segunda-feira, 2 de julho de 2018

ELEIÇÃO DE 2018. DESENCANTO, INDIGNAÇÃO OU ESPERANÇA?












Valter de Oliveira

Dizem que brasileiro não é politizado. É verdade. Muito disso se deve às falhas de nosso sistema educacional. Povo mal formado tem poucas condições de entender o processo político. Isso explica o que muitas vezes ouvi em sala de aula.  

- “Professor, odeio política! Voto porque sou obrigado”.

- Um outro completa: “Políticos são todos iguais, sempre dizem a mesma coisa. Prometem e não cumprem. Só procuram seus interesses!

- E ainda: “Voto em pessoas, não em partidos. Se me parecer confiável e tiver ideias que aprovo, voto no candidato!.

Isso era há 10 ou 20 anos. Agora, com a Lava Jato e a tremenda crise pela qual passa o país, a situação piorou. Existe o desencanto com todos os poderes da República. Critica-se – e com razão – o presidente, o Congresso Nacional, o Judiciário. E não se vê alternativa para se sair desse túnel escuro. Uma minoria, cansada de tudo, sonha com a volta dos militares ao poder. É dar um cheque em branco para quem não se conhece.

O que fazer?

Respondo com um conceito de política muito usado: “política é a arte do possível”. (1)

Em outras palavras, diante da grave crise (2) pela qual passamos não há como, a curto prazo, esperarmos que após as próxima eleições surja o belo mundo que idealizamos. O que podemos fazer hoje  é usar de todos os meios legítimos e legais para tentarmos influenciar bem as pessoas a fim de que votem em candidatos mais dignos e preparados. O pleito eleitoral deste ano  nos permitirá escolhermos um presidente e governadores bem como renovar o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas estaduais. Verdade que as condições de nosso sistema político não nos ajudam, ele está cheio de falhas, todos sabemos disso. Contudo, sempre há algo que podemos vir a fazer. E este algo pode vir a ser muito importante.

Qual seria o primeiro passo?

Muitos diriam: ”escolher candidatos com ficha limpa, homens e mulheres com princípios éticos, ideias claras, bem definidas, que reformem o país e o levem à prosperidade”.

Sem dúvida isso é bom, mas não é o primeiro passo. Por quê?

Porque a primeira coisa necessária para se votar bem é ter ideias claras sobre o que será melhor para o país. Sou eu que, em primeiro lugar, preciso formar minha opinião sobre os principais problemas nacionais e, após isso, escolher os candidatos que mais se aproximam do que penso. O escolhido será nosso representante, aquele que se propõe a fazer no governo, aquilo que você e eu faríamos se lá estivéssemos.

Nada fácil, não é mesmo? A Globo tem perguntado a muita gente que país desejam. Claro que a resposta é quase sempre correta mas, absolutamente genérica: “Melhor educação, prioridade para a saúde do povo, saneamento básico, proteção ao meio ambiente, crescimento econômico, pleno emprego, fim de privilégios inadmissíveis, reforma política, segurança pública, e mil outras coisas boas”. Ora, não há candidato ou partido que não nos prometam tudo isso.

A questão está em como obter tudo isso. Com base em quais ideias, em quais princípios filosóficos, em que tipo de ética (3) se baseiam aqueles que pretendem vir a nos governar. Ora, é de suma importância que conheçamos esse alicerce.  

A partir de hoje publicarei uma série de artigos com breves e simples análises de nossas questões políticas, econômicas, sociais. Serão análises de ideias e também das propostas dos partidos e candidatos. Antes disso veremos alguns pontos básicos sobre democracia e política.

Espero que possam ajudar especialmente ao leitor que não está familiarizado com a política em geral. Para aqueles que tenham tempo, disposição, e mais conhecimento, indicarei artigos ou textos mais aprofundados.

Hoje há muito desencanto e indignação com o que ocorre em nosso país.  Só que os males que existem não devem nos deixar prostrados.  As adversidades existem para serem superadas. Se entendermos isso já daremos um grande passo para que a esperança surja no horizonte.

Notas:

       
 A crise atual é muito profunda mas não deve nos fazer esquecer que há muita coisa boa acontecendo e muita gente lutando pelo bem., o que, infelizmente, não é destacado devidamente. Todo esse bem é motivo de alegria e esperança. Não vê-lo pode esfriar em nós a disposição de lutar.

1.Em um sentido mais específico Política é “a arte de governar, ou seja, a arte de fixar objetivos conforme o bem comum, e orientar sua conquista ou manutenção”.

2.A crise atual é muito profunda mas não deve nos fazer esquecer que há muita coisa boa acontecendo e muita gente lutando pelo bem., o que, infelizmente, não é destacado devidamente. Todo esse bem é motivo de alegria e esperança.

3.Muita gente foi enganada por partidos que se afirmavam éticos. Ora, a ética é parte da filosofia que nos ensina como deve ser o comportamento humano. Acontece que o eleitor comum não sabe que existe uma ética aristotélica ou tomista; uma ética pragmática ou uma ética de princípios; uma ética kantiana ou uma ética marxista. Em suma, quando um candidato se apresenta como ético, se ele não disser quais são os princípios fundamentais de sua ética, ele não estará dizendo absolutamente nada. Se eu afirmo que sigo uma ética tomista ou jusnaturalista segue-se que vou afirmar que ninguém, nem o indivíduo e nem o Estado têm o direito de, voluntariamente, matar um inocente. Por outro lado, se alguém segue uma ética consequencialista ou de resultados, ele admite que mesmo um inocente pode ser eliminado se isso for considerado benéfico para a sociedade. Governos nazistas não viam nenhum problema em eliminar sumariamente doentes mentais. Já o marxismo considera que se pode mentir ou matar inocentes se isso for favorável à causa revolucionária. .  

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

TRÊS PROFESSORES: O NUTELLA, O RAIZ, O...SEM ADJETIVOS













Valter de Oliveira


Encontrei no facebook uma comparação entre o professor Nutella e o professor  Raiz. Só mais uma dessas brincadeiras, com elementos de verdade, que estão sendo publicadas. Algumas são feitas pela “esquerda”, outras pela “direita”. A que reproduzo aqui, é bem claro, tem coloração vermelha...
Ao ler a brincadeira no face respondi que tinha objeções aos dois tipos de professor. Resolvi apresentar um terceiro tipo: o professor sem adjetivos. Suas características aparecem aqui como contraponto aos dois. Está identificado apenas como “O professor”.

O PROFESSOR NUTELLA

- Trata os alunos mal e puxa saco do patrão
O professor trata a todos bem, em especial seus alunos. Respeita toda autoridade sem servilismo e procura engrandecer a instituição, pública ou privada, onde trabalha.
- Gosta de fofoca e assina Veja
O professor mostra a importância de saber usar as palavras e o tempo, bem como a respeitar a vida e a intimidade do próximo. Incentiva o aluno a desenvolver o espírito de curiosidade e explica a importância de se ter foco no que se faz. Anseia por informação e procura as mais confiáveis. Nem por isso afirma ser um pecado que se leia a Veja, o Estadão, a Folha, ou o New York Times que exprimem, quando muito, um selecionado aspecto da realidade.
- Bate panela quando a Globo manda
O professor não tem espírito de massa, abomina o carneirismo. Em consequência procura analisar criticamente a realidade. Democraticamente bate panela quando necessário. Inclusive contra a rede Globo.
- Reclama da profissão e critica os colegas que se mobilizam.
O professor ama apaixonadamente sua profissão e  luta para que seja valorizada e respeitada, não só em teoria mas no seu próprio campo de trabalho.  Respeita seus colegas e defende uma sadia diversidade. Sabe e ensina que há mobilizações positivas e negativas.

- Não se mistura com qualquer um.
O professor: Todo ser humano é único, uma imagem da beleza infinita de Deus. Por isso procura ser “sal na terra”.
- Não gosta de escola pública porque não é do seu nível social.
O professor gosta de qualquer escola, pública ou privada, que procura cumprir bem sua função. O que importa é que seu corpo diretivo, seus funcionários e seu corpo docente sintam honra em exercer seu papel, ainda que em condições adversas. Condição social, de si, para cada um de nós, não é mérito ou demérito. O mérito – incluindo o dos alunos – vem da qualidade do trabalho de cada um.

O PROFESSOR RAIZ

- Só tem aluno maluco e pira junto com eles
O professor tem alunos normais e não pira jamais, só ou em grupo. Compreende que uma das coisas mais nobres do ser humano é a razão e esta nos leva à beleza do equilíbrio. Não quer ninguém pirado. Nem em sonhos, nem em pesadelos.
- Discute política, economia, cultura com qualquer um. Se tiver dinheiro assina Piauí.
O professor é encantado pelo conhecimento e sabe que ele é incomensurável. Como os antigos filósofos está aberto a tudo sem deixar de ter o foco naquilo que se propôs a ensinar. Se tiver dinheiro, se necessário, assina o que houver de melhor. Pode até ler a “Piauí” mas, se for rico, deve saber fazer bom uso do dinheiro e raramente fará uma assinatura dela...
- É quebrado e não esconde de ninguém
O professor é de todas as classes sociais. Pode ser rico ou pobre, homem ou mulher, branco ou negro (minorias no Brasil). Não tem vergonha de nada disso, pelo contrário. Sabe – e ensina – que vergonha é não ter honra, não ter caráter, não cumprir seu dever.
-Sindicato, mobilização, tiro, porrada, bomba
O professor admira e defende o regime democrático independentemente da forma ou do sistema de governo. Instituições intermediárias (como a família ou os sindicatos) entre o Estado e o indivíduo são legítimas e necessárias. O mesmo vale para as mobilizações. Que nada tem a ver com a violência gratuita e criminosa pregada apaixonadamente por certos setores da esquerda.
- É parça com o pessoal da limpeza e da cantina
O professor é solidário com todas as pessoas de sua escola, sabe respeitar a todos e valoriza todo tipo de trabalho. Todos são necessários e dignos. Sabe mostrar isso nas suas atitudes e até no seu olhar.
- Passa a graduação toda contando moeda pro xerox
O professor considera que, graças a Deus, não são apenas os pobres que podem exercer a docência.  Alguns chegaram onde queriam com sangue, suor e lágrimas. Outros, nascidos na classe média ou na alta não precisaram contar moedas. De qualquer modo, todos os que são realmente professores passaram a graduação procurando crescer intelectual e moralmente. E vão fazer isso a vida toda.
- Hoje dá aula até com marca de tiroteio
O professor, como todo ser humano, procura um lugar digno e tranquilo para trabalhar. Deseja o mesmo para seus alunos. Se, medindo a realidade, vê que é necessário expor-se em um lugar perigoso, ele o fará. De certo modo podemos dizer que, assim como há os “médicos sem fronteiras” também há os professores sem fronteiras. Nem por isso seu coração será menos nobre e generoso se desejar para todos uma sadia normalidade.

Termino com um convite. Que todos os que ensinam sejam o que devem ser: professores. “Simples” professores. Sem Nutella; sem Raiz; sem adjetivos.
Os alunos ficarão felizes.


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

TRUMP, OBAMA, HILLARY E O RAFINHA
















Valter de Oliveira

Estava quase pronto um artigo meu sobre Hillary Clinton e Obama (1) até que uma simples conversa com meu filho Rafael no carro, após a escola, mudou meus planos. Explico-me.
Rafael
O Rafa tem 11 anos, está no 5º ano, e tem o privilégio de estudar em uma conceituada escola de S. Paulo, a AeD (Aprendizagem e Desenvolvimento) onde minha esposa é professora do terceiro ano do Fundamental I. Hoje, como é praxe, fui busca-los na hora do almoço. Já no carro, e mal tinha eu dirigido dois ou três quarteirões, ouvi a pergunta habitual: -“Posso falar?” Era o Rafa. E começou a contar o que acontecera na aula de História.
O jovem professor Luciano, usando seu grande poder de criatividade, de modo a despertar nas crianças o bom hábito da reflexão, montou uma história para lhes explicar o absolutismo. Uma história que levou as crianças a discutir a responsabilidade dos diferentes personagens. Explicou tudo e concluiu: “Foi legal”, e ficou quieto. –“E o que mais?”, perguntamos eu e Sonia. –“Depois, continuou ele, surgiu uma discussão entre as meninas sobre a eleição presidencial norte-americana e o professor perguntou: se vocês tivessem que votar em um deles quem escolheriam?”.
Uma delas logo respondeu: -“Não votaria no Trump porque ele é contra a entrada de imigrantes. Prefiro a Hillary’.
Outra replicou: - “Mas a Hillary é favorável ao aborto!” (2)
Ao ouvir isso, lembrei-me do artigo que faltava terminar e pensei com meus botões: vou muda-lo! Vou deixar de lado tudo o que traduzira. Basta o essencial. É melhor ficar na simplicidade das crianças.
Aqui no Brasil nossa mídia nos passa uma cândida imagem de Hillary bem como do presidente Obama, sempre simpático, agradavelmente eloquente e de gestos comedidos e elegantes.
Só não se fala que ambos aprovam o chamado “partial abortion”. O que é isso? Simples: Se a mãe ou responsável permitir, o médico pode matar a criança no instante em que ela está nascendo. Basta não permitir que ela saia inteira do ventre materno porque aí, já tendo nascido, seria protegida pela lei. Nasceu uma cidadã americana.
Se parte do corpo da criança estiver no ventre materno tudo muda. O médico está autorizado a quebrar o crânio da criança e retirar seu cérebro.
Não vejo nenhuma diferença entre tal procedimento e aqueles permitidos pela legislação nazista que autorizava o assassinato de deficientes.


Quase nada também se fala que o governo americano queria impor sanções a hospitais dirigidos por freiras por se recusarem a praticar abortos. Graças a Deus elas o venceram na Suprema Corte. Tampouco se destaca que Obama quer negar o direito de médicos e enfermeiros a seguirem suas próprias consciências no caso de práticas abortistas. 
Entretanto, de acordo com nossa mídia, Hillary e Obama estão do lado da civilização e dos direitos Humanos. Sobram críticas a Trump. Com e sem razão. E ninguém explica por que apesar de tantas falhas de caráter o bilionário tem o apoio de grande parte do eleitorado.
Será que se mostrássemos a um esquerdista (de qualquer tendência, do defensor do socialismo real ao socialismo romântico ou ao ambientalista gnóstico) as barbáries defendidas por Hillary e Obama ele ficaria horrorizado?
Duvido. A sensibilidade da esquerda é seletiva. Só choram com o olho esquerdo.
Acho que até o Rafinha já percebeu...

Notas:
        1.     O título seria: Hillary Clinton e Obama. O que a mídia não conta, e seria baseado     em artigo de Terence P. Jeffrey, no jornal The Wanderer, o mais antigo periódico católico norte americano. Clique aqui para ver:


2.     Trump é vergastado por querer levantar um muro para impedir a entrada ilegal de mexicanos ao Estado do México. A mídia pouco ou nada fala de outros muros. Você pode conferir o que é dito sobre três deles. a) um erigido na Trácia, na fronteira entre a Turquia e a Grécia; b)  o segundo na Hungria, com aproximadamente 160 km; c) o terceiro construído em Calais, na França, com a ajuda do Reino Unido. Veja nos sites:







sábado, 16 de julho de 2016

A CORRUPÇÃO QUE CONHEÇO













Valter de Oliveira

Jânio Quadros
Era só um garoto quando ouvi falar pela primeira vez em corrupção. Foi através do rádio que não cansava de tocar a marchinha de Jânio Quadros: “Varre, varre, vassourinha”... Quem era Jânio? Não o conhecia. Nem tinha TV. Finalmente vi sua foto na revista Cruzeiro. Lá estava ele, sentado no meio fio, comendo banana... Não me lembro se era candidato a governador ou a presidente. Não gostei. Não me parecia digno de quem iria, talvez, ocupar um alto cargo no Executivo. E eu nem sabia o que era populismo...

Anos depois, passava pelo viaduto do Chá rumo ao dentista na Conselheiro Crispiniano. Perplexo, deparei-me com uma multidão. Era a famosa “Marcha da Família com Deus pela liberdade”. Um carro da Record filmava tudo. Da época só lembro que se fazia muita greve (estava muito preocupado com futebol, música jovem e Ray Conniff). Era tão comum que eu e um amigo decidimos convocar os colegas para uma greve no Colégio Emília de Paiva Meira, em Itaquera. O sucesso foi rápido. O castigo também. Minha turma pegou 3 dias de suspensão. Achamos graça.

Em outubro de 1964 minha vida mudou totalmente. Motivo: religião. Depois de vacilar por um longo tempo recebi a graça de compreender que valia a pena viver por Deus. Desde então tenho tentado. Deus é paciente...

O resultado é que comecei a preocupar-me com política, filosofia, história, religião. Diariamente lia o Estadão acompanhando tudo o que ocorria no Concílio. E no mundo. Por acréscimo as inúmeras aulas extras que tive com meu professor de História ajudaram muito na minha formação.

As leituras levaram-me, a saber, que os militares argumentavam que haviam tomado o poder para combater três coisas: 1. A subversão. 2. A inflação. 3. A corrupção.


Laudo Natel
Conseguiram sucesso nos dois primeiros pontos. Já quanto à corrupção não tinha ideia. O que sei é que nas duas ocasiões em que estive próximo de dois governadores – Laudo Natel em São Paulo e Eraldo Gueiros em Recife – fiquei incomodado com o séquito de ambos. Tive a impressão de ser um bando de oportunistas. “Conservadores”...
Eraldo Gueiros

No final dos anos 70 tive um contato maior com um jovem engenheiro de uma grande empresa. Começou a enriquecer e resolveu diversificar suas aplicações financeiras. Meu pai trabalhava com imóveis e construção (Construção e decoração já foram meus hobbies). Convidou-nos para uma parceria. Durou algum tempo.

No aprofundamento da amizade soube que ele estava envolvido na intermediação de negócios entre a iniciativa privada e o governo. Foi assim que ele começara a enriquecer. Um dia perguntei-lhe se não achava que tal procedimento feria a ética. Respondeu-me que não. “Ninguém rouba ninguém, disse ele, só se combinam os resultados. Aliás, disse ele, é o único meio que as coisas são feitas no Brasil. Todo mundo ganha um pouco. Tudo é combinado”...

Um belo dia, em visita a seu escritório, perguntei-lhe:

-“Você viu o Ferreira Neto (programa político da TV Gazeta) ontem”?

- “Não”, respondeu. “Por quê?”

- “Fulano (deputado federal bem conhecido na época) fez uma catilinária contra a corrupção do Maluf e do PMDB”.

- “Que pilantra! Dei sete milhões para ele na semana passada”!

Pois é... E soube de várias outras histórias...

Nosso relacionamento comercial durou pouco mais de um ano e passamos a nos ver esporadicamente (1). Um dia, nos tempos do governo Collor fui visita-lo em sua casa. Estava triste e preocupado. De algum modo foi posto de lado nos esquemas governamentais. Ainda tinha, disse-me ele, alguma chance. Se conseguisse um negócio importante relacionado com o projeto do trem bala. (se o começo do negócio desse certo a caixinha seria de 180 milhões de dólares... Para quantos? 7 políticos...) poderia voltar a ter seu espaço no esquema. Soube depois que não conseguiu. Foi perdendo os bens. Morreu. Recentemente contaram-me que sua morte não foi repentina. No hospital tinha recebido os últimos sacramentos. Foi um consolo para mim que também testemunhei muitas coisas boas que ele fez.

Assim, caros amigos, quero deixar bem claro que há muito conheço, por testemunhos fidedignos, a corrupção que assola nosso país. (Evidente que não foi o PT que a inventou... Ele só mergulhou nela, inebriou-se nela).  Depois, quando voltei novamente para a área de História – em 1987 – fui conhecendo-a mais a fundo por leituras e por aulas. Principalmente depois que fiz um mestrado em Estudos Brasileiros na Universidade Mackenzie. Curso idealizado pelo saudoso general Meira Mattos e por Alfredo do Amaral Gurgel.  O melhor que tive na área acadêmica. Nele tive a felicidade de conhecer o amigo – e grande economista da UERJ – Ubiratan Jorge Iório de Souza que me abriu os olhos para os encantos da economia (2).


Tudo isso para dizer que, se desde jovem, como já disse, encantava-me tudo o que é relativo à área de humanas, esse amor cresceu ainda mais a partir de 88 quando vi muita coisa de política e geopolítica. Aprendi a ver Ciência política e Economia com teoria e prática, sem utopismos ideologizantes e sem alienação. Política que naturalmente nada tem a ver com a politicagem rasteira da oligarquia que dirige nosso país.

Vejam! Eu, um simples professor de História, há muito sei como as coisas ocorrem em nossos bastidores. Pergunto: É possível que nossos políticos não saibam?

Deus do Céu! Vejam Roberto Jefferson, no “Mesa Redonda” da Cultura (3). Lá diz ele, claramente, estrondosamente, que é assim que as coisas funcionam no Brasil. O PT só foi mais ousado... O que me impressionou, disse ele, foi a “coragem do PT” em avançar tanto! Depois Dulcídio, no mesmo programa, bateu na mesma tecla (4): “Todos sabem”... E olhando para os jornalistas: “Vocês sabem!” Ninguém o desmentiu...

Pois é. Eu sei, a classe política sabe, os empresários sabem, os jornalistas sabem e... Maravilha, Dilma e Lula, candidamente, nada sabem!

É uma ignorância tão santa que ainda há quem acredite e os queira de volta!

Bem se diz que a esquerda é uma religião.

“Esquerda”? “E o marxismo”?

É seita fundamentalista.



Notas:

(1) os negócios se resumiram na construção de 2 sobrados em um terreno meu.

(2) Lembro-me ainda de uma de nossas primeiras conversas quando ele disse: -“Puxa! Você é o primeiro professor de História que conheço que não é de esquerda!

Um fato curioso: minha formação era de forte oposição ao marxismo mas também ao liberalismo já que defendo a doutrina social da Igreja. Meu caro Bira disse-me que não entendia a oposição do Magistério Católico ao liberalismo. Acontece que o que ele apresentou nas aulas não parecia ser o que as encíclicas criticavam.  Era um liberalismo simpático...pelo menos em economia. Com o tempo parece-me que ele mudou em alguns pontos já que ficou um adepto entusiasmado da escola liberal austríaca. Dá para conciliar tudo? Não sei. Preciso conversar mais com o cara mestre...

(3) Roberto Jefferson no Roda Viva (link https://www.youtube.com/watch?v=wnpQRw01ztQ)


(4) Delcídio no Roda Viva (link https://www.youtube.com/watch?v=h1Aa1K-ky9g)

domingo, 26 de abril de 2015

POLÍTICOS, PEDAGOGOS E TEÓLOGOS












Valter de Oliveira


Em nossos dias fica cada vez mais patente a imensa distância entre o que pensa e faz nossa “elite” e o que pensa e deseja a sociedade brasileira. Distância que aumenta a cada instante devido à cegueira daqueles que deveriam ser modelos para todos nós.

1. Os políticos brasileiros

Nossa classe política nunca foi tida como exemplar. Jânio foi famoso pela vassourinha. Pretendia varrer todo o lixo de nossa vida pública. Seu empenho durou sete meses. De lá para cá, com democracia ou sem democracia, ela parece procurar bater o recorde de incompetência e corrupção. (1)

De março para cá milhões saíram às ruas indignados com o que vem acontecendo na política em nosso país. É verdade que a mira principal é o PT e o desgoverno de Dilma Rousseff. Mas há também indignação contra uma oposição medíocre - e também imersa na corrupção – que nada apresenta de sério para combater o mal e satisfazer aos legítimos anseios da sociedade.

Queremos uma verdadeira reforma política que permita aos eleitores conhecer os objetivos dos partidos políticos e de seus candidatos. Reforma que nos permita fiscalizar e punir – por exemplo através do recall – àqueles que foram infiéis às suas promessas políticas ou se dedicaram à corrupção.

O que propõe o PT e seus aliados (incluindo a CNBB): uma reforma política que nos faria ainda mais reféns da oligarquia.

A sociedade quer transparência. O governo camufla suas intenções e atitudes, manipula a propaganda, admite ter o direito de segredo sobre a atuação do BNDES e outros organismos governamentais.

A sociedade quer rigor contra toda a forma de crime. Com a justa punição para maiores ou menores.

O que faz o governo, seus aliados e até membros da “oposição”: apoiam um novo código penal ainda mais permissivo.

A sociedade há muito clama por uma reforma fiscal e tributária eficaz, séria, democrática.
A classe política desconversa, empurra com a barriga, aumenta os impostos e descuida de tudo o que é essencial para a população. A começar por educação, saúde, segurança e justiça.

A sociedade tem direito à educação de qualidade. Pública e privada.

O governo atual em primeiro lugar e a classe política, procuram ganhar dividendos propiciando bolsas de estudos para alunos que tiveram má formação básica, fingem que não sabem que a reforma educacional tem que começar do fundamental. Para piorar criaram uma legislação permissiva que prejudica os professores e os bons alunos. Maus alunos ofendem e até agridem. Nada acontece. Os governantes, da esfera federal, estadual e municipal, em nome da inclusão, propagam obstinadamente a incompetência e marginalizam a grande maioria, que deveria estar apta a participar de um mundo cada vez mais globalizado.

A lista é longa. Deixo para ampliá-la em outra ocasião.

2. Os pedagogos

Por definição pedagogos são aqueles que sabem conduzir crianças e jovens aos objetivos específicos da educação.

Nesse ponto nossa sociedade está à deriva. Poucos sabem o que seja realmente educar. Para isso é necessário ter uma correta visão antropológica do homem. A atual ideologia da maior parte de nossos pedagogos impede isso.

De qualquer modo, ainda que intuitivamente, sabemos que as coisas não podem ficar como está. Afinal, nosso nível educacional, é dos piores do mundo, conforme atestam os testes internacionais. Na esfera pública e privada. Isso apesar de sermos, reconhecidamente, um dos povos mais inteligentes do mundo.

Nossos cursos de pedagogia – como disse a profª Eunice Duran – dão teoria de má qualidade, com frequência no viés socializante, nem conseguem ser praticadas nas escolas. O construtivismo, defendido obtusa e dogmaticamente, é pouco compreendido e aplicado.  Há as eternas críticas às cartilhas do passado e ao método fonético (esquecem que as melhores cabeças do passado foram alfabetizadas assim). Sobretudo negam-se a ver o que a moderna neurologia fala do assunto. O resultado é que os alunos mais competentes – excetuando almas idealistas e abnegadas - fogem da carreira docente. É mais do que sabido que em breve teremos pouquíssimos professores da área de exatas. Também já faltam os de geografia.

Desde que comecei a ensinar vejo a decadência de nossas escolas. Alguém acorda? Não. Insistem nos mesmos erros e os aprofundam. Com o apoio dos governos, a irreflexão dos sindicatos, a superficialidade da mídia, a falta de sério compromisso das universidades com a educação, a apatia de muitos alunos, e a desesperança de boa parte dos professores.

3. Os teólogos

A teologia existe para nos ajudar a aprofundar em nossa fé, conhecer melhor a Deus e a amá-Lo acima de todas as coisas. Basta ler S. Agostinho ou S. Tomás, ou ainda, a grande S. Teresa de Ávila.

No passado, graças a esses teólogos e a grande número de santos, o povo tinha contato com homens e mulheres de virtudes fulgurantes. Era ensinado, pela palavra e pelo exemplo, a cumprir a vontade de Deus na Terra através de uma vida digna, o que implicava na construção de uma sociedade o quanto possível perfeita, mas sem deixar de levar em conta as consequências do pecado original. Não se fazia um divórcio entre a virtude individual e a responsabilidade de cristianizar o mundo. Sabia-se que uma sociedade mais justa seria realizada se não houvesse, ao mesmo tempo, um sério amor ao próximo. “Se não és capaz de amar a quem vês, como amarás ao Deus que não vês? ”

Hoje as coisas mudaram. Os teólogos da chamada linha progressista já não se preocupam com o pecado individual, só com o social. Tampouco dão importância ao Credo, à doutrina, à moral. Quem se preocupa com isso passou a ser taxado de fundamentalista. Os novos teólogos se empenham em destruir o capitalismo (para eles um dos maiores males do mundo) e em construir o Paraíso na Terra. É a Teologia da Libertação.

Acontece que o homem comum, na cidade ou na aldeia indígena, tem sede de Deus (fruto de uma graça concedida a todos). Quer saber quem foi Cristo, que morreu por nós. Quer vida de piedade, de oração, de reparação, de generosidade. Quer um trato íntimo com nosso Pai. Este homem, talvez sem o saber, está seguindo as palavras de Cristo: “Procurai em primeiro lugar o reino de Deus e sua Justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo”.

O teólogo progressista não está preocupado com nossa fome de Deus. Ele nos julga egoístas. A grande realidade é mudar o mundo rumo ao socialismo. Quem assim quer ser, é bom cristão. Quem não o quer...

É verdade que o “douto” teólogo fala em caridade, acolhimento, misericórdia. Nesse sentido, contrariando a Cristo (2), ele praticamente quer dar cidadania a todos os pecados que ferem o 6º mandamento – o adultério, a prostituição, a homossexualidade – e o quinto, como o aborto e a eutanásia. Já temos hoje, conforme suas pastorais misericordiosas, missas gays. O título já é escandaloso. No futuro, quem sabe, poderemos ter uma missa dos traficantes,  dos corruptos e dos pedófilos...

Tudo isso na contramão do que pedem e desejam os fiéis católicos.

Conclusão:

Um ponto comum que há entre todos eles: a negação obstinada da verdade. “O país vai bem, obrigado, nunca como no governo do PT se fez tanto pelo povo”. “A educação não melhora por causa das elites e da educação bancária”. Os pedagogos asseguram-nos, que se fizermos o que propõem, – incluindo a acolhida à ideologia de gênero - tudo ficará melhor. Já o teólogo progressista, tão feliz em ver a abertura (3) da Igreja para o mundo, tão empenhado em mudar tudo, assegura-nos na mídia (não em seus escritos) que ninguém quer mudar a doutrina. Só querem mudanças pastorais...

Você acredita?

1. Na TV a cabo há uma série chamada o índice da maldade. Talvez seja o caso de fazer uma similar: “O índice da corrupção e da incompetência”. O PT está ganhando...

2. Cristo disse ao jovem rico depois que este disse que praticava os mandamentos: “Então, se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres, renuncia a ti mesmo, carregue a tua cruz e siga-me”.
O teólogo progressista não está preocupado com os mandamentos. Suas homilias – quando é padre – são sempre genéricas. Ele defende o “Amor”.  Não insiste na prática dos mandamentos como necessários para alcançarmos a vida eterna. Assim, ele simplesmente não ama o pecador. Quer acolhe-lo com o seu pecado. Na sua visão, nossos movimentos sociais são profundamente cristãos porque lutam por um mundo melhor. Se você mostrar que todos eles já se pronunciaram favoravelmente a toda a agenda gay, ao aborto, à violação de direitos humanos por parte de governos de esquerda ele não dará importância. Estariam no caminho certo por lutar pelo socialismo.

Tais teólogos acreditam que estão próximos de uma grande vitória. Sabem que têm apoio de amplos setores da alta hierarquia da Igreja. Isso os faz caminhar altivamente, tirando as máscaras. Para nós resta um consolo: Ficará cada vez mais claro que eles não pertencem à Igreja de Cristo.


3. Existe uma desejável abertura para o mundo. Não é a deles que implica na negação dos mais profundos valores cristãos.