesa (?) dos “direitos humanos”.

Veja declarações neste sentido em:
http://www.beijodarua.com.br/materia.asp?edicao=28&coluna=6&reportagem=827&num=1

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

LULA, CLASSE POLÍTICA E DIGNIDADE

Valter de Oliveira


Basta olhar as cartas dos leitores aos jornais para vermos como estão profundamente decepcionados com a classe política. O mesmo vemos em inúmeros blogs nos quais se expõe de modo cada vez mais contundente práticas de corrupção e outros desvios éticos de nossos dirigentes. Jornais e revistas, como é habitual, não deixam de fazer suas denúncias. É um importante papel da imprensa democrática.

O mau exemplo leva o cidadão a descrer da democracia. Ou dos governos em geral. Pior: Muitos começam a perguntar: se eles podem (agir mal) por que eu não posso?

Não é questão de poder ou não. É questão de dignidade, de honra, de valores. Fazemos o bem seguindo nossa consciência retamente formada que nos faz ver o bem e praticá-lo. Sem desejar aplausos ou recear desprezos. E para quem tem fé, pela alegria em seguir a Deus.

A corrupção de tantos políticos – e de outros setores da sociedade – não devem nos levar ao abandono da política. Aristóteles dizia que o homem é um animal racional. Nossa razão nos mostra que somos seres sociais e que não podemos viver sem política. Pelo menos Política com p maiúsculo, que nada tem a ver com mesquinharias partidárias. E o que é ela?

"A política é a atividade que diz respeito à vida pública.” É a arte de governar, de gerir o destino da pólis (cidade). E para isso o homem político (...) é investido de poder para imprimir determinado rumo à sociedade tendo em vista o interesse comum”. (1)

A maior parte de nós, eu ou você que está lendo esse artigo, não precisa ser cientista político, economista, jurista ou filósofo, para perceber quanto os políticos, no poder ou na oposição, não agem como deveriam. O simples homem do povo sabe e sente que nossa classe política não trabalha para o bem comum. O que não quer dizer que nada seja feito.

É verdade que este conceito, em nossa sociedade, é concebido, em sua maior parte, como uma série de bens principalmente materiais. (E a mídia tem enorme responsabilidade no crescimento desta visão errada). Boa seria a sociedade em que houvesse habitação digna para todos, pleno emprego, sistema de saúde adequado, cidades com boa infra-estrutura e áreas de lazer, escolas de qualidade, etc.

Sem dúvida tudo isso é muito bom. Mas não é o suficiente. Desejo que meus filhos e todos os seres humanos desfrutem de tudo isso. Mas, assim como não basta que alguém seja rico para se desenvolver plenamente e atingir seu fim último, que é Deus, assim também não significa que se o mundo inteiro vivesse como os dinamarqueses ou canadenses o bem comum teria sido alcançado. Seria uma visão totalmente materialista.

Santo Agostinho ensina que a condição do bem comum é a paz, que ele conceituava como a “tranqüilidade da ordem”. E esta é a disposição de cada coisa conforme sua finalidade. E evidentemente não há ordem quando o homem coloca bens materiais acima dos espirituais como é o caso do mundo moderno. Dá para entender por que falamos tanto em paz e cada vez mais temos violência, guerras, opressão dos mais fracos e desprezo pela própria vida humana?

Então, no que consiste o bem comum? O prof. Manuel Gonçalves Ferreira Filho nos diz: “A lição tomista, esclarece, de maneira ainda não superada, o conceito. A essência do bem comum é, para Santo Tomás, a vida humana digna. A ação do Estado deve assegurar para todos uma situação tal, em que cada um possa realizar-se plenamente” (2).

Neste sentido vários autores afirmam que para S. Tomás o bem comum implica na vida virtuosa em comum. O que não será alcançado se os cidadãos não entenderem bem seus direitos, não cumprirem suas obrigações e se os dirigentes usarem erradamente o poder.

“O poder põe o homem à prova. Pois muitos, quando permanecem em posições humildes, têm toda a aparência de virtude, e no entanto afastam-se dela quando chegam às alturas do poder”. (3)

Agora vou dizer o óbvio: nossa classe política não entende corretamente o papel do Estado nem o verdadeiro conceito do bem comum. Os aspirantes do poder, de todos os partidos políticos, já nascem e são nutridos em um ambiente com mentalidade oligárquica. Na linguagem política atual: vivem o fisiologismo, adotam o nepotismo, amam e defendem-se com o corporativismo. Os piores adotam tudo isso e ainda procuram manipular a sociedade e conduzi-la cada vez mais a aceitar ideologias que implicam na negação da dignidade humana.

Ainda ontem vi um triste exemplo disso. Em noticiário na TV vi o sr. Lula da Silva, presente no desfile de carnaval na Marquês de Sapucaí, ao lado do prefeito e do governador do Rio, jogando preservativos para os foliões. Dinheiro público que deveria ser usado em Saúde e Educação é jogado fora para facilitar a promiscuidade.

Os imperadores romanos eram mais dignos: quando compareciam ao Coliseu jogavam pão para o povo...




1. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Temas de Filosofia. São Paulo, Moderna, 1992. p.138

2.FERREIRA FILHO. Manuel Gonçalves. A Democracia Possível, São Paulo, Saraiva. 1985. p.35

3.(Reg. Princ.,1,9) in AMARAL, Diogo Freitas do . História das Idéias Políticas, vol 1. Coimbra, Livraria Almedina, 1998, p. 185”.

domingo, 15 de fevereiro de 2009



HOLOCAUSTOS: CRIMES CONTRA DEUS E A HUMANIDADE


Valter de Oliveira



Confesso que os últimos acontecimentos noticiados pela mídia a respeito do bispo Williamson, a reação da comunidade judaica e o pedido de perdão do Papa por aqueles que negam o holocausto deixaram-me perplexo. E, ao mesmo tempo, por paradoxal que pareça, alegre e esperançoso. Explico-me.

1. a perplexidade

Em primeiro lugar fico perplexo com o fato de alguém negar que o povo judeu não tenha sido vítima de uma das maiores barbáries da História. O assassínio de tantas vítimas inocentes foi, como disse o Papa, um “terrível crime”. E negá-lo “é intolerável e totalmente inaceitável”.

2. a insensibilidade

Em segundo lugar surpreende-me a insensibilidade do homem moderno diante de tantas monstruosidades cometidas por aqueles que querem construir uma sociedade perfeita baseada exclusivamente no homem. Só almas insensíveis, cobertas pela lepra do indiferentismo e do pecado, não conseguem ver os sofrimentos de tantos inocentes que foram e são eliminados por aqueles que defendem tenazmente a cultura da morte. Talvez se entenda então porque o Papa se viu obrigado a dizer: “O ódio e o desprezo por homens, mulheres e crianças, manifestados na Shoá, foi um crime contra Deus e contra a humanidade”.

Se os homens levassem um pouco a sério o que Deus nos ensinou – a todos de religião de origem semita – não seria necessário recordar-nos do que é óbvio.

Eu, como católico, relembro o que aprendi ainda jovem no catecismo: há quatro pecados que bradam ao Céu: O homicídio voluntário, o pecado de sodomia, a opressão dos pobres, não pagar o salário a quem trabalha.

Se um só homicídio merece tal repulsa por parte de Deus, o que dizer de massacres de grupos, raças e povos?

3. E por que me alegro?

Primeiro porque quando em minhas aulas trato das abominações do mundo moderno costumo mostrar os crimes cometidos pelo socialismo. E sempre começo pelo socialismo nazista. Crimes contra judeus e não judeus. Crimes contra alemães. Crimes contra seres humanos inocentes. Saudáveis e deficientes.

Nessa minha cruzada particular passo o filme “Julgamento em Nuremberg(1). Discuto com os alunos a mentalidade de cada um dos 4 nazistas acusados. Do degenerado, do fanático, do jurista respeitável, do juiz bonzinho e legalista que se julga inocente afirmando que o papel de um juiz é apenas aplicar a lei, sem questioná-la. Não fora ele que a tinha promulgado. Ele era simplesmente um fiel servidor do Estado...

E qual foi o grande erro, o grande crime dos legisladores nazistas? Foi afirmar que o Estado tem o direito de fazer qualquer lei que achar conveniente. Claro que, dizendo que é para o bem do povo ou da sociedade. E esta lei humana não pode ser limitada por ninguém. Nem pela lei divina e nem pelo direito natural. É a postura do Estado laicista sempre criticada pela Doutrina Social da Igreja.

Laicismo criminoso defendido pelos jacobinos do Terror.

Laicismo hediondo defendido pelos totalitários nazi-fascistas.

Laicismo abominável defendido pelo positivismo, pelo sociologismo jurídico, pelo existencialismo ateu, pelos marxistas. Todos hoje unidos em defesa da cultura da morte.

Laicismo desgraçadamente defendido pela declaração da Diretoria Nacional do PT ao defender o aborto, ou seja, o extermínio de inocentes. Razão: a pretensa autonomia que a mulher teria o direito sobre seu corpo. (2)

Graças a Deus estamos no pólo oposto. O que o juiz Haywood afirmou na sua sentença final em Nuremberg (3) nós bradamos com toda a alma: o nosso propósito de defender sempre o valor inalienável da vida de cada ser humano.

Alegro-me também porque nós católicos, que conhecemos e amamos a doutrina da Igreja e os ensinamentos luminosos de Nosso Senhor Jesus Cristo realmente estamos comprometidos na rejeição de toda forma de antissemitismo. E por uma razão muito simples: estamos comprometidos com toda a criatura humana. E por isso defendemos a inalienável dignidade do ser humano desde sua concepção. É uma alegria imensa saber que nenhuma outra instituição na Terra defende a vida humana tal como a defendemos.

4. A esperança

O Papa pediu perdão pelos pecados cometidos contra os judeus. Estranhei. Por que pedir perdão pelos crimes cometidos por nazistas? Ou pelas ignomínias proferidas por seus simpatizantes? Nós também fomos vítimas deles. Milhares de nossos irmãos perderam suas vidas por se oporem à gnose socialista nazista. Quem matou S. Maximiliano Kolbe e nossa irmã judia, S. Edith Stein?

E nós brasileiros ainda temos um motivo de glória: mais de 500 soldados, mais de 500 homens de valor que morreram para que o nazismo desaparecesse da face da terra!

Talvez o pedido de perdão do Papa queira dizer que a Igreja chora não só por seus filhos infiéis mas, por todo ser humano que perdeu a noção do valor da vida: a terrena e a eterna. Dos batizados e dos não batizados.

Finalmente, minha esperança é que todos os homens, em especial os judeus que viram tantos de seus filhos inocentes serem massacrados, unam-se a nós, católicos, para defender a vida humana.
Poderíamos começar relembrando outros genocídios, outros holocaustos. E condenando alto e bom som os crimes abomináveis cometidos por outro tipo de socialismo: o socialismo marxista.

Ainda há países socialistas que persistem em negar o valor intrínseco da vida humana. Seus algozes continuam no poder. Já no mundo democrático partidos socialistas e comunistas, e todos os seus simpatizantes, em todos os setores da sociedade, continuam a defender que não é crime matar inocentes por razões políticas e defendem asilo para seus criminosos!

Pior ainda: negam obstinadamente os terríveis crimes que praticaram contra populações inteiras. (4)

Também sobre estes “holocaustos” deveríamos aplicar as palavras do Papa:
"Não há dúvidas (...) – de que toda negação ou minimização deste terrível crime é intolerável e totalmente inaceitável." "Este capítulo terrível da nossa história não deve ser esquecido nunca", sentenciou.

Assim sendo, creio que em nome de tantas vítimas inocentes, temos que exigir:

Que a ONU, todas as igrejas cristãs, todos os líderes religiosos do mundo inteiro, todos os que justamente defendem a dignidade humana condenem, publicamente, todos os crimes praticados por Lênin, Stalin, Mao Tse Tung, Pol Pot e quaisquer outros criminosos políticos. Que se faça um monumento em homenagem a tantas vítimas inocentes. Que se exija dos defensores de tantas atrocidades que publicamente peçam perdão por defender o indefensável. (5)

Por último um pedido do fundo de nossas almas: a condenação mais radical de milhões de abortos praticados todos os anos. Com um grande mea culpa das “católicas” pelo direito de decidir e de todos os que tanto se obstinam em assassinar seres humanos inocentes.

Cabe a mim e a você, meu caro amigo leitor, empenharmo-nos com ardor para que isso seja possível.

Roguemos a Deus para que estes outros holocaustos - sempre lembrados e condenados pela Igreja - possam também ser condenados por toda a sociedade. Será um enorme bem para a humanidade e motivo de imenso júbilo no Céu.


Notas

1. Julgamento em Nuremberg, 1961, direção de Stanley Kramer.

2. O Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores é contrário à CPI do Aborto e reafirma o compromisso de luta pela descriminalização do aborto e em defesa da igualdade e autonomia das mulheres sobre seu corpo e sua vida. O Partido dos Trabalhadores - PT- em seu 3° Congresso Nacional, ao tratar deste tema definiu e aprovou a seguinte resolução: "defesa da autodeterminação das mulheres, da descriminalização do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público evitando assim a gravidez não desejada e a morte de centenas de mulheres, na sua maioria pobres e negras, em decorrência do aborto clandestino e da falta de responsabilidade dos Estados no atendimento adequado às mulheres que assim optarem." Tratar desse tema criminalizando as mulheres, impondo valores religiosos ou morais, é apostar no autoritarismo que queremos que não exista em nossa sociedade. Brasília, 09 de fevereiro de 2009.

Obs: Observe-se a hipocrisia: a ideologia totalitária petista defende o extermínio de inocentes e acusa de autoritários quem defende a inviolabilidade da vida h
umana! Não é de estarrecer? E o que não querem que exista? O crime? Não. O que escancaradamente afirmam é que desejam que os valores morais e religiosos desapareçam da sociedade!

3. "Diante dos povos do mundo que seja aqui registrado... que na nossa decisão foi isso que defendemos... Justiça... Verdade... e o valor de cada ser humano (and the value of a single human being).

4. O PCdoB, do sr. Aldo Rebelo, devoto de Stalin e de Mao Tse Tung tem a desfaçatez de afirmar: “O socialismo ontem, hoje e amanhã será sempre a expressão da luta
pela construção de uma nova sociedade, antagônica ao capitalismo. Nas quatro/cinco décadas de vivência do socialismo, alcançaram-se êxitos históricos e cometeram-se também erros” (...) (site do PCdoB, respostas às perguntas mais freqüentes. Questão: “O socialismo ainda está na ordem do dia?)

Em suma, caros amigos, OS ERROS são os 100 milh
ões de mortos vítimas do comunismo...

5. Neste sentido também mostro a meus alunos os crimes praticados pelo socialismo marxista no Camboja apresentando a eles o filme: “Os gritos do Silêncio”, direção de Roland Joffé, vencedor de três Oscar.




quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009



R$ 383,22! Educação e Saúde?



Ubiratan Jorge Iório de Sousa*

30/01/2009


Trezentos e oitenta e dois reais e vinte e dois centavos para 20 horas de trabalho semanais exigidas! É o que ganha um professor substituto (de quem se exige apenas o curso de graduação) de uma universidade federal, em uma faculdade de Medicina, Enfermagem e Farmácia. Nas demais áreas de conhecimento a remuneração é a mesma, pois é estabelecida em tabela pelo ministério do Planejamento e vale para todas as universidades federais. Se o professor tem mestrado e trabalha 40 horas por semana, o salário é de R$ 1.290,07 e, se possuir mestrado e pertencer ao quadro fixo da instituição, recebe mensalmente, em início de carreira, a “astronômica” cifra de R$ 2.715,97. Na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), onde leciono há 17 anos, o salário mensal de um professor com doutorado, em qualquer faculdade ou instituto, em regime de 40 horas e em início de carreira não chega aos R$ 3.500,00. Um médico concursado de um hospital público do Rio de Janeiro ganha pouco mais de R$ 1.000,00 por mês. Um professor da rede pública estadual e municipal, em começo de carreira, nem sequer sonha em ganhar tão “bem”... É um retrato bem pequenininho do estado de calamidade em que jazem a saúde e a educação públicas. Não vou nem comentar o péssimo atendimento nos hospitais públicos e a baixíssima qualidade da educação. Não é preciso.

Do outro lado dessa rua esburacada e sem calçamento, os jornais informam que o governo federal está distribuindo 600.000 preservativos para serem distribuídos aos jovens que estão em Belém participando da grande feira de fósseis ideológicos – que deve despertar o interesse de qualquer paleontólogo – denominado “Fórum Social Mundial”. Esse mesmo governo tem 37 (ou 38, pois é mesmo de perder a conta) ministérios e “secretarias especiais”. Nos estados e nos 5.564 municípios, governadores e prefeitos abrem bateladas de secretarias para acomodar quem lhes dá apoio político. Nas demais esferas e nos três níveis de poder do Estado, o Judiciário, quando se trata de aumentar os próprios gastos com pessoal, é, digamos, bem pouco judicioso. O legislativo, nem se fala. É só um pálido retrato de desperdício e malversação dos recursos arrecadados febrilmente do contribuinte.

Vou parar aqui. Estou plenamente convencido de que não é preciso acrescentar qualquer comentário adicional. Este, infelizmente, é o nosso país. Um país, afinal, coerente, uma vez que o seu presidente declarou com orgulho que não gosta de ler nem manchetes de jornais, porque “dá azia”... Deve ter pavor de médicos, mesmo tendo um, pago por nós, para cuidar exclusivamente da sua saúde

PROFESSORI, VIL RAZZA DANATA!

Ubiratan Jorge Iorio de Sousa

02/02/2009

Segundo os jornais do último fim de semana, o Ministério da Educação determinou, no último dia 30 – exatamente a data da postagem anterior –, que os professores substitutos da UnB e, por extensão, da Universidade Federal de Juiz de Fora, terão os seus salários reajustados de R$ 388,22 para R$ 1.079,00 por mês, para 20 horas semanais de trabalho. Um aumento de 277% que melhorou, ou como diria alguém bem realista, porém pouco preocupado com o português, “piorou menos” a condição dos referidos docentes que, se estavam afundados até o pescoço, agora passaram à condição de imersos até a altura do peito...

O que aconteceu?

Os bondosos burocratas resolveram incorporar a GAE (em torno de R$ 457,00), gratificação que somente era paga aos docentes de carreira – ao salário dos professores substitutos, que são, como se sabe, contratados temporariamente. Segundo o MEC, dentre as federais, apenas a UnB e a UFJF não pagavam a GAE aos substitutos. Com o novo salário mínimo, de R$ 465,00, o piso para esses professores será de R$ 1.209,00.

Mudou algo?

Só que esse ato de suprema bondade de nossos burocratas da educação não muda nada em relação ao que escrevi no dia 30. O leitor poderá argumentar que o aumento foi substancial, ao que eu contra-argumentarei (com hífen e tudo, pois o prefixo termina com a mesma vogal com que começa a palavra seguinte) se ele acha justo um professor universitário, mesmo sem mestrado, ganhar menos do que, por exemplo, um contínuo do Senado Federal, que recebe cerca de R$ 10.000,00 por mês, ou um ascensorista do Congresso, que percebe perto de R$ 6.000,00 em cada mês (fora o 13º salário e outras vantagens, a que os docentes temporários não têm direito). E acrescentarei outra pergunta: quais os salários dos assessores de vereadores, deputados e senadores, que existem às pencas e multiplicam-se a taxas superiores às dos coelhos e ratos? Certamente, não serão menores do que o novo piso dos professores assistentes.

Salários dependem principalmente – ensina-nos a Teoria do Capital Humano – de escolaridade e de experiência, além, evidentemente, das condições de demanda e oferta de cada tipo de mão-de-obra. Será que há mais brasileiros qualificados para serem professores universitários do que brasileiros com qualificação para contínuos, ascensoristas e aspones? Será a demanda por estes últimos superior à de professores universitários? É evidente que a resposta é não em ambos os casos, o que explica que os salários no setor público são determinados muito mais por fatores políticos e corporativos do que pelos econômicos, que normalmente deveriam determiná-los. Aí é que está o problema. Mas, se nosso presidente sequer lê jornais e, desde que se tornou líder sindical, sempre se recusou a estudar, não deve gostar mesmo de professores. Deve considerá-los supérfluos, uma raça vil...

Só mesmo parodiando aquela bela ária do Rigoletto de Verdi: Cortigiani, vil razza dannata...


*Ubiratan Jorge Iorio de Sousa é Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas e professor da UERJ


Visite o site http://www.ubirataniorio.org/blog.htm


sábado, 17 de janeiro de 2009

O Diagnóstico e o Remédio:
Equívoco de “Conservadores”


Valter de Oliveira



Alguns dizem que é normal que jovens, especialmente ao entrar na Universidade, se deixem seduzir pelos ideais socialistas.

Dizem, porém que já não seria normal se continuassem apoiando Marx após ter completado 40 anos...

Há também quem diga – como Maritain – que admira nos socialistas o amor pela justiça.

Não concordo. O ideal socialista é sumamente injusto no seu objetivo e brutalmente injusto nos seus métodos.

De qualquer modo não deixa de ser curioso – para dizer pouco - como a propaganda revolucionária conseguiu fazer com que até mesmo não marxistas acreditem que o igualitarismo social é um bem.

Em minhas aulas – a maior parte delas dadas, sobretudo a alunos da classe média – acostumei-me a fazer algumas perguntas. Uma delas é a seguinte: “Quais partidos defendem mais o povo, os de esquerda ou os conservadores”?

Resposta quase unânime da classe: “Os de esquerda”!

E de onde eles tiraram esta conclusão brilhante? Livros didáticos, aulas de humanas, propagandas na mídia. Ou seja, anos de doutrinação explícita ou subliminar.

Para piorar pensam que o projeto revolucionário se resume só às questões econômicas. Não têm a mínima idéia do que seja o socialismo no campo da educação, da cultura, dos valores, ou da família.

Para complicar temos esta falha de percepção até mesmo em famílias conservadoras. Ou melhor, enxergam algumas coisas, mas não outras. Claro que, sendo conservadores percebem muita coisa errada em nossa sociedade. Mas, se você perguntar sobre o governo Lula dizem, e até com um certo alívio e um sorriso nos lábios, que ele está fazendo um governo conservador!... Alegram-se com sua política econômica continuadora do PSDB. E eis aí outra coisa aparentemente estranha. Setores da classe média e o PSOL afirmam a mesma coisa: Lula e o PT são de direita! Ou quase!

Na mesma linha é curioso ver como não marxistas passam a apoiar certas causas sociais. Cresce a simpatia pelo sistema de cotas. E por movimentos sociais como o MST. Além disso, usam os termos de momento lançados pelos socialistas como se seus significados não embutissem nenhuma carga revolucionária ideológica. Preconceito, discriminação, inclusão, trabalho voluntário... Tudo conforme o politicamente correto.

E ao conversarem conosco o que nos dizem: “Realmente, temos uma dívida histórica com os negros”. Ou ainda: “Temos que acabar com as desigualdades sociais”! E aí nosso conservador já aceitou um dogma marxista: toda desigualdade social é sinônimo de injustiça.

Da adesão às causas ele quer passar à ação. E é lógico. Se há um mal urge que lutemos para eliminá-lo. E aí se passa à simpatia pelo MST e outros movimentos sociais e políticos que, teoricamente, estariam defendendo a justiça, a liberdade, e os direitos humanos.

A realidade é mais complexa.

Neste artigo não quero discutir os pressupostos, ou seja, se a realidade vista a partir dos olhos da esquerda é verdadeiro. Vamos aceitá-los só para efeito de argumentação. Vamos admitir que o DIAGNÓSTICO sobre esses nossos males sociais esteja correto. O que fazer?

Acho que foi São Tomás quem ensinou que para julgarmos a realidade temos que fazer três coisas: 1º Ver; 2º Julgar; 3º Agir.

Se virmos mal e formos coerentes, julgaremos mal. Em conseqüência seremos um desastre na ação.

Como aceitei por hipótese que o diagnóstico de certos males na sociedade seriam verdadeiros preciso agora saber quais os meios corretos que devem ser usados para curá-los. É durante o julgar que vemos os erros de fundamento da conjuntura ou até da estrutura social. A vida política, social e econômica de um país não pode ser mudada só por pretensas "boas intenções".

Há mais de cem anos os socialistas dos mais diversos matizes nos mostram os males da sociedade liberal capitalista. Muitas vezes apontam com razão as doenças existentes. Noutras erram em explicar as causas. Mas, sobretudo, sempre erram na terapia. Qual o remédio que propõem? Simplesmente a aplicação do socialismo, muitas vezes apresentado como sinônimo de justiça social.

E o que dizem os Papas?

Já o papa Leão XIII, na Rerum Novarum, primeira grande encíclica social da Igreja, mostra claramente o erro da solução socialista:

“Os socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem (...) e lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria (...) prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Outrossim, é sumamente injusta, por (...) viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social”. (RN 3).

O texto é tão importante que é citado na Centesimus Annus de João Paulo II.

Sei perfeitamente que as pessoas às quais me refiro não querem, obviamente, a vitória dos ideais marxistas. Sei também que na correria do mundo moderno poucos têm tempo e mesmo gosto para acompanhar discussões doutrinárias. O que lhes peço, se minha voz chegar até elas, é que não se deixem levar por bons sentimentos ou pelas falácias da propaganda revolucionária.

É preciso lembrar continuamente que os marxistas sempre souberam se aproveitar das injustiças sociais. É o que vemos nas palavras de João Paulo II: “A crise do marxismo, não elimina as situações de injustiças e de opressão no mundo, das quais o próprio marxismo, instrumentalizando-as, tirava alimento” (CA 26) (destaque nosso).

Em suma, enquanto continuarmos acreditando que ideólogos (hoje os socialistas marxistas, ontem os socialistas nacionalistas de Hitler) têm a solução para os problemas sociais de nosso mundo, estaremos sendo instrumentalizados. São os verdadeiros valores de nossa sociedade que nos permitirão lutar e ajudar os mais necessitados. Aceitar as falácias socialistas é contribuir para o triunfo da cultura da morte e da escravização da humanidade. É dizer sim a tudo o que nega a verdadeira a dignidade humana.




OBS: Neste artigo estamos considerando “Conservador” a qualquer pessoa não socialista.

sábado, 10 de janeiro de 2009

EDUCAR É AJUDAR A CRESCER

Evandro Faustino[1]

Meu amigo Valter me pede algumas linhas sobre o candente assunto da educação e da escolha de um bom colégio. Vamos iniciar esse tema com uma verdade óbvia e indiscutível para qualquer pai ou mãe: nossos filhos são nosso maior tesouro. A essa verdade acrescentamos outra, tão evidente quanto a primeira: somos parceiros de Deus, sócios de Deus na criação de nossos filhos.
O ato de criar um filho não termina em sua concepção. O ser humano é de todos os animais, o que mais tempo necessita dos pais para se formar. Podemos dizer assim, com toda a segurança, que a criação continua ainda por muito tempo, até que nossos filhos se tornem independentes e voem sozinhos. Esse processo, essa parte do ato criativo que se prolonga pelos anos afora, e onde evidentemente a parceria com Deus continua a vigorar, é o que chamamos de educação.

Educar é uma tarefa, uma missão, que os pais nunca podem transferir integralmente para ninguém. Entretanto, em certa altura do processo educativo, acontece que os bons pais, desejando fornecer o melhor a seus filhos e vendo a complexidade do mundo e as mil necessidades educativas que eles vão apresentando, percebem a conveniência e até a necessidade do auxílio de pessoas que se especializaram na arte e no ofício de educar. Os pais então, sem com isso renunciar por mínimo que seja de sua missão educativa, buscam a parceria com um colégio.

Encarado sob este ponto de vista, o colégio assume uma importância capital. É uma instituição que eu escolho e convido para dividir com Deus e comigo essa responsabilidade de formar e fazer crescer o maior tesouro que eu possuo na terra. Com que cuidado e critérios eu devo fazer essa escolha! Se me cerco de garantias para investir meu dinheiro, se peço fiadores e referências de toda ordem para aceitar um sócio em qualquer empreendimento, com que carinho e atenção eu deverei eleger essa instituição que irá dividir comigo a responsabilidade de formar o meu filho!

Que critérios usar na escolha de um colégio? Sabemos de antemão que alguns estabelecimentos nem sequer devem ser considerados. Entre esses estão aqueles ¨colégios¨ massificantes, onde os alunos são apenas um número e uma conta bancária, e onde portanto não existe nem de longe a preocupação de fornecer qualquer tipo de formação. Em colégios assim um pai ou mãe que tenham um pouco de consciência nunca iriam matricular seu filho. Mas descartados esses, ainda sobram muitos outros, e ai entram em jogo uma série de critérios que não são exatamente errados, mas equívocos, e que podem levar a erros sérios. Vejamos alguns deles.

O primeiro critério equivocado, e um dos mais comuns, é o da proximidade. Nestas cidades desumanas e congestionadas em que vivemos é uma forte tentação escolher a escola que esteja mais próxima de casa ou do trabalho, e assim livrar-se do problema do transito, e das despesas de um eventual transporte escolar. Mas é muito pouco provável que o melhor colégio para seu filho seja exatamente esse da esquina, pela simples razão de que há muitas esquinas no mundo, e muito poucos colégios realmente bons. Pais que optam pelo comodismo da proximidade estão muitas vezes se satisfazendo apenas com um local que tome conta de seus filhos nos períodos em que precisam trabalhar, ou fazer qualquer outra atividade. Muitos encaram a escola apenas como um depósito de crianças. Argumentam que as crianças pequenas necessitam basicamente de higiene e segurança, e esquecem ou ignoram a verdade científica de que mais de 70% de tudo o que um homem aprende durante a vida, irá aprender até os 3 anos de idade. Sacrificam esse período mais rico e precioso do aprendizado de seus filhos nas aras da comodidade.

Outro critério enganador é o do preço. O colégio melhor não será necessariamente o mais caro. Nem o mais barato.

Outros pais se inclinam a buscar o colégio mais moderno, seja lá o que entendam por isso. Para alguns o colégio será moderno porque é novo. Para outros, porque possui modernices como uma grande sala de computadores, ou câmeras de vigilância, ou até mesmo, como ouvi afirmar de um deslumbrado avô, porque possui uma loja do Mcdonalds na lanchonete... Por mais fascinantes e úteis que esses acessórios possam parecer, eles não podem ser determinantes da essência de uma escola.
Outro critério equívoco e muito sedutor para alguns, é o do status. Os que escolhem um colégio por isso raciocinam que assim seus filhos terão mais chances de encontrar e fazer amizades com filhos de pessoas importantes, que os poderão ajudar no futuro. Ou apenas querem ter o prazer de apregoar que seus filhos estudam num colégio bem cotado socialmente. O que seu filhos estudam é para eles bem menos importante...

Há ainda o critério da tradição, muitas vezes expresso pela consideração de que se meu avô, meu pai e eu estudamos nesse colégio, e foi bom para nós, será bom para meu filho também. É preciso lembrar que as épocas são diferentes, que os tempos e as pessoas mudam. E que os colégios podem mudar também.

Alguns pais, bem poucos na verdade, são mais exigentes em sua avaliação, e querem saber qual é o método do colégio, ou qual a sua proposta pedagógica. Mas esse ar de seriedade e de exigência se esvai quase que imediatamente quando um coordenador ou diretor os aquietam afirmando que é um método novo, ou uma proposta moderna... a mais moderna, asseguram. Fica implícito que tudo o que é mais moderno é necessariamente superior ao que o que é mais antigo, e que se uma proposta pedagógica é a mais moderna será também a melhor. Qual é mesmo a proposta? Não importa... É a mais moderna...

Há finalmente aqueles que têm o espírito prático, e que buscam os resultados que o colégio apresenta. E por resultados entenda-se aqui quantos alunos o colégio fez aprovar nos exames vestibulares para as universidades. Sem desmerecer esse feito, é preciso lembrar que um colégio deve fazer mais do que treinar um rapaz ou uma moça para passar no vestibular.

E o que é exatamente esse mais, que o bom colégio deve buscar? Em que consiste a verdadeira educação?




Tomás Alvira, um dos maiores educadores do século XX, define educar como “ajudar a crescer”. Coerente e harmônico com essa definição outro grande educador, Oliveros F. Otero, ensina que educação é um processo de melhora, uma transformação pessoal direcionada, um desenvolvimento das possibilidades do ser humano numa aproximação gradual daquilo que constitui a sua própria plenitude, única e irrepetível.

Dentro dessa linha de raciocínio, o melhor colégio será aquele que ajude o aluno a crescer para atingir a sua própria plenitude.

Note-se que no parágrafo anterior, a palavra aluno está no singular. Ainda que haja centenas de alunos em um estabelecimento de ensino, a verdadeira educação será sempre individual, personalizada. E nem podemos esperar que seja de outra forma, se quisermos ser coerentes com a definição que acabamos de expor: se educar é ajudar a crescer para uma plenitude, se essa plenitude é diversa para cada pessoa, e se cada pessoa é única e irrepetível, então educar será sempre uma ação personalizada, ainda que haja dezenas de alunos em uma classe e centenas de crianças em um colégio. E a qualidade educativa de um colégio se medirá por sua capacidade e sucesso em aproximar cada um de seus alunos de sua plenitude pessoal. Tudo o mais é secundário. E qual é a plenitude pessoal mais completa? O diretor de um dos melhores colégios da Europa não hesita em concluir assim:

“Se no plano humano é preciso animar os alunos para que tenham miras elevadas e se esforcem para chegar alto (“ Não tenham o ânimo tão pequeno, diz o Cavaleiro a seu escudeiro Sancho, que se contentem com menos do que ser excelentes”[2]), no plano sobrenatural é ridículo por parte dos pais, e medíocre por parte dos filhos, conformar-se com qualquer coisa que não seja a santidade” [3].

Concluímos então que educar para a plenitude é educar para a santidade. Há quem afirme que o país precisa de técnicos, como houve antes quem afirmasse que precisava de soldados, ou de engenheiros, ou do que fosse. Está claro que nosso país precisa de todas essas profissões, e de muitas outras. Mas antes de tudo precisa de mulheres e homens formados em sua personalidade, e que por conseqüência natural e lógica dessa formação sejam ótimos técnicos, soldados, esportistas, professores, ou o que for. Essa é a verdadeira e principal finalidade da educação: formar pessoas boas e plenas, e por isso, felizes. Essa deverá ser a característica do bom colégio.

Alguns podem objetar: estará nas atribuições e competência de um colégio, alem de ajudar seus alunos a crescer na ciência e nas virtudes humanas, ajudá-lo também a atingir esse supremo degrau do crescimento e da perfeição que os católicos chamam de santidade?

Ora, por que não? São Josemaria Escrivá, juntamente com muitíssimos outros educadores, ensina que um bom colégio deve ser uma extensão do lar [4]. E se o papel do lar, o papel da família, é levar cada um de seus membros à plenitude, à santidade pessoal, esse deverá ser o papel do colégio também.

Um colégio assim será uma utopia, algo muito bom na teoria, mas impossível na prática? Demandaria um investimento muito grande, a ponto de se tornar proibitiva a sua materialização? Teria uma mensalidade tão alta a ponto de ser alcançável apenas por uma pequena elite endinheirada? A cada uma dessas três perguntas devemos responder com um solene e rotundo não.



Os colégios de educação personalizada não são utopia. Existem há mais de meio século, em muitos países da Europa e das Américas. Também não demandam investimentos maiores que os da construção de qualquer outro colégio. Não precisam ser caros ou exclusivos de uma elite rica. Abriram-se colégios de educação personalizada tanto em bairros paupérrimos e no meio de favelas quanto em outros de alto poder aquisitivo. Mais ainda, há colégios desse estilo que congregam indistintamente alunos de todas as classes sociais, convivendo em uma harmonia invejável. Já são muitos, mas poderiam ser muitos mais ainda, se nos conscientizássemos da importância de uma educação assim. Esse papel de conscientização cabe aos pais. A imensa maioria dos colégios de educação personalizada nasceu e nasce ainda da iniciativa de um grupo de pais preocupados com a inexistência ou a precariedade de uma boa educação, e desejosos, de um desejo eficaz, de dar o melhor para seus filhos. São pais como nós o somos. Se queremos colégios assim, vamos lutar por eles, sem esperar que outros nos impinjam o que não queremos. Os filhos que devemos formar são os nossos. Os principais interessados somos nós. Ao trabalho.




























[1] Mestre e Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo. Máster em Direção de Centros Educativos pela Universidade Complutense de Madrid.
[2] - Don Quijote de la Mancha, I, VII
[3] Jesus Urteaga, Carta aos pais. In Gaztelueta. Lejona (Viscaya), 1976, p.67. Jesus Urteaga foi diretor do Colégio Gaztelueta.
[4] São Josemaria Escrivá, Tertúlia no Colégio Tajamar, Madrid, 21.11.1972.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009



SER FAMÍLIA



Sonia Rosalia Refosco de Oliveira


Valter me pediu que escrevesse sobre o que é “Ser Família”. Algumas idéias surgem; no entanto, não é tão fácil definir o que é mais fácil sentir. O poeta já disse isso tantas vezes sobre o amor, ódio, tristeza, saudade, alegria. Agora, incluo também, a família. Mas vamos tentar definir o que, até agora, me parece indefinível.

Venho de uma família de ascendências italiana e portuguesa. Isso pode explicar muito do sentimento que tenho em relação ao que é “ser família”. Não posso falar de outras porque não vivi dentro delas. Mas, na medida em que são realmente famílias, ouso dizer que devem ter muito do que vou tentar exprimir.

Ser família é não ter segredos com os demais, mas ser perfeitamente capaz de guardar um segredo. É emprestar as roupas de todo dia, mas ser generoso para emprestar aquela roupa que estávamos guardando para uma ocasião especial.

Ser família é dividir as tarefas dentro de casa e ajudar o outro a cumprir o seu dever mesmo que não nos tenha pedido. É colocar o salário ganho no fim do mês à disposição para as necessidades, sempre com o intuito de somar e, nunca, subtrair.

Ser família é encher a mesa da sala de jantar e sempre apertar um pouquinho para que caiba mais um. É ouvir o barulho gostoso das conversas dos adultos, das brincadeiras das crianças e das piadinhas dos adolescentes.

Ser família é partilhar alegrias e tristezas com a mesma intensidade, porque a todos importa o que vai dentro de você. É ter um lugar para chorar e saber que nunca se chorará sozinho, porque sempre vai haver alguém para te perguntar o que aconteceu.

Ser família é brigar com os irmãos, mas com muito mais força brigar pelos irmãos. É rir sem ter motivo algum e poder contar piadas do elefante na geladeira; sempre vai ter alguém pedindo para você repetir, só pra ver você rir de novo.

Ser família é lembrar dos aniversários e dar um presente, mesmo que tenha sido feito por você. É abrir a casa para os amigos, porque aqueles que são importantes para um, são importantes para todos.

Ser família é dividir a caixa de bombons e guardar “aquele” para “aquela” pessoa.

Ser família é usar frases de filmes em momentos oportunos, mas com uma sutileza, que só a família entende.

Ser família é parar o que se está fazendo para ouvir como foi o dia do outro, ainda que os seus afazeres sejam muito importantes. É esperar todos chegarem para, finalmente, fechar a porta e poder dormir, ainda que seu dia tenha sido muito cansativo.

Ser família é olhar nos olhos quando se conversa ou quando, simplesmente, paramos para olhar o outro. É assistir a um filme juntos, mesmo que não seja o seu preferido. É ouvir a música que o outro gosta e, quem sabe, aprender a cantá-la só para poder cantarem juntos.

Ser família é saber sobre os gostos do outro, sua cor preferida, a comida que mais gosta, o tipo de leitura que o atrai, o filme que o marcou. É ouvir uma música e lembrar da pessoa. É estar em um lugar e imaginar “aquela” pessoa naquele lugar.

Ser família é ter um lugar para ficar e ser querido nesse lugar. É sair pela manhã e saber que podemos voltar à noite, pois sempre estarão nos esperando.

Ser família é cada um dar tudo de si confiando que a Providência jamais esquece de nós. É amar a Deus com toda a alma sabendo que Ele nos amou primeiro.

Um médico amigo disse que Tolstoi fez a seguinte afirmação: “as famílias felizes se parecem todas entre si, enquanto as infelizes o são cada uma a seu modo”. Simples, objetivo e verdadeiro.

Poderia ficar aqui dando mil exemplos do que é ser família, mas ainda assim não saberia como defini-la.

Fica, então, a tentativa: “Família é como o ar: quando você tem, nem percebe, porque faz parte de você, mas se vier a faltar, a impressão é que se vai morrer”.




Raymond de Souza e família *





SER FAMÍLIA


Há alguns anos dois amigos, Autimio Antunes de Souza Neto e sua esposa, Ludmila G. Antunes de Souza resolveram fazer uma revista “dirigida a todos os interessados em valorizar os laços familiares”. Tarefa aparentemente impossível para quem cuida com esmero dos filhos e exerce com competência e dedicação as atividades profissionais. Eles, entretanto, não cederam diante das dificuldades. Lutaram mais ainda e foram recompensados: conseguiram criar uma revista de qualidade e de sucesso. E ainda arrumam um tempinho para se dedicar ao Instituto Ser Família.

O artigo de minha esposa é nossa homenagem carinhosa e cheia de admiração pelo belo trabalho que têm realizado. Convidamos a todos os amigos leitores do blog a acessar o site da revista e ver tudo o que ela proporciona para que tenhamos sólidas e felizes famílias tão necessárias para nossa sociedade.

Acesse http://www.serfamilia.com.br/ Vale a pena!






* Raymond de Souza é brasileiro, diretor do Movimento Vida Humana Internacional para os países de Língua Portuguesa. Atualmente reside nos Estados Unidos. É uma das famílias pelas quais temos muito respeito e amizade.