quarta-feira, 22 de abril de 2020

O DIA EM QUE O VENDEDOR DE LIVROS FEZ A FESTA


Quarta-feira, 22 de abril de 2020


Valter de Oliveira 


Quando foi? Provavelmente em alguma tarde de outubro ou novembro de 1964. Devia estar jogando bola em frente à venda do sr. Macário, em Itaquera. Não estava. Por esses mistérios da vida estava em casa. A campainha tocou. Era um vendedor de livros...

Convidei-o a entrar. Ficamos no escritório de meu pai, no térreo, ao lado da garagem. Lembremos que eu ainda era um teenager...Passatempo: futebol e música. Bem verdade que eu lia. Desde criança.

Acontece que o vendedor não me oferecia um livro, nem mesmo a Barsa que alguns compravam naqueles tempos e a deixavam descansando na estante. O homem apresentava-me coleções... Imaginem a dificuldade de se vender isso na periferia. Ele devia ter muita fé...

Aí aconteceu outro imprevisto. Meu pai, que geralmente chegava após às 19h apareceu. Cumprimentou-nos e perguntou: -"O que ele quer?" Respondi: - "Está oferecendo alguns livros".  Ele continuou: - "Interessa algum?". -"Todos!". -"Então compre todos!",disse ele.

Foi assim que o vendedor de fé me vendeu 6 coleções:

1.  Descoberta do mundo. Ciência, arqueologia, história, etc,etc. -12 volumes.
2. Antologia da literatura mundial. 12 volumes.
3. Os Forjadores do Mundo Moderno. Heróis latino americanos, filósofos, cientistas, políticos, etc. 6 volumes.
4. Antologia de vidas célebres. Só grandes figuras da antiguidade. 6 volumes.
5. Fábulas de La Fontaine. 3 volumes. 
6. Dicionário Ilustrado da Língua Portuguesa.. 2 volumes. 

Feliz da vida o vendedor anotou a encomenda e foi embora. 

Algum tempo depois, recebi os livros. Uns, no dia 19 de dezembro. Outros, no dia 24. Total 41.

Foi um feliz natal. Como era de praxe ganhei também uma bola de capotão. 

E por que conto isso?

Tudo a ver com o coronavírus. 

Daqui a pouco conto. Aguardem.


domingo, 19 de abril de 2020

CORONAVÍRUS E COEFICIENTE DE SEGURANÇA



Marcelo Guterman


O Brasil atingiu ontem 6,4% de mortalidade pelo coronavírus. Ou seja, de cada 100 casos notificados, 6,4 foram a óbito.
A crítica a este número, muito acertada diga-se de passagem, é que há uma enorme subnotificação da população infectada. Então, a base de cálculo está subdimensionada, o que levaria a uma taxa real de letalidade muito menor. Tão baixa, inclusive, que não justificaria toda essa histeria em torno do assunto. Não passaria de uma H1N1 um pouco mais forte (como sabemos, o índice de letalidade da H1N1 está por volta de 0,1%).
Bem, se o problema é subnotificação, vamos pegar alguns exemplos de países que têm uma notificação exemplar. O caso extremo é a Islândia. Esse pequeno país do Ártico já testou nada menos que 12% de sua população. Só para dar uma ideia do que isso significa, a Coreia, sempre citada como um exemplo de testagem em massa, testou 1% de sua população, enquanto o Brasil testou irrelevantes 0,03%. Pois bem: o índice de letalidade da Islândia é de 0,5%. Portanto, ainda cinco vezes maior que a H1N1.
Outro exemplo é Luxemburgo, um pequeno enclave entre Bélgica, Alemanha e França. Luxemburgo testou 5% da população, o quíntuplo da Coreia. Seu índice de letalidade é de 2,0%, muito semelhante ao da Coreia.
Será então que, uma vez testada toda a população, todos os países convergirão para o índice de letalidade da Islândia (0,5%)? A resposta é não.
O vírus não é um algoritmo que “escolhe” matar 0,5% de quem infecta. O índice de letalidade depende também da resposta dada à doença. Fatores como isolamento social, clima, vacinação anterior, podem influenciar o número de pessoas infectadas. Mas, uma vez infectada, as únicas variáveis que contarão para o óbito do infectado são a agressividade do vírus, a idade/comorbidade do contaminado e a resposta hospitalar. A agressividade do vírus deve ser a mesma no mundo inteiro, a não ser que haja mutações. A idade/comorbidade varia de país para país, mas é facilmente corrigida usando-se as pirâmides etárias de cada país. É na terceira variável que a coisa pega: como comparar o potencial de resposta hospitalar de cada país?
A forma mais simples é comparar leitos de UTI per capita. Quanto maior este coeficiente, melhor será a resposta hospitalar e menor será a letalidade. Mas existe uma outra variável muito mais importante, e de difícil mensuração: o grau de isolamento social. Vejamos um exemplo.
Digamos que dois países tenham 100 leitos de UTI/respiradores para cada milhão de habitantes. Digamos também que, se uma pessoa vai para a UTI, ela tem 75% de chance de se salvar. Por outro lado, uma pessoa que precise ir para a UTI mas não consegue vaga, vai a óbito em 100% dos casos.
Agora, suponhamos que os dois países tenham adotado alguma forma de isolamento social. O isolamento social do primeiro fez com que houvesse 100 pessoas precisando de UTI ao mesmo tempo. Tem vaga pra todo mundo, e 25 morrem. No segundo país, o isolamento social foi um pouco mais fraco, e 110 pessoas precisaram de UTI ao mesmo tempo. Dessas 110, 100 foram tratadas e 25 morreram. E das 10 que não foram tratadas, todas morreram, totalizando 35 mortes. Ou seja: um isolamento social apenas 10% mais fraco levou a um índice de letalidade 40% maior! Em outras palavras, comparar graus de letalidade entre países sem conhecer de perto suas práticas de isolamento social não passa de um tiro no escuro.
Sabemos muito pouco sobre essa doença. Calibrar então o grau de isolamento social necessário para não forçar o sistema hospitalar é mais do que uma arte, é puro chute. Lembro de minhas aulas de resistência dos materiais, em que aprendíamos cálculos complicadíssimos para projetar uma ponte. Depois de muita ciência, colocava-se um tal de “coeficiente de segurança”. Esse coeficiente de segurança é proporcional ao grau de ignorância sobre fatores não antecipados pelos cálculos. Quanto maior a ignorância, maior o coeficiente de segurança. Esse coeficiente de segurança, obviamente, custa dinheiro: significa mais material gasto na construção da ponte. Mas vidas estão envolvidas, então algum coeficiente de segurança é necessário.
No caso do coronavírus, o grau de ignorância é gigantesco. E qualquer erro pode levar à multiplicação do grau de letalidade em várias vezes, como vimos acima. Por isso, entende-se o “coeficiente de segurança” usado pelos gestores públicos no mundo inteiro na adoção do isolamento social.

terça-feira, 14 de abril de 2020

DSI 5. LIBERALISMO RELIGIOSO E POLÍTICO



O LIBERALISMO RELIGIOSO


Ao tratar do tema D. Estevão Bettencourt vai buscar sua origem na Reforma Protestante. Claro que, na época, não se usava a expressão "liberalismo religioso". Na verdade, seu objetivo é mostrar a origem da questão da liberdade religiosa tal como seria entendida, mais tarde, pelos liberais. Eis suas palavras: 

"Lutero proclamou o livre exame da Biblia, ou seja, a recusa de qualquer autoridade visível que orientasse a leitura das Escrituras Sagradas; cada crente deveria perceber dentro de si, pelo testemunho meramente interno do Espírito Santo,o sentido da palavra de Deus. Com isto Lutero deu início a uma nova mentalidade dentro do setor religioso - mentalidade individualista e subjetivista. Eis, porém, que quando a fé no testemunho interno se acentuou (como no protestantismo do século XVIII), cada indivíduo ficou com a liberdade de julgar os valores da Religião sem controle superior à sua própria razão; daí dizer-se que tanto faz abraçar esta ou aquela religião ou mesmo recusar qualquer religião. Em última análise, todas as religiões seriam boas; dir-se-ia que é o homem quem as faz, quem as julga, quem as condena, em vez de ser condenado pela religião".

"Tais ideias repercutiram em certas correntes bíblicas dos sécs. XVIII e XIX, favorecendo exageros nas críticas dos livres sagrados. Em consequência, notáveis autores dedicados ao estudo das Escrituras chegaram a negar a divindade de Cristo". (...)

"Pio IX, no Sílabo, condenou a proposição nº 4, conforme a qual a razão seria a soberana norma para se julgar qualquer tipo de verdade" (1)

(...)

O LIBERALISMO POLÍTICO

E sua ligação com o iluminismo

Tal liberalismo é decorrência dos princípios liberais em filosofia e religião. Na verdade o grande ideal da liberdade passou a ser entendido de modo diverso do que a Igreja sempre ensinara. No campo das leis, por exemplo, ela ensinava que o homem deve obediência à Lei Eterna, à Lei Natural, à lei Divino-positiva (ex: os mandamentos). Mais ainda, o Estado também seria obrigado a seguir todas essas leis. Isso, em grau maior ou menor, será negado pelo liberalismo iluminista que considerava que muito do que a Igreja ensinava era obscurantista. É o  que vemos na seguinte citação:


" ...A vida e os costumes, a sociedade, a economia e a política dependem de "leis naturais"  (1) que a razão humana pode e deve descobrir eliminando os obstáculos dos "preconceitos" acumulados por séculos de ignorância. Se se aplica essas leis, a humanidade verá, enfim, se abrir diante dela uma era de felicidade.  O filósofo (iluminista) é o sábio que procura essas leis e pensa abrir assim o caminho para o futuro".

"Para  o filósofo, o cristianismo é contra a natureza porque ele louva o sacrifício e a submissão; ele ofende a razão pela fé nos mistérios; ele é um obstáculo à felicidade terrestre. Certamente, numerosos filósofos ainda creem em Deus, mas é um Deus longínquo, inacessível, um "grande arquiteto do universo" que não intervém em sua marcha; a oração é para eles ridícula, inútil e absurda. De todos os "preconceitos", o "preconceito" religioso é o mais assustador"  (2)

Em suma, o liberalismo, assim entendido, entrou em choque com a Igreja. Principalmente o de orígem francesa, fortemente anticlerical, que vai ser exacerbado durante a Revolução Francesa.(3) Depois, no século XIX, ele continua sua forte luta contra a Igreja. Esta reage com várias condenações ao liberalismo tanto no campo estritamente filosófico quanto no político e religioso. 

Apesar disso tudo, mesmo nos meios católicos, houve quem defendesse que era possível um liberalismo católico. Um dos mais famosos foi o pensador francês Lamennais. Na época, suas ideias foram condenadas. (4)

E hoje? Não teria havido uma mudança tanto dos liberais quando da Igreja?

É o que veremos depois de explicarmos a posição católica diante do capitalismo.
Notas: 

1. BETTENCOURT, Estevão. Curso de Doutrina Social da Igreja, p. 144.

2. BRELINGARD et alii. Histoire, le monde de1715 a 1870. Paris, Hachette, 1966, p. 26.

3. Como dissemos no começo do primeiro artigo o liberalismo sofreu muitas transformações em seu processo histórico. Liberais, como Antonio Paim, discutem muito bem suas várias faces. Ele critica o liberalismo francês rousseauniano que estaria ligado à fase jacobina da Revolução Francesa. Liberalismo que tinha em suas raízes o totalitarismo. Também faz uma distinção entre liberalismo inglês e democratismo francês.  

4. Lamennais, em política, advogava a separação do Estado da Igreja, a liberdade de consciência, educação e imprensa. O Papa Gregório XVI desautorizou as opiniões de Lamennais na Encíclica Mirari vos, em agosto de 1831. A partir de então, Lamennais passa a atacar o Papado e as monarquias. Foi finalmente condenado na Encíclica papal Singulari vos, em julho de 1834. Foi excluído da Igreja. Na hora de sua morte se recusou a aceitar a reconciliação. 



quarta-feira, 8 de abril de 2020

DSI 4. A IGREJA E O LIBERALISMO



O QUE É O LIBERALISMO?

Introdução



Penso que tive minhas primeiras noções sobre o liberalismo ao estudar história no antigo Ginásio, em 64.  No ano anterior, em sua primeira aula na minha turma, o professor, um homem de uns 30 anos, entrou na sala como um furacão, jogou livros e diários na mesa, e exclamou: -"A primeira coisa que eu quero dizer a vocês é que tudo o que aprenderam até aqui está errado!" Não me contive e disse baixinho para meu amigo Sérgio, no meu lado direito: - "Pronto, mais um louco na escola"... Não era. A frase que disse é que foi um "pouquinho" exagerada...

E lá ficou ele comentando os erros que muitos ensinavam - e continuam ensinando - sobre a Idade Média. Gostei. Nem por isso deixei de contestá-lo, em alguns pontos, por uns seis meses...

Foi com ele, mais tarde que aprendi o que era o liberalismo. Também tive aulas sobre encíclicas sociais, arte, política, religião.  Em horário extra. Para os interessados. 

Mas isso é uma outra história. Voltemos ao liberalismo. Aqui conto algo do que tive na  Universidade. Foi na minha primeira pós-graduação no Mackenzie, no curso de Estudos de Problemas Brasileiros. Foi aí que vim a ter aulas sobre o liberalismo em alto nível. Cito três professores: Antonio Paim, Ubiratan de Macedo - na área de filosofia política  - e  Ubiratan Jorge Iório, na área econômica. 

Paim chamou minha atenção por afirmar que tinha sido marxista. Estava em Moscou contou ele, estudando filosofia, quando Kruchev denunciou os bárbaros crimes de Stalin.  Ficou chocado. Começou a rever suas ideias. Resultado: passou a ser um grande liberal. Até hoje, sua erudição e seu nobre modo de ser atraem liberais de várias correntes. Ele dizia em alto e bom som: - "A esquerda não tem argumentos para nos vencer!" E não tem mesmo! (1)

O professor Ubiratan de Macedo deu uma bela palestra. Eu, com os meus botões pensava: -Interessante mas... em alguns pontos aquilo se chocava com o que aprendera sobre a filosofia liberal. Procurei-o no final da aula e perguntei: - "Na sua opinião, qual a possibilidade de conciliarmos liberalismo com os ensinamentos da Igreja? A resposta foi taxativa: - "Nenhuma"! (2)

Ubiratan Jorge Iório foi outra surpresa. Conseguiu duas proezas: falar de modo absolutamente agradável de economia e fazer com que, de lá pra cá, me interessasse pelo assunto. E vem o mais importante: ficamos amigos. Pena que ele more no Rio e eu em São Paulo. 

Outra coisa curiosa: um dia, durante o curso, convidei-o para almoçar em minha casa. Lembro-me claramente de duas frases dele: -"Puxa,você é o primeiro professor de história que conheço que não é marxista". A outra surgiu quando comentei pontos da doutrina social da Igreja: - "Não entendo porque a Igreja critica o liberalismo". 

Este e outros pontos é o que vamos começar a ver. 


O conceito de liberalismo


Conforme o prof. Ubiratan Jorge Iório, ardoroso defensor da Escola Austríaca de Economia Liberal, "o liberalismo é um fenômeno histórico complexo e difícil de definir. Reflete a diversidade histórica, da mais antiga à mais recente e moldou o Ocidente moderno. Nasceu como um protesto contra os abusos do poder estatal, exigindo limitação e divisão da autoridade. (3)

Vejamos, agora, o que diz D. Estevão Bettencourt O.S.B. em seu Curso de Doutrina Social da Igreja.

"O liberalismo (é) uma corrente de pensamento que afirma o valor da liberdade humana de modo tal que a cada cidadão toca o direito de conceber a Verdade, o Bem e a Religião segundo o seu próprio alvitre, independentemente de qualquer tutela ou autoridade. (p.139)

Mais à frente ele diz: 

(...) "O liberalismo constitui uma tendência ou uma atmosfera muito mais do que um sistema ou uma escola de pensamento.

"Essa tendência se distingue primariamente pela intenção de desligar a liberdade humana de qualquer lei ou autoridade que não seja puramente humana ou até... que não seja do próprio sujeito. Atribui pois,à razão a capacidade de discutir todos os valores, remover o que ela julgar inaceitável e erguer o que ela considerar oportuno. Em particular o Liberalismo não reconhece autoridade religiosa sobrenatural, como afirma o catolicismo: ... autoridade que mereça acato e respeito independentemente dos valores humanos (virtude e sabedoria) de seus representantes".

"Aliás, continua, esta premissa é essencial para que possa existir Liberalismo: tudo é humano e meramente humano. Por isto, tudo é relativo, tudo é imperfeito. Nada, por conseguinte, nem mesmo a religião, merece adesão incondicional do homem. Daí se compreende que o Liberalismo acarrete o indiferentismo , ora mais, ora menos acentuado: implantando-se numa sociedade, cedo ou tarde solapa as energias coletivas e o heroísmo das atitudes(op.cit. p. 143). 

Facetas da mentalidade liberal aplicada às "expressões da cultura"

Continua D. Estevão:

1. Liberalismo filosófico e racionalismo

"É a tendência a rejeitar no campo filosófico (ou no modo de encarar o mundo e a vida) qualquer tutela que não seja a própria razão humana".

Tal tendência passou a crescer, diz ele, a partir de Descartes (+ 1650). "A razão humana, em consequência, negou qualquer limite no exercício da reflexão,  pretendendo julgar tudo, até mesmo as verdades religiosas. A possibilidade de dogmas de origem sobrenatural, não derivados da razão, foi, de antemão, negada: (4) o homem bastaria a si mesmo (auto-suficiência do pensamento humano).  As correntes filosóficas contemporâneas não cristãs, por mais contrárias que sejam entre si, supõem todas tal ponto de partida: assim o criticismo, o idealismo, o positivismo, etc. 

"Bons críticos modernos observam que nessa posição filosófica está latente uma certa contradição: o Liberalismo, que rejeita o dogma, de antemão admite um dogma - o dogma de que não pode haver autoridade ou tutela que transcenda a razão humana. Sem provas e gratuitamente, o pensador liberal se vincula a este pressuposto, cerceando sua liberdade dentro do seu imanentismo ou da sua auto-suficiência"(p. 143).

Por hoje paramos por aqui. Falta-nos abordar o liberalismo religioso, o político, o econômico e o artístico.  Vamos ver também como a Igreja foi se postando diante do desenvolvimento histórico do pensamento liberal.  Até mais. 

Notas:

1. As aulas foram em 88 ou 89. Ainda havia a Europa comunista. O muro de Berlim caiu em 89 e a URSS desintegrou-se em dezembro de 91. O que não é natural não tem como subsistir. Alguns pensaram, e disseram, que era o fim do comunismo. A realidade é mais complexa. 

2. Ubiratan Iório afirma o oposto! Cito fonte no próximo post. 

3. Veja aqui a íntegra do artigo. Nele é explicado os vários tipos de liberalismo, de suas orígens aos dias de hoje.  https://www.ubirataniorio.org/index.php/artigo-do-mes/392-fev-2020-liberalismo-a-la-carte-ou-o-meu-liberalismo-e-maior-do-que-o-seu-mane

4. Destaque do blog olivereduc.blogspot.com








segunda-feira, 30 de março de 2020

DSI. ESTADO. AUTORIDADE SOCIAL




QUESTÕES SOBRE ESTADO, SOCIEDADE, AUTORIDADE


Começo lembrando um ponto: meu objetivo aqui não é entrar em profundas discussões jurídicas, filosóficas ou sociológicas. É apenas explicar sucintamente pontos da doutrina social da Igreja (DSI) que são pouco conhecidos.

Comecemos pelo conceito de Estado.


O Estado é a sociedade civil juridicamente organizada. O Estado moderno tem três elementos necessários: Território, povo organizado, soberania.

Na verdade, essa explicação, corresponde ao Estado Moderno, surgido no final da Idade Média e consolidado na Idade Contemporânea. 

É bem diferente do que tivemos, em certos lugares, na Antiguidade. Na Grécia chegava a confundir-se com as cidades (Esparta, Atenas). Outras vezes o Estado era um império, o Império Romano. 

Podemos usar a palavra Estado em outra acepção: Govêrno. Ou seja, o organismo social encarregado de dirigir a sociedade civil. 

Ponto importante: A sociedade é anterior ao Estado

Em famoso livro "A sociedade antiga, de Fustel de Coulanges, é dito que na Grécia o desenvolvimento das cidades se deu através de etapas. Em primeiro lugar, bem no início de uma colonização, houve uma família, ou conjunto de famílias. Estas, com os tempos se transformaram em fratrias; depois em tribos e, finalmente, na cidade. 

Na mesma linha a DSI ensina que Deus criou o homem com a natureza ordenada para a vida em sociedade. O homem é um ser racional e também social e político. Assim se considera que Deus é criador nosso e da sociedade. Ele quis que fosse assim. Também dizemos que a família é uma sociedade, uma instituição natural, .Assim a sociedade, ou seja, comunidade de famílias que se organizaram tendo em vista um bem comum, surgiu,neste sentido, por vontade de Deus.  


A ORIGEM DA SOCIEDADE

Nos livros de Ciências Humanas que tratam deste tema encontramos, basicamente, três teorias sobre a origem da sociedade.

1. A sociedade resulta da livre resolução dos homens, de um contrato social. 

2. A sociedade é fruto de uma força superior ao homem - a evolução - e se impõe ao homem necessariamente. Não há como escapar desse processo. 

3. A sociedade humana provém de Deus que formou o homem para viver em sociedade. Contudo, não sem prescindir da vontade humana. Fomos criados livres. É com liberdade que devemos cooperar com Deus e nossos semelhantes. 

A DSI, logicamente, considera que as teorias 1 e 2 são falsas.


CONSEQUÊNCIAS QUE DECORREM DAS TEORIAS FALSAS

A primeira corrente- a do contrato social de Hobbes ou Rousseau - é considerada errada porque considera que a sociedade, a autoridade, as leis sociais, as instituições, tudo dependem e continuam a depender, exclusivamente da vontade dos homens. Exemplo disso podemos ver na Declaração dos Direitos Humanos e dos Cidadãos, da Revolução Francesa que diz: "A lei é a expressão da vontade geral". Meus alunos, em geral, entendiam que isso queria dizer que a lei é o que a maioria decide; e concordavam.... Ora, o verdadeiro conceito de lei, como vemos em S. Tomás de Aquino, precisa estar intimamente ligado à justiça e outras condições (tema para depois). Eles não sabiam disso!


A segunda teoria - a evolucionista - (Comte, Marx) é revolucionária e totalitária, ou conduz ao totalitarismo. Ela considera que o homem, a sociedade, as instituições, surgiram da força incontenível da evolução, sem depender do homem. Em sua expressão mais radical o homem é apenas uma peça da engrenagem social. Como resultado não há direitos individuais e naturais inalienáveis que o Estado tenha que respeitar. É o indivíduo que existe para a sociedade. 

Claro está que nos textos de seus autores tais ideias estão apresentadas de modo a dar a impressão que vão contribuir para o bem do homem. Não fosse assim não seria compreensível que tenham encontrado tantos adeptos. 


A QUESTÃO DO PODER

A doutrina social da Igreja ensina que o poder vem de Deus. 

Como? Não vem do povo?

Calma. Vamos explicar

Lembram da discussão entre Cristo e Pilatos?  O governador romano interroga: "De onde és tu?". Mas Jesus não lhe respondeu. Pilatos então lhe disse: "Tu não me respondes? Não sabes que tenho poder para te soltar e para te crucificar?". Respondeu Jesus: "Não terias poder algum sobre mim, se não te fora dado.do alto " (Jo 19:11).

Tal ensinamento é confirmado por São Paulo: "Todo poder vem de Deus".(Rom 13,1).

Vejam as palavras de Leão XIII, na "Immortalis Dei": "Mas, como nenhuma sociedade pode existir se não houver quem presida a todos, e a cada um mova com um mesmo impulso eficaz para um fim comum, daí resulta ser necessária aos homens constituídos em sociedade uma autoridade para regê-los; autoridade que, tanto como a sociedade, procede da natureza e, por consequência, tem a Deus por autor". 

Os pensadores católicos procuraram ver como aplicar as palavras de Cristo à realidade concreta. Concluíram que, sem dúvida, o poder originário é de Deus, pois foi ele quem determinou a necessidade da autoridade. Contudo o povo pode, de diferentes modos, escolher quem vai exercer a autoridade, Esta deveria, ao atuar, respeitar o direito natural e as exigências de Deus (Daí a fórmula medieval: "O poder vem de Deus, através dos homens).

Nada disso implica em aceitar a teoria do direito divino dos reis. Tampouco implica em clericalismo onde o poder temporal e os leigos  seriam como menores de idade controlados pelo clero. Afinal, a Igreja e o Estado são sociedades distintas; cada qual na sua esfera, com o poder próprio de cada um. Assim se dá a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. 

Terminamos esta parte com um exemplo. Nele vemos o direito da Igreja e do Papa em pedir que os Estados respeitem o ser humano e, também, como devem agir os governantes diante da exortação. 

O Papa Francisco, como é bem conhecido, várias vezes disse que, em nossa sociedade devemos construir pontes e não muros. Visava Trump? Provavelmente, mas não só ele. A exortação é para que as nações façam por seus cidadãos e estrangeiros que procuram melhores condições de vida o melhor possível para abrigá-los de modo digno. Às vezes até com renúncias. O que cabe aos governantes? Simplesmente o que também ensina a Igreja. "Agir com prudência política", (S.Tomás), descobrir e determinar concretamente o que o bem comum exige naquele momento e em tal lugar. Basta ver o que aconteceu agora: Todo mundo fechando fronteiras, criando "muros". A Igreja não vai criticar ninguém por isso. Depois, vai continuar pedindo, até com as lições da crise, que procuremos meios de ajudar os mais fracos.

Política Pública com P maíúsculo é dever de todo governante. 


domingo, 29 de março de 2020

DSI. BEM COMUM. RESPONSABILIDADE. BENS PARTICULARES



A RESPONSABILIDADE PELO BEM COMUM


Geralmente dizemos que o bem comum é obrigação do Estado. Também, como dissemos, afirma-se que é obrigação da sociedade. Tudo correto.

A DSI ensina claramente:


  • "O bem comum empenha todos os membros da sociedade: ninguém está escusado de colaborar, de acordo com as próprias possibilidades, na sua busca e no seu desenvolvimento" (1)
Fácil? Não!

         "O bem comum correspondente às mais elevadas inclinações do homem, mas é um bem árduo de alcançar, porque exige a capacidade e a busca constante do bem de outrem como se fossem próprio" (2)


RELAÇÃO ENTRE BENS COMUNS E BENS PARTICULARES

Sem a preocupação com o bem comum, sem que este fosse um objetivo, ficaria difícil, em grau maior ou menor, a conservação e o desenvolvimento dos bens particulares. Na verdade tem que haver entre todos uma interação harmoniosa. O Estado tem por fim o bem comum, mas não pode violar ou ser hostil aos bens de cada um de nós. Se ele cumpre com sua função é evidente que, no conjunto, ele favorece os bens particulares.
 
Colaboramos com o poder público e com a sociedade quando atuamos em benefício desta, em toda a medida do possível, de acordo com nossas situações concretas.

A SOCIEDADE DEVE ATENDER EM IGUAL MEDIDA A TODOS OS CIDADÃOS?

Não. Isso por um princípio de justiça. Esta exige que se dê a cada um aquilo que ele merece ou tem direito. Aqui entra uma ideia importante: conciliar a igualdade fundamental ou essencial de todos os homens com o princípio da desigualdade proporcional de vantagens e ônus. 

O que significa isso?

Muito simples: Os que são maiores (em todos os sentidos), ou seja, pessoas, famílias, classes, associações, dentro da sociedade ou do Estado, são os que mais devem fazer por ela ou por ele.. É o que comumente entendemos por "opção preferencial pelos pobres". Na prática significa proteger e ajudar quem mais precisa em um momento concreto. Por isso existem legislações que "privilegiam"  idosos, deficientes, pessoas em situação de risco, etc.

Nesta lógica, observando-se a situação crítica de muitos países do mundo que tiveram políticas econômicas gravemente nocivas a seus povos, é que se entendem reformas, como as da Previdência e outras que visam evitar males futuros muito graves. O grande problema é que setores que se transformaram em oligarquias, nos três poderes do Estado, são os que mais rejeitam cortar na própria carne. Atitude visceralmente contrária ao ensinamento e ao espírito da doutrina social da Igreja.

Por outro lado, quando os que têm mais poder cumprem suas funções também têm direitos especiais proporcionados, o que inclui serem respeitados e honrados pelas comunidades. Política feita no sentido mais nobre representa um papel funcional de primeira grandeza para o bem comum. 

Em uma guerra, por exemplo, se procura proteger de modo ainda mais especial o chefe de estado, ministros, generais, oficiais em geral. 

A PROCURA DO DIREITO INDIVIDUAL PREJUDICA O BEM COMUM?

Nem de longe. É uma visão errada.

     Quem assim pensa são os socialistas que colocam o bem comum e os bens particulares como antagônicos.

     Na verdade, quando procuramos e promovemos o bem individual, se favorece poderosamente o bem comum. Quando cada um de nós se aprimora - o que inclui necessariamente o censo moral - ajudamos a todos. O senso moral é necessário porque só ele nos ajuda, através da virtude, a nos posicionarmos corretamente diante de todos e de termos, ao mesmo tempo, como veremos depois, espírito de solidariedade, outro princípio fundamental da DSI. 

BEM INDIVIDUAL E EGOÍSMO

Nosso aperfeiçoamento - que é no que devemos pensar quando procuramos nossos bens individuais - nada tem a ver com egoísmo e falta de amor ao próximo. Amor que, de modo sublime, nos foi ensinado por Cristo. 

Para ver melhor a questão é bom entendermos a questão da proximidade.

Há graus de proximidade entre os homens. O amor ao próximo deve obedecer a uma justa graduação. Em outras palavras. Amamos mais os que nos são mais próximos. Devemos a todos amor? Sem dúvida. Não, contudo, em medida igual.

Em casa amo em primeiro lugar minha esposa (conforme a Revelação somos dois uma só carne), os filhos, os demais parentes, os conhecidos. 

Mas, sendo assim, como fica meu amor pelos outros?

Meu amor pelos outros implica em desejar a cada um e a todos o mesmo que desejo a mim e aos que estão mais próximos. A  todos, sem exceção, desejo todos os bens importantes para a vida: alimentação, vestuário, casa digna, trabalho, salário digno e suficiente. Bens superiores como a honra, a justiça, compreensão, etc, etc, etc. Bens espirituais: que todos vivam uma vida harmoniosa, fruto da virtude de do bem infinito que é Deus. Sobretudo a união santificante com Deus. 

Por hoje é isso. Amanhã começamos a falar especificamente do Estado.

Notas:

1 e 2. Compêndio de Doutrina Social da Igreja/ Pontifício Conselho "Justiça e Paz". Tradução CNBB. São Paulo: Paulinas, 2005, ponto 167. 






sábado, 28 de março de 2020

A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA QUANTO À SOCIEDADE



Introdução



Quem acompanha meu site ou meu blog, ou mesmo quem me segue no FB, procura saber qual é minha orientação ideológica. Um de meus filhos, quando ainda estudante, perguntava-me: - Pai, qual político o sr. segue? Eu respondia: nenhum! Ele ficava confuso porque sabia perfeitamente quem eu criticava ou elogiava e voltava a indagar? E o que somos (às vezes, assim mesmo, no plural)? O sr. não é socialista, eu sei. É liberal? Nacionalista? Resposta: Também não. E lá veio a pergunta final: é o que, então? Respondi: eu sigo a Doutrina Social da Igreja. E ele, meio inconformado: - Beleza, e eu vou chegar no colégio e discutir com meus amigos dizendo que sigo a DSI... E quem lá sabe o que é isso?

Coloquei-me na pele dele. Realmente não era muito fácil discutir nesses termos. Para alguns pode parecer carola. Carolice não ajuda nada. Assim, o conselho era: discuta a ideia, sua fundamentação, suas consequências. É inteiramente possível. 

Voltando ao ponto. Realmente a  grande maioria não conhece a DSI. Incluindo muitos professores com doutorado, e gente boa que atua nos meios católicos. Quantos de vocês, amigos que estão me lendo, leram as seguintes encíclicas sociais: A Rerum Novarum (Leão XIII - 1891); A Quadragesimo Anno (Pio XI - 1931); A Mater et Magistra(1961); A Populorum Progressio (Paulo VI - 1967); a Octogesima Adveniens e a Centesimus Annus, João Paulo II - 1971 e 1991 respectivamente.  E todas encíclicas sociais de grande importância cuja abordagem é baseada na fé e em sólidos e profundos conhecimentos das ciências humanas. Elas e o conjunto da DSI ajudam-nos fortemente a fazer um juizo mais adequado dos múltiplos problemas da sociedade e do homem. 

Resumindo o conceito e o objetivo da doutrina social da Igreja podemos dizer: 

A expressão "doutrina social da Igreja" (DSI) designa o conjunto da doutrina e orientações da Igreja para os temas sociais. Nela encontramos os pronunciamentos do magistério católico sobre tudo que implica a presença do homem na sociedade. Analisa questões sociais e suas relações com a política e a ética. Tudo, como dissemos , a partir de uma reflexão feita á luz da fé. 

A DSI, vejam bem, não é uma ideologia, nem se confunde com as várias doutrinas políticas construídas pelo homem. Ela poderá encontrar pontos de concordância com as diversas ideologias e doutrinas políticas naquilo que elas têm de verdade e favorecem  a construção do bem comum, mas irá denunciá-las sempre que se afastarem destes ideais.
Ela busca o desenvolvimento humano integral, que é “o desenvolvimento do homem todo e de todos os homens” (Paulo VI, Carta encicl. Populorum Progressio, 42; Bento XVI, Carta encicl. Caritas in veritate, 8).
A expressão “doutrina social” remonta a Pio XI (Carta encicl. Quadragesimo anno, 1931). Designa o corpus doutrinal referente à sociedade desenvolvido na Igreja a partir da encíclica Rerum novarum (1891), de Leão XIII.

Dito isto vamos ser práticos. 

O fim da sociedade e do Estado 

Tal como Aristóteles e S. Tomás de Aquino a Igreja ensina que o fim da sociedade é o bem comum. É algo que todos conhecemos e repetimos com frequência. 

Bem comum, virtude, espiritualidade

Acontece que, na prática, há uma grande falha sobre o uso do conceito. Com efeito,quem não tem uma visão correta do que é o homem, a sociedade e o Estado julga que bem comum é exclusivamente o bem-estar temporal. Seria uma "qualidade de vida" puramente humana, do aqui e agora. Ora, se o homem não é apenas matéria o bem comum só será atingido quando houver abertura para o transcendente, quando os bens materiais auxiliarem o homem a se desenvolver espiritualmente e amar a Deus. É o que vemos nas palavras de Cristo: "De que adianta ao homem ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma?"  (Lucas 4: 5-7)

Em suma,mais do que viver juntos importa ter uma vida virtuosa. Toda a vida social o exige, gostemos ou não. A vida do trabalho, a vida social, as relações políticas exigem laboriosidade, persistência, generosidade, paciência, temperança, justiça, preocupação com o bem comum, em suma caridade. E a caridade entre os homens, só é realmente profunda, estável, duradoura, universal, quando baseadas no amor de Deus. 

Qual o conteúdo do bem comum?

Em primeiro lugar o que chamamos de ordem jurídica, ou seja, o reconhecimento dos direitos de cada um, direitos que devem ser tutelados pelo poder público. Em linguagem mais moderna, conformes  um Estado de Direito (entendido corretamente, o que nem sempre acontece)

Em segundo lugar, o conjunto de bens espirituais e materiais necessários para que cada um de nós, indivíduos, cada grupo social, possa alcançar sua finalidade temporal. Lembrando: sempre subordinados ao fim eterno. 

Por enquanto amigos, é isso  Amanhã continuo. 




terça-feira, 24 de março de 2020

ANGELA MERKEL E O CORONAVIRUS



ANGELA MERKEL:

"O CORONAVÍRUS É O NOSSO MAIOR DESAFIO DESDE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL"


Valter de Oliveira

Na Segunda Grande Guerra os alemães foram derrotados. Agora parecem ser os grandes vitoriosos. Por quê?

Vejamos alguns pontos.

1. O vírus surgiu na Alemanha e começou a se propagar. Em pouco tempo "o Instituto Robert Koch alemão indica 8.198 positivos no país e 12 mortos pelo coronavirus" O número, diz a notícia, "cresce cerca de 1.000 a cada dia". (...) O instituto acredita que a pandemia pode durar dois anos e infectar até dez milhões de alemães se não surgir uma vacina" Era só o começo.

O que fez a Chanceler?

2. Pela primeira vez em seus 14 anos de mandato Merkel fez um discurso televisionado (excetuados os tradicionais de Ano Novo) para enfatizar a gravidade da epidemia.

..."prognosticou que as próximas semanas serão ainda mais difíceis, mas lembrou que o fornecimento de alimentos está garantido e que não tem sentido estocar alimentos, algo que, além disso, é pouco solidário. (...) 

"O coronavirus está mudando a vida de nosso país de maneira dramática. Nossa ideia de normalidade, vida pública e interação social está sendo posta à prova como nunca antes".

Merkel explicou à nação que enquanto não houver uma vacina a única coisa que pode ser feita é "deter" a propagação, dilatá-la ao longo dos meses e, assim, ganhar tempo". (...) Considerou que a Alemanha possui um excelente sistema de saúde, mas que, mesmo assim, os hospitais alemães também ficarão sobrecarregados se a doença não for detida.

A Chanceler pediu a seus concidadãos "a suspensão da vida pública na medida do possível. O Estado continuará funcionando, o fornecimento continuará garantido e queremos preservar o máximo de atividade econômica possível (...) mas devemos reduzir agora tudo aquilo que possa colocar em perigo as pessoas". Por esse motivo, afirmou, são necessárias "restrições como nunca antes se viu na República Federal". (...) No momento são indispensáveis para salvar vidas".

E pediu que cumpram as restrições impostas: "isso é sério". "Levem isso a sério". (...) "Desde a Segunda Guerra Mundial não houve um desafio para o nosso país que dependesse tanto de nossa ação conjunta e solidária". 

3. O discurso foi contundente. E os resultados? 

Foram bem melhores do que em outros países. 

A BBC informa: "há algo que diferencia bastante o avanço da doença na Alemanha e que chama a atenção de especialistas e autoridades. O número conhecido popularmente como taxa de mortalidade (em relação ao total dos infectados) é mais baixo do que em outros países. 

A Alemanha é o quinto país em número de casos registrados (26.159 até a manhã de 23 de março) e o nono em mortes (94). A título de comparação, a Espanha registrou 29.909 infectados e 1.813 mortos e o Brasil, 1604 infectados e 25 mortos. 

Nesse caso, a taxa alemã seria de 0,35%, a espanhola, de 6% e a brasileira, de 1, 55%. 

"Não podemos dizer com precisão por que a taxa de mortalidade na Alemanha é a mais baixa, mas é importante lembrar que estamos em uma fase anterior da epidemia dentro do país", explicou (...) o Instituto Robert Koch de Virologia, responsável pela estratégia alemã de combate ao coronavírus.

E ainda:

"é certo que temos recomendado, desde o momento em que tivemos ciência dessa emergência de saúde, ampliar o número de exames feitos na população e reduzir a possibilidade de contágio".

Para Jeremy Rossman, professor de virologia da Universidade de Kent, no Reino Unido, uma das chaves para explicar a baixa mortalidade na Alemanha pode ser o diagnóstico precoce, que evita a disseminação da doença.

"O caso alemão mostra que isso não é só uma boa estratégia como é um componente essencial na luta contra a pandemia. 

Conclusão:

Os alemães, governo e povo, entenderam que estavam diante de uma guerra terrível. Mesmo estando em situação incomparavelmente melhor que a nossa, não se acomodaram, pelo contrário. Estão sabendo enfrentar com rapidez o perigo que ameaça a todos. 

E no Brasil?

Apesar dos pesares estamos no caminho certo. Há grandes falhas passadas e presentes mas estamos arregaçando as mangas e fazendo nosso dever. A classe política e outros poderes da nação parecem acordar. O povo vai se dando conta da gravidade do momento e cresce o espirito de abnegação e solidariedade. Infelizmente ainda há quem no fragor da batalha está preocupado com politicalha. 





.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A POLÍTICA E O DEVER DOS CATÓLICOS



Conheço muitos católicos que não gostam de política. Ela é suja, dizem alguns. O importante é rezar, dizem outros. Contudo a política é necessária para procurarmos o bem comum. Mais ainda, é a própria doutrina católica que nos diz que, como cidadãos, não podemos ficar alheios a ela. Temos que participar. 

Para entendermos esse dever publicamos hoje alguns trechos de artigo de João Camilo de Oliveira Torres. (V.O.)

João Camilo de Oliveira Torres


     Uma grave responsabilidade pesa sobre os ombros do intelectual católico, principalmente se leigo e desligado de funções em organismos oficiais: a de discutir os problemas especificamente políticos. Responsabilidade tanto maior quando se considera que a Igreja docente, (1) por si, é levada a silenciar a respeito. Nós temos o risco de discutir por nossa conta problemas graves.

      A Igreja docente silencia a respeito de problemas políticos completos por um motivo muito simples: ela fala em princípio para todos os povos, e esses problemas são específicos de cada país. Além disso, há divergências em torno da política, e a Igreja deve estar fora de querelas temporais. Muita gente estranha, de fato, que Igreja docente traga a sua opinião a respeito de temas sociais e silencie a respeito de questões políticas. O motivo é simples: as questões sociais são comuns a uma época: São Paulo, Chicago ou Tóquio são cidades de problemas semelhantes. Mas o regime político adequado aos Estados Unidos poderá não servir para o Brasil ou o Japão.

      O resultado desse silêncio é a omissão dos católicos a respeito da política, não obstante possuirmos excelentes escolas em matéria de economia e política social. Esta omissão é tanto mais clamorosa quando se sabe que vivemos numa época de nominalismo e de ativismo, quando grupos aguerridos inimigos do pensamento abstrato desejando, apenas, tomar o poder,combatem toda discussão de problemas políticos, por saberem que, na realidade, constitui uma concessão à razão e à liberdade.

        Mas, se a Igreja docente silencia a respeito de questões políticas - uma encíclica sobre o Parlamentarismo, por exemplo, seria um disparate - isso não quer dizer que devemos ser indiferentes na matéria. A Igreja não possui compromissos com regimes; eu devo te-los, sob pena de omissão ou covardia. Se assumir um cargo de dirigente de movimento oficial, devo silenciar, para não meter a Igreja em discussão, mas, como um católico brasileiro que escreve, devo emitir minha opinião. Principalmente, devo ter uma opinião. 

          Admitido, pois, que o silêncio da Igreja docente a respeito da questão política não significa omissão, mas sim uma exigência de sua posição supra-nacional devemos enfrentar os problemas que existem diante de nós.

________________________

A partir daí Oliveira Torres começa a explicar condições prévias para que bem possamos participar do processo político. Amanhã, em continuação do artigo, vamos fazer uma síntese do que propõe. 

Nota:

1. Igreja docente: Termo usado no catolicismo para designar o clero, ao qual pertence a tarefa de ensinar a doutrina aos leigos, que constituem a eclesia discens, a Igreja discente, (que aprende). Papa e Bispos pertencem à chamada Igreja Docente. É a hierarquia, de direito divino. Sacerdotes e fiéis pertencem à chamada Igreja Discente, embora se deva ressaltar a diferença que há entre o sacerdócio da Ordem e o sacerdócio comum dos fiéis. Todos, Papa, bispos, sacerdotes e fiéis somos membros da Igreja Militante na terra, não somos a Igreja. 

Fonte:  Torres, João Camilo de Oliveira, 1915-1973. O elogio do conservadorismo e outros escritos/ organização de Daniel Fernandes,(...) Curitiba, PR. Arcádia, 2016, p. 279,280. 

          

domingo, 16 de fevereiro de 2020

NAZISMO É DE ESQUERDA OU DE DIREITA?






Valter de Oliveira



Nazismo e fascismo são de direita ou de esquerda? A pergunta parece simplória. Com efeito, na totalidade de nossos livros didáticos, e em grande parte das discussões sobre o assunto, esses dois regimes de governo são considerados de direita. Se é assim, por que a discussão?

Para respondermos lembremos da Revolução Francesa. Foi nela que surgiram os termos direita e esquerda para explicar o posicionamento politico dos deputados na Assembleia Nacional Constituinte.

Com efeito aí tivemos dois grupos revolucionários em luta: os girondinos, defensores de valores considerados mais liberais, e os jacobinos, extremistas que tendiam para uma política socializante. Estes dois grupos sentavam-se, respectivamente, à direita e à esquerda no salão da Assembléia Nacional 

Passado este período tivemos a Convenção. Os jacobinos venceram. Um grupo, os montanistas, passaram a ser a esquerda do jacobinismo.

De lá pra cá os termos foram usados do seguinte modo: um grupo passou a ser tido como esquerdista se tinha um ideal igualitário. Direitistas passaram a ser aqueles que, pelo menos de um certo modo, aceitavam certos tipos de desigualdade entre os homens. Ou valorizam mais o valor da liberdade. 

O problema maior é que as palavras passaram a ser usadas de modo que causam confusão entre quem não está acostumado ao linguajar político. Assim, por exemplo, a esquerda começou a considerar direitistas todo tipo de adversário. A palavra passou a rotular conservadores, nacionalistas, liberais, sociais democratas e até socialistas.

O que mais importa, o rótulo ou o conteúdo?

Voltemos ao conceito formado na Revolução Francesa: esquerdista é aquele que enfatiza a igualdade como valor. Quanto mais uma pessoa -ou grupo político - tiver como meta a igualdade em todos os aspectos da vida humana mais esquerdista deverá ser considerada.

Ora, quando usamos o termo como comparação entre diferentes grupos podemos incorrer em uma imprecisão. Vejamos alguns exemplos.

Suponha que no no Congresso brasileiro tivéssemos apenas três partidos políticos: O Liberal, O Social-Democrata e o PT.  Teríamos em sequência: direitistas, sociais-democratas e a esquerda. 

Digamos que na eleição seguinte liberais e sociais democratas fossem varridos do mapa e não elegessem representantes e os partidos no Congresso passassem a ser: O PT, o PSol, O PCdoB e o Partido da Causa Operária. Resultado: o PT passaria a ser considerado a extrema direita, depois PSOl como centro-direita, PCdoB como centro-esquerda e PCO como extrema esquerda...

Samba do crioulo-doido?

Nem tanto. O PT passaria a ser direita em relação ao PSol, e assim por diante. Há lógica no sentido que os outros partidos são mais radicais do que o PT no seu afã igualitário

Não é lógico no sentido que nos chocaria acreditar que um partido como o PT é de direita. Sem ter mudado em nada seu conteúdo político programático.

Podemos ver melhor a ilogicidade de se usar indiscriminadamente tal nomenclatura quando, por exemplo, rotulamos como direita tanto para liberais quanto nazi-fascistas. Os conteúdos são bem diferentes. Isso é reconhecido até mesmo por aqueles - como os tradicionalistas - que consideram que certos princípios liberais contribuíram para o surgimentos de diferentes tipos de socialismo.

Assim, o que importa é o conteúdo defendido por um partido ou movimento. O rótulo é secundário. 

Voltemos agora à questão do nazismo. Vou reproduzir parte de uma carta-programa do Partido dos Trabalhadores Alemães (Nazista) conhecida como "Vinte e Cinco Pontos", publicada em fevereiro de 1920. Ali podia-se ler:
+

(...) "Não pode ser cidadão senão aquele que faz parte do Povo. Não pode fazer parte do Povo senão aquele que tem sangue alemão, qualquer que seja sua confissão. Consequentemente, nenhum judeu pode fazer parte do Povo.

(...) A supressão de toda renda obtida sem trabalho e sem esforço e a abolição da servidão dos lucros

(...) Exigimos a estatização de todas as empresas já constituídas em trustes.

(...) Pedimos a criação e a conservação de uma classe média sã; a expropriação pelas comunas das grandes lojas, que deverão ser alugadas a preço baixo aos comerciantes; e que melhor se considere os pequenos fornecedores para as encomendas do Estado, dos estados e das comunas.

(...) Exigimos a reforma agrária, adaptada às nossas necessidades nacionais, a publicação de uma lei permitindo a expropriação do solo sem indenização para as necessidades de interesse geral; a supressão das hipotecas sobre os bens de raiz e a especulação sobre os terrenos "

Conclusão

Fica para o amigo leitor. O conteúdo da Carta-Programa nazista tem ou não notável semelhança - ou identidade - com o que é pregado pela chamada esquerda?