sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

COMO JULGAR OS INIMIGOS DA REVOLUÇÃO?




Lenin responde: “pela consciência revolucionária”

Como é sabido Lenin vivia para a causa revolucionária. Para ser vitorioso em sua luta poderia utilizar de todos os meios tidos por necessários. “A moral”, disse ele, “considerada fora da sociedade humana, não existe para nós, trata-se de uma mentira. A moral, para nós, está subordinada aos interesses da classe proletária”. (Nova Gazeta Renana, 1848-49 – in Piettre, p. 94).

Nessa lógica fica mais fácil entender porque Lenin e seus camaradas não tiveram pejo em implantar o terror. Daí dizer Pipes:

“ O primeiro passo para a introdução do terror em massa foi o banimento da lei e sua substituição pela “consciência revolucionária”. Nada semelhante jamais existira. As autoridades soviéticas dispunham de qualquer indivíduo que estivesse no caminho, na prática, implementando a definição dada por Lenin à “ditadura do proletariado”, como “governo não restringido pela lei” (Pipes, p. 219)

(...)

“Em março de 1918, o regime substituiu os tribunais locais por Cortes do Povo, responsáveis pelo julgamento de todos os tipos de crimes, exceto aqueles de natureza política. Uma lei de novembro de 1918 proibiu os juízes dessas cortes de se referirem a normas anteriores a outubro de 1917, liberando-os da observância dos procedimentos formais. Seu único critério deveria ser “o senso de justiça socialista” (idem).

A Tcheka e o Terror

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A Tcheka foi uma Comissão Extraordinária, de caráter policial, encarregada de combater a “contra-revolução e a sabotagem”. “O decreto que a criou, diz Paul Johnson não veio a público a não ser dez anos depois (Pravda, 18 de dezembro de 1927), portanto, a força de segurança permaneceu uma polícia secreta no sentido mais puro, já que sua verdadeira existência não foi oficialmente reconhecida”

“Não havia dúvidas de que, desde o início, a Tcheka estava destinada a usar de crueldade absoluta e em larga escala. (...) Ela recrutou pessoal com incrível rapidez, de dezembro de 1917 a janeiro de 1918 (...).  A polícia secreta do czar, a Okhrana, havia chegado a 15 mil homens, o que a tornara, de longe, a maior corporação dessa natureza no Velho Mundo. Em contraste a Tcheka, em três anos de existência, tinha uma força de 250 mil homens permanentes. Suas atividades eram de ampla escala. Enquanto os últimos czares tinham executado uma média de 17 pessoas por ano (por todo o tipo de crime), até 1918-19 a Tcheka tinha chegado à média de mil execuções por mês, apenas por razões políticas”. (Johnson, p. 54)

“Esse número é certamente um cálculo subestimado – por uma razão intrínseca a iniquidade do sistema criado por Lenin. (...) Quando a Tcheka prendia, julgava, condenava e punia suas vítimas, o número delas não era registrado numa lista confiável. A poucas semanas de sua criação, a Tcheka estava operando seus primeiros campos de concentração ou de trabalhos forçados. Esses surgiram de um decreto da Sovnarkom que arrebanhava “homens e mulheres burgueses”, enviando-os para cavar trincheiras defensivas em Petrogrado. (...) Seus campos começaram a proliferar... o núcleo do que viria a ser o gigantesco “Arquipélago Gulag”. Lá pelos fins de 1917, quando Lenin estava no poder há apenas 9 ou 10 semanas, seria correto dizer que a Tcheka era um “Estado dentro do Estado”, em alguns casos, ela era inclusive o próprio Estado”. (op.cit. p. 55)

Lenin foi responsável pelo Terror?

Sem dúvida, afirma Johnson. Todas as provas que possuímos (mostram isso). “Na verdade foi Lenin quem, pessoalmente, infundiu o espírito de terror na Tcheka e também foi ele quem, de janeiro de 1918 em diante, constantemente forçou a Tcheka a ignorar as dúvidas e os sentimentos humanitários de outros bolcheviques(...). Quando mudou para Moscou ela tornou-se um “departamento independente”, reportando-se diretamente a Lenin. (...) Em janeiro de 1918, três meses antes de a guerra civil ter começado, defendia a ideia de “atirar para matar in loco um entre cada dez julgados culpados de vadiagem”.  (...) em agosto de 1918, Lenin telegrafou ao Soviete de Nizhni-Novogorod: “Vocês devem empregar todos os esforços, formar uma troika de ditadores... introduzir imediatamente um terror de massa, fuzilar e deportar os ex-oficiais, centenas de prostitutas quem fazem dos soldados uns bêbados, etc. Não se deve perder um minuto”. No mês seguinte o jornal do exército proclamou: “Sem piedade, sem hesitação, erradicaremos nossos inimigos às centenas, que sejam aos milhares, que se afoguem em seu próprio sangue... que haja enchentes de sangue dos burgueses”. As incitações de Lenin tiveram resultados. (...) por volta de 1920 a Tcheka tinha aplicado cinquenta mil sentenças de morte”.

Contudo, mais do que as mortes,o mais importante e característico do terror de Lenin, (...)  foi o princípio usado para selecioná-las. (...)  Lenin tinha abandonado a ideia de culpa individual” (para que alguém fosse condenado”. Johnson afirma que começaram a elencar categorias de pessoas que deveriam ser eliminadas: “prostitutas”, “vagabundos”, “caixeiros-viajantes”, “especuladores” (...)  Os decretos de Lenin, continua o historiador, em pouco tempo, se estenderam a classes inteiras. Um oficial da Tcheka, o segundo em importância, era o feroz letão M.Y. Latsis. “Ele é o que mais se aproximou da verdadeira definição de Lenin:”

Martin Latsis
“A Comissão Extraordinária não é uma comissão de investigação, nem um tribunal. É um órgão atuando na frente de batalha de uma guerra civil. Não julga o inimigo: abate-o. Nós não estamos lutando contra indivíduos. Estamos exterminando a burguesia como uma classe. Nós não estamos procurando evidências ou testemunhas que revelem feitos ou palavras contra o poder soviético. A nossa primeira pergunta é: a que classe o indivíduo pertence, quais suas origens, criação, educação, profissão? Estas perguntas definem o destino do acusado. Esta é a essência do Terror Vermelho”. (op. cit. p. 55-56)




Como se vê Pol Pot teve seus mestres. A revolução se repete. Sempre.
Mas, enquanto não está no poder, o militante revolucionário se diz democrata, humanitário...
E não enrubesce ao entoar loas à Revolução Russa e aos criminosos que a implantaram.

Bibliografia:

Piettre, André. Marxismo, RJ, Zahar editores, 1969.
Pipes, Richard. História Concisa da Revolução Russa, Trad de T. Reis. RJ, BestBolso, 2008
Johnson, Paul. Tempos Modernos. O mundo dos anos 20 aos 80. Tradução Gilda de Brito Mac-Dowell e Sergio Maranhão da Mata. RJ. Instituto Liberal, 1990.




terça-feira, 28 de janeiro de 2020

LENIN NO PODER


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A proposta e apologia do Terror




Parte II do livro de Richard Pipes sobre a Revolução Russa.

No capítulo 10 o historiador trata do Terror Vermelho. Diz ele: 

(...) “Os objetivos e métodos bolcheviques implicavam em terror, que – ao contrário do protótipo jacobino, com um ano de duração – estendeu-se por toda a sua existência. Terror não significava somente execuções sumárias, mas uma permanente atmosfera de ilegalidade, na qual a minoria governante detinha todos os direitos, ao passo que a maioria governada, nenhum: ao cidadão comum restava a impotência”. Assim, nas palavras de Isaac Steinberg, membro do comissariado da justiça, “um manto pesado, sufocante, foi jogado sobre a população do país” (...)

A justificativa dos apologistas de Lenin

Seguidores e apologistas de Leni costumam justificar o recurso ao terror como uma lamentável necessidade. Assim escreveu Angélica Balabanoff, apoiadora crítica do regime e primeira secretária da internacional comunista:

            “Embora lamentável, o terror e a repressão instalados pelos bolcheviques foram impostos pela intervenção estrangeira e por reacionários russos, determinados a defender seus privilégios e a restabelecer a velha ordem”.

Na verdade...

“Tal apologia suscita mais perguntas do que respostas. Os bolcheviques fundaram a Tcheka, principal agência do  terror, em dezembro de 1917, antes de qualquer intervenção estrangeira ou oposição doméstica organizada. Uma nota manuscrita de Lenin encontrada no Arquivo Central do Partido, sem data, mas a julgar por seu conteúdo, escrita pouco antes de a Tcheka surgir, provavelmente em novembro de 1917, deixa isso claríssimo. Dirigida a N.N.Krestinski, secretário do Partido Comunista Bolchevique, diz”:

            “Sugiro que formemos imediatamente (de início, pode ser feito em segredo) uma comissão para formular medidas excepcionais (no espírito de Lárin: Lárin tem razão). Digamos você + Lárin + Vladimirski (ou Dzerjinski) + Rikov? Ou Miliutin? Preparar em segredo o terror: essencial e urgente. E decidiremos na terça formalizá-lo através do Sovnarkóm ou de outro jeito”. (1) Destaque em negrito é do Oliver, Em itálico é do livro).
Lenin não tinha escrúpulos

            “Exemplo da predileção de Lenin pelo terror é lembrado por Isaac Steinberg. No Sovnarkóm, quando foi apresentado o decreto intitulado “A pátria socialista em perigo”, cominando vários delitos mal definidos – “agitação contra-revolucionária”, entre outros – com penas de execução sumária, o SR de esquerda se opôs:

            “Objetei que essa cruel ameaça matava todo o espírito do manifesto. Lenin retrucou com escárnio: “Ao contrário, o decreto encerra o verdadeiro espírito revolucionário”. Você realmente acredita que possamos vencer renunciando à crueldade do terror vermelho?”  Foi difícil argumentar contra ele a esse respeito, e logo chegamos a um impasse. O que estava em discussão era uma medida política rigorosa, que a longo prazo poderia converter-se no terror. Lenin ofendeu-se com minha oposição em nome da justiça revolucionária. Então gritei, exasperado. “Por que nos incomodamos com um Comissariado de Justiça? Vamos chama-lo de Comissariado para o Extermínio Social e pronto!” Com o rosto subitamente iluminado, ele respondeu:”Bem posto... é isso, exatamente, mas não podemos falar assim”.

 Até os totalitários, com o poder nas mãos, cuidam em esconder suas intenções. No caso não falaram; agiram. E usaram toda a crueldade julgada necessária. (V.O.).

_________________________________________________

Obs: subtítulos em negrito foram introduzidos pelo Olivereduc.

Nota: 1. Destaque em negrito é do Oliver, exceto a palavra "urgente", em itálico. Tudo leva a crer que foi ênfase dada por Lenin. 

Fonte: Pipes, Richard. História Concisa da Revolução Russa. Tradução de T. Reis – RJ, BestBolso, 2008, p.237-239.



domingo, 26 de janeiro de 2020

RETRATO DE LENIN



O eterno ou o inefável?



Já vi muita gente elogiando Lenin, incluindo vários colegas de esquerda. "Ah se ele tivesse vivido mais alguns anos", suspiram eles, dando a entender que então a Rússia não teria caído no totalitarismo e no terror. Viveu menos. O suficiente para deixar uma deputada do PSOL louvá-lo como grande homem da revolução de outubro. A mídia não caiu em cima dela por elogiar um extremista... Afinal parece que há um extremismo mau e outro bom, não é mesmo?

Devido a isso achei por bem transcrever alguns pontos do livro: História concisa da Revolução Russa, de Richard Pipes. Vai nos ajudar a conhecer melhor o companheiro de Trotski e Stalin. 


O historiador conta que Lenin, ao entrar na Universidade de Kazan, "reconhecido por outros estudantes como o irmão de Alexandre, que acabara de ser executado (...), foi atraído por uma organização política clandestina. Sua participação veio à luz numa inofensiva reunião de protesto (...) e ele foi expulso".

"Proibido de ingressar em outro estabelecimento de ensino, compreensivelmente ressentido, Lenin ficou ocioso durante quatro anos, desesperado a ponto de levar sua mãe a temer que se matasse. Enquanto ela procurava as autoridades universitárias, solicitando que o readmitissem, o jovem familiarizou-se com a literatura radical, transformando-se num revolucionário fanático, determinado a destruir o Estado e a sociedade que o haviam tratado de um modo tão vil. Em contato frequente com ele, ao longo da última década do século XIX, Struve (1) recorda que

"seu estado de espírito predominante era o ódio. Lenin entregou-se à doutrina de Marx basicamente porque encontrava nela resposta para tudo aquilo que ocupava a sua mente. A incansável guerra de classes, objetivando a destruição e o extermínio completo do inimigo, tinha tudo a ver com a atitude emocional de Lenin diante da realidade.Ele odiava não somente a autocracia existente (o czar) e a aristocracia, não apenas a autoridade policial, ilegal e arbitrária, mas seus antípodas - "os liberais" e a "burguesia". Seu rancor tinha algo de repulsivo e terrível; enraizado em emoções e repugnâncias concretas, animais, era abstrato e frio, ao mesmo tempo, como Lenin inteiro"

(...)

"Aos 22 anos, sua têmpera estava forjada. Figura baixa e atarracada, prematuramente calvo, seus olhos de esguelha e maçãs do rosto salientes, aliados à maneira brusca de falar, em geral acompanhada de um riso sarcástico, causavam má impressão. (...) Seu fogo interno ... era a primeira impressão que causava nas pessoas. Ele conhecia apenas duas categorias de homens - amigo e inimigo - os que o seguiam e o resto. Em 1904, muito antes de se juntar a Lenin, Trotsky comparou-o a Robespierre, que só conhecia "dois partidos - o dos bons e o dos maus cidadãos" (...) o dualismo irreconciliável de "amigo-inimigo" acarretou duas importantes consequências históricas:

"Em primeiro lugar, levou Lenin a considerar a política como conflito permanente. Num raro momento de franqueza, ao definir a paz como "pausa para a guerra", inadvertidamente, ele nos permitiu um vislumbre dos mais profundos recessos de sua mente - sua incapacidade total de transigir, a não ser por alguma razão tática. No poder, sua atitude e de seus companheiros impregnaram todo o regime".

Em segundo lugar, provocou uma total inabilidade, ou intolerância diante de pontos de vista contrários. Enxergando em qualquer grupo ou indivíduo que não fosse membro de seu partido ipso facto uma ameaça, tornava-se imperiosa sua eliminação." 

Eis um breve retrato de Lenin, "o eterno"... A seguir veremos como ele agiu no poder.

Até mais


domingo, 4 de novembro de 2018

A IGREJA E OS SOCIALISMOS II. 1937-1991 O erro essencial do socialismo











Valter de Oliveira

Começo relembrando o que Pio XI disse na Quadragesimo Anno: O socialismo “tem uma natureza essencialmente anticristã”. E completa: “pois concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade cristã”.
É fácil entender? Suponho que não. Primeiro porque são poucos os católicos que entendem o que seria uma sociedade conforme a concepção cristã ou, se quiserem, conforme o plano de Deus na história (1). Segundo porque há quem imagine que basta colocar um rótulo cristão no socialismo para que o conteúdo passe a ser católico. Brutal engano. Terceiro porque, em concreto, por exemplo na realidade brasileira, temos partidos socialistas que não esclarecem que socialismo defendem. Fala-se até em socialismo cristão. Na última eleição para o governo de São Paulo, por exemplo, muita gente se perguntou se não seria melhor  votar no França e não no Doria. Obviamente, isso não é uma questão moral para a maior parte dos eleitores mas pode ser problema para quem procura levar a sério a Doutrina Social Católica.
Dito isso voltemos à análise do socialismo.
Papa João Paulo II
João Paulo II, na Centesimus Annus, elogia Leão XIII por sua “extraordinária lucidez na apreensão, em toda sua crueza, da verdadeira condição dos  proletários, homens, mulheres e crianças; por outro lado a não menor clareza com que intuiu o  o mal de uma solução que, sob a aparência de uma inversão de pobres e ricos, redundava de fato em detrimento daqueles mesmos que se propunha ajudar. O remédio revelar-se-ia pior que a doença. (...) CA 12
Leão XIII tinha antevisto o que seria o mal do socialismo “como sistema de Estado: aquele que tomaria o nome de “socialismo real”. A história provou que ele acertara.
Relacionando o que Leão XIII dissera na RN com encíclicas que escrevera anteriormente João Paulo II (Laborens Exercens e Sollicitudo Rei Socialis) aprofunda a questão do erro socialista:
“(...) é preciso acrescentar que o erro fundamental do socialismo é de carácter antropológico. De facto, ele considera cada homem simplesmente como um elemento e uma molécula do organismo social, de tal modo que o bem do indivíduo aparece totalmente subordinado ao funcionamento do mecanismo econômico-social, enquanto, por outro lado, defende que esse mesmo bem se pode realizar prescindindo da livre opção, da sua única e exclusiva decisão responsável em face do bem ou do mal. O homem é reduzido a uma série de relações sociais, e desaparece o conceito de pessoa como sujeito autônomo de decisão moral, que constrói, através dessa decisão, o ordenamento social. Desta errada concepção da pessoa, deriva a distorção do direito, que define o âmbito do exercício da liberdade, bem como a oposição à propriedade privada. O homem, de fato, privado de algo que possa «dizer seu» e da possibilidade de ganhar com que viver por sua iniciativa, acaba por depender da máquina social e daqueles que a controlam, o que lhe torna muito mais difícil reconhecer a sua dignidade de pessoa e impede o caminho para a constituição de uma autêntica comunidade humana.

Pelo contrário, da concepção cristã da pessoa segue-se necessariamente uma justa visão da sociedade. Segundo a Rerum novarum e toda a doutrina social da Igreja, a sociabilidade do homem não se esgota no Estado, mas realiza-se em diversos aglomerados intermédios, desde a família até aos grupos econômicos, sociais, políticos e culturais, os quais, provenientes da própria natureza humana, estão dotados — subordinando-se sempre ao bem comum — da sua própria autonomia. É o que designei de «subjetividade» da sociedade, que foi anulada pelo «socialismo real» 

Se se questiona ulteriormente onde nasce aquela errada concepção da natureza da pessoa e da subjetividade da sociedade, é necessário responder que a sua causa primeira é o ateísmo. É na resposta ao apelo de Deus, contido no ser das coisas, que o homem toma consciência da sua dignidade transcendente. Cada homem deve dar esta resposta, na qual se encontra o clímax da sua humanidade, e nenhum mecanismo social ou sujeito coletivo o pode substituir. A negação de Deus priva a pessoa do seu fundamento e consequentemente induz a reorganizar a ordem social, prescindido da dignidade e responsabilidade da pessoa.

O referido ateísmo está, aliás, estritamente conexo com o racionalismo iluminista, que concebe a realidade humana e social do homem, de maneira mecanicista. Nega-se deste modo a intuição última sobre a verdadeira grandeza do homem, a sua transcendência relativamente ao mundo das coisas, a contradição que percebe no seu coração entre o desejo de uma plenitude de bem e a própria incapacidade de o conseguir e, sobretudo, a necessidade da salvação que daí deriva (Centesimus Annus, 13)

Aqui está a doutrina. Convém entender melhor seus pontos principais. Depois, cabe a nós vermos na prática, nos programas dos partidos políticos, nas políticas públicas, na pedagogia educacional, se o que é proposto é ou não conforme a doutrina católica. Querem tentar tomando como exemplo o que defende o PT? É um bom exercício.

Notas:
1.    Conforme a teologia Deus teve um plano ao criar a humanidade. Cada um de nós é único e chamado para ser fiel ao que se pede de nós. É também nosso dever construir uma sociedade humana o quanto possível perfeita.

A IGREJA E OS SOCIALISMOS 1891-1937














Valter de Oliveira

Em 1891 o Papa Leão XIII lançou a famosa encíclica Rerum Novarum na qual a Igreja tomava posição diante de um processo histórico que atingia então, um ponto nevrálgico. No campo político, diz João Paulo II, surgira “uma nova concepção da sociedade e do Estado e, consequentemente, da autoridade”. No campo econômico, e com a Revolução Industrial, o capitalismo nascente havia provocado a famosa “Questão Social” com o conflito entre o capital e o trabalho (Centesimus Annus ) com as consequentes injustiças em relação aos operários. Naturalmente surgiram reações e propostas para solucionar o problema. De um lado os movimentos socialistas, de outro os católicos sociais (1).  

Papa Leão XIII
Leão XIII tem palavras duras contra o liberalismo econômico e político, seja porque os operários tinham perdido o direito de se organizar para se defender, seja porque o Estado os tinha abandonado à própria sorte. Ora, diante desse fato, perguntou-se: o socialismo seria uma opção justa e legítima diante do chamado “capitalismo selvagem”? Não, disse Leão XIII. “Os socialistas, para curar este mal, (a questão operária) instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem” (RN 7) Suas ideias, acrescenta, não iriam ajudar os pobres. (...) “Semelhante teoria, longe de por termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Outrossim, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa da ordem social” (RN 8).

O socialismo aqui condenado é aquele que defendia a abolição da  propriedade privada dos meios de produção, em que os bens passariam a ser comuns, em que o Estado viria a ser o grande administrador da economia. Na época era apenas uma doutrina, um movimento, cujo ideal só foi colocado em prática, pela primeira vez, com a sangrenta revolução bolchevista russa de 1917.  A partir daí a Igreja não vai enfrentar apenas doutrinas nefastas. Vai ter que se defrontar com a concretização delas, com governos brutais, totalitários. Inicialmente o comunista, depois o totalitarismo nazifascista. A todos condenou em suas encíclicas (2). Por todos foi perseguida. Milhares de católicos fiéis foram despojados de seus direitos e até martirizados.

Contudo, já no final do século XIX surgiram novos socialismos chamados pós marxistas. Nasceu o socialismo revisionista. Foram negados pontos importantes da doutrina do velho Marx. O objetivo passou a ser melhorar o sistema vigente e não preparar uma revolução. Criticou a teoria e a prática canalizando o ímpeto revolucionário para uma política realista (realpolitik)  (3).

Lembremos também que na evolução dos socialismos tivemos o surgimento da social democracia que nasce do marxismo mas vai colaborar para o surgimento dos Estados de bem estar social. Em partidos com tal bandeira não se fala mais do socialismo defendido por Marx. Mesmo assim, diz o historiador Paul Hugon, a ideia da propriedade coletiva ainda encontra partidários, mas é mais uma esperança do que a crença que um dia será alcançada (4).

O resultado é que novos socialismos surgiram. Alguns até considerados bem humanistas e até religiosos (5).

Com todas essas mudanças era natural que se perguntasse se já aparecera um socialismo bom, um socialismo que pudesse ser apoiado pelos católicos. Eis o que diz Pio XI na “Quadragésimo Anno”:

Papa Pio XI
"E se o socialismo estiver tão moderado no tocante a luta de classes e a propriedade particular, que já não mereça nisto a mínima censura? Terá renunciado por isso a sua natureza essencialmente anticristã? (...) Para lhes respondermos, como pede a Nossa paterna solicitude, declaramos: o socialismo, quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como "ação", se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça nos pontos sobreditos, não pode conciliar-se com a doutrina católica, pois concebe a sociedade de modo completamente avesso a verdade cristã. (...) " (QA 117 e 120)
"Socialismo religioso, socialismo cristão, são termos contraditórios: ninguém pode ao mesmo tempo ser bom católico e socialista verdadeiro" (QA 119) (Destaque nosso).
Isso foi dito há 87 anos. De lá para cá o socialismo foi adquirindo novas nuances. Será que já não houve uma mudança substancial que nos autorize a apoiá-lo ou sua natureza, como disse o Papa, continua “essencialmente anticristã”? Quem nos responde é João Paulo II na encíclica Centesimus Annus. É o que veremos na segunda parte do artigo.

Notas e bibliografia
1.    Dá-se o nome de católicos sociais aos intelectuais católicos do século XIX – do clero e do laicato – que procuraram uma alternativa para a questão social tendo como base os princípios católicos sobre a sociedade. .
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2.    São todas encíclicas do Papa Pio XI
MIT BRENNENDER SORGE, de 14 de março de 1937. Condena o nazismo.
DIVINI REDEMPTORIS, de 19 de março de 1937, que condena o comunismo marxista.
NOS ES MUY,  de 28 de março de 1937, endereçada aos bispos mexicanos
NON ABIAMO BISOGNO, de 29 de junho de 1931. Sobre o fascismo e a Ação Católica.
3.    HUGON, Paul. História das Doutrinas Econômicas,14 ed. São Paulo, Atlas, p. 247.

4.    Exemplos de socialismo: Socialismo Fabiano, socialismo cultural, socialismo educacional, socialismo religioso, socialismo personalista, socialismo democrata. Os chineses dizem que adotam agora um socialismo de mercado.  


Enciclicas citadas

Rerum Novarum (RN). Leão XIII – 1891

Quadragesimo Anno (QA). Sobre a Restauração e Aperfeiçoamento da Ordem Social. 40º aniversário da Rerum Novarum. Pio XI – 1931

Centesimus Annus (CA). No Centenário da Rerum Novarum - 1991

5.   Quadragesimo Anno (QA). Pio XI - 1931


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Coisas da Eleição














Valter de Oliveira

1.    Guilherme Boulos e o fim dos privilégios

O candidato pessolinha diz que eliminará rapidamente os privilégios abusivos do Judiciário. Como? Simples: só com uma canetada! Podia ter dito que seria com uma varinha mágica... Deve estar vendo muito Harry Potter... Alguém precisa explicar para o rapaz que ele não é nem Ivan, o Terrível e nem Catarina, a Grande!  Talvez esteja sonhando em ser um Robespierre tupiniquim: uma só ordem e pronto: cabeças rolam...
Menos, sr. Boulos, menos. Ou o sr. não sabe que o Judiciário é um poder autônomo?  Lembre-se que mexer nos privilégios do Judiciário ou de quem quer que seja depende de aprovação do Legislativo.

2.    Os candidatos que reencarnam reis absolutistas.

Na mesma linha vemos candidatos à presidência deseducando a população, já tão carente de formação política. Todos dizem: -“Eu faço! Faremos tantos hospitais, tantas creches, tantas ferrovias, tantas”... E ainda, “criarei um novo pacto federativo... teremos salários iguais para homens e mulheres ...;estabelecerei” ...

Por favor, pelo menos dá para dizer ao povo que precisarão apoio de deputados e senadores?  Dá pra dizer que eles é que fazem as leis? Que  votam o orçamento? Fiscalizam o Executivo? Que podem aceitar ou não medidas provisórias? Que é o Senado quem concorda – ou não – com o a indicação do nome de alguém para ocupar o cargo de ministro do STF?

3.    O vice nazista de Bolsonaro!

Suponha uma notícia bomba: -“Confirmado que general Mourão, vice de Bolsonaro, é oficialmente membro do partido nazista!”.

Pode? Não, não pode. Pelo menos no Brasil, graças a Deus. Nos EUA poderia.  Lá a completa liberdade de opinião e sua manifestação são amparadas pela constituição. Até para nazistas!

Mas se o vice for nazista só por convicção?  Seria possível  tê-lo em uma chapa?

Possível sim. Desejável não. Deveria ser abominado. 

E se for do outro lado? Um vice da extrema esquerda?

Aí começa o mistério. A mídia e os intelectuais de esquerda, que são bem informados, não se escandalizam. Olham até com simpatia partidos marxistas tais como o o PCB, o PSTU, o PCO e um dos piores, o PCdoB que se aliou ao PT com Manuela d'Ávila, candidata a vice de Haddad na campanha presidencial.

E quem é o PCdoB? É o partido brasileiro que defendeu os maiores genocidas do século XX: Stalin e Mao Tsé Tung. Os dois mataram muito mais gente que Hitler. Exterminaram milhões e milhões de pessoas de seu próprio povo. Também eliminaram sem piedade membros do próprio partido, incluindo velhos camaradas de revolução.

Pergunto: por que temos aversão por um candidato nazista e não nos envergonhamos de ver a aliança de vários partidos brasileiros (até de “centro” ) com os maiores genocidas  e torturadores de toda a história?

O que responderiam os nossos partidos de esquerda?

O que diz o PT que colocou Manuela como vice?

O que dizem seus militantes?

Você talvez conheça militantes e até dirigentes desses partidos. Ou intelectuais que os apoiam. Quer perguntar?