domingo, 11 de abril de 2021

A COMPLEXIDADE DO REAL


 Marcelo Guterman

Observação do blog: Já postamos este artigo no FB. Contudo, tais são a clareza e propriedade do texto que decidimos colocá-lo em nosso blog. Merece ser guardado (V. O.)

Havia uma pessoa em minha família que sofria de depressão. Uma das características do quadro é que ela se achava culpada por tudo o que acontecia de ruim, principalmente a morte de pessoas. Não havia modo de convencê-la do contrário. Para ela, a causalidade era clara.
Podemos não notar, mas agimos o tempo todo como essa pessoa da minha família. Estamos o tempo inteiro buscando causas para as coisas que acontecem. O Homem é um ser em constante busca de porquês.
Essa característica do ser humano me veio à mente mais uma vez em meio a essa pandemia. O que causa a queda do número de casos? O lockdown? O tratamento precoce? A vacinação?
Vivemos em um sistema social extremamente complexo, com bilhões de interações. Imagine uma gigantesca mesa de bilhar, com milhões de bolas e milhares de jogadores jogando ao mesmo tempo. Como tentar prever o comportamento de uma das bolas? Mesmo que haja um mínimo de coordenação entre os jogadores, como prever o comportamento do conjunto das bolas? Agora imagine se cada uma dessas bolas tomasse a sua decisão individualmente...
Ontem li dois artigos que, coincidentemente, entre outros casos, usava o exemplo do Peru para provar duas coisas diferentes: no primeiro caso, que o uso da ivermectina como tratamento precoce funciona. No outro, para provar que o lockdown não funciona. Em ambos, o leitor é convidado a observar gráficos que, supostamente, provariam o ponto. Senti-me diante de um daqueles testes de Rorschach, em que a pessoa é chamada a descrever o que vê em uma figura sem sentido algum.
Determinar causalidade é um dos grandes desafios da econometria. Pode até haver correlação entre dois fenômenos distintos, mas causalidade é outra história, muito mais difícil de provar. Voltando ao caso do meu familiar: ela estava convencida que, toda vez que pensava em uma pessoa, aquela pessoa morria. A correlação poderia até existir, mas obviamente não havia causalidade. É o que chamamos, em estatística, de correlação espúria.
Ocorre que, ao contrário dessa pessoa de minha família, os fenômenos com os quais estamos tratando têm efetivamente um fundamento racional. É óbvio que o vírus não se transmitirá se as pessoas se mantiverem afastadas umas das outras. É óbvio que remédios e vacinas que se mostraram eficazes em grupos menores também se mostrarão eficazes em grupos maiores. Não estamos tratando de correlações espúrias, como aquela estabelecida pelo meu familiar.
Ocorre que, por mais que seja racional, a causalidade precisa ser provada. É nisso que a dificuldade reside e é aí que um debate que supostamente se daria no campo racional se transforma em guerra de narrativas.
A narrativa é um instrumento da fé. Todos nós vivemos de fé, por menos que queiramos admitir. Aqui não falo especificamente da fé religiosa, ainda que esta seja um exemplo. Refiro-me de maneira genérica ao conjunto de crenças que moldam a nossa maneira de pensar. O mundo é extremamente complexo e, por isso, não conseguimos abarcá-lo todo com a nossa mente limitada. Para lidar com essa realidade, confiamos em autoridades. Ou, para usar uma linguagem religiosa, depositamos nossa fé em uma autoridade.
Mas não em qualquer autoridade. Escolhemos as autoridades que confirmam as nossas crenças iniciais. Somente crianças e, em menor medida, adolescentes, são páginas em branco. Nós, adultos, enfrentamos o mundo armados de nossas próprias crenças, e procuramos autoridades que as confirmem, construindo a narrativa que nos convém.
Constatei isso, mais uma vez, lendo ontem sobre tratamento precoce. Há autoridades igualmente respeitáveis atacando e defendendo. Aí, você vai explorar os dados no detalhe (quantos têm tempo e interesse e know how para fazer isso?) e descobre que o caso da ivermectina, por exemplo, está em uma zona cinzenta, onde os estudos apontam para uma direção promissora, mas são realmente limitados e pobres, o que exigiria mais estudos para serem definitivamente comprovados ou descartados. Ou seja, é uma conclusão que não orna e não interessa a nenhuma das narrativas vigentes.
Se as crenças envolvem posicionamentos políticos, aí então é que podemos desistir de qualquer abordagem racional, ainda que o debate possa ter um roupagem acadêmica. As próprias autoridades têm os seus vieses políticos, muitas vezes não claros.
O que podemos concluir disso tudo? Diria o seguinte:
1) Cuidado com afirmações definitivas, que passam a impressão de que se tem 100% de certeza sobre alguma coisa. Se até em fenômenos físicos novas certezas podem substituir certezas anteriores (vide a física de Einstein substituindo a de Newton) imagine em fenômenos biológicos e, no caso, sociológicos.
2) Por outro lado, não podemos cair em um nihilismo destruidor, em que nada pode ser afirmado definitivamente. Podemos fazer uma ideia da realidade tendo a mente aberta para teses que desafiem as nossas crenças.
3) No entanto, o fato de não conseguirmos compreender a realidade em sua totalidade não significa que ela não exista. A Terra é redonda, não plana, não há crença ou narrativa que mude essa realidade. A arte está em saber distinguir aquilo que é saber definitivo daquilo que é saber provisório. Bem-vindo à aventura do conhecimento!
4) Por fim, não vale a pena perder amizades e relações familiares por conta desse tipo de discussão. Tenha em mente que cada pessoa tem as suas próprias crenças, que podem ser incompreensíveis para nós. Saiba que é vice-versa. Evitaríamos muitas brigas inúteis se tivéssemos isso em mente e buscássemos mais o que nos une do que o que nos separa.

quarta-feira, 10 de março de 2021

ANGELA VIDAL NA POLÔNIA

 

Valter  de Oliveira




"Ângela Gandra da Silva Martins, secretária da Família do Ministério de Direitos Humanos do Brasil, cruzou o oceano Atlântico, em plena pandemia de covid-19, para apoiar pessoalmente em Varsóvia, capital polonesa, a decisão que restringiu ainda mais o aborto naquele país"...

Terrível, não é mesmo? Eis aí um texto da UOL criticando uma secretária do governo brasileiro resolvendo defender a vida e os verdadeiros direitos da mulher mundo afora...

Claro que a FSP e a UOL não poderiam perdoar uma política que visa limitar o aborto. Então resolveram fazer uma reportagem biliosa contra a secretária. O texto procura por todos os meios encontrar algo que a desabone. Claro que não houve nada. Só o que encontramos no texto são sementes de má fé e de jornalismo marrom.

Simplesmente lamentável!



domingo, 28 de fevereiro de 2021

O DISCURSO DE DAMARES NA ONU

Valter de Oliveira



O que ela disse.

O que os jornais disseram...

 

Dia 22 de fevereiro p.p.  a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos defendeu a posição do Brasil diante de vários problemas que causam preocupação em todo o mundo.

Claro está que um ministro que fala por seu país procura dar sua versão dos fatos e do que está realizando. Pode fazer um discurso perfeito. Também pode dourar a pílula. Pode exagerar ou fazer omissões. O bom jornalismo daria clara ideia do que foi falado por nossa representante. A partir daí poderia ser feita uma análise crítica do que foi dito. Nada mais justo e democrático.

Já o mau jornalismo pinça dois ou três pontos e os expõem de modo a provocar antipatia no leitor em relação ao governo.

Eis a manchete da Globo: “Damares defende na ONU “vida desde a concepção” contrariando legislação brasileira sobre aborto”.

É o caso de perguntar ao jornalista e ao editor:

1.    É proibido a um governo ou a um cidadão que critique abertamente certas  leis existentes em um país?

2.    Tal crítica é conforme à democracia?

3.    Governos democráticos não procuram eliminar leis injustas? Não procuram melhorar as boas?

4.    Se uma lei fere direitos humanos deve permanecer só porque é lei? Passam a ser cláusulas pétreas?

Agora vamos ver um pouco mais do que foi dito pelo Globo

“A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, reiterou internacionalmente a posição do governo do presidente Jair Bolsonaro contra o direito ao aborto. Em pronunciamento online feito nesta segunda-feira (22), na 46ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, Damares disse que o Brasil continuará "firme" na defesa "da vida a partir da concepção"

A seguir o jornal tira suas conclusões da fala do governo em defesa da vida:

“A fala reforça ao mundo a posição do governo de extrema-direita do Brasil e de movimentos religiosos fundamentalistas que usam o conceito de "vida a partir da concepção" para perseguir o direito ao aborto, mesmo nos casos já previstos em lei”

Aqui, seguindo a narrativa da esquerda internacional, o Globo considera que eu, você e o Papa Francisco somos de extrema direita e fundamentalistas. Extremistas que ousam se opor a uma lei abortista ou a uma decisão abstrusa do STF...


                                                                            X

Que jornalismo!

A partir daí o Globo deixa de noticiar e passa a procurar justificar o aborto. Diz ele:

“No Brasil, o Código Penal de 1940 permite o aborto nos casos de gravidez decorrente de estupro ou se a mulher correr risco de morte. Em 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) descriminalizou o aborto em caso de anencefalia fetal”.

Depois de dar números de abortos infantis no Brasil o jornal volta ao discurso da ministra:

“Em seu discurso,  Damares Alves também defendeu as iniciativas tomadas pelo governo para a proteção dos direitos humanos dos brasileiros durante a pandemia. Apesar da ONU classificar o aumento nos casos de violência contra a mulher ocorrido em todo o mundo de "pandemia das sombras", a ministra limitou-se a dizer que, em 2020, o governo brasileiro executou "o maior orçamento para a área dos últimos cinco anos, com investimento cinco vezes maior do que o de 2018". Ela não mostrou os números”.

Aqui o Globo afunda ainda mais. Ele poderia ter citado frases da ministra contra o feminicídio, o assédio sexual, etc. Simplesmente omitiu...

 

E o grupo Folha, o que disse?

 

Eis uma manchete da Folha-Uol:

“Na ONU, Brasil faz discurso descolado do resto do mundo”

“Participação de Damares e Ernesto mostra como a postura retrógrada do Itamaraty afastou o país dos desafios internacionais mais urgentes”.

Lembremos que o aborto é o maior genocídio praticado em todo o mundo. Para a Folha não tem importância. Não é urgente cessar a matança de inocentes....

São apenas exemplos que mostram porque a grande mídia a cada dia perde mais credibilidade.

Fontes:

https://oglobo.globo.com/celina/damares-alves-defende-na-onu-vida-desde-concepcao-24893064

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/02/na-onu-brasil-faz-discurso-descolado-do-resto-do-mundo.shtml

 

 


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

A LIBERDADE NA DEMOCRACIA

 

Decidi postar em meu blog e não no FB texto escrito por Marcelo Guterman. Merece estar em um local em que possa ser mais facilmente visto  quando desejarmos. 


"Ontem escrevi sobre os jogos de poder envolvidos na prisão do deputado Daniel Silveira. Hoje, depois de pensar e organizar um pouco o tema na minha cabeça, vou escrever sobre o assunto em si: a questão da liberdade de expressão.
Começarei por um tema absolutamente estranho ao assunto que trataremos: o aborto. É interessante como, neste tema, os papéis se invertem: os conservadores, sempre tão ciosos em relação ao tema “liberdades individuais”, defendem um regramento do Estado para cercear a liberdade da mulher. E os progressistas, sempre prontos a estabelecer regras de comportamento, defendem com unhas e dentes a opção livre da mulher.
Vamos analisar a coisa do ponto de vista do conservadorismo, que é o que nos interessa neste momento. Por que, afinal, no caso do aborto, se quer proibir a mulher de fazer uma opção livre? Simples: porque, neste caso, há um terceiro envolvido, o feto. O debate sobre o aborto passa pela desagradável discussão sobre a natureza humana do feto. Os progressistas normalmente não querem saber sobre essa discussão. A liberdade da mulher vem antes.
Ernesto Araújo chegou a afirmar que preferiria ser pária entre as nações por defender a liberdade. No entanto, no caso do aborto, tenho certeza que o nosso chanceler defende uma “limitação” na liberdade da mulher. Porque, afinal, a minha liberdade termina onde começa a do outro. E, neste caso, há um outro envolvido.
Não existe liberdade absoluta. Não existe liberdade de expressão absoluta. Assim como no caso do aborto, é preciso analisar se o exercício daquela liberdade constitui um crime. Temos liberdade para fazer o bem, não para fazer o mal. Portanto, não há como escapar da análise da fala do deputado, por mais que essa análise seja espinhosa.
Os deputados, vez por outra, a depender do seu nível de educação, chamam uns aos outros de canalhas, bandidos, corruptos. Coisas que podem gerar, inclusive, processos por injúria. Por que, então, neste caso específico, o deputado foi preso, enquanto, nos outros casos, há todo um processo antes? Não vou entrar aqui na tecnicalidade do flagrante, se o delito é contínuo ou não, enfim, se há elementos para a prisão em flagrante. Não é minha praia. Vou me concentrar na fala em si.
Para essa análise, é interessante observar os trechos destacados por Alexandre de Moraes em sua ordem de prisão (...). Não foram destacadas injúrias como o tamanho do bilau do Fachin ou as preferências sexuais do Barroso. Há dois tipos de falas destacadas: 1) ameaças, veladas ou não, à integridade física dos magistrados e 2) ameaças, veladas ou não, à integridade do STF e do próprio Congresso.
A coisa foi, portanto, além da injúria pessoal. As falas do deputado, se transformadas em realidade, significariam o fim das atuais instituições democráticas e sua substituição por uma “ditadura do bem”. Alguém já disse que o melhor regime de governo é uma ditadura que concorde comigo. O segundo melhor, ou o menos pior, é essa democracia que temos, com todos os seus evidentes defeitos. E o terceiro pior é uma ditadura com a qual não concordamos.
Daniel Silveira, na prática, usa sua liberdade de expressão para defender um regime político que, uma vez instalado, a primeira coisa que faz é acabar com a liberdade de expressão. Trata-se de uma contradição em termos. O regime democrático, em qualquer país, restringirá esse tipo de discurso sem medo de ser feliz. Injúria e difamação não atentam contra o regime. Discursos pelo fechamento do STF e do Congresso, sim. Por isso, entenderam os magistrados que o deputado, no mínimo, merecia uma prisão preventiva (figura prevista em nosso código penal, diga-se de passagem) mesmo antes do julgamento.
Termino com uma pequena digressão. Há quem diga que palavras, por pior que sejam, não têm o poder de criar realidades. Talk is cheap, dizem os americanos. Não é verdade. Os grandes líderes, aqueles que moveram seus povos em uma determinada direção, o fizeram através de suas palavras. Não é à toa que são famosos os discursos de Lincoln, Churchill e Hitler. Uma revolução começa no mundo das ideias, e se torna realidade através das palavras.
“Se pomos um freio na boca do cavalo para que nos obedeça, conseguimos controlar o seu corpo todo. Reparai também nos navios: por maiores que sejam, e impelidos por ventos impetuosos, são, entretanto, conduzidos por um pequeníssimo leme, na direção que o timoneiro deseja. Assim também a língua, embora seja um membro pequeno, se gloria de grandes coisas. Comparai o tamanho da chama com o da floresta que ela incendeia! Ora, também a língua é um fogo! É o universo da malícia! Está entre os nossos membros contaminando o corpo todo e pondo em chamas a roda da vida, sendo ela mesma inflamada pelo inferno!” (Tiago 3, 2-6)"

Extraído do FB do autor em 18 de fevereiro de 2021

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

IDADE MÉDIA: DIÁLOGO DE PEPINO E ALCUÍNO

 

Quer entender a Idade Média? Não será a política ou a economia que nos darão a chave para entende-la. É preciso entender sua mentalidade. Mentalidade que tinha grande amor pelo simbolismo. 

Eis um exemplo disso no livro paradidático "A mentalidade medieval", escrito pelo prof. Evandro Faustino:


"Há uma lição da escola medieval que nos mostra bem como se procurava dar simbolismo a todas as coisas. Trata-se de um texto que transcreve o diálogo, sob forma de perguntas e respostas, entre um professor (Alcuíno, que foi um grande filósofo medieval) e seu aluno (Pepino, segundo filho de Carlos Magno). Esse texto mostra muito da visão do mundo daquela época (...) As perguntas são do aluno e as respostas, do professor. 


- O que é a escrita?

- É a guarda da história.

- O que é a palavra:

- O delator dos segredos da alma.

- O que é a vida?

- A alegria dos ditosos, aflição dos miseráveis, expectação da morte.

- O que é o homem?

- Servo da morte, caminhante passageiro, sempre um hóspede em qualquer lugar.

- O que é o sono?

- Imagem da morte. 

- O que é a liberdade do homem?

- A sua inocência.

- O que é a barba?

- Distinção do sexo, honra da idade.

- O que são os olhos?

- Os guias do corpo, recipientes de luz, indicadores da alma.

- O que é a fisionomia?

- A imagem da alma.

- O que são as mãos?

- Os operários do corpo.

- O que é o dia?

- Estímulo ao trabalho.

- O que é o sol?

- O esplendor da terra, a beleza do céu, a graça da natureza, a glória do dia, o distribuidor das horas.

- O que é a lua?

- O olho da noite, doadora do orvalho, aquela que anuncia as tempestades.

- O que são as estrelas?

- A pintura que adorna o céu, o piloto dos navegantes, o encanto da noite.

- O que é a neblina?

- A noite do dia, trabalho para os olhos.

- O que é a terra?

- A mãe de tudo que cresce, a que alimenta os viventes, o celeiro da vida, a devoradora de todos.

- O que é o mar?

- O caminho da coragem, a fronteira da terra, o hospedeiro dos rios.

- O que são os rios?

- Curso que não se acaba, refeição do sol, irrigação da terra.

- O que é a água?

- Sustentáculo da vida, limpeza das sujeiras.

- O que é a neve? 

- Água seca. 

- O que são os legumes?

- Os amigos dos médicos, o louvor dos cozinheiros.

- O que é que faz o doce amargo? 

- A fome. 

- O que é o sonho dos acordados?

- A esperança.

- O que é a amizade?

- A igualdade das almas.


Fonte: Faustino: Evandro. A mentalidade medieval: interpretando a "Canção de Rolando". São Paulo, Moderna, 2001 - 1ª edição, (Coleção Desafio), p. 77-78.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

IGUALDADE. UM GRITO NA HISTÓRIA

 

Pedro Demo



"A igualdade é um grito enorme na história. Em seu nome fizeram-se revoluções e as promessas mais radicais. E traduz-se sobretudo na igualdade de direitos. Este sentimento é vivo e penetrante (...).

A história perde-se entre os extremos da excitação da desigualdade e igualdade.(...)

A igualdade é também uma utopia, no que ela tem de proposta irrealizável na sociedade. É uma das mais amarrotadas da história, que aparece certamente como comprovação empírica de uma traição teimosa e sorrateira. Tantas vezes foi prometida, quantas foi solapada. É o reverso da desigualdade, filha esta do poder. Porquanto não pode haver poder, onde não haja quem mande e quem obedeça. A disparidade é componente inevitável"


Pedro Demo, Sociologia, uma introdução crítica, Atlas, São Paulo, 1995, p. 153. 


domingo, 22 de novembro de 2020

ESTRATÉGIA MARXISTA, VIOLÊNCIA E O PAPA

 


Valter de Oliveira

 

Marxistas procuram tomar o poder de dois modos: pacificamente, pela democracia, e pela Revolução.

Não é opinião minha. É o que encontramos nos textos marxistas e até em programas de certos partidos políticos socialistas ou comunistas.

Outro ponto fundamental do marxismo é a defesa da luta de classes. Relembro o texto:

"(...) A história de todas as sociedades passadas é a história da luta de classes.


 O homem livre ou escravo, patrício ou plebeu, barão ou servo, numa palavra, opressores e oprimidos, estiveram sempre em luta uns contra os outros, sem quartel, por vezes dissimulada, por vezes aberta, e que terminou sempre por uma transformação revolucionária da sociedade, ou pela destruição simultânea das classes em luta.

Mas nossa época, a época da burguesia, tem de peculiar o fato de que simplificou a oposição de classe. Cada vez mais, a sociedade se divide em dois grandes campos inimigos, em duas grandes classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado".  (K.MARX, F. ENGELS – Manifesto Comunista)

Com o tempo, o desenvolvimento do capitalismo e a melhora das condições sociais e de trabalho tornou cada vez mais difícil para os marxistas transformar os trabalhadores em revolucionários.

Criaram uma nova tática: criar e ou exacerbar problemas e conflitos em proveito da própria causa. Inclusive partindo para a luta armada.

Querem exemplos? Vamos lá.

Um dos mais importantes foi a questão da raça. Levando em conta injustiças reais gravíssimas como o odioso apartheid,  souberam se aproveitar e se apropriar da causa dos negros por direitos civis e sociais. Nos EUA, principalmente, souberam usar da influência de Martim Luther King bem como dos movimentos negros radicais, em proveito de seus objetivos maiores.

Em nações em que não era possível ganhar com a causa da raça criaram polaridades de origem nacional. No Canadá procuraram ganhar terreno apoiando Quebec contra Toronto.

Na Irlanda foram hábeis em apoiar os católicos injustiçados há séculos pela política inglesa. 

Muito católico ingênuo caiu no conto do vigário e partiu para a luta armada. Surgiu o IRA. Exército Republicano Irlandês. Terrorismo que abalou a comunidade britânica por bom tempo.

21/11/1920 - Há 100 anos ocorria o Domingo Sangrento na Irlanda

Aqui entra o Papa João Paulo II. O que fez ele? Apoiou o terrorismo “católico”?

Nem de longe. Quem inventou a história que o oprimido tem direito à violência foram os marxistas.  Também tese de Malcom X. Nos meios católicos D. Helder foi quem justificou tal barbárie.

O Papa enfrentou o problema de frente. Inaceitável a violência criminosa em nome de reais injustiças do passado.

Não esqueçamos das novas fontes de discórdias: feminismo desbragado, que odeia homens, casamento e até crianças; a causa e o lobby LGBT; e, finalmente, a ideologia de gênero.

Os vários tipos de marxismo atribuem todos os problemas existentes como fruto da visão cristã no mundo. A consequência tem sido a intolerância religiosa, a destruição de igrejas e símbolos religiosos, e, em alguns países, até mesmo a morte de fiéis cristãos.

Hoje os líderes revolucionários não mudaram sua doutrina. Eles só a disfarçam. Exploram todo tipo de injustiça – ou que afirmem ser injustiça – para avançar com seus ideais.

Precisamos estudar melhor os que pregam o caos. Que vendem ilusões e esperanças. Que sempre prometeram o Paraíso e criaram verdadeiros infernos. 

Até quando seremos ingênuos?

domingo, 15 de novembro de 2020

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA 16. DIREITO DE PROPRIEDADE E PADRES DA IGREJA

 


Valter de Oliveira

 



A partir de 1965 costumava comungar à noite na igreja de Nossa Senhora do Carmo, no centro de Itaquera. O pároco, padre João, era espanhol. Cuidava da paróquia e também dava aulas de religião para o ensino médio no colégio Emília de Paiva Meira. Era progressista, mas tinha bom conteúdo, o que atraía minha atenção. Por isso mesmo ia ouvir suas preleções antes da missa.

Certo dia ele decidiu explicar o ensinamento dos Padres da Igreja sobre as riquezas e o direito de propriedade. Novidade para mim. No final ele concluiu que, conforme Santo Ambrósio, enquanto houver uma pessoa passando fome na terra, não há direito de propriedade... (1)

Fiquei perplexo. Comentei com um amigo. Concordamos que, se fosse realmente assim, ninguém hoje teria direito à propriedade, dado que há uma infinidade de gente passando fome. Não fazia nenhum sentido (2).

A perplexidade tinha uma explicação. Eu havia começado a ler encíclicas sociais no final de 1964 e já tinha lido a Rerum Novarum.  Sabia que Leão XIII condenara os males da Revolução industrial que provocaram a questão social operária, os erros iluministas e liberais e clamava para que fosse feita justiça aos trabalhadores. Contudo, ao mesmo tempo, ele havia afirmado que era falsa a suposta solução proposta pelo socialismo. Este, afirmou o Papa, só deixaria os trabalhadores ainda mais miseráveis.

De qualquer modo não esqueci da afirmação do padre João sobre os Padres da Igreja.

Algum tempo depois vim a ter um contato indireto com textos patrísticos ao começar a ler livros sobre a doutrina social da Igreja. Não era muito diferente do que ouvira naquela noite em Itaquera. Com efeito, muitas das afirmações que fazem podem causar estranheza e exprimem ideias que precisam ser entendidas e contextualizadas. Seguem alguns exemplos.

Textos de Padres da Igreja


Comecemos citando S. Basílio, que Pierre Bigo considera o mais “economista” dos padres gregos.

“O que despoja um homem das suas vestes terá nome de ladrão. E o que não veste a nudez do mendigo, quando pode fazê-lo, merecerá um outro nome? Ao faminto pertence o pão que tu guardas. Ao homem nu, o manto que fica nos baús. Ao descalço, o sapato que apodrece na tua casa. Ao miserável, o dinheiro que tu guardas enfurnado (3).



Agora um texto de S. Ambrósio:

“Não deveis dizer: “Eu gasto o que é meu, eu gozo daquilo que é meu”. Não: não daquilo que é vosso, mas daquilo que é de outro. Esses bens não vos pertencem: pertencem em comum a vós e a vossos semelhantes, como são comuns o céu e a terra e tudo o mais. (4).

Em princípio, não há como não reconhecer que os textos assustam. Basta imaginar o que diriam deles se tivessem sido pronunciados pelo Papa...

De qualquer modo julgo importante vermos, mais do que a letra, o espírito que os Padres procuravam incutir em seus fiéis.

Outro texto interessante é de S.Basílio que faz uma comparação baseada em Cícero, a do egoísta no teatro:

“Tu és semelhante ao homem que, reservando uma vaga no teatro, queria impedir os outros de entrar e desejaria gozar só de um espetáculo, ao qual todos têm direito. Assim são os ricos: dos bens comuns que abarcaram, eles se decretam donos por terem sido seus primeiros ocupantes”. (5)

Mas, voltemos à questão. Como conciliar tais posicionamentos com o direito particular de propriedade? Os autores que pesquisamos concordam que tais leituras precisam ser feitas corretamente.

Pierre Bigo aborda outro ponto que vai dar um matiz à questão:

 Mas existe também o direito de posse. Sobre esse ponto os Padres são também unânimes. Os ricos podem salvar-se. Ao redor do ano 200, Clemente de Alexandria o afirmou numa célebre homilia (6) (na qual explica como o rico pode ser salvo) e a lição será muitas vezes retomada. Mas ele busca a salvação do rico na linha que será de todos os Padres: o desapego do coração e a renúncia real aos bens que ultrapassem as necessidades pessoais”

Camacho também aprofunda a questão quando discute a questão dos bens materiais

“Os Padres (...) não consideram os bens materiais maus em si. (...) Tomemos como paradigma a sugestiva argumentação de S. Basílio. Para ele, os bens são naturalmente bons, primeiro porque foram criados por Deus e, segundo, porque “o mandamento de Deus não nos ensina que devemos rechaçar os bens e fugir deles como se fossem males, mas que os administremos”. Portanto “aquele que se condena, não se condena absolutamente porque possuía bens, mas porque avaliou erradamente o que tinha e não o usou bem” (7).

Camacho vai sintetizar a questão relacionando a visão dos Padres com o problema de nossa natureza decaída:

“A doutrina dos Padres da Igreja, com relação à propriedade, pode ser resumida nos seguintes termos: a intenção primeira de Deus era a destinação de tudo a todos. O que era de direito natural era a apropriação social. A apropriação pessoal, na mente dos mesmos Padres, era uma derrogação da lei primitiva, derrogação exigida pelo pecado.

Deus destina os bens da terra à fruição de todos os seus filhos. Mas essa fruição pacífica tornava-se impossível pelo pecado, que desperta no homem os instintos egoístas. A apropriação coletiva dos bens pelo homem inocente transformava-se numa causa de tensões intoleráveis entre os homens marcados pelo pecado, ameaçando a própria sobrevivência da espécie que emergia para a grande aventura humana  (8)

Os Padres escreveram quando ainda vigia o Império Romano baseado, entre outras coisas, na escravidão. Naturalmente não tinham uma série de conhecimentos de economia que temos hoje. Contudo, não temos dúvida em afirmar, que suas preocupações sociais, mais a evangelização dos bárbaros, e o papel desempenhado pela Igreja na derrocada do Império Romano, contribuíram para que fosse sendo mudado e humanizado o direito e o uso da propriedade. Se na Antiguidade havia uma enorme população de escravos, depois, na Idade Média, eles gradualmente tornaram-se servos da gleba e tinham determinados direitos reconhecidos. E depois do ano 1000 aumentou consideravelmente o número de homens livres e proprietários.

De qualquer modo os manuais de doutrina social da Igreja afirmam que será S. Tomás quem conseguirá harmonizar os pontos aparentemente divergentes do ensinamento dos Padres.

 

Notas:

1.    Chamamos de «Padres da Igreja» (Patrística) aqueles grandes homens da Igreja, aproximadamente do século II ao século VII, que foram no Oriente e no Ocidente como que «Pais» da Igreja, no sentido de que foram eles que firmaram os conceitos da nossa fé, enfrentaram muitas heresias e, de certa forma foram responsáveis pelo que chamamos hoje de Tradição da Igreja; sem dúvida, são a sua fonte mais rica. (https://cleofas.com.br/os-santos-padres-da-igreja )

2.      Em nossos dias, quando se fala em direito de propriedade rejeitado pelo socialismo e pelo comunismo não estamos nos referindo a bens de uso, bens pessoais, que não são negados por praticamente ninguém, mas a que ficou conhecida como propriedade privada dos bens de produção. Por exemplo uma indústria, uma rede de comércio, o agronegócio, a padaria da esquina. Tivemos países socialistas que não aboliram pequenas e médias propriedades. Razão tática, não de princípios.

3.      Homilia6. Contra a riqueza. 7. “Ricos e pobres”,pág. 76.pág 31, 277. In Pierre Bigo: a doutrina social da Igreja, São Paulo, Loyola, 1969, p. 41, 42,

4.      Homilia 10, PG 61, 86 in Pierre Bigo..op.cit.,p. 42.

5.      Hom. 6.6. in Pierre Bigo, op. cit, p. 42.

6.      ( Homilia “Que rico pode ser salvo” ver Bigo op.cit.,p. 44,45) – a frase entre parênteses e em negrito é do site para dar maior clareza.

7.      ). (13, S. Basílio, regras breves, in Práxis Cristã, Opção pela justiça e liberdade, São Paulo, Paulinas, 1988, p. 55).

8.      Pierre Bigo e Fernando Bastos. Fé Cristá e Compromisso Social, 2ª edição, São Paulo, Paulinas,1993, p. 172.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

QUÍMICA, GEOMETRIA, BIOLOGIA SUCUMBEM DIANTE DA PEDAGOGIA REVOLUCIONÁRIA

Eduardo Affonso


“(...) Renovando nosso compromisso com a promoção (e a pramocinha) do respeito (e do resseio) e da diversidade (e diversivila, diversialdeia, diversipovoado, diversiarraial), informamos também que, doravante, serão adotados os seguintes princípios pedagógicos:

1. Química: A fim de combater a desigualdade, todos os elementos da tabela periódica terão o mesmo número atômico, com redistribuição equitativa de elétrons,
Reparando uma injustiça histórica, as moléculas terão o mesmo número de cada elemento. Assim, a composição da água passa a ser H 1,5 0 1,5.
Em substâncias com mais de cinco elementos, 10% serão destinados a átomos pertencentes a minorias, como o astênio, o rênio, o lutécio, o túlio e o tântalo.

2. Biologia: Na luta pelos direitos iguais para todos os gêneros, deixaremos de utilizar o conceito sexista de cromossomos XX e XY, Todos os seres, inclusive os não binários, terão cromossomos KK. As pessoas que não se identificam com nenhum dos gêneros (agêneras) poderão optar por não ter cromossomos (neste caso, favor comunicar o fato à Secretaria, em formulário disponível no saite da escola).

3. Geometria: No enfrentamento dos privilégios, será estendido aos triângulos equilátero e escaleno o direito a ter catetos e hipotenusa, hoje exclusivos do triângulo retângulo.
A soma do quadrado de quaisquer desses elementos será igual ao quadrado do elemento faltante, tirando a hipotenusa do isolamento a que esteve condenada por séculos.
Nossos canais de comunicação encontram-se abertos do diálogo, ao triálogo e ao poliágolo para a elucidação de dúvidas. (Pedimos nossas sinceras desculpas aos e às que se sentiram ofendides com o uso do substantivo racista “esclarecimento” no corpo da mensagem anterior. O responsável já foi democraticamente cancelado e sumariamente demitido do nosso quadro técnico.)

Para celebrar este movimento rumo à inclusão, convidamos todes es alunes para a aula magna de História, que tratará da vitória de Montezuma sobre Cortez, impedindo a colonização do México.
Devido à segunda onda da pandemia, fica cancelada a visita a Ouro Afrodescendente para conhecer a cama onde Tiradentes morreu.
Atenciosamente,
Direção Pedagógica”

Nota: o texto foi extraído do FB. 12-11-2020 compartilhado da página de Cláudio Márcio Ferreira.